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terça-feira, 29 de julho de 2008 - 15:19

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Brinquedoteca - Criação e Manutenção de Brinquedotecas

por: Colunista Portal - Educação

Reflexões Acerca do Desenvolvimento de Parcerias


Celina Maria Colino Magalhães
Fernando Augusto Ramos Pontes
Universidade Federal do Pará

 

O objetivo deste trabalho é fazer uma reflexão acerca da prática de instalar e manter brinquedotecas. O relato aqui apresentado refere-se à experiência de nossa equipe, no período de 1997 a 1999, na prestação de assessoria entre a Universidade e instituições escolares com o objetivo de criar e manter funcionando brinquedotecas. Este relato também enfatiza alguns fatores instrumentais e a continuidade destes programas.
   
Em nome da educação formal, nossa sociedade tem monopolizado, cada vez mais cedo, as crianças para atividades dirigidas; sempre vigiadas e guiadas por objetivos que visam a atingir os resultados determinados pelos adultos. Resgatar o espaço, meio e o tempo para as crianças brincarem espontaneamente é, sem dúvida, um dos nossos maiores compromissos e desafios atuais.

Entretanto, na operacionalização desse resgate deve-se considerar que os espaços livres, os quais antes as crianças usavam para brincar, estão sendo ocupados por fábricas, edifícios, postos de gasolina, carros, etc. Antes, a rua era o principal lugar de encontros sociais, tanto da população adulta, como da infantil. Na rua, a criança pobre ou rica tinha seu universo e o utilizava à vontade (Caiuby, 1989).

Ariés (1981) descreve as transformações ocorridas nesse espaço:

    "É importante colocar que a realidade das cidades passadas não era perfeita, nem para os adultos, quanto mais para as crianças. Sabemos que neste passado existiam opressões, violência e exploração de todas as formas, às quais as pessoas ficavam sujeitas. As oportunidades eram maiores para as crianças e adultos no que diz respeito ao espaço físico e ao tempo, para que as relações entre as pessoas fossem as mais naturais possíveis. Nesse tempo não havia lugar para a figura do estranho, do forasteiro. Todas as pessoas se conheciam. Aos poucos, ruas e praças deixaram de ser um lugar de encontro e de aprendizado coletivo para se tornarem simples passagens, ocupadas por desconhecidos, de cujo perigo era preciso afastar as crianças de famílias e ruas." (p. 130)

Vários fatores contribuíram para esta mudança como, por exemplo, alteração nas relações sociais, aumento da jornada de trabalho e mudança da concepção da criança (Camaione, 1980).

Deve-se considerar também que, por muito tempo, a psicologia e a pedagogia foram dominadas por uma visão "adultocêntrica" e futurista em relação ao desenvolvimento infantil. Carvalho e Beraldo (1989) afirmam que este tipo de enfoque impediu a visualização da riqueza das interações criança-criança. Essas mesmas autoras recolocam o interesse pelo estudo das interações criança-criança, inclusive partindo do pressuposto de que estas são de alta prioridade motivacional.

Em síntese, a ocupação do espaço e uma super-valorização da escolarização, para responder às exigências mercadológicas da industrialização, propiciaram a saturação do tempo da criança com deveres e afazeres, restando muito pouco para as atividades lúdico-criativas espontâneas. Entende-se que tais formas de lidar com a criança e o seu mundo, diminuem as possibilidades de a criança fazer suas descobertas à sua própria maneira, desenvolver relações e construir sua afetividade por meio do brincar. Sabe-se entretanto que o brincar até a velhice é uma das características que define e distingue a espécie humana das outras espécies sendo então, bem provável que ela tenha uma função na constituição do ser humano (Burghardt, 1998; Smith, 1982; Smith, Cowie & Blades, 1998).

Objetivando o resgate do brincar espontâneo como elemento essencial para o desenvolvimento integral da criança, de sua criatividade, aprendizagem e socialização é que surgem as brinquedotecas (ludotecas). Apesar da sua difusão, poucos estudos são encontrados na literatura relatando os aspectos essenciais para criação e manutenção de uma brinquedoteca. Na grande maioria dos casos todas as brinquedotecas criadas e mantidas, nascem da atividade espontânea de seus criadores, e pouco de sistemático existe escrito sobre tais experiências.

No decorrer de três anos de trabalho, prestando assessoria à instituições escolares, o grupo de pesquisa composto por dois professores da Universidade Federal do Pará e seus orientandos e bolsistas, acumularam experiência neste tipo de ação. Este trabalho procura fazer uma reflexão sobre aspectos referentes as experiências deste período. Não se pretende exaurir todas as questões possíveis de serem discutidas sobre este tema: discorrer-se-á somente sobre aquelas mais relevantes.

Na verdade, o contato deste grupo com a instituição brinquedoteca foi um tanto casual. Seus interesses principais sempre se situaram na pesquisa básica, com o objetivo de investigar: a) aspectos da relação criança-criança; b) utilização do espaço; e, c) brinquedos e brincadeiras preferidos. Foi na procura de um espaço apropriado para investigação destes temas que se deparou com a brinquedoteca, um espaço que se apresenta bastante adequado para atividades acadêmicas de ensino, pesquisa e extensão.

Ao iniciar-se esta linha de pesquisa, o primeiro passo foi realizar um levantamento da existência desse tipo de espaço na cidade onde nossa pesquisa seria desenvolvida ou, por assim dizer, queríamos conhecer o estado da arte. Esse levantamento forneceu um perfil, na sua grande maioria, de brinquedotecas ligadas a escolas particulares, com uma exceção, cujo funcionamento está atrelado a uma biblioteca pública.

Em Andrade e Altman (1992), encontra-se a citação de 37 brinquedotecas, distribuídas em vários estados do Brasil, com uma certa predominância no estado de São Paulo. Diversos tipos de brinquedotecas são descritas, como as ligadas às bibliotecas, centros comunitários, escolas, associações de pais, museus, etc., mas com predominância em espaços como creches e escolas. Em nosso levantamento também detectamos preferência por espaços escolares. Cabe ressaltar que as brinquedotecas por nós elencadas na cidade de Belém, não faziam parte das citadas pelas autoras.

Apreciando-se a forma de organização das brinquedotecas levantadas, verificou-se que todas funcionavam de maneira improvisada, ou seja, careciam de planejamento de atividades, cadastramento do acervo, horários regulares para atendimento; fisicamente algumas apresentavam espaço físico pequeno, com pouca iluminação, carentes de atrativos visuais, distribuição aleatória dos brinquedos e em algumas, inadequação dos tamanhos das prateleiras. Conjuntamente, a equipe responsável pelo espaço, geralmente apresentava uma carência de fundamentação teórica sobre o tema.

Foi através desses contatos que se recebeu um convite para o desenvolvimento de parcerias com objetivo de montar brinquedotecas. No decorrer de três anos várias experiências foram desenvolvidas, a reflexão a seguir é tomada com base na seleção de três experiências desenvolvidas em momentos diferentes, o que possibilitou, não obstante a especificidade de cada caso, um acúmulo de conhecimentos sobre o processo de instalação e manutenção de brinquedotecas. Os comentários, a seguir, salientam os principais aspectos vivenciados.

 
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