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Inclusão da Criança Síndrome de Down

Artigo por Colunista Portal - Educação - terça-feira, 30 de setembro de 2008

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Características das interações entre alunos com Síndrome de Down e seus colegas de turma no sistema regular de ensino


Fernanda Cascaes TeixeiraI; Olga Mitsue KuboII

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina
Doutora, professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina


 

A inclusão de pessoas com necessidades especiais no sistema regular de ensino é um dos mais importantes desafios vivenciados, principalmente, por educadores. Os estudos sobre as características da interação entre alunos com e sem necessidades especiais possibilitarão realizar ações planejadas para a promoção de relacionamentos afetivos entre pessoas com e sem necessidades especiais e a compreensão de suas repercussões sociais. Foram participantes 103 colegas de turma de alunos com Síndrome de Down estudantes de uma escola regular de uma cidade do sul do País. Em um questionário com perguntas estruturadas os participantes indicaram o nome de até três colegas de turma classificados por eles nas categorias: amigo; não amigo; fará uma faculdade e não fará uma faculdade. Foi constatado que quanto maior o desenvolvimento acadêmico e o grau de participação nas atividades escolares, maior será a possibilidade do aluno com a síndrome ser considerado amigo por seus colegas. Ainda que ele participe das mesmas atividades e apresente um nível de desenvolvimento acadêmico semelhante ao apresentado pelos alunos da série que freqüenta, seus colegas apresentam uma expectativa negativa quanto à possibilidade dele fazer uma faculdade. Em nenhuma das categorias investigadas (amigo, não amigo; fará uma faculdade e não fará uma faculdade) os alunos com a síndrome são os que recebem as maiores quantidades de indicações. Isso significa que nas turmas investigadas há alunos que são mais reconhecidos por seus colegas de turma, tanto forma positiva quanto negativa, que os alunos com a síndrome.


1 INTRODUÇÃO

Qual é a natureza e a qualidade das interações entre estudantes de escolas regulares com necessidades especiais e seus colegas de turma? Estudar em uma mesma escola possibilita a ocorrência de interações de diferentes tipos entre crianças e adolescentes com e sem necessidades especiais. Porém, a simples presença física do aluno com necessidades especiais em uma sala de aula regular não garante o estabelecimento de relações de amizade entre ele e seus colegas de turma (MONTEIRO,1997; BISHOP et al. 1999). Nesse sentido, o objetivo da pesquisa é caracterizar as interações entre alunos com Síndrome de Down, inseridos no sistema regular de ensino, e seus colegas de turma.

Ao sistematizar o conhecimento sobre as decorrências da inserção de alunos com necessidades especiais em escolas regulares Brien e Brien (1999) enfatizam a melhora do desempenho acadêmico dos colegas de turma como um dos benefícios do processo de inclusão. Além disso, os autores destacam que alunos que convivem com colegas com necessidades especiais aprendem a resolver problemas de forma cooperativa e apresentam menos comportamentos segregadores ou excludentes. Professores da rede estadual de educação identificam a aquisição de valores como respeito e valorização às diferenças e solidariedade para os alunos como resultado do convívio com colegas com necessidades especiais em escolas regulares (SANTA CATARINA, 2000). A inclusão de alunos com necessidades especiais no sistema regular de ensino beneficia seus colegas de turma tanto acadêmica, quanto socialmente.

Com o objetivo de caracterizar a percepção de educadores sobre a inclusão escolar de crianças com Síndrome de Down, Martins (1999) realizou uma pesquisa em nove escolas regulares, cinco governamentais e quatro particulares, da cidade de Natal. Os resultados possibilitaram constatar que a inclusão de alunos com a síndrome foi percebida como construtiva para o desenvolvimento de professores e para os outros alunos. A convivência com colegas com Síndrome de Down proporcionou maior grau de interação na turma, a construção de vínculos afetivos e a diminuição de preconceitos e estereótipos em relação aos colegas com a síndrome. O conhecimento das conseqüências da interação entre alunos com necessidades especiais e seus colegas de turma pode influenciar a diminuição de julgamentos com base em concepções discriminatórias e preconceituosas e, dessa forma, contribuir para o estabelecimento de políticas públicas de inclusão social.

Ao encontro disso, é possível citar os resultados encontrados em estudos como o realizado por Yazlle, Amorim e Rossetti-Ferreira (2004). O autor teve como objetivo caracterizar a interação entre pessoas que participam do processo de inclusão de crianças com paralisia cerebral. Foram realizadas entrevistas com pais, professores e profissionais de saúde de quatro crianças com paralisia cerebral que freqüentavam a pré-escola. A análise dos relatos dos participantes da pesquisa indicou que as crianças mostraram-se interessadas, curiosas e disponíveis para a convivência com as colegas com paralisia cerebral, estabelecendo uma relação de ajuda e cuidado.

A presença física de alunos com necessidades especiais em escolas regulares não garante o estabelecimento de interações com os outros alunos e por isso não é indicativo de inclusão escolar como afirmam Bishop et al., (1999). Monteiro (1997), ao investigar interações entre alunos com e sem Síndrome de Down em escolas regulares e especiais demonstrou que os alunos tendem a interagir com maior freqüência com colegas que apresentam desenvolvimentos acadêmicos semelhantes aos seus. Da mesma forma, Papalia; Olds e Feldman (2000) destacam que crianças e jovens, em geral, escolhem pessoas que julgam ser semelhantes a eles para serem seus amigos. O fato de pessoas com Síndrome de Down apresentarem fisicamente características facilmente identificadas tende a ser um dificultador no estabelecimento de interações (OMOTE, 1990). Dessa maneira, é necessário planejar a organização do ambiente e das atividades escolares para promover interações cooperativas entre alunos com e sem necessidades especiais e, assim, favorecer a inclusão.

Características da organização escolar e dos serviços que ela oferece aos alunos irão interferir no estabelecimento e na qualidade das interações entre alunos com e sem necessidades especiais (BISHOP et al., 1999; CARVALHO, 2000). A presença de professores auxiliares ao lado de alunos com necessidades especiais em sala de aula, por exemplo, pode inibir a aproximação de colegas de turma. Os colegas, em geral, interpretam a presença de um professor auxiliar como um indicativo de que apenas adultos e profissionais especializados estão preparados para interagir com os colegas com necessidades especiais e por esse motivo se afastam deles (BISHOP et al., 1999). Em contrapartida, a realização de tarefas e trabalhos em grupos favorece a aproximação de alunos com e sem necessidades especiais, além de potencializar o desenvolvimento acadêmico de ambos (BISHOP et al., 1999). Dessa maneira, o atendimento ao aluno com necessidades especiais, bem como a organização do ambiente e das atividades escolares podem ser avaliadas e planejadas para oferecer aos alunos oportunidades de interação e, conseqüentemente, de estabelecimento de vínculos de amizade.

Relações de amizade além de proporcionarem às pessoas proteção, apoio e sensação de bem-estar, potencializam os seus desenvolvimentos lingüístico, social, sexual e acadêmico (BISHOP et al., 1999). Os autores declaram que relacionamentos de amizade têm uma importância singular para o desenvolvimento de pessoas com necessidades especiais, visto que as outras pessoas podem servir de modelos para a aprendizagem de regras sociais, e assim facilitar o acesso e a permanência de pessoas com necessidades especiais em diferentes contextos sociais (organizações acadêmicas, de trabalho, de lazer, entre outros). Dessa maneira, a caracterização das interações entre alunos com Síndrome de Down, inseridos nos sistema regular de ensino e seus colegas de turma constitui ponto de partida promissor para o planejamento e aperfeiçoamento de processos de inclusão escolar.

As interações entre estudantes com e sem necessidades especiais são determinantes para a concretização de processos de inclusão escolar e, por isso, há necessidade de mais investimentos em estudos sobre esses processos (MONTEIRO, 1997). A caracterização dessas interações, além de constituir importante ampliação no conhecimento científico, possibilitará avaliar as variáveis facilitadoras e dificultadoras do estabelecimento de vínculos de cooperação e amizade. Esta avaliação é fundamental para a organização de contingências no sentido de aumentar a probabilidade de obtenção de sucesso no processo de inclusão escolar de pessoas com necessidades especiais. Além disso, por meio do conhecimento das características das interações entre alunos com Síndrome de Down e seus colegas de turma será possível identificar deficiências e limitações, nos processos de inclusão em vigor, que constituem necessidades de intervenção para educadores. A produção de conhecimento sobre interações entre alunos com e sem necessidades especiais no sistema regular de ensino servirá de subsídio para o planejamento e aprimoramento de processos de inclusão escolar de crianças e adolescentes com necessidades especiais, base para a construção de uma sociedade, cujos integrantes sejam capazes de respeitar e valorizar suas diferenças.

 

2 MÉTODO

2.1 PARTICIPANTES

Participaram do estudo 103 colegas de turma de quatro alunos com a síndrome. Os participantes eram estudantes de quarta à oitava série do Ensino Fundamental de uma organização escolar privada da rede regular de ensino de uma cidade de médio porte, da região sul do país. Foram selecionados para participar da pesquisa estudantes do Ensino Fundamental, tendo em vista o grau de exigência escolar desse período e, conseqüentemente, o grau de dificuldade na inclusão de alunos com necessidades especiais, superior ao encontrado na Educação Infantil (VOIVODIC, 2004). As características dos alunos com Síndrome de Down e dos seus colegas de turma estão apresentadas nos Quadros 1 e 2 respectivamente.

 

2.2 PROCEDIMENTOS

Escolha da instituição de ensino: a partir de informações obtidas por meio de documentos da Secretaria de Educação do Estado, no qual a coleta foi feita, foi selecionada a escola que possuía a maior quantidade de alunos com Síndrome de Down da cidade. No ano de 2005, a escola possuía 2.680 alunos, 158 professores, quatro assessoras pedagógicas, uma coordenadora pedagógica, duas orientadoras de inclusão, uma psicóloga e 89 funcionários. As orientadoras de inclusão tinham a função de adaptar o currículo, as atividades e as avaliações acadêmicas ao ritmo de aprendizagem dos alunos com necessidades especiais.

Coleta de dados: os colegas de turma dos alunos com Síndrome de Down responderam um questionário nas salas de aula e períodos em que estudavam, como uma atividade escolar sob a supervisão da professora regente em julho de 2005. O questionário teve perguntas adaptadas de um teste sóciométrico de Moreno, visto que essa técnica possibilita o conhecimento das escolhas e rejeições, bem como da "posição" (popular, isolado, excluído, não-excluído) que as pessoas ocupam em um grupo (ALVES, 1974). As 23 perguntas constituintes do questionário eram estruturadas de maneira que os alunos indicassem o nome de até três colegas de turma classificados por eles em categorias tais como: amigo; não amigo; fará uma faculdade, não fará uma faculdade, entre outras relacionadas à interação entre eles na escola. Não foi determinado tempo para o término da atividade.

A aplicação dos questionários teve a duração de 50 min. em cada turma e foi realizada pela pesquisadora que explicou aos alunos que o objetivo da atividade era proporcionar uma reflexão sobre as relações estabelecidas na turma. Além disso, ela afirmou que as respostas seriam de responsabilidade dela; a identificação dos participantes não seria divulgada; a participação não era obrigatória e que aqueles que não quisessem participar poderiam dedicar-se à outra atividade durante o período. Todos os alunos presentes consentiram em participar da atividade nas três turmas. Os alunos com Síndrome de Down também participaram da atividade, mas suas respostas não foram objeto de exame posterior.

Apresenta-se uma representação das posições das carteiras ocupadas pelos alunos com Síndrome de Down em relação às posições das carteiras ocupadas pelos seus colegas de turma e professores em suas respectivas salas de aula.


2.3 ORGANIZAÇÃO, ANÁLISE E TRATAMENTO DOS DADOS

As respostas dos colegas de turma dos alunos com a Síndrome às perguntas do questionário foram analisadas a partir da quantidade de indicações feitas em relação ao aluno com a Síndrome e aos demais colegas Para tanto, todas as respostas foram registradas em uma matriz e somadas as indicações recebidas para cada aluno, em cada pergunta. Foi elaborada uma tabela para cada pergunta, indicando os percentuais das quantidades de alunos indicados em relação à quantidade de indicações recebidas. As quantidades de indicações recebidas pelos alunos com Síndrome de Down foram comparadas com as quantidades de indicações recebidas pelos colegas de suas respectivas turmas. Os resultados de cada turma foram analisados separadamente. Serão apresentados apenas dados relativos a duas questões, do conjunto de 23 feitas aos alunos, em função da elevada quantidade de dados coletados.

 

3 RESULTADOS

As indicações de alunos sobre colegas considerados amigos e não amigos nas turmas dos alunos com Síndrome de Down estão apresentadas em uma tabela e uma figura. Os alunos com a Síndrome de Down estão indicados entre parênteses de acordo com a quantidade de indicações recebidas como "amigos" e "não amigos". Os alunos A1, B2 e C1 não recebem indicações como "amigos", enquanto a aluna B1 recebe pelo menos uma indicação. A aluna A1 não recebe indicação como "não amigos", enquanto os alunos B1, B2 e C1 recebem pelo menos uma indicação.

Apresenta-se a distribuição dos percentuais das quantidades de alunos indicados como "amigos" e "não amigos" em função da quantidade de indicações feitas pelos colegas de suas respectivas turmas. Os percentuais referentes às quantidades de indicações recebidas pelos alunos com Síndrome de Down estão assinalados com setas.

A aluna A1 não é indicada pelos colegas de turma como "amigo" nem como "não amigo". Dos alunos da turma A, 11,1% não recebem indicação como "amigos", assim como a aluna A1. Na categoria "amigos" o maior percentual é o de alunos que recebem uma indicação. Na mesma turma, 38,9% dos alunos não recebem indicação como "não amigos", dentre eles a aluna A1, enquanto 61,1% dos alunos recebem pelo menos uma indicação. Na categoria "não amigos" o maior percentual é o de alunos que não recebem indicação, no qual a aluna A1 está incluída.

A aluna B1 recebe uma indicação como "amigo" e uma como "não amigo", enquanto o aluno B2 não recebe indicação como "amigo" e recebe duas indicações como "não amigo". Dos alunos da turma B, 28,6% não recebem indicação como "amigos", assim como o aluno B2. Dos 71,4 % de alunos que recebem indicações como "amigos", 16,7% recebem uma indicação, dentre eles a aluna B1. Na turma B, 42,9% dos alunos não recebem indicação como "não amigos" e 57,1% dos alunos são indicados. Dentre os alunos que recebem indicações, 14,3% recebem uma indicação, dentre eles a aluna B1; 16,7% recebem duas indicações, dentre eles o aluno B2.

O aluno C1 não recebe indicação como "amigo" e recebe três indicações como "não amigo". Dos alunos da turma C, 9,3% não recebem indicação como "amigos", dentre eles o aluno C1. Na turma C, 32,6% dos alunos não recebem indicação como "não amigos" e 67,4% dos alunos são indicados. Dentre os alunos que recebem indicações, 9,3% recebem três indicações, assim como o aluno C1.


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