Da transposição do livro ao filme: possíveis alterações ocorridas em vidas secas

Possíveis alterações ocorridas em vidas secas
Possíveis alterações ocorridas em vidas secas

Educação e Pedagogia

03/09/2012

 RESUMO

O artigo tem como escopo discutir as possíveis modificações da transposição do livro ao filme, efetuar uma contextualização dos mesmos, expondo as principais semelhanças e as essenciais alterações. Entretanto, o tema foi escolhido primeiramente porque o autor Graciliano Ramos é muito importante dentro do contexto acadêmico, depois porque a obra escrita e cinematográfica destaca bem a situação financeira no sertão, a condição de vida, e também retrata a exploração trabalhista, outro fato pertinente narrado é o abuso por parte das autoridades, além disso, faz-se necessário entendermos como ocorre a transposição de um livro e quais são as suas prováveis mudanças. Palavras-chave: Vidas Secas, Graciliano Ramos, Nelson Pereira dos Santos.


INTRODUÇÃO

A adaptação literária pode ser debatida por várias magnitudes. Um dos problemas ocasionados é a maneira como o cineasta aborda e transpõe um livro. Para Xavier, é aceitável a contraversão em determinados efeitos, a indicação de possíveis interpretações de algumas passagens, e também a modificação e alteração da ordem dos valores nas obras literárias. Isso é admissível porque o autor acredita que a fidelidade ao texto original já não é mais o foco, pois, o importante é a apreciação do filme como novo experimento.


Contudo, um filme narrativo-dramático, uma peça de teatro, um conto e um romance apresentam em comum uma estrutura, uma organização de fatos e as ações das personagens. No entanto, uma única história pode ser descrita de várias maneiras, para que possa deduzir a fábula, refazer a vida das personagens, serve-se da trama. Para efetuarmos a análise do livro e do filme abordaremos os seguintes aspectos: Observar se há contraversão em determinados efeitos. Se existe indicação de possíveis interpretações de algumas passagens. E também, se ocorre modificações e alterações da ordem de valores e capítulos.


CONTEXTO HISTÓRICO

Os primórdios do século XX foram assinalados por duas grandes guerras mundiais, e também por alterações na vida política e econômica da sociedade. Em função dos múltiplos acontecimentos houve a necessidade da busca de novos valores artísticos e culturais. Contudo, abrolharam movimentos artísticos denominados vanguarda, no período que compreende as duas grandes guerras, onde estes transformaram a trajetória da literatura e de outras artes.


No entanto, os movimentos apresentavam em comum o exame da herança cultural adquirida. No Brasil dos anos 20, os movimentos de vanguarda discutiam procedimentos e debatiam problemas relacionados à arte e à cultura. Esta fase é denominada heroica, proporcionou o aparecimento do Modernismo brasileiro e ocorreu durante o período versado como Semana da Arte Moderna de 1922. As vanguardas europeias divulgavam textos, indicavam um novo modelo de publicação de projetos artísticos que eram denominados manifestos.

VIDA E OBRA DE GRACILIANO RAMOS

Graciliano Ramos é um autor com tendências contemporâneas, cujas obras foram escritas posteriormente à Semana de Arte Moderna, mais especificamente a partir dos anos 30. O autor passou a infância em Pernambuco, não cursou nenhuma faculdade. Foi revisor do Correio da Manhã e de A Tarde (1914), entre 1928 e 1930 foi prefeito da cidade Palmeira dos índios. Em 1925 redigiu seu primeiro livro, Caetês. Compôs inúmeras obras entre elas destacamos: Caetês (1933), São Bernardo (1934), Angústia (1936), Vidas Secas (1938), entre outras.

BIOGRAFIA DE NELSON PEREIRA DOS SANTOS

O autor foi Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (1953), Oficial da reserva R/2 Arma da Artilharia do Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva de São Paulo (1953). Como jornalista foi revisor no Diário da Noite (São Paulo, 1946); repórter no jornal O Tempo (São Paulo, 1949); redator no Diário Carioca (Rio de Janeiro, 1956); redator no Jornal do Brasil (Rio de Janeiro, 1958). Nelson pereira dos Santos foi diretor, roteirista e produtor de vários filmes, entre eles, destaca-se: Rio 40 Graus (1955), Vidas Secas (1963).



RESUMO DO FILME

Vidas Secas é um filme brasileiro baseado na obra literária de Graciliano Ramos, foi dirigido por Nelson Pereira dos Santos e lançado no Brasil em 1963. O filme narra a história de Fabiano, sinhá Vitória, seus dois filhos e da cachorra baleia, onde estes percorriam o sertão em busca de uma vida melhor. A cena inicial mostra a família caminhando juntamente com a baleia e o papagaio. O cenário é um local seco e desprovido de vida. No entanto, durante trajeto quase não havia discurso entre os personagens. Fabiano continuou a caminhada encontrou uma casinha em meio ao sertão e acomodou-se juntamente com sua família. Posteriormente chegaram os responsáveis pelo local solicitaram a desocupação do mesmo, mas Fabiano solicitou emprego como vaqueiro. O personagem foi receber seus honorários, porém seu chefe pagara menos que deveria. O personagem foi vender porcos na cidade, mas a prefeitura requereu impostos impedindo-o de concluir o propósito. Sinhá Vitória só pensava em luxo, em sapatos e principalmente em uma cama de couro.



Reclamava da vida, afirmava que não vivia como gente. A família de Fabiano foi a uma festa na igreja, Fabiano foi convidado para jogar 31 (baralho) com um grupo de pessoas e um guarda, porém ao se ausentar foi importunado e preso, apanhou muito, após esse fato foi liberado por solicitação de um chefe. Fabiano retornou à fazenda, posteriormente o ambiente já não estava tão propício à sobrevivência, foram embora, tornando-se novamente viajantes.

RESUMO DO LIVRO

O autor Graciliano Ramos divide a obra literária Vidas Secas em 13 capítulos, onde estes revelam os pontos marcantes do livro, e os fatos fundamentais que ocorrem com cada personagem. Graciliano Ramos inicia Vidas Secas com o capítulo "Mudança", há a descrição do espaço, este que é carente de plantas verdes, dos personagens e o modo como peregrinavam. Posteriormente, verificamos como o personagem Fabiano tratava os filhos afetivamente, queria abandoná-los, mas teve pena, assim relatou o narrador. A família continuou caminhando, avistaram um local com aparências de abandono.



Acomodaram-se por lá. O segundo capítulo recebe o título Fabiano, o personagem saiu à procura da novilha raposa, mas não estava exultante como o resultado obtido. A família de Fabiano adaptara-se na fazenda, porém, o fazendeiro chegou e solicitou a retirada dos mesmos, Fabiano fez-se de desentendido oferecendo os seus serviços como vaqueiro, o dono da fazenda aceitou a proposta.


O 3º capítulo é nomeado "Cadeia". Fabiano tinha ido à feira comprar mantimentos. Postumamente, foi convidado para jogar 31 com um guarda amarelo, sem explicar-se saiu do jogo ofendendo o guarda, este iniciou provocações sem motivo, prendeu Fabiano e o espancou com um facão. Sinhá Vitória permanecia inquieta em casa com os filhos sem notícias do marido.



4º capítulo "Sinhá Vitória", a personagem reclamava o tempo todo que queria uma cama de lastro de couro assim como a do seu Tomás, afirmava que viviam como bichos dormindo em um local de varas. Falava mal o esposo mentalmente em função do seu desejo.


5º capítulo "O menino mais novo", o menino mais novo tentara realizar um fato inusitado perante o irmão mais velho e a cachorra baleia. O menino ficava observando o pai montado na porteira do curral, o admirava muito.



6º capítulo "O menino mais velho", o intuito do menino mais velho era descobri o significado de inferno, ouviu o termo da boca de sinhá Terta. Questionou o pai e mãe, no entanto, recebeu um significado um pouco vago, não acreditava que um nome tão bonito denominava alguma coisa tão ruim.

7º capítulo "Inverno", a família estava reunida em volta do fogo, estava muito frio, o vento balançava os ramos das catingueiras. Quase não havia diálogo, existiam apenas algumas frases soltas. Fabiano estava de bom humor, como o frio era grande.



8º "Festa", Fabiano, sinhá Vitória e os meninos dirigiram-se para a festa de Natal que ocorria na cidade. Caminhavam até a cidade, quando no meio do caminho tiraram os sapatos. A família chegou à igreja, entretanto, baleia passeava pela calçada, observando a rua. Em outro momento, Fabiano sentia-se incomodado com apertos da multidão, entrava na igreja apenas uma vez por ano. Convidou sua esposa e os filhos para irem aos cavalinhos, como forma de distraí-los. O personagem estava determinado a cometer uma besteira, se vingar do guarda amarelo.


9º "Baleia", a cachorra Baleia estava doente, sempre de mal a pior. Fabiano resolveu mata-la. Sinhá Vitória resolveu fechar-se com os meninos para que não pudessem ver o episódio.



10º "Contas", Fabiano solicitou a ajuda de sinhá Vitória para efetuar contas, mas o patrão o enganou, pagando um valor bem abaixo, não aceitando questionamentos do vaqueiro.


11º "O Soldado Amarelo", Fabiano entrou num atalho seguindo os rastos da égua ruça e da cria, voltou-se e viu o soldado amarelo frente a frente, este que um ano antes o havia prendido. O soldado tremia, Fabiano sentia muita raiva, no entanto, ao cessar disse que governo era governo, curvou-se e ensinou o caminho ao soldado amarelo.



12º "O Mundo Coberto de Penas", neste capítulo Fabiano e sinhá Vitória pressentiam a "desgraça" que estava por vir, queriam abandonar o local, acreditavam que era amaldiçoado. O último capítulo é intitulado como "Fuga", a vivência na fazenda tornara-se dificultosa, a família juntou os pertences para viajarem novamente, mas tinha dúvidas se deveriam repetir o fato novamente. O que os alimentava durante o percurso era o sonho de encontrarem um local adequado, cheio de gente, onde houvesse civilização.

CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME E O LIVRO

O cinema moderno brasileiro representava movimentos de jovens críticos e intelectuais, dialogava com a tradição literária, expressava questões sociais e políticas. No entanto, Ismail Xavier afirma que na nova fase de reflexão sobre o Brasil, é preciso não abandonar aquela apreciação original de elementos do cinema moderno ocorrida em Vidas Secas, com sua ação rarefeita e sua escassez de som (2001, p.56). Observamos a seguinte passagem do livro: "E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande" (p. 10), "Ordinariamente a família falava pouco" (p. 11).



Podemos perceber que durante o filme todo houve carência de sons, de linguagem, nesse aspecto, Nelson Pereira manteve-se autêntico em relação à transcrição do livro. O filme Vidas secas é uma transposição do livro, porém em época diferente e como um novo olhar. O livro narra detalhes para que possamos entender realmente o que está ocorrendo naquele momento, enquanto o filme é uma representação do que está escrito. O filme destaca bem a situação financeira no sertão, a condição de vida, e também retrata a exploração trabalhista, outro fato pertinente narrado é o abuso de autoridade por parte do soldado amarelo.



Contudo, Graciliano escreveu o livro de uma maneira aleatória, os capítulos não possuem conexão entre si, cada capítulo acontece de acordo com algum fato ocorrido com o personagem. Já, Nelson Pereira tentou organizar os capítulos, suprimiu algumas partes, por exemplo, Fabiano foi preso, no livro acontece no capítulo intitulado "Cadeia", e no filme durante uma festa ocorrida na Igreja. O cineasta Nelson suprime o capítulo "Cadeia", "Festa" e "Inverno", compila-os e transforma em um só. Pois como verificamos no resumo do livro, Fabiano foi preso ao ir à feira, no filme o personagem foi encarcerado ao ir à festa da igreja, esta que no livro refere-se ao Natal, no filme não ocorre o mesmo.


Outro fato importante a ser mencionado é a forma como Nelson Pereira descreve o personagem Fabiano, no livro ele não tem instrução cultural, mas em alguns momentos retruca. Na cena em que Fabiano foi preso, questionava-se mentalmente, não sabia o motivo daquilo estar acontecendo, porém não falou nada, simplesmente murmurou. No livro, durante a festa, Fabiano agia com raiva, o personagem estava determinado a cometer uma besteira, se vingar do guarda amarelo. Nelson Pereira o descreve de uma maneira pacata em relação ao personagem criado por Graciliano Ramos.

CONCLUSÃO

O autor Ismail Xavier acredita que a fidelidade ao texto original já não é mais o foco, pois, o importante é a apreciação do filme como "novo experimento". Verificamos essa afirmação lendo a obra e depois assistindo ao filme. Pudemos observar ao analisar o livro e o filme diversas modificações, entre elas, a inversão da ordem dos capítulos, a supressão de algumas passagens e acréscimos de outras.


O cineasta relata a obra escrita de acordo com sua visão pessoal, neste momento, já não é mais o autor quem está dizendo e sim o que está transcrevendo. Além disso, é impossível ser fidedigno na transcrição, pois as duas obras foram escritas em épocas diferentes, com propósitos diferentes. Dessa forma, entendemos que não existe a possibilidade de efetuar comparações de maneira a explorar semelhanças, pelo contrário, temos que apreciar cada obra valorizando seus objetivos, estes que possuem caminhos divergentes, apesar de manterem a mesma essência.


BIBLIOGRAFIA

AVILA, A. O Modernismo. São Paulo: Perspectiva, 1997. BOSI, A. História concisa da literatura brasileira. 37. Ed São Paulo: Cultrix, 1994.

XAVIER, I. Literatura, cinema e televisão. Capítulo I RAMOS, G. Vidas Secas. 64ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1993.

RODRIGUES, N. P. Filme Vidas Secas. 1963 XAVIER, I. O Cinema Brasileiro Moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.


Vanessa dos Santos Ferreira

por Vanessa dos Santos Ferreira

Experiências Profissionais: revisão de textos, vendas em loja, edição de áudio e vídeo Outros Cursos: Linux, libras intermediário (cursando 3º módulo) Conhecimentos Gerais: digitação, boa comunicação. Graduação Curso: Letras Licenciatura/Inglês e Bacharelado/Literatura. Cursando 3º ano (período vespertino e noturno) Instituição: Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul Ano de término: 2013

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