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Artigos de Pedagogia


Inglês Instrumental, Inglês para Negócios e Inglês Instrumental para Negócios


31 de outubro de 2008


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(English for Specific Purposes/ESP, English for General Business Purposes and English for Specific Business Purposes)

Orlando VIAN JR. (LAEL, PUC-SP/CNPq)


 

"The falcon cannot hear the falconer".
Is the ESP ' falcon' beginning to fly so far that
it can no longer hear the call of the ESP 'falconer'?
"Things fall apart; the centre cannot hold". Is ESP
falling apart, is the ESP 'centre' unable to hold?
Is the `ceremony of innocence' for ESP at an end?
Are we faced with a `second coming' in ESP, and
if so, what does this mean for its future?1
Alan Waters, 1994.


0. Introdução

Os cursos de inglês instrumental tornam-se cada vez mais difundidos no mundo globalizado, principalmente pela sua característica primordial de atender às necessidades específicas do aprendiz, estando relacionado a sua área de atuação, além de desenvolver a linguagem apropriada ao seu contexto e de acordo com habilidades específicas, como é o caso de profissionais/aprendizes, por um lado, que necessitam de inglês para interação com o mundo dos negócios em seu sentido mais amplo, requerendo o domínio de mais de uma habilidade para o desempenho de diversas tarefas. Por outro lado, existem os profissionais/aprendizes que necessitam desenvolver apenas uma habilidade para um fim específico, como, por exemplo, apresentar dados financeiros a uma equipe estrangeira.

Essas diferentes necessidades levaram, conseqüentemente, ao desenvolvimento de novos materiais que as atendessem, culminando com uma ampliação da questão terminológica: o inglês para negócios (English for General Business Purposes/EGBP), em sentido amplo, objetivando atender necessidades gerais dos aprendizes, principalmente aquelas relacionadas ao dia-a-dia empresarial, ramificou-se em função das necessidades, fazendo surgir o que se convencionou chamar inglês instrumental para negócios (English for Specific Business Purposes/ESBP), cujo objetivo é atender necessidades e habilidades específicas.

A área de ensino de inglês para negócios, dessa forma, desenvolve-se diariamente, tanto do ponto de vista da produção de materiais, quanto do ponto de vista de ensino, pois cada vez mais pessoas procuram tais cursos, além do crescente número de pesquisas preocupadas com questões relativas à linguagem empresarial e ao ensino de inglês no contexto empresarial, mais especificamente.

O termo inglês para negócios, principalmente por questões mercadológicas, tem sido usado, atualmente, para se referir desde a cursos de natureza mais ampla que incluem um componente lexical de termos relativos a negócios, até cursos muito específicos, que instrumentalizam o aprendiz com linguagens específicas para escrever um relatório financeiro, fazer uma apresentação ou conduzir uma reunião de negócios, entre inúmeras outras.

Neste artigo pretendemos, a partir desse cenário, (1) discutir algumas das definições de inglês instrumental mais comumente utilizadas por teóricos e práticos da área, com foco nas implicações, causas e conseqüências trazidas com tais estudos, com o objetivo de (2) se definir, a partir daí, o que é inglês para negócios e seu status no ensino de inglês em empresas e, num contexto mais específico, (3) discutir o que é inglês instrumental para negócios e suas principais características em nosso contexto atualmente.

 

1. Breve histórico do ensino de inglês instrumental

O termo inglês instrumental é parte de um movimento maior na área de ensino de línguas estrangeiras denominado língua para fins específicos (Language for Specific Purposes - LSP), no qual se insere o ensino de qualquer língua estrangeira com foco nas necessidades específicas do aprendiz, objetivando o uso da língua-alvo para desempenho de tarefas comunicativas, sejam elas de produção ou compreensão oral ou escrita naquela língua.

De acordo com Swales (1985), o ano de 1962 marca o início do ensino de inglês instrumental no mundo moderno com a publicação do artigo "Some measureable characteristics of modern scientific prose" de Barber, embora este não seja o ano em que o ensino instrumental realmente começou, pois, de certa forma, e de maneira informal, o ensino instrumental sempre existiu, basta que consideremos, por exemplo, os contatos entre os impérios antigos, como o grego e o romano, por exemplo, onde, sem dúvida, a língua era utilizada para contato com os novos povos conquistados e, por certo, pelo que se tem notícia a respeito do ensino de línguas estrangeiras, não havia um ensino de línguas formal, a língua era aprendida, portanto, com o fim específico de estabelecer relações de dominado/dominante entre as partes, o que já representa, por si, um fim instrumental.

Bloor (1997) fornece subsídios para o reforço dessa hipótese, sinalizando que não foi no século 20 que se ouviu falar em ensino instrumental pela primeira vez citando, por exemplo, um manual de ensino de 1415 destinado a mercadores de lã ou produtos agrícolas, o que seria, dessa forma, um curso em inglês para negócios que incluía diálogos longe de parecerem reais, mas apresentavam uma quantidade significativa de palavras técnicas associadas à indústria de lã.

Outra publicação - também citada por Bloor (1997) - por volta de 1480, na Inglaterra, inclui em sua introdução: "Who with this book shall learn may well enterprise or take in hand merchandise from one land to another", o que indica a preocupação com as necessidades do negociante que viajava e o inglês que seria utilizado para esse fim.

Em sua história do ensino de inglês, Howatt (1984) assinala os anos 60 como o período em que o ensino instrumental começou a tomar corpo como atividade vital na área de ensino de inglês como segunda língua e/ou como língua estrangeira, culminando, inclusive, com a publicação dos primeiros livros de inglês instrumental.

Com o advento dessas tendências, inúmeros cursos instrumentais espalharam-se pelo mundo, principalmente a partir de projetos financiados por órgãos como o Conselho Britânico ou outros órgãos ligados aos governos de países de língua inglesa. No Brasil, as necessidades dos alunos do programa de mestrado em Lingüística Aplicada ao Ensino de Línguas da PUC-SP advindos de diversas partes do país, levou a então coordenadora do programa, no final dos anos 70, ao desenvolvimento de um projeto em âmbito nacional, o Projeto Ensino de Inglês Instrumental em Universidades Brasileiras, que culminou, mais tarde, na criação do Centro de Pesquisas, Recursos e Informação em Leitura (CEPRIL) a na publicação do periódico the ESPecialist (Celani et al., 1978), além da constante pesquisa dos mais diversos aspectos teóricos e práticos relacionados ao assunto, produção de materiais, apoio a professores, congressos e ensino não só de inglês, mas também de francês e português instrumentais.

 

2. Definições de inglês instrumental

Uma das questões centrais que vem à tona ao se falar em ensino de inglês instrumental é a problemática da terminologia, culminando sempre com o questionamento feito não só por professores de inglês para fins gerais não familiarizados com o termo, mas, hoje em dia, por pessoas em empresas responsáveis pela contratação de cursos para seus funcionários: afinal o que é inglês instrumental? Para discutir essa questão, tomaremos por base sete textos da área, os quais apresentam definições ou se propõem a discutir o que é inglês instrumental.

Se considerarmos os anos 60 como o início do ensino instrumental, as definições apresentadas a seguir podem ser consideradas tardias, pois surgiram vinte anos depois do início do movimento, mas elas se baseiam em definições prévias, sem mencionar também o fato de o ensino instrumental ser uma área rica em materiais, mas com pouca pesquisa até os anos 80, quando inúmeros trabalhos de pesquisa começaram a ser desenvolvidos. Estes textos, portanto, serão apresentados aqui em ordem cronológica: Robinson (1980), Kennedy & Bolitho (1984), Hutchinson & Waters (1987), Strevens (1988), Robinson (1991) e Dudley-Evans & St John (1998). No contexto brasileiro, consideraremos as questões colocadas por Holmes (1981a e b).

Em seu trabalho de 1980, no capítulo intitulado "Definitions of ESP", Robinson apresenta as principais modificações ocorridas na área, principalmente aquelas envolvendo a mudança da significação do termo, que a princípio correspondia a Inglês para Fins Especiais, o que pode dar uma idéia distorcida, do ponto de vista semântico, da palavra especial, levando-se a inferir a idéia de linguagens especiais ou restritas. Para ampliar seu escopo e referir-se a todos os recursos que a língua coloca a nossa disposição, passou-se a usar a palavra específico, focando a atenção nos propósitos do aprendiz.

Inglês instrumental é, então, definido pela autora da seguinte maneira:

"An ESP course is purposeful and is aimed at the successful performance of occupational or educational roles. It is based on a rigorous analysis of students' needs and should be `tailor-made'. (...) It is likely to be of limited duration. Students are more often adults and may be at any level of competence," (Robinson, 1981: 13)

Kennedy & Bolitho (1984), por sua vez, apresentam os principais desenvolvimentos do ensino de inglês instrumental, focando em dois pontos principais: o primeiro foi o caminho em direção ao foco no aprendiz e o segundo foi a mudança de visão de linguagem, não apenas como um conjunto de regras gramaticais, mas também como um conjunto de funções, derivando-se, a partir desse desenvolvimento, a definição de inglês instrumental apresentada pelos autores:

"ESP has its basis in an investigation of the purposes of the learner and the set of communicative needs arising from those purposes. these needs will then act as a guide to the designs of course materials. The kind of English to be taught and the topics and themes through which will be taught will be based on the interests and requirements of the learner." (Kennedy & Bolitho, 1984: 3)

A partir da analogia entre o ensino de inglês e uma árvore (cf. The tree of ELT, página 17), Hutchinson & Waters (1987) apresentam inglês instrumental como um dos ramos do ensino de inglês como língua estrangeira (English as a Foreign Language - EFL) e, assim, preferem mostrar o que NÃO é inglês instrumental, mas apontam, ao final de sua discussão a seguinte definição:

"ESP should be seen as an approach not as a product. ESP is not a particular kind of language or methodology, nor does it consist of a particular type of teaching material. Understood properly, it is an approach to language learning, which is based on learner need." (Hutchinson & Waters, 1987: 19)

Como se pode depreender a partir da citação acima, o ensino de inglês instrumental deve ser visto como uma abordagem e não como um produto, ou seja, ao definirmos, através de análise de necessidades, para que exatamente o aprendiz necessita do inglês e trabalharmos de acordo com essas necessidades, estaremos seguindo o princípio básico do inglês instrumental; os autores propõem, como base de todo o ensino instrumental, a simples pergunta: "Por que esse aprendiz precisa aprender uma língua estrangeira?" (Hutchinson & Waters, 1987: 19).

Em seu artigo "ESP after twenty years: a re-appraisal", Strevens (1988) aponta que pretende resumir a natureza, as potencialidades e as limitações do ensino instrumental 20 anos depois de seu aparecimento, afirmando que uma definição de inglês instrumental deve contemplar quatro características absolutas e duas características variáveis, quais sejam (Strevens, 1988: 1-2):

1. Absolute characteristics:

ESP consists of English language teaching which is:

- designed to meet specified needs of the learner
- related in content (i.e., in its themes and topics) to particular disciplines, occupations and activities
- centered on the language appropriate to those activities in syntax, lexis, discourse, semantics, etc., and analysis of this discourse
- in contrast with "General English".

2. Variable characteristics:

ESP may be, but is not necessarily:

- restricted as to the language skills to be learned (e.g., reading only)
- not taught according to any pre-ordinated methodology

Com a publicação, em 1991, de ESP Today: a practitioner's guide, Robinson objetiva fazer uma revisão dos principais desenvolvimentos na área de ensino de inglês instrumental durante os anos 80, dessa vez, entretanto, ao contrário do que fizera em 1980, e também pelo claro objetivo do livro (cf. What this book covers, página 5) a autora não dá uma definição de inglês instrumental, apenas aponta que:

"It is impossible to produce a universally applicable definition of ESP. Strevens suggests that `a definition of ESP that is both simple and watertight is not easy to produce' and Hutchinson and Waters prefer to say what ESP is not." (Robinson, 1991:1)

Mais próximos ao final da década de 90, Dudley-Evans & St John (1998) propõem-se a revisitar três definições: a de Hutchinson & Waters (1987), a de Strevens (1988) e a de Robinson (1991), para, com base nelas, apresentarem a sua própria definição. Os autores admitem a validade de cada uma das definições anteriores, mas também admitem, por outro lado, as suas falhas, tanto em relação à definição como nas características descritas.

Para Dudley-Evans & St John, uma definição de inglês instrumental deve refletir o fato de que a metodologia instrumental difere da metodologia utilizada no ensino de inglês para fins gerais, uma vez que, numa situação envolvendo o ensino instrumental, o professor passa a ser mais um consultor, ao passo que o aluno mantém o seu status de especialista em sua área de atuação. Podemos inferir aqui que, para esses autores, portanto, a diferença reside principalmente na interação aluno-professor, pois o professor, em função do conhecimento técnico do aluno, passará a desempenhar a função de consultor lingüístico. Caberá ao professor, assim, o papel de

"... develop a conscious awareness so that control is gained, whether over language, rhetorical structure or communication skills." (Dudley-Evans & St John, 1998: 188)

A partir dessas considerações, os autores apresentam a sua definição de inglês instrumental que, assim como a de Strevens (1988), apresenta características absolutas e variáveis (Dudley-Evans & St John, 1998: 4-5):

1. Absolute characteristics:

· ESP is designed to meet specific needs of the learner;
· ESP makes use of the underlying methodology and activities of the disciplines it serves;
· ESP is centered on the language (grammar, lexis, register), skills, discourse and genres appropriate to these acticities.

2. Variable characteristics:

· ESP may be related to or designed for specific disciplines;
· ESP may use, in specific teaching situations, a different methodology from that of general English;
· ESP is likely to be designed for adult learners, either at a tertiary level institution or in a professional work situation. It could, however, be used for learners at secondary school level;
· ESP is generally designed for intermediate or advanced students. Most ESP courses assume basic knowledge of the language system, but it can be used with beginners.

O que se observa, ao compararmos a definição dada pelos autores em relação às demais, é que Dudley-Evans & St John elegem as características propostas por Strevens como as mais abrangentes entre as três anteriores, mas assinalam que pode gerar uma possível confusão, principalmente quanto ao uso da palavra conteúdo apresentada na segunda característica absoluta proposta por Strevens. Para os autores, esse item lexical pode confirmar a falsa impressão de que o ensino de inglês instrumental seja sempre relacionado diretamente a um conteúdo disciplinar específico (Dudley-Evans & St John, 1998: 3).
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