A plasticidade cerebral: conceitos e generalidades

A plasticidade cerebral determina a nossa existência e desenvolvimento
A plasticidade cerebral determina a nossa existência e desenvolvimento

Psicologia

26/06/2013

RESUMO

O presente trabalho teve como objetivo discutir sobre a temática plasticidade cerebral destacando processos biológicos e comportamento humano, contextualizando com algumas anomalias genéticas e transtornos mentais. O psicólogo ao compreender fenômenos que regem a plasticidade cerebral, estimulando-a principalmente em indivíduos portadores de transtornos mentais ou síndromes, busca em processo terapêutico alternativa eficaz para minimização de sintomas antagônicos a qualidade de vida do paciente.


1- INTRODUÇÃO SOBRE CONCEITO E PROCESSOS BIOLÓGICOS ENVOLVIDOS NA PLASTICIDADE CEREBRAL

A plasticidade cerebral, definida como a capacidade do estabelecimento de novas conexões neurais ou sinapses (VILANOVA, 1998), é um tema muito estudado e difundido nas ciências biológicas e humanas por influenciar diretamente às modalidades sensoriais: sensibilidade (voltada ao efeito psicológico) e codificação sensorial (associada ao efeito biológico).

Especificamente, no processo de codificação sensorial, a transdução feita pelos neurônios é estabelecida por meio de sinapses, até que a informação traduzida em potencial de ação atinja região específica do córtex cerebral, perfazendo a retroprojeção: rota desde a captação do estímulo até sua interpretação e resposta (ATINKSON et al. 2002).

Experiências diversas resultantes de processo de aprendizagem e convívio social garantem novas conexões neurais ou sinapses e assim, maior plasticidade cerebral.

Esta profusão de conexões dá ao cérebro crescimento, elasticidade e flexibilidade excepcionais. Considera-se que o número de sinapses em uma camada do córtex visual cresce de 2.500 neurônios no nascimento para 18.000 seis meses depois, alcançando maiores intensidades por volta dos dois anos de idade, permanecendo neste patamar até 10 ou 11 anos (HUTTENLOCHER, 1996 apud PRESTES, 1998).

Dentro deste contexto fica evidente a importância do estudo das modalidades sensoriais pelos profissionais das áreas das ciências humanas, da saúde ou biológicas caracterizando a área da psicobiologia como uma abordagem oferecida para compreensão de fenômenos psicológicos.

Estabelecendo-se a integração entre a abordagem biológica e sociocultural na psicologia, três pontos fundamentais são destacados: fatores determinantes das causas próximas e finais do comportamento, influência de fatores biológicos e ambientais sobre o comportamento (debate nature-nurture) e dicotomia ciência básica/ ciência aplicada (YAMAMOTO, 2003)

Focando o âmbito de promoção e reabilitação da saúde humana em estudos psicológicos, a visão holística humana abrange não somente a formação de equipes multidisciplinares, mas uma formação centrada em conhecimentos da neurociência e fisiologia humana que exercerão influência direta no comportamento humano, contribuindo para o desenvolvimento de instrumentos e metodologias de intervenção na psicologia.


2- PLASTICIDADE CEREBRAL COMO BASE DE COMPORTAMENTO E DESENVOLVIMENTO HUMANO


A plasticidade cerebral determina características das diferenças de comportamento entre os sexos, pois, a própria experiência modifica a estrutura e funcionamento cerebral. De acordo com VILANOVA (1998) desenvolvem-se atos práxicos dos mais elementares (praxia motora) aos mais complexos (praxias ideomotoras e ideatórias), causando alterações permanentes na química e no funcionamento dos genes no interior celular, resultando em efeitos significativos no comportamento.

Existem diferenças inatas (Tabela 1) entre os cérebros masculinos e femininos, porém, não significativas principalmente quando se trata de habilidades mentais. Os dois gêneros humanos se igualam muito mais do que se afastam. Assim, há forte resistência em admitir qualquer controle genético sobre o comportamento humano (OTTA et al. 2003)

Tabela 1: Principais diferenças inatas entre os gêneros humanos.

 

 

HOMEM

 

MULHER

COMPORTAMENTO

 

Maior tendência a se expor a risco e agir violentamente

Menor tendência a se expor a risco e agir violentamente

Tendência de menor capacidade de verbalização

Tendência de maior capacidade de verbalização

ESTRUTURAS CEREBRAIS

 

núcleos intersticiais e o núcleo do stria terminalis no hipotálamo

 

Tamanho maior

Tamanho menor

OTTA et al. 2003; VIANA e FINCO (2009) -adaptado

 

A modulação cerebral pela experiência, considerada um tipo particular do fenômeno mais amplo da plasticidade cerebral, é responsável por processos mais básicos como o de adaptação e mais complexos, como o da aprendizagem (id, 1998).

O componente biológico irá sofrer uma modulação pelos estímulos externos ou pelo circunstancial, diminuindo ou aumentando o número de conexões com células subjacentes.

De acordo com Willrich et al. (2009) a interação das características físicas e estruturais do indivíduo com o ambiente que está inserido e à tarefa a ser apren¬dida são determinantes na aquisição e refinamento das diferentes habilidades motoras.
Pesquisas também mostram a influência de estimulação social de crianças que nascem com baixo peso e desavantajadas com relação à probabilidade de apresentar baixo coeficiente de Inteligência e, conseqüentemente, maior é a probabilidade de desenvolverem dificuldades de aprendizagem. Paralelamente às dificuldades no âmbito cognitivo de crianças que nascem em condições pré-termo com baixo peso, estudos mostram que podem se desenvolver adequadamente, desde que devidamente estimuladas pelo ambiente (BORDIN et al. 2001).

Da mesma forma, são também elucidadas pesquisas referentes ao tratamento clínico de crianças com desnutrição precoce através da utilização da estimulação psicossensorial e motora associada à recuperação nutricional (SANTOS-MONTEIRO et al. 2002).

Conforme constata-se nas pesquisas, a intervenção adequada estimulando o aumento da plasticidade cerebral é muito benéfica para prevenir, minimizar ou até mesmo reverter o atraso no desenvolvimento humano além de determinar traços marcantes no comportamento entre os gêneros.


3- PLASTICIDADE CEREBRAL COMO FERRAMENTA DE MELHORIA DA QUALIDADE DE VIDA EM SUJEITOS COM ANOMALIAS GENÉTICAS OU DESORDENS SISTÊMICAS


A ênfase na temática plasticidade cerebral vai além do aspecto de distinção de comportamento entre os gêneros masculino e feminino. Engloba também pesquisas e estabelece relações com diversos distúrbios psicológicos decorrentes, muitas vezes, de anomalias genéticas cujo tratamento de prevenção ou minimização do problema associa-se ao aumento da plasticidade cerebral.

A falta de conhecimentos específicos sobre a maleabilidade cerebral acabava favorecendo a não inclusão de novos procedimentos terapêuticos, pois esperava-se apenas por uma recuperação espontânea das funções danificadas. Atualmente, sabe-se, porém, que ao ocorrer uma lesão cerebral, as áreas relacionadas podem assumir em parte ou totalmente as funções daquela área lesada.

O grande avanço na identificação precoce da paralisia cerebral, por exemplo, garante, muitas vezes, possibilidade de, através da utilização de fatores de proteção neuronal, aproveitar precocemente janelas terapêuticas que possibilitam maiores resultados relacionados à plasticidade cerebral (ROTTA, 2002; VASCONCELOS, 2004).

Enfatizando a Síndrome de Down (trissomia no cromossomo 21), que abarca cerca de 300 mil pessoas no país, ampliaram-se as buscas por respostas de como promover maior desenvolvimento do potencial cognitivo dos sujeitos acometidos sem negar, no entanto, a constatação de lesões em função de alterações genéticas, mas a possibilidade de minimizá-las (SILVA e KLEINHANS, 2006).

Os mesmos autores defendem que a reabilitação do cérebro lesado pode promover reconexão de circuitos neuronais lesados. Quanto menor a área lesada, maior a tendência de uma recuperação autônoma, enquanto uma grande lesão poderá ocasionar uma perda permanente da função. Um fator importante, já demonstrado cientificamente é a maior capacidade das crianças na reabilitação cerebral, em relação aos adultos. As conexões cerebrais, apesar de intrincadas e precisas, são altamente maleáveis, porém, podem ser afetadas por fatores ambientais, como lesões ou privações sensoriais. Tal fato fortalece a importância da estimulação adequada em crianças com Síndrome de Down, permitindo, dessa maneira, a reorganização e plasticidade cerebral.

A questão da dislexia de desenvolvimento (déficits na aprendizagem da leitura e escrita em crianças), segundo Salles et al. 2004, não se restringe ao debate quanto aos aspectos mais globais (fatores extrínsecos às dislexias), como a questão de sua etiologia orgânica, apesar desses estudos atraírem a atenção em função da tecnologia usada. Na prática é fundamental compreender os tipos de alterações cognitivas e os mecanismos cognitivos das crianças: uma análise mais refinada de suas dificuldades e competências (fatores intrínsecos às dislexias), consideradas como foco dos programas de intervenção. Atualmente, o enfoque mais promissor tem sido a intervenção direta nas habilidades de leitura, associada com atividades relacionadas ao processamento fonológico da linguagem. Assim, referências bibliográficas apontam que o aumento da plasticidade cerebral, neste processo, apresenta-se como fundamental técnica terapêutica através, principalmente do estímulo a hábitos de leitura.

O autismo, visto como uma condição que afeta o desenvolvimento do sistema interativo pré-linguístico inato deve-se a um distúrbio do mecanismo inato para se relacionar com pessoas, o que afeta o desenvolvimento da linguagem. Como as funções de atenção e intersubjetividade com desenvolvimento precoce estariam prejudicadas, pressupõe que a ênfase na plasticidade cerebral é de particular importância para a intervenção precoce no referido problema, através de elementos, dentre os quais destacam-se: currículo abrangendo cinco áreas de habilidades (prestar atenção a elementos do ambiente, imitação, compreensão e uso da linguagem, jogo apropriado com brinquedos e interação social), ambiente de ensino altamente favorecedor (LAMPREIA, 2007).

A plasticidade cerebral apesar de ser evidenciada em muitos estudos de transtornos ou desordens sistêmicas ainda é um campo que necessita ser muito explorado, nesta área, considerando, principalmente, sua eficácia e importância como ferramenta de minimização de problemas sintomatológicos que caracterizem tais enfermidades.


4- CONCLUSÕES

A psicologia como ciência voltada à promoção e reabilitação da saúde deve priorizar a formação de equipes multidisciplinares no que concerne à congruência entre o tema plasticidade cerebral e comportamento humano. Entender a forma como se processa as sensações numa relação entre os efeitos biológicos e psicológicos de um estímulo é buscar abrangência holística numa intervenção planejada.

O psicólogo ao compreender fenômenos que regem a plasticidade cerebral, estimulando-a principalmente em indivíduos com transtornos mentais ou síndromes busca em processo terapêutico, alternativa eficaz para minimização de sintomas antagônicos a qualidade de vida do paciente tornando-o mais integrado em seu meio social. 5- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ATKINSON, Rita L. et al. Processos sensoriais. In:________. Introdução a Psicologia de Hilgard. 13 ed. Porto Alegre: Artmed, 2002. Cap. 4, p. 132- 172.

BORDIN, Maria Beatriz Machado; LINHARES, Maria Beatriz Martins; JORGE, Salim Moysés. Aspectos cognitivos e comportamentais na média meninice de crianças nascidas pré-termo e com muito baixo peso. Psicologia: Teoria e Pesquisa [online], v.17, n.1, p. 49-57, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-37722001000100008&script=sci_arttext&tlng=es>. Acesso em: 1 out. 2010.

LAMPREIA, Carolina. A perspectiva desenvolvimentista para a intervenção precoce no autismo. Estudos de Psicologia, Campinas, SP, v. 24, n.1, p. 105-114, jan.-mar. 2007.

OTTA, Emma et al. Inato versus adquirido: a persistência da dicotomia. Ciências Humanas, Florianópolis, SC, n.34: EDUFSC, p.283-311, out.2003.

PRESTES, Valéria Menezes Martins. Afasia e plasticidade cerebral. São Paulo, SP: CEFAC, 1998. Monografia de conclusão do curso de especialização em Linguagem. p. 60. 1998.

ROTA, Newra Tellechea. Paralisia cerebral, novas perspectivas terapêuticas. Jornal de Pediatria. Rio de Janeiro, RJ. v. 78, Supl.1, p. 48-54 , 2002.

SALLES, Jerusa Fumagalli de; PARENTE, Maria Alice de Mattos Pimenta; MACHADO, Simone da Silva. As dislexias de desenvolvimento: aspectos neuropsicológicos e cognitivos. Interações. v. 9, n. 17, p. 109-132, jan.-jun, 2004.

SANTOS-MONTEIRO, Jailma et al. Estimulação psicossocial e plasticidade cerebral em desnutridos. Rev. Bras. Saude Maternidade Infantil, Recife, v.2, n.1, p. jan.-abr. 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-38292002000100003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 1 out. 2010

SILVA, Maria de Fátima Minetto Caldeira; KLEINHANS, Andréia Cristina dos Santos. Processos cognitivos e plasticidade cerebral na Síndrome de Down. Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v.12, n.1, p.123-138, jan.-abr. 2006. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-65382006000100009&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 1 out. 2010

VASCONCELOS, Marcio M. Retardo mental. Jornal de Pediatria. Rio de Janeiro, RJ. v. 80, n. 2, Supl, p. 71-82, 2004.

VIANNA, Claudia; FINCO, Daniela. Meninas e meninos na Educação Infantil: uma questão de gênero e poder. Cadernos pagu, v. 33, p.265-283, jul.-dez. 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cpa/n33/10.pdf>. Acesso em: 1 out. 2010.

VILANOVA, LUIZ CELSO PEREIRA. Aspectos Neurológicos do Desenvolvimento do Comportamento da Criança. Neurociências, v. 6, n. 3, p. 106-110, set,-dez. 1998. Disponível em: < http://www.revistaneurociencias.com.br/edicoes/2009/RN%202009%201/226%20.pdf >. Acesso em: 1 out. 2010.

WILLRICH, Aline; AZEVEDO, Camila Cavalcanti Fatturi de; FERNANDES Juliana Oppitz. Desenvolvimento motor na infância: influência dos fatores de risco e programas de intervenção. Neurociência [online] v. 17. n.1. p. 51-56. 2009. Disponível em: < http://www.revistaneurociencias.com.br/edicoes/2009/RN%202009%201/226%20.pdf >. Acesso em: 1 out. 2010.

YAMAMOTO, Maria Emília. Psicobiologia: O que esta abordagem tem a oferecer para a compreensão dos fenômenos psicológicos. In: YAMAMOTO, Oswaldo. H.; GOUVEIA, Valdiney Veloso (orgs).Construindo a psicologia brasileira: desafios da ciência e prática psicológica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003. Cap. 9, p. 241-259.

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.


Andréa Bogatti Guimarães Tomazela

por Andréa Bogatti Guimarães Tomazela

Engenheira Agrônoma, mestrado e doutorado strictu sensu na área de Gestão e Educação Ambiental, terapeuta holística e discente do curso de psicologia. Profissional autônoma consultora de empresas, responsável pela coordenação de grupos de melhoria do ambiente laboral e prevenção de doenças e qualidade de vida.

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