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30 de janeiro de 2009
Adriana Regina Marques de Souza1*; Fermino Fernandes Sisto2**
*Universidade Paulista
**Universidade São Francisco
RESUMO
Neste estudo, investigou-se as possíveis relações entre memória e contradições, comparando-se crianças de 2a. e 3a. séries do ensino fundamental com e sem dificuldade de aprendizagem em escrita. De 200 crianças 80 foram selecionadas pelo Adape (Avaliação de dificuldades na aprendizagem da escrita), sendo 40 crianças de segunda séries e 40 crianças de terceira séries. O nível de memória dos sujeitos foi obtido através da técnica II da prova de memória de configuração serial simples e para as contradições utilizou-se a prova do cheio e do vazio. Os resultados apresentaram significância entre nível de memória e desempenho na escrita, indicando que a instabilidade do nível intermediário produziu uma maior quantidade de erros. Quanto à contradição, a possibilidade de sua resolução, na terceira série, sugeriu uma diminuição significativa de erros.
Palavras-chave: Dificuldade de aprendizagem, Desenvolvimento cognitivo, Memória, Contradição.
INTRODUÇÃO
A escrita iniciou-se na comunidade primitiva, demonstrando a capacidade do homem em abstrair o desenho visual do meio ambiente e dar-lhe representação gráfica. Tornou-se o registro que preserva o patrimônio cultural de uma sociedade, além de importante meio de transmissão e comunicação através dos tempos. Esse instrumento revolucionou o processo educativo, privilegiando os que tinham acesso a ele, e na história do ser humano muito fato importante não foi armazenado, perdendo-se sua memória.
A memória é importante para nossa noção de ser e para a capacidade de conceituar e adaptar-se às transações do mundo. Para a criança, a memória faz tudo isso e muito mais. Sem ela, não pode desenvolver nem mesmo conceitos básicos de realidade que de alguma forma representam o passado, de modo que interprete o presente. Em sentido mais amplo, pensando como Flavell, Miller e Miller (1999), tudo o que a criança armazenou, seu conhecimento adquirido a respeito do mundo, é memória. E num sentido mais restrito a lembrança de listas, palavras ou letras para escrever, também é memória. Tanto a memória ampla quanto a restrita influenciam a aprendizagem e melhor condição de vida.
O fracasso escolar é, sem dúvida, um dos mais graves problemas com o qual a realidade educacionalbrasileira vem convivendo há muitos anos. Sabe-se que tal situação se evidencia praticamente em todos os níveis do ensino do país, porém, ocorre com maior freqüência nos primeiros anos da escolarização. Dentre os inúmeros fatores relacionados ao fracasso escolar estão as dificuldades de aprendizagem, sério problema na nossa realidade. Em quase todas as salas de aula das escolas públicas do ensino fundamental encontram- se crianças com sintomas de dificuldades de aprendizagem em escrita, há muitos anos atingindo um grande número de alunos e, por isso, têm sido motivo de preocupação e objeto de pesquisa.
As pesquisas sobre os fatores geradores dos problemas de aprendizagem em escrita referem-se aos de ordem biológica, psicológica, pedagógica e social, tornando complexo seu estudo minucioso. A dificuldade de aprendizagem em crianças é identificada pela não reprodução de atividades anteriormente aprendidas e solicitadas sempre que necessário. As crianças que não armazenarem ou reterem as informações recebidas não serão capazes de evocar o que a atividade determina e, em decorrência, terão alta probabilidade de serem apontadas como crianças possuidoras de dificuldade de aprendizagem. Também não poderão organizar a informação com a qual estão entrando em contato, caso ela não seja retida em seu sistema cognitivo. Nessa condição de armazenar o anteriormente percebido e organizado, pode-se dizer que a memória depende da atenção e da percepção, responsáveis pela seleção do que deverá ser utilizado posteriormente, armazenado e integrado com os conhecimentos existentes.
O estudo da escrita inclui processos de planejamento das mensagens, organização textual, revisão do texto, processo de construção sintática e recuperação de elementos léxicos, com os subprocessos de recuperação de grafemas, seja por via fonológica ou indireta, seja por via ortográfica ou direta visual. Os processos motores incluídos são essenciais para a aquisição do sistema de escrita, e estão intimamente ligados ao sistema de memória. Quando Dockrell e McShane (1995) analisaram as dificuldades de aprendizagem nesse particular, preocuparam- se com os aspectos psicopedagógicos e recorreram aos estudos dos fatores de ordem cognitiva, mostrando que a memória é fator sempre presente. Mais especificamente, problemas relacionados à memorização, consolidação, retenção, rememorização e recordação da informação são freqüentes em crianças com dificuldades de aprendizagem.
Nas últimas décadas do século XIX, de acordo com Greeg (1976) e Ehrlich (1979), foram realizados os primeiros estudos experimentais ligando a memória à aprendizagem. Os trabalhos que mais se destacaram foram os de Ebbinghaus (1885), Müller e Schuman (1894) e de Müller e Pilzecker (1900). Esses estudos analisaram a aprendizagem, utilizando listas de palavras ou sílabas sucessivas destacando a primeira sílaba de cada grupo e proporcionando aos sujeitos investigados associar as primeiras aprendizagens com as demais, o que traria uma economia de tempo para a aprendizagem.
Ebbinghaus (1885) foi o primeiro estudioso a desenvolver um método sistemático para a aprendizagem de sílabas sem sentido, com palavras semelhantes, mas sem nenhum significado particular. Seu objetivo era estudar como a memória humana funciona quando utiliza materiais não aprendidos anteriormente. Mais recentemente, Ackerman e Woltz (1994), Morro (1994) e How e Courage (1998) investigaram as diferentes habilidades e características das tarefas de aprendizagem e suas motivações. Os resultados desses trabalhos trouxeram uma discussão sobre a questão de compreensão e entendimento em diferentes aprendizagens relacionadas com a memória.
Valendo-se do pressuposto de que a memória está ligada à aprendizagem, Swanson (1993), Macinnis (1995), Montgoery (1996) e How e Courage (1998) estudaram a memória, relacionando-a à aprendizagem e às suas dificuldades. Os resultados revelaram que os sujeitos com dificuldade no processo de memória apresentavam dificuldades em aprender. Por sua vez, os estudos de Torgesen (1991), Swanson & Trahan (1992), Short (1993), Mauer (1996), Isaki (1997) assinalaram que crianças com dificuldades de aprendizagem têm dificuldade em lembrar, colocar em ordem e processar informações e estratégias de aprendizagem.
O armazenamento na memória de trabalho, de acordo com Banddeley e Hitch (1974); Banddeley (1986); Blake e cols. (1994), Dockrell e McShane (1995), Smith (1995); Cowan (1996); Magila (1997), serve para processar informações em um nível superior. Capaz de solucionar alguns problemas relativos à compreensão da linguagem, aprendizagem e raciocínio, diferencia-se da memória de curto prazo por utilizar as informações recebidas e controlar a entrada no sistema. A memória de longo prazo, de acordo com Banddeley (1986), é relativamente permanente, cabendo a ela monitorar os estímulos nos registros sensoriais e providenciar espaço para as informações que provêm da memória de curto prazo, necessárias para aprendizagem.
Por isso, Garcia (1995) alerta que devem ser considerados importantes para a construção da escrita os seguintes componentes: a) o sistema semântico ou memória de longo prazo dos significados das palavras, sejam faladas ou escritas, pois, partindo dos significados, serão ativados a memória das formas fonológicas das palavras ou léxico-fonológicos e o depósito de pronúncia, que estão na memória de curto prazo; b) o mecanismo de conversão de fonema e de grafema, que permitem a tradução, aplicando as regras fonológicas de uma língua concreta, de qualquer palavra, seja familiar ou não, ou pseudopalavra.
No caso de evocação da ortografia, Garcia (1995) acrescenta que os grafemas não estão traduzidos em movimentos, por isso é necessário que ocorra a seleção dos alógrafos, na memória de longo prazo, e que devem ser levados à memória de curto prazo ou operativa, para que se processe a seqüência, direção, tamanho e proporção das letras e traços a serem traduzidas em movimentos motores, perceptivos. Essa abordagem da aprendizagem em escrita permitiu também sedimentar as idéias apresentadas por Ajuriaguerra (1984,1988) e Furtado (1998) nas quais a tarefa da escrita não se resume apenas ao âmbito percepto-motor, mas é uma atividade complexa, que exige memorização, conservação, consolidação, retenção e evocação da informação interiormente recebida.
Segundo Flavell, Miller e Miller (1999), estudiosos da memória compartilham a visão de Piaget de que o armazenamento é construção e a recuperação é reconstrução. E tanto o armazenamento quanto a recuperação envolvem uma grande quantidade de preenchimento de lacunas, à medida que o indivíduo tenta alcançar uma representação da informação. Mais especificamente, há uma diferença substancial entre a memória tradicionalmente pesquisada e os trabalhos a esse respeito feitos por Piaget, que a coloca no contexto do desenvolvimento cognitivo, relacionado à estruturação de um sistema cognitivo de cunho operatório. Trata-se de uma memória no contexto da construção de uma estrutura operatória e uma reconstrução avaliada com base na operatoriedade do sistema de recordação.
No contexto da construção e reconstrução, os estudos de Piaget (1974) sobre a contradição demonstram que o homem entra em perturbações, desequilíbrio cognitivo, ou conflito, sendo incapaz de resolver determinadas questões até que as contradições envolvidas sejam superadas. A superação das contradições traz o equilíbrio necessário à resolução de situações ou problemas anteriormente difíceis de serem resolvidos. E quando superadas, o organismo alcança um equilíbrio majorado em sua estrutura e se o mesmo problema for proposto ao sujeito para ser resolvido em uma situação futura, não haverá mais contradição, ou não causará mais conflitos, como antes, para ser resolvido.
Fazendo um paralelo, as crianças nas escolas têm enfrentado inúmeras dificuldades de aprendizagens, que as levam a contradições, nem sempre superadas para aquisição de novas aprendizagens. Haveria alguma relação entre a memória de reconstrução e a contradição com as dificuldades de aprendizagem, quando as crianças se enfrentam com a aquisição da escrita em nossas escolas?
Na análise dos estudos que visam o desenvolvimento cognitivo é importante ressaltar que a pesquisa de Ferreiro e Teberosky (1986) sugere que não foi possível encontrar uma explicação para a relação entre conservação e progresso na alfabetização. Em outra pesquisa, Ferreiro (1987) conclui que para que a criança chegue ao estágio final do desenvolvimento da escrita ela precisa negar os aspectos fonológicos e silábicos. Isso permite sugerir que a criança não mais se fundamenta nas afirmações que lhe são evidentes, mas precisa superar essa forma de raciocínio que tem provocado contradições no desenvolvimento da escrita. De fato, ela teria de enfrentar as afirmações e suas negações, em outros termos, lidar com as contradições.
Considerando a importância das negações construídas na superação das contradições em situação de aquisição da escrita, julgou-se oportuno um estudo para obter maiores esclarecimentos sobre tais relações. Esse contexto constitui-se em uma lacuna a ser esclarecida, colocando uma problemática diferente dos estudos comumente realizados, principalmente porque a literatura não registra estudo que relacione as contradições, do ponto de vista do funcionamento psicológico, com as dificuldades de aprendizagem da escrita. Ao lado disso, o mesmo fato ocorre com a avaliação da memória no contexto do sistema operatório. Assim, propôs buscar maiores esclarecimentos na teoria de Piaget em relação à memória, contradições e dificuldades de aprendizagem da escrita. Em termos mais específicos, o presente estudo pretendeu pesquisar as possíveis relações entre os níveis de memória e contradição e a dificuldade de aprendizagem em escrita, em crianças de 2a. e 3a séries do ensino fundamental.
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