Psicanálise e Ética

Psicanálise e Ética
PSICOLOGIA
A relação da Ética com a Psicanálise pode ser abordada de duas formas: Uma primeira maneira seria de uma ética profissional, da mesma forma que falamos de uma ética das outras profissões podemos falar de uma ética da Psicanálise; Outra forma de abordar o assunto seria pensar às implicações éticas do surgimento da Psicanálise no Ocidente.


Ao falarmos de uma ética da Psicanálise estamos falando em primeiro lugar de uma proteção aos clientes que estão submetidos a uma intervenção psicanalítica. Esse cuidado com o analisando protege-os de eventuais abusos proporcionados pelos analistas ao ocuparem uma posição privilegiada em função do amor de transferência. Dentro deste mesmo enunciado ainda teríamos uma ética implicada na formação institucional, a qual diz respeito às condições da transmissão do saber psicanalítico.


Também podemos inserir a Psicanálise como pensamento e prática questionadora dos pressupostos éticos tradicionais. Embora ela não tenha surgido como uma proposta de nova ética para a modernidade, foi convocada para responder às hiâncias do discurso existencial moderno além ocupar além de uma prática terapêutica uma posição de Filosofia existencial que teria respostas para a angústia do nosso tempo.


Temos na contemporaneidade a cura do sofrimento como eliminação de angústia e de todo mal estar. Alinhado com o Eudemonismo temos um discurso utilitarista, o qual acredita que o psiquismo pode se libertar da ação do inconsciente e servir a uma completa e total inflação de um eu imaginário e soberano, feliz e pragmático. Dito isto, não é difícil de perceber que a finalidade é o ajustamento dos sujeitos em uma cultura do individualismo e do narcisismo.


A Psicanálise faz duras críticas à ética cristã fundada no apelo ao amor: “Amarás o próximo como a ti mesmo.” Esse discurso não se sustentaria, pois a entrada do outro em nossa vida desperta como primeiro afeto o ódio, e não o amor. Esse outro sempre será o meu rival e do qual eu dependo para ser reconhecido. Freud (1930) defende em “O mal estar na civilização” que se esse amor ao próximo fosse uma coisa possível ele não precisaria ser estabelecido por lei. Dessa forma, o discurso cristão não serviria como uma forma de prática que aplacaria a indizível angústia do nosso tempo de alguma forma.


Então, Frente a todos esses discursos contemporâneos como a Psicanálise se colocaria enquanto uma ética? Em relação à toda essa demanda a Psicanálise vem responder com a Ética do Desejo, a qual tem como propósito fazer com que os sujeitos assumam o que desejam e ao identificarem-se com o seu sintoma consigam fazer uma melhor gestão do seu mal-estar. Ela já parte de uma visão de sujeito onde o mesmo é cingido e atravessado por forças que o invadem.


Diferentemente do Utilitarismo que impera e tenta buscar uma “felicidade” comum para todas as pessoas, a Psicanálise se propõe a escutar o desejo de cada sujeito fazendo com que a felicidade tão proclamada pelos veículos de massa seja um discurso construído por cada analisando e não algo em uma esfera de medida onde todos devem buscar o mesmo discurso e ficarem se balizando por este algo ideal.


Ao se colocar no lugar de uma escuta, a Psicanálise trata da verdade de cada sujeito: o seu desejo inconsciente. É mister salientar que não podemos dizer que o desejo é ético ou tampouco antiético. O desejo “é”, isso sendo indiferente às razões éticas. O inconsciente desconhece o bem e o mal fazendo com que a medida dada para a sua forma de escoamento seja a significação atribuída aos seus derivados pela cultura. Na interlocução com o outro, analista, esse sujeito dará voz ao seu desejo fazendo com que possa transitar no mundo de forma mais criativa e dinâmica, diferentemente de como transitava antes na banalidade da repetição sintomática.


A Psicanálise pode contribuir para a produção de uma ética condizente com as condições das sociedades contemporâneas já que considera o sujeito em suas esferas de conflito e liberdade, solidão, enfim: condições existenciais humanas. A própria clínica psicanalítica se fundamenta nessas questões e as mesmas balizam a travessia do fantasma do analisando mediada pelo analista, contribuindo assim para outras manifestações de subjetividade.


Allan Rooger Moreira Silva
Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco.
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