Uma reflexão com base na ACP sobre o livro "Dibs em busca de si mesmo"

Uma reflexão com base na ACP sobre o livro
PSICOLOGIA

A análise foi pautada nos pressupostos da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), situando a Ludoterapia como prática interventiva. A autora foi uma das psicólogas pioneiras no uso da ludoterapia. Na década de 1940, começou a desenvolver ludoterapia não diretiva, cujos princípios foram baseados na obra de Carl Rogers, a recém-emergente abordagem centrada na pessoa (ACP). por fim, buscou-se realizar uma reflexão acerca da prática clinica, e da postura do profissional diante do cuidado ao humano.

SOBRE "DIBS EM BUSCA DE SI MESMO" A autora Virginia M. Axline (1911 - 1988) foi uma das psicólogas pioneiras no uso da ludoterapia. Na década de 1940, começou a desenvolver ludoterapia não diretiva, cujos princípios foram baseados na obra de Carl Rogers, a recém-emergente abordagem centrada na pessoa (ACP).

"Dibs em busca de si mesmo" foi um trabalho determinante em sua trajetória de modo que a prática atual da ludoterapia ainda é largamente baseada em seu trabalho. O livro conta a historia de uma criança que não falava, não brincava, comportando-se de forma inadequada, segundo o que é estabelecido pela sociedade.

Por esse motivo suspeitava-se que sofria de algum retardo mental. Entretanto após iniciar o processo de Ludoterapia, Dibs revela-se extremamente inteligente e perspicaz, e começa a avançar no tratamento descobrindo-se como pessoa.

O processo acaba perpassando as relações afetivas do garoto com os pais, o que era o foco de sua angústia, de modo que a modificá-las e Dibs acaba por se tornar um garoto autônomo e confiante. O garoto Dibs era uma criança de 5 anos, marcado pela rejeição afetiva de seus pais.

Frente a isso se defendia calando-se, e escondendo-se no interior de seu mundo, ficando distante de todos aqueles que poderiam feri-lo da mesma forma, e por este motivo era rotulado pelos pais e professores como "retardado mental", "autista", ou portador de alguma anormalidade mental.

"Nunca olhava diretamente para os olhos de uma pessoa, jamais respondia quando alguém lhe falava", "Recusava até ficar com as costas contra a parede e colocava as mãos para cima prontas para arranhar, prontas para lutar se alguém tentasse aproximar-se (...) parecia decidido a manter-se isolado das pessoas" (p.19).

Quanto ao aspecto relacional entre Dibs e sua família, percebe-se que o garoto fora rejeitado desde o nascimento, que desde então seus pais abriram mão de aceita-lo. Observa-se em uma conversa da mãe de Dibs com a terapeuta: "Não tínhamos planejado ter uma criança. Ele desmoronou todos os nossos sonhos", "mas que bebê estranho era ele quando nasceu, tão grande, tão feio, tão grande e sem forma, como um pedaço de qualquer coisa" (p. 111) e "meu marido sentiu-se ofendido com a minha gestação. Sempre achou que deveria tê-la evitado."(p.112).

De acordo com a visão rogeriana, as influências exteriores, principalmente a qualidade dos relacionamentos, são determinantes para o desenvolvimento da personalidade do sujeito. As relações interpessoais são assim cruciais para a expressão máxima para a tendência natural para atualização.

No caso de Dibs, pode-se inferir que a falta do relacionamento afetivo com os pais, e não-aceitação destes para com o filho prejudicaram o desenvolvimento "natural" da personalidade de Dibs, tornando-o cativo em si mesmo.

Entretanto, embora o comportamento de Dibs legitimasse as certezas em relação a sua condição mental, em determinadas ocasiões este demonstrava comportamentos que iam contra essas certezas, como afirma sua professora em uma conversa com a terapeuta: "Nunca deixava de aceitar um livro. Olhava atentamente as páginas escritas 'como se pudesse ler', suas atitudes eram tão paradoxais! ( p. 20).

Sobre isso a teoria rogeriana afirma que mesmo em condições adversas, mesmo sobre os condicionantes mais severos, o humano pode ser agente criativo na realidade que o rodeia, ou seja, este humano é dotado de uma tendência natural para o crescimento (HIPÓLITO, 1991 apud Santos 2004).

De fato Dibs era uma criança incomum ao seu contexto, sua inteligência, mesma que velada lhe sobressaltava, assim a terapeuta começa a perceber que existiam potencialidades naquele garoto rejeitado por todos, e agindo acreditando na Tendência Atualizante, inerente a cada ser humano, resolve gerar as "possibilidades" favoráveis para que Dibs pudesse progredir.
Percebe-se isso em: "Dentro de mim, trazia, da reunião, um sentimento de respeito e de ansiedade de encontrar Dibs. Havia sido contagiada por uma impaciência confiante e por uma satisfação de procurar ajudá-lo em sua busca (...) destrancaríamos as portas de nossas respostas até aqui inadequadas aos seus problemas." (p. 27) A partir de então Dibs começa a frequentar as sessões de ludoterapia, o meio de possibilitar as condições necessárias para a sua busca interior, posto para a terapeuta: "Este recinto poderia proporcionar a cada pequeno uma zona segura onde pudesse extravasar seus sentimentos sem receios, e, assim aceitando-os, entendendo-os, desabrochar a original unicidade de seu ser" (p. 37).

Neste cenário a terapeuta começa a construir com Dibs uma relação autentica, dando acesso a um ambiente onde este se sinta verdadeiramente aceito e acolhido, um, espaço onde ele possa entrar em contato consigo mesmo, e buscar de forma autônoma, o que lhe falta para o seu amadurecimento e crescimento pessoal.

É valido salientar neste contexto, a forma peculiar como a terapeuta conduz o processo terapêutico: "Não o estimulei a qualquer atividade. Se que o deseja era sentar-se ali em silêncio, assim o faria. Deveria haver algumas razões para agir desse modo" (p.39) e "Desejava que fosse ele quem abrisse os caminhos. Deveria segui-lo, respeitá-lo e entendê-lo. Desejava fazê-lo sentir que a ele caberiam as iniciativas a serem assumidas naquele recinto" (p.57).

É evidente nestes fragmentos a utilização pela terapeuta de um dos principais pressupostos da teoria rogeriana, a compreensão empática, que se configura como "um processo dinâmico que consiste na capacidade de penetrar no universo do outro, sendo sensível a mobilidade e significação de suas vivencias" (HIPÓLITO, p.59, 1991, apud SANTOS, 2004), ou seja, através desta, é possível compreender os sentimentos do cliente, acatando o seu próprio tempo, e mantendo abertura frente ás possibilidades que lhe possam surgir.

Considerando imprescindível a participação da família no processo terapêutico, especialmente de crianças, de modo que essa participação possibilita uma maior compreensão das experiências das mesmas, cabe pontuar que, no caso de Dibs, a mãe forneceu um importante direcionamento para terapeuta, no momento em que decidiu falar para mesma sobre o seu filho, e os seus sentimentos perante este.

"Nunca havia cuidado de nenhuma criança (...). Ele foi uma espada no meu coração - tal o desapontamento que me trouxe com o seu nascimento" (p.111). Neste fragmento fica claro para terapeuta que o foco do comportamento de Dibs eram os problemas afetivos, com os seus pais, tendo em vista que o garoto nunca fora aceito e respeitado em sua forma de existir pelos próprios genitores.
É importante realçar neste cenário o posicionamento da terapeuta em relação ao que a mãe de Dibs acabara de revelar, percebe-se em: "Se ela decidisse abrir-se para o encontro, não a apressaria e nem tentaria arrancar-lhe qualquer pedaço que pela sua livre vontade não oferecesse. Não arrombaria as suas portas, mas confiaria no seu desejo de abrir o seu mundo em um encontro com outra pessoa" (p.107), e "Quem pode amar, respeitar e compreender uma outra pessoa senão quem vivenciou em si mesmo tais sentimentos? (...) nada poderia ser-lhe mais útil neste entrevista, que possibilitar-lhe sentir-se respeitada, entendida e aceita" (p.121).

Observa-se claramente neste fragmento que a terapeuta emprega frente a mãe de Dibs, o Olhar Positivo e Incondicional, que consiste na capacidade de aceitar o outro sempre de maneira positiva, independente daquilo que o cliente tenha revelado sobre si. Ressalta-se que este foi um passo importante para o processo terapêutico do garoto, posto que a mãe, agora delega uma maior confiança na terapeuta, e em si mesma, modificando gradualmente a sua postura frente ao filho.

Pode-se inferir que o posicionamento da terapeuta no caso de Dibs foi determinante para o seu crescimento pessoal. Foi um trabalho árduo e principalmente de respeito para com o outro que demanda um sofrimento, principalmente quando este outro se trata de uma criança, observa-se em: "Dibs subia a metafórica estrada do autoconhecimento (...). Deveria eu proceder com toda a precaução para que não o impedisse de qualquer maneira na sua caminhada, mas também não o puxasse antes que estivesse pronto para galgar o próximo degrau." (p.198)

É valido salientar que em todo o processo terapêutico de Dibs, foi enfatizada pela terapeuta a autonomia deste no referido processo, e o espaço favorável para que ele pudesse se desenvolver, ou seja, o poder contratual presente na relação terapeuta-cliente superou os ditames do suposto saber, observa-se isso nas falas sempre presentes da terapeuta no decorrer do processo: “Como você disse que queria; Como eu falei que desejava; como nós conversarmos que queríamos".

Desse modo, evidencia-se que, conforme postula a teoria rogeriana, a terapia é sempre centrada na pessoa, em sua total autonomia no processo de busca por si mesmo. De modo geral, em nossa opinião, o ápice do relato de Virginia M. Axline acerca de Dibs é quando este conclui: "Eu posso fazer coisas! (...) qualquer coisa que deseje fazer." (p.209).

Observa-se neste fragmento toda a mudança pela qual Dibs passou, toda a transformação que sofreu, aquele que outrora era alguém trancado em seu mundo, passou a ser um garoto confiante, confiante em si e aberto para as possiblidades que o mundo tinha para lhe oferecer.

Apesar de todas as dificuldades e descrenças, Dibs foi percebido por a terapeuta em questão como um ser de possibilidades, ele foi respeitado em sua singularidade e isso proporcionou o seu crescimento.

CONSIDERAÇÕES

A partir do estudo do livro em questão, foi possível as discentes realizar uma reflexão teórica acerca da pratica clinica, de modo que seja qual for o seu enfoque teórico/prático, esta exige antes de tudo uma postura ética por parte do profissional, uma postura diante do sofrimento do outro, logo uma responsabilidade diante do cuidar deste outro, sem o destituir de sua autonomia enquanto ser.

Assim "A clínica define-se, portanto, por um dado éthos: em outras palavras o que define a clínica psicológica como clinica é a sua ética." (FIGUEIREDO, p. 40. 1996.). Desse modo, a prática clinica manifesta-se mediante uma ação clinica que se configura como um modo de intervir, de cuidar do humano sem propor nada que tampone sua angustia, pois o objetivo primordial desta ação, é proporcionar que o sujeito assuma a liberdade simplesmente, de ser o que é, posto que o homem é o ser da falta, da incompletude, e essa angústia que carrega como um fardo pesado sobre os ombros, é a disposição fundamental, de ser humano.


REFERÊNCIAS
MAXLINE, Virgínia M. Dibs em busca de si mesmo; traduzido por Célia Soares Linhares - 19. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1995.290p


CAMPOS, A.P.S, CURI, V.E. Atenção psicológica clínica: encontros terapêuticos com crianças em uma creche. Paidéia (Ribeirão Preto) vol.19 no.42 Ribeirão Preto Jan./Apr. 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-863X2009000100014 Acesso em: 9 jul 2010


HIPÓLITO, J. Comunicação pessoal. 1991. cit. Nunes, O. Uma abordagem da relação de ajuda. A pessoa como centro, 3:59-64.


JUSTO, H. A Abordagem Centrada na Pessoa: consensos e disconcensos. São Paulo: Vetor, 2002.


MORATO, H. T. P. (coord.). Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. Novos desafios. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999. PREGNOLATO, M. Ludoterapia: a terapia da criança. Disponível em: http://www.mariuzapregnolato.com.br/pdf/artigos/ludoterapia_a_terapia_da_crianca.pdf. Acesso em: 9 jul. 2010

SCAGNOLATO, L.A.S. Ludoterapia. Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/16858/1/LUDOTERAPIA/pagina1.html. Acesso em: 9 jul. 2010 WOOD, J.K. et al. Abordagem Centrada na Pessoa. Vitoria: EDUFES, 2000.

Debora Sueli de Souza Guedes
Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (2012). Atualmente realiza curso de formação em Psicanálise de Orientação Lacaniana pela Escola Brasileira de Psicanálise da Bahia (EBP-BA), e atua na área de Psicologia Clínica em instituição privada. Possuí experiência na área de Psicologia, Psicanálise e Saúde Mental.
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