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30 de junho de 2008
Silvia Abu-Jamra Zornig *
A clínica psicanalítica com crianças nos confronta com uma questão fundamental: é possível a psicanálise se constituir em uma prática de subjetivação para um sujeito em processo de estruturação, que necessita de adultos na função de pais para se constituir? Seria desejável intervir neste tempo de construção, já que a clínica psicanalítica é referendada por um tempo retroativo, do a-posteriori?
Não há uma resposta simples a esta questão, até porque este paradoxo funda a clínica com crianças. Freud (1909), ao relatar o caso do pequeno Hans, dá a seu sintoma o mesmo estatuto de uma problemática trazida por um analisando adulto, ressaltando que não aprendeu nada de novo nesta análise, ou seja, que a análise de Hans atestava para a unidade da psicanálise e para sintomas que transcendiam a cronologia. No entanto, indica no mesmo caso clínico, como os pais de Hans poderiam diminuir a incessante torrente de perguntas do filho se lhe esclarecessem a respeito de temas relacionados a sua sexualidade e à diferença entre os sexos.
Neste sentido, o entrelaçamento do sintoma da criança às fantasias parentais coloca o psicanalista em uma posição de ouvir diferentes demandas e discursos sobre a criança para poder intervir como um elemento separador, permitindo um descolamento entre a demanda dos pais e o sintoma da criança. Poderíamos dizer que esta prática é marcada pela posição de dependência estrutural da criança frente a seus cuidadores fundamentais, fazendo com que a desconsideração deste “nó sintomático” possa inviabilizar o tratamento da criança.
Manonni (1967), ao afirmar que “a criança não é uma entidade em si, mas faz parte de um discurso coletivo”, indica não só as diferentes demandas que surgem no processo psicanalítico de uma criança (demanda parental, demanda da criança, demanda do analista em relação à sua própria infância), como as divergências teóricas implícitas na direção clínica escolhida por diferentes autores. O célebre debate entre Anna Freud e Melanie Klein é uma ilustração fundamental de como velhas discussões mantêm sua atualidade por ressaltarem os paradoxos e impasses desta clínica.
Assim, enquanto para Anna Freud (1964) as forças a enfrentar na cura de uma neurose infantil são não só internas, mas parcialmente externas em função da fraqueza do super-ego da criança, para Klein o aparelho psíquico se encontra constituído desde as origens através dos mecanismos de projeção e introjeção. Ou seja, a partir de tais constatações teóricas, Anna Freud irá privilegiar a vertente pedagógica na análise de uma criança, através da orientação de pais, enquanto Klein vai desconsiderar a influência dos pais da realidade, já que seu maior interesse vai recair sobre a imago internalizada dos pais e a vida fantasmática da criança.
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