Compreendendo o que é matriciamento

Compreendendo o que é matriciamento
PSICOLOGIA

Uma articulação a partir do texto: Avaliação de estratégias inovadoras na organização da atenção primária à saúde.

Introdução

O trabalho tem como objetivo o entendimento e a articulação do texto: “Avaliação de estratégias inovadoras na organização da atenção primária à saúde”, de Campos; Ferrer; Corrêa; Madureira; Gama; Dantas e Nascimento, para que se possa ampliar o conceito sobre matriciamento e discutir quais os benefícios e dificuldades em sua aplicação.

Entende-se por matriciamento, o suporte realizado por profissionais e diversas áreas especializadas dado a uma equipe interdisciplinar com o intuito de ampliar o campo de atuação e qualificar suas ações. (FIGUEIREDO apud SILVA; LIMA; ROBERTO; BARFKNECHT; VARGAS; KRANEN e NOVELLI, 2010). Ou seja, “matriciamento ou apoio matricial é um novo modo de produzir saúde em que duas ou mais equipes, num processo de construção compartilhada, criam uma proposta de intervenção pedagógico-terapêutica” (Ministério da Saúde, 2011, p. 13). O apoio matricial, formulado por Gastão Wagner em 1999, tem possibilitado, no Brasil, um cuidado colaborativo entre a saúde mental e a atenção primária (Ministério da Saúde, 2011 p. 13), e essa relação amplia a possibilidade de realizar a clínica ampliada e a integração e diálogo entre diferentes especialidades e profissões (CAMPOS e DOMITTI apud Ministério da Saúde, 2011).

Entendendo o texto: “Avaliação de estratégias inovadoras na organização da atenção primária à Saúde”.
O estudo teve o objetivo de realizar um comparativo entre o desempenho de Unidades Básicas de Saúde (UBS) a partir da implantação dos novos arranjos e estratégias de atenção primária e saúde mental. Analisaram-se seis UBS com os piores índices socioeconômicos e alta taxa de vulnerabilidade social nos distritos mais populosos de Campinas (SP), em 2007 (IBGE, censo demográfico 2000 apud ONOCKO-CAMPOS; CAMPOS; FERRER; CORRÊA; MADUREIRA; GAMA; DANTAS E NASCIMENTO, 2011).

O conhecimento foi pautado através de uma escala avaliativa que se propôs a compreensão da “implantação de equipes de PSF com adscrição de usuários; existência, frequência e dinâmica da reunião de equipe; elaboração de projetos terapêuticos e discussão coletiva de casos clínicos; presença regular (mensal, quinzenal ou semanal) de apoio matricial em saúde mental com as funções de discussão conjunta de casos clínicos, atendimento conjunto de casos e capacitação teórico-conceitual grupais na unidade que visasse à prevenção e à promoção da saúde” (ONOCKO-CAMPOS; CAMPOS; FERRER; CORRÊA; MADUREIRA; GAMA; DANTAS E NASCIMENTO, 2011, p. 4).

As UBS foram divididas em dois grupos, a partir de critérios de igualdade apontados pelas variáveis citadas anteriormente. Sendo assim, o grupo I foi formado por duas UBS que apresentaram uma maior organização da equipe, constituída pelo modelo PSF, com reuniões regulares que ocorriam semanalmente para elaboração de projetos terapêuticos e discussão de casos clínicos, apoio da saúde mental pelo menos quinzenalmente e o desenvolvimento de atendimentos e discussões conjuntas dos casos. O grupo II, formado por quatro UBS que apresentaram poucas ou nenhuma dessas variáveis, com encontros mensais com a saúde mental e suporte de capacitação, sem a discussão dos casos clínicos e de atendimento conjunto (ONOCKO-CAMPOS; CAMPOS; FERRER; CORRÊA; MADUREIRA; GAMA; DANTAS E NASCIMENTO, 2011). Realizaram-se, ainda, nove Grupos Focais (GF): “três do agrupamento I (trabalhadores, ACS e usuários) e seis do agrupamento II (dois de trabalhadores, dois de usuários e dois de ACS)” (ONOCKO-CAMPOS; CAMPOS; FERRER; CORRÊA; MADUREIRA; GAMA; DANTAS E NASCIMENTO, 2011, p. 5).

O estudo denota a importância da disponibilidade, inclusive afetiva, dos profissionais de saúde para que se tenha boas discussões entre a equipe, pautada na corresponsabilização e na contribuição das distintas especialidades. As características trazidas pela avaliação dos dois grupos de USB apontam para importância de realização de atividades articuladas entre os profissionais e os diversos serviços de saúde, assistência, pedagógico, etc. Pôde-se perceber o quanto é relevante a interlocução com os ACS e o reconhecimento como profissionais da equipe.

Gastão Wagner Souza Campos (2001) aponta para essas questões através da conceituação de Apoio Paidéia. Segundo o autor, no Apoio Paidéia a execução das funções de gestão devem ser realizada entre os sujeitos, pois o não reconhecimento da gestão como produto da interação entre as pessoas acarretará na reprodução das formas burocratizadas de trabalho, o que gera um empobrecimento da subjetividade e dos fatores sociais dos trabalhadores e usuários (CAMPOS, 2001). Ou seja, o conceito de Paidéia está inteiramente relacionado à palavra que é de origem Grega e significa o desenvolvimento do ser humano de forma integral (formado pelo olhar direcionado a saúde, a educação, as relações sociais, o ambiente e o respeito as diferenças entre as pessoas e os grupos). (CALDAS & ELLER).

Contudo, durante a pesquisa houve algumas dificuldades para apuração da amostra, pode-se destacar “a perda de prontuários, a falta de correta referência e contra referência” que “sugerem uma inadequada articulação da atenção básica com os hospitais de referência e baixa responsabilização pelo surgimento de pacientes com hipertensão arterial, o que levanta dúvidas sobre sua efetividade” (ONOCKO-CAMPOS; CAMPOS; FERRER; CORRÊA; MADUREIRA; GAMA; DANTAS E NASCIMENTO, 2011, p. 6). Gerando uma contradição quando comparados esses dados com a proposta do Programa de Saúde da Família, que não se refere somente à assistência médica scrictu sensu, mas a uma articulação através de ações que valorizem também o social, o psíquico e o cultural das famílias atendidas (CALDAS & ELLER).

Pelos relatos dos profissionais de saúde, ACS e usuários é perceptível a sintonia e a dinâmica compartilhada dentro das UBS do grupo I, pois existe um sentimento de integração e pertença que facilita a discussão e o planejamento das equipes diante dos casos que surgem. A articulação com a saúde mental traz uma segurança maior no desenvolvimento de ações e na capacidade de compreensão dos casos. Essas características espelham algumas ações do modelo de Apoio Paidéia onde se “objetiva tanto interferir no contexto como contribuir para ampliação da capacidade de análise, de tomar decisões e de agir sobre a realidade dos sujeitos envolvidos” (FIGUEROA, 2013, slide 23). Além disso, as equipes do grupo I mostraram-se abertas para repensar os “espaços organizacionais - consulta individual, grupo, atendimento domiciliar, internação” (FIGUEROA, 2013, slide 31). Diferentemente do grupo II onde “os trabalhadores acreditavam que realizavam boa clínica ampliada e não mostraram autocrítica sobre os aspectos apontados pelos usuários. Os ACS acreditavam serem os responsáveis pela verdadeira clínica ampliada e afirmaram que os demais trabalhadores não se envolviam com os usuários mais intensamente. Entre ACS e demais trabalhadores, parecia haver grande distância e o não-reconhecimento do trabalho dos ACS” (ONOCKO-CAMPOS; CAMPOS; FERRER; CORRÊA; MADUREIRA; GAMA; DANTAS E NASCIMENTO, 2011, p. 7), o que torna extremamente difícil a existência de um olhar voltado para a capacidade de compreender a si mesmo, aos outros e ao contexto no qual estão inseridos e ampliar as possibilidades de ação (CAMPOS, 2001).

Matriciamento
O Ministério da Saúde propõe, através do projeto Humaniza SUS, uma articulação entre a Atenção Básica e a Saúde Mental, “designando o trabalho a ser feito no processo de viabilizar o acesso à saúde e a qualificação dos cuidados” (SILVA; LIMA; ROBERTO; BARFKNECHT; VARGAS; KRANEN e NOVELLI, 2010, p. 1). Sendo assim, o trabalho na Atenção Básica “ocupa um lugar estratégico no desenvolvimento das ações em saúde” (SILVA; LIMA; ROBERTO; BARFKNECHT; VARGAS; KRANEN e NOVELLI, 2010, p. 1). Entretanto, os sistemas de saúde, tradicionalmente, se organizam de forma hierárquica, havendo uma transferência de responsabilidades ao encaminhar um caso de um serviço para o outro. Deste modo, torna-se precária, difusa e, em alguns momentos, inexistente a comunicação entre os serviços, que quando ocorre é através de informes escritos (encaminhamento, parecer, formulário de contra referência, etc.) e não oferecem uma boa resolução para os casos. Contudo, esse novo modelo integrador – o modelo matricial – busca transformar essa lógica tradicional, tecnicista, burocratizada e pouco dinâmica através de atividades que propiciam a integração dos profissionais e de seus saberes.

Com isso, o sistema passa a ser reestruturado em dois tipos de equipe: I- a equipe de referência; e II- a equipe de apoio matricial (Ministério da Saúde, 2011). O Manual sobre Matriciamento, do MS, descreve que a equipe de referência funcionam de forma interdisciplinar e atuam com responsabilidade sanitária incluindo o cuidado longitudinal, além do atendimento especializado. E a equipe de apoio matricial, tem um atendimento diferenciado do realizado por um especialista dentro de uma unidade de atenção primária tradicional, já que ela assume o papel de ofertar suporte técnico especializado à equipe de referência (Ministério da Saúde, 2011).

“Portanto, o processo de saúde-enfermidade-intervenção não é monopólio nem ferramenta exclusiva de nenhuma especialidade, pertencendo a todo o campo da saúde. Isso torna o matriciamento um processo de trabalho interdisciplinar por natureza, com práticas que envolvem intercâmbio e construção de conhecimento” (Ministério da Saúde, 2011, p. 16).

Quando o apoio matricial acontece de forma precária limitando-se a discussão de casos e encaminhamentos, por exemplo, como foi o caso do grupo II, é comum que os profissionais tenham um sentimento de solidão e impotência para lhe dar com casos envolvendo a complexidade da saúde mental.

A medicalização foi também um dos problemas/ incômodos relatados pelos dois grupos de UBS, inclusive porque a ausência de seguimento clínico continuado e de avaliações frequentes dos pacientes que usam psicotrópicos acabam criando, basicamente, repetições de receitas. Porém, pesquisas realizadas no México, para o tratamento de depressão, relatam que quando recebem o treinamento adequado, as intervenções dos médicos de família na atenção primária podem ser efetivas (ONOCKO-CAMPOS; CAMPOS; FERRER; CORRÊA; MADUREIRA; GAMA; DANTAS E NASCIMENTO, 2011, p. 10).

É perceptível a dificuldade dos profissionais de conseguirem consolidar uma equipe interdisciplinar que busca trabalhar coletivamente e em parceria com os demais serviços ligados a ela. São as más condições de trabalho e salários e equipes com imensa rotatividade, talvez as dificuldades mais citadas. Porém é importante compreender que algumas estratégias criadas em prol do sistema de saúde funcionam inclusive como apoio diante dessas questões, pois o matriciamento, a educação popular, o acolhimento são ferramentas que se bem trabalhadas poderão inclusive ajudar a população a perceber a importância desses dispositivos e, talvez, instrui-los criticamente para lutar por seus direitos. O que não se pode negar é que de fato o maticiamento e tantas outras ações realizadas coletivamente, apesar da dificuldade de serem exercidas, contribuem imensamente ao profissional que se sente reconhecido diante dessas ações e à sociedade que só tem a ganhar com as intervenções realizadas.

Referências
SILVA, Adriana da; LIMA, Ana Paula de; ROBERTO, Clarice; BARFKNECHT, Kátia S.; VARGAS, Lisiane Falleiro; KRANEN, Mônica e NOVELLI, Sandro. Matriciamento na Atenção Básica: Apontamentos para a III Conferência Municipal de Saúde Mental. Ano: 2010. Disponível em: <http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/sms/usu_doc/matriciamento.pdf>. Acesso em: 11 de ago. de 2013.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia Prático de Matriciamento em Saúde. Ano:2011. Disponível em: <www.unisite.ms.gov.br>. Acesso em: 11 de ago. de 2013.

ONOCKO-CAMPOS, Rosana Teresa; CAMPOS, Gastão Wagner de Souza; FERRER, Ana Luiza; CORRÊA, Carlos Roberto Silveira ; MADUREIRA, Paulo Roberto de; GAMA, Carlos Alberto Pegolo da; DANTAS, Deivisson Vianna; NASCIMENTO, Roberta. Avaliação de estratégias inovadoras na organização da Atenção Primária à Saúde. Ano: 2011. Disponível em: <www.scielo.br>. Acesso em: 12 de ago. de 2013.

CALDAS, Eduardo de Lima; ELLER, Estêvão Passos. Programa Paidéia de Saúde da Família. Disponível em: <www.eaesp.fgvsp.br>. Acesso em: 12 de ago. de 2013.

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Janaina Maria Gomes Fonseca
Psicóloga
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