As explicações científicas: métodos e técnicas na produção de conhecimento

O conhecimento científico é cumulativo, histórico, mas não é absoluto
O conhecimento científico é cumulativo, histórico, mas não é absoluto

Educação e Pedagogia

17/02/2013

Resumo: O artigo apresentado tem como fonte de inspiração o filme “O Óleo de Lorenzo”, discorre e argumenta sobre a espiral de produção de conhecimento, onde reflete sobre a quem compete autorizar e reconhecer conhecimentos produzidos pelos cientistas ou por leigos. Evidencia os paradigmas da ciência positivista - neutralidade, objetividade e unicidade do método.

O conhecimento científico é cumulativo, histórico, mas não é absoluto, as certezas podem vir a ser questionadas e substituídas, as pesquisas científicas refletem as condições objetivas e subjetivas da época e do pesquisador, assim como, o que deve ser pesquisado de acordo com os interesses políticos e econômicos, o poder de quem detém o recurso financeiro, também determina o que deve ser pesquisado, o que é produto vendável.

Introdução

O filme O Óleo de Lorenzo é um drama baseado em fatos reais. O enredo retrata uma forte situação vivida por um casal de historiadores que possui um filho e este, começa a apresentar por volta dos seis anos uma doença incurável que abala profundamente a estrutura familiar. O garoto é diagnosticado portador de uma doença rara e hereditária, cuja manifestação pode ocorrer entre os cinco a dez anos, é degenerativa e ataca as células do cérebro provocando vários efeitos irreversíveis.

Os sintomas da doença é disfagia, dificuldade de deglutir, afasia, dificuldade de comunicação, os movimentos ficam difíceis e prejudicam a fala, ocorrem alterações do controle motor, retardo mental, convulsões, anomalias faciais, perda da memória, da vista, da audição, dentre outros comprometimentos. Na década de 70, a mortalidade da criança acometida pela enfermidade era uma constante e o óbito era previsto para um período de até vinte quatro meses após o seu aparecimento, pouco se conhecia sobre a doença e a medicina não oferecia nenhum tipo de tratamento resolutivo.

A adrenoleucodistrofia - ALD é uma doença genética rara que se inclui no grupo das leucodistrofias, onde existe comprometimento de um cromossomo, sua ocorrência está vinculada a herança genética que é transmitida por mulheres portadoras e que afeta fundamentalmente aos filhos de sexo masculino.

Diante do conhecimento das informações acima citadas, num contexto de dor e sofrimento vivenciado pela criança – Lorenzo, seus pais – Augusto e Michaela Odone, e sabedores da inexistência de tratamento imediato e eficaz, os pais resolvem estudar e pesquisar sozinhos. A intenção era descobrir algo que impedisse o avanço da doença. Os Adones não aceitam a morte certa do filho, resolvem duvidar das certezas dos cientistas, por amor ao menino e esperança na cura, buscam conhecer e aprofundar conhecimentos de domínio dos expertises para proporcionar qualidade de vida a Lorenzo.

No processo investigativo, os pais se diferenciam dos cientistas, uma vez que não levam em consideração aspectos da ciência positivista, o amor ao filho não permite o distanciamento, a neutralidade evidenciada pelo paradigma citado.

O positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro, postula que uma teoria é correta quando pode ser comprovada através de métodos científicos válidos. Os conhecimentos ligados às crenças, supertições ou qualquer outro que não possa ser comprovado não é considerado conhecimento científico.

O filme demonstra que os cientistas são despóticos e não suportam a ideia de um simples curioso duvidar, dividir e revisar hipóteses formuladas pelos detentores do saber cristalizado. O pensar filosófico demonstra que somos seres pensantes, logo seres de ideias, que carregam experiências vividas e que a dedução do leigo pode ter um significado com a mesma importância que a do especialista.

1. Produção de conhecimento científico: a quem compete a produção?

Podemos afirmar que conhecer é incorporar um conceito novo ou original sobre um fenômeno qualquer. O conhecimento não se conforma do nada, tem origem em uma dada experiência, nas relações pessoais, na apreensão de informações proporcionadas pela leitura.

A constatação de que os pesquisadores não reconheciam os dados encontrados pelos pais por não terem a formação acadêmica e de que a dieta prescrita pelos médicos não melhorava a condição de Lorenzo, impulsionou e tornou-os persistentes na procura de algo que promovesse o bem estar do filho, o algo encontrado foi o óleo, uma composição de ácido erúcico e ácido óleico.

A procura incansável para a solução do problema e os impedimentos provenientes da desvinculação dos valores científicos e valores humanos foram uma constante no processo de investigação dos Odones, pois o saber canônico não admitia intromissões e concorrências, a relação entre os pais e os pesquisadores reflete a contradição entre o saber científico e o saber leigo.

O conhecimento científico se desenvolve conforme os seus próprios critérios e os aspectos externos são secundários e não devem ser confundidos como uma ciência racional, sistematizada e criteriosa.

No livro A Invenção das Ciências Modernas, Isabelle Stengers (2002) cita a argumentação de Thomas Kuhn sobre a diferenciação radical entre uma comunidade científica, que possuem instrumentos que incluem indissociavelmente a produção – pesquisa e a reprodução – formação dos que estão autorizados a participar da pesquisa e o meio que, beneficia os indivíduos dos subprodutos destas pesquisas, onde os sujeitos que apresentam necessidades provenientes do saber cientifico devem limitar-se a falar resignadamente, sem solicitar explicações.

De acordo com Rubens Alves (2005), um colega que estava aposentado e que tinha todas as credenciais e titulações, produziu um livro que falava sobre o que aprendeu durante sua vida, mas “eles” afirmaram que o escrito não era científico. Ele pergunta a Rubão: “o que é científico?” Observa-se no relato que uma sabedoria de vida tinha de ser calada, não podia ser considerada científica.
2. A serviço de quem está a ciência?
O drama de Lorenzo oportuniza uma reflexão crítica sobre os valores de ordem pessoal, as prioridades das pesquisas científicas, os valores humanos, valores éticos, dentre outros. Em nome do bem da espécie humana muitos animais foram submetidos a experimentos que perpassam por questões éticas e em detrimento a determinados interesses, a humanidade sofre pelos paradigmas adotados pela ciência.

Segundo Atlan Henry, a inumanidade diz respeito à espécie humana e a sua presença entre os homens consiste na desmistificação possível das paixões alienantes e as ilusões humanas, inclusive as que a ciência contribui e promove. De acordo com o autor

Se a inumanidade consiste em desmitificar tanto quanto possível as paixões alienantes e as ilusões humanas, inclusive as que a ciência contribui para fomentar, então não nos resta dúvida de que a ciência é inumana. Mas se a inumanidade consiste em submeter os corpos e as mentes o sofrimento e a capacidade e à ignorância, a ciência, ao contrário é um fator insubstituível de humanidade. (ATLAN, 2004, p.10)

Atualmente muitos pesquisadores afirmam que as instituições financiadoras de pesquisas só estão interessadas em desenvolver estudos naquilo que é aplicável. Os instrumentos científicos precisam funcionar na intenção de angariar números que possam ser de utilidade às indústrias.

Conclusão

É perceptível na relação vivida entre o saber do leigo e o saber do cientista a perspectiva positivista da ciência, e a ação desta pela desqualificação da “não-ciência”. Os guardiões do saber canônico desqualificam as opiniões e ideias que são originadas fora das fortalezas científicas. A luta da ciência contra as opiniões se efetiva no confronto entre os interesses da vida e interesses do espírito.

Enquanto os pais de Lorenzo lutam pela a vida do filho, a ciência se prende aos paradigmas científicos, e ao seu sucesso e notoriedade. As descobertas devem ser oriundas dos habilitados a desenvolver conceitos teóricos, a pesquisa é dominada pelos ideais de competição, de rivalidade, concede aos pesquisadores as pretensões e as práticas autorizadas.

Para concluir, observa-se no caso de Lorenzo, e de muitos outros casos apresentados pelo fazer científico, que a racionalidade dominadora funciona como critério único de validade, onde a cultura, os valores humanos e éticos são negligenciados em detrimento ao poder da conduta científica objetiva.

Referências

ALVES, Rubem. Entre a ciência e a sapiência: o dilema da educação. 13. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005.
ATLAN, Henri. A ciência é inumana: ensaio sobre a livre necessidade. São Paulo: Cortez, 2004.
O Óleo de Lorenzo. Dir. George Miller. Estados Unidos/EUA.Universal Pictures, 1992.
STENGERS, Isabelle. A invenção das ciências modernas. São Paulo: Ed. 34, 2002.

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.


Claudnira Castro Cysne

por Claudnira Castro Cysne

Graduada em Serviço Social pela Universidade da Amazônia-UNAMA. Especialista em Serviço Social na Gestão das Políticas Sociais e Saúde Pública.Facilitadora do Curso de Especialização na Gestão da Clinica pelo Sirio Libanês/MS. Integrante do Núcleo Pedagógico Permanente-NPP da Escola Técnica do SUS/Pará. Coord. do Curso de Vigilância em Saúde e Curso de Qualificação ao Agente de Endemias.

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