Avaliação da Aprendizagem: A avaliação formativa e seus desafios

Avaliação da Aprendizagem: A avaliação formativa e seus desafios
PEDAGOGIA
1 INTRODUÇÃO

A avaliação acompanha os indivíduos durante toda a vida (CATANI & GALLEGO, 2009). Está presente nos mais variados contextos em que uma pessoa pode estar inserida: relações familiares, sociais, profissionais, escolares e vida acadêmica. Avaliar é um procedimento complexo, pois envolve imposições culturais que implicam em comparar, classificar e selecionar. Mas a avaliação da aprendizagem tem por objetivo verificar o que o aluno efetivamente aprendeu e fornecer subsídios para a atividade docente (BORBA et. al., 2007).

Uma avaliação da aprendizagem bem empregada pode ser uma ferramenta para a melhoria do ensino, levando o aluno ao sucesso, e não mais ao fracasso (SCHON & LEDESMA, 2008). Busarello (2000) sabiamente comenta que por trás da escolha do tipo de avaliação a ser praticada, está a decisão quanto ao tipo de ser humano pretende-se formar: submisso ou autônomo, passivo ou ativo.

Para Schon e Ledesma (2008), avaliar não é só medir o conhecimento e classificar, avaliar é respeitar o tempo de cada indivíduo e mostrar que do erro podemos sempre encontrar o caminho para o acerto. Dias Sobrinho (2004), vê a avaliação não só como tendo um papel técnico, mas também ético e político muito importante, tanto para as mudanças da educação como da própria sociedade. As práticas avaliativas podem ser estimulantes ou desestimulantes, promover ou frustar; em suma, "a avaliação poderá melhorar a aprendizagem ou simplesmente produzir resultados ou respostas sem sentido" (SCHON & LEDESMA, 2008, p.2).

Isso se deve também ao fato de a avaliação assumir diferentes significações para o avaliador e o avaliado (CATANI & GALLEGO, 2009). Nesse sentido, é valiosa a observação de Andrade (2001, p. 4) ao concluir que A avaliação representará sempre a ótica ou olhar de quem avalia, e quem avalia tem uma visão da realidade, uma competência científica e técnica e um engajamento político que irá se refletir na forma de avaliar e no critério definido que pode não ser o mais ético e o mais atento em promover as potencialidades de cada pessoa humana; do aluno enquanto cidadão.

Assim, fica fácil perceber o quanto importante é o engajamento do professor em rever suas práticas avaliativas, e ainda mais, o quanto pode ser difícil romper com antigos paradigmas para assumir uma nova postura ante o processo avaliativo e os avaliados. Deixar de pensar a avaliação como uma barreira entre aluno e professor, como o momento do acerto de contas e passar a encarar a avaliação como uma possibilidade: possibilidade de o aluno ser ajudado nas dificuldades e encorajado a continuar no sucesso.

Existem, segundo Borba et. al. (2007), diversos instrumentos de avaliação, entre os quais podem ser citadas as provas orais, escritas e práticas, entrevistas, relatórios, seminários, estudos de caso, resenhas, exercícios, entre outros. Para Borba et. al. (2007, p. 43), o estudo da avaliação da aprendizagem requer "reflexões sobre as concepções e os procedimentos vigentes, bem como sobre os paradigmas propostos na literatura educacional".

Schon e Ledesma (2008) completam que tais reflexões tem contribuição fundamental para melhorar a qualidade da educação. Além disso, salientam que a prática de "dar" notas ao fim de cada bimestre, muitas vezes não é condizente com o desempenho do aluno durante todo o processo de aprendizagem. "Refletir sobre avaliação não pode se limitar aos aspectos técnicos (ao 'como fazer'), mas exige a consideração das dimensões éticas e políticas" (CATANI & GALLEGO, 2009, p. 15).

A avaliação da aprendizagem é, portanto, um assunto um tanto quanto complexo e interessante; apesar de parecer algo extremamente simples, existe muito debate e indagações sobre o tema. Assim, o presente estudo teve como objetivos descrever a avaliação da aprendizagem, e identificar a relação entre a avaliação da aprendizagem e o processo de construção do conhecimento. Foi utilizada a revisão sistemática de literatura, onde foram consultados artigos e livros que abordam a avaliação da aprendizagem em geral.

2 A AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM

O termo avaliação é usado corriqueiramente em diversas situações. Refere-se a mensurar, testar, verificar, entre outros, e avaliam-se objetos, pessoas, instituições, condições, preços, etc. O resultado da avaliação nos permite formar uma ideia ou agir de determinado modo em relação ao item avaliado. A avaliação, segundo Catani e Gallego (2009), pode ser aplicada para aferir conhecimento, desempenho, etc. em diversas esferas (pessoal, educacional, profissional, entre outras).

Na situação escolar, o ato de avaliar está comumente identificado com dar ou receber notas, fazer provas, exames ou passar de ano" (CATANI & GALLEGO, 2009, p. 10). A avaliação tem por objetivo analisar a evolução dos estudantes para auxiliar o professor a decidir o que fazer para assegurar a efetividade da aprendizagem. Várias técnicas podem ser aplicadas para avaliar, conforme o objetivo e a natureza do componente que está sendo avaliado (SUHR, 2008). A avaliação da aprendizagem é ainda um ponto vulnerável da atuação do professor e requer melhores e profundas reflexões e compreensões (ENRICONE & GRILLO, 2003).

Desde há muito, um dos grandes desafios a serem enfrentados no processo de democratização da educação consiste no debate sobre as formas de avaliar, já que estas podem se constituir num dos mecanismos legitimadores não só do sucesso, mas também do fracasso escolar tendo, muitas vezes, o pode de conformar e direcionar o "destino" dos alunos (CATANI & GALLEGO, 2009, p. 15).

A grande maioria dos professores avalia os alunos sem terem profundo conhecimento sobre avaliação. Seguem regras, normas, cartilhas e programas de forma mecânica e alienada (BORBA, 2003). Borba (2003, p. 12, grifo do autor) afirma que "um, entre outros, dos principais fatores, em termos de fracasso escolar é o surrealismo da situação do professor: salários de fome e exigências e cobranças de eficiência máxima".

E completa: "o retorno financeiro dos professores é mínimo face à riqueza que eles proporcionam ao social". Luckesi (2005) concorda nesse sentido, afirma que salários melhores fazem parte das condições básicas de trabalho para um professor, que por sua vez estaria mais motivado a trabalhar e desempenhar com primor seu papel de educador se fosse tão valorizado quanto merece.

O autor acredita que os professores brasileiros já fazem o bastante, visto as condições precárias em que são obrigados a trabalhar. Dessa maneira, falta ao professor subsídios para atualizar-se, o que prejudica inclusive sua prática avaliativa, que se mantém ultrapassada (BORBA, 2003). E, conhecer profundamente a avaliação da aprendizagem, estudar e prepara-se para avaliar é, segundo Furlan (2007, p. 20) importante para o "desenvolvimento da profissionalização docente". As avaliações são ainda realizadas segundo uma concepção conservadora, mesmo tendo subsídios teóricos modernos e atuais para a inovação do ato de avaliar.

A prática de avaliações rígidas e realizadas apenas com caráter classificatório, sem considerar o empenho do aluno durante o processo, resulta em um grave problema social caracterizado pela frustração do aluno com relação ao seu desempenho. Contudo, desde a década de 90, existem manifestações dos educadores em favor de mudanças nesse paradigma, defendendo a educação formativa como adequada. A educação formativa visa avaliar a aprendizagem real dos alunos e preocupa-se com a formação, não mais com a classificação. E, de acordo com Neves (2007), a avaliação formativa é uma prática interessante em todos os níveis de ensino, desde o ingresso da criança na vida escolar, até a sua formação no ensino superior e além.
2.1 A AVALIAÇÃO FORMATIVA

A avaliação formativa opõe-se à avaliação somativa; pois enquanto a avaliação somativa refere-se à avaliação que pretende, ao final de um período, dar uma visão geral sobre o desempenho do estudante e considera o erro como uma falta definitiva de algo, a avaliação formativa preocupa-se em avaliar todos os passos do aluno rumo ao conhecimento e entende o erro como uma falta temporária de algo e como parte fundamental do processo de aprendizagem (CARVALHO & MARTINEZ, 2005). Uma avaliação adequada tem quatro características, que, de acordo com Luckesi (2005), são:

1) Operar com desempenhos provisórios, buscando os melhores resultados a cada momento. Cada resultado serve de suporte para um passo adiante.
2) Ser não pontual: à avaliação interessa os tempos passado, presente e futuro da vida do educando, já que o compreende como um ser em constante desenvolvimento.
3) Ser diagnóstica: avalia o aluno a cada etapa, permitindo intervenções em qualquer momento, buscando melhora.
4) Ser inclusiva: não descarta o aluno, mas o convida a melhorar. Um dos maiores e mais importantes desafios para a adequada avaliação da aprendizagem é o próprio sistema educacional, uma vez que a avaliação depende além do aluno e do professor, do material didático e dos recursos disponível, das condições da sala de aulas, das políticas educacionais, entre outros.

"A avaliação não pode ser uma ação mecânica; ao contrário, deve ser uma atividade racionalmente definida, dentro de um encaminhamento político e decisório em favor da competência de todos e da participação democrática na vida em sociedade" (BUSARELLO, 2000, p. 8).

Para avaliar a aprendizagem, é preciso que o professor seja capaz de fazer um apanhado geral de todos os fatores que interferem e influenciam essa aprendizagem. Então, porque não avaliar o aluno como indivíduo, a classe como um todo, a si próprio como professor e facilitador do processo ensino-aprendizagem, e os recursos disponíveis ao longo deste processo?

Sendo assim, nas palavras de Andrade (2001, p.1): A avaliação que cabe ao processo educativo deve ser abrangente, consistente, contínua, sistemática, dinâmica, coerente e polissêmica, de modo que todos os fatores e agentes intervenientes também sejam considerados e analisados nos resultados obtidos pelo aluno. A avaliação formativa considera os interesses, a aspirações, os hábitos de trabalho e a capacidade de adaptação pessoal e social do aluno, entre outros aspectos que lhe são intrínsecos, mas que têm direta relação com a construção do conhecimento (ANDRADE, 2001). Stainle e Souza (2007), em sua pesquisa, encontraram professores comprometidos com a avaliação formativa, simplesmente por adotarem a prática de:

 Validar a aprendizagem como processo contínuo e permanente, por meio da ressignificação do erro;

 Favorecer o processo de ensino-aprendizagem, promovendo a reflexão da prática pedagógica docente, bem como a retomada de conteúdos quando necessário;

 Promover o desenvolvimento do aluno, desmistificando os critérios de excelência criados pela sociedade e impostos pela escola;

 Desenvolver práticas avaliativas integradoras e inclusivas, que proporcionem ao aluno retomar aspectos da aprendizagem ainda não incorporados, os quais são revelados pelos instrumentos da avaliação. Muitas vezes, o professor até pratica a avaliação formativa, sem nem mesmo saber que o faz; basta que o professor se preocupe com o que o aluno realmente aprendeu e apreendeu; que se permita diagnosticar e intervir nas dificuldades e nos erros, compreender que o aluno não é apenas aluno, é também filho, irmão, amigo, e por isso, traz a bagagem de sua vida extraescolar, que deve ser respeitada.

2.1.1 A AUTOAVALIAÇÃO

A autoavaliação é um instrumento através do qual o indivíduo utiliza-se da autocrítica para atribuir-se um conceito, nota, ou afim. A autoavaliação permite aos indivíduos orgulharem-se de suas qualidades/acertos, reconhecerem suas falhas, e investirem em esforços para recomeçar, refazer ou rever suas ações, seus conhecimentos, sua dedicação, entre outros aspectos.

No aspecto qualitativo de avaliação deve ter peso à autoavaliação, considerando ser o próprio julgamento sobre o resultado da aprendizagem pessoal, um dos elementos que ajudará o aluno a identificar no que deve melhorar e a empreender esforço próprio para superar ou avançar na construção de conhecimentos (ANDRADE, 2001).

A autoavalição pode ser uma importante ferramenta no processo ensino-aprendizagem, mas há ressalvas: Luckesi (2005) alerta para o fato de que a auto avaliação pode ser permissiva, uma vez que dificilmente um aluno vá se auto reprovar numa escola onde a promoção é o que importa. O autor entende como mais adequada a prática do entrosamento entre professor e aluno, onde, cada um, usando da sua autocrítica busquem juntos a resposta para a questão: aprovar ou não aprovar?, a partir da mensuração da apropriação dos conhecimentos e das habilidades necessárias com as quais estão trabalhando. Dessa forma, a auto avaliação pode ser considerada um subsídio à avaliação formativa, por proporcionar o auto conhecimento e a discussão entre aluno e professor sobre como está o andamento do aprendizado.

2.2 OS DESAFIOS DA AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM

Luckesi (2005), ao abordar a avaliação da aprendizagem é repetitivo ao tratar dos desafios relacionados à questão. Concordando com o autor, considera-se como desafios para a adequada avaliação da aprendizagem, o sistema e as políticas educacionais, que por mais que tentem ser ideais na teoria, continuam deixando a desejar na prática. As baixas remunerações também são citadas por muitos autores como um dos maiores desafios, pois o professor brasileiro tem sido obrigado a trabalhar em condições desfavoráveis, tendo muitas vezes que procurar por dois ou mais empregos para compor uma renda digna.

Para Luckesi (2005), para uma verdadeira prática pedagógica e para a adequada prática avaliativa, são necessárias condições materiais mínimas de trabalho, que englobam melhores salários, número adequado de alunos por turma, material didático satisfatório e espaço físico minimamente satisfatório. A constante troca de professores para ministrarem a mesma disciplina, também é encarada como um desafio à avaliação, pois a perda da continuidade do acompanhamento da classe dificulta o diagnóstico por parte do docente. Mas é ilusão atribuir toda a responsabilidade das falhas ao sistema e às políticas de educação, pois muitas vezes os próprios professores rotulam os alunos como desinteressados, e deixam por isso mesmo, sem realizar o mínimo esforço no sentido de tentar diagnosticar a dificuldade do aluno e trabalhar visando sanar os problemas. O professor se acomoda e cruza os braços, porque é mais fácil atribuir a culpa ao sistema, à escola ou a quem quer que seja do que vestir a camisa da educação e se dedicar a ela.

3 MATERIAL E MÉTODO

Foi realizada revisão sistemática de literatura, com análise crítica das publicações sobre avaliação da aprendizagem. Assim, realizou-se consulta em bases de dados virtuais, e-books, e livros físicos, cujo assunto principal fosse a avaliação da aprendizagem e suas vertentes.

4 CONCLUSÃO

A partir da revisão de literatura foi possível reconhecer que a avaliação é componente fundamental ao processo de ensino-aprendizagem. Já durante o planejamento curricular, deve-se pensar nos critérios e estratégias de avaliação a serem praticados. Pôde-se perceber que a prática da avaliação formativa é interessante em todos os níveis, por permitir ao professor diagnosticar as dificuldades dos aprendentes ao longo do processo educativo, e não só ao fim, o que possibilita a tomada de decisões e a realização de intervenções a qualquer momento, em todas as etapas da aprendizagem.

O grande desafio da avaliação da aprendizagem é mudar a visão de que a avaliação deve colocar o aluno à prova, é colocar em prática a concepção de que a avaliação é um meio de auxílio para a promoção do aluno ao próximo nível. Outras dificuldades encontradas foram a pouca valorização e a baixa remuneração dos professores, que os deixa menos motivados a desempenharem suas funções e os leva a realizarem múltiplas jornadas, e que incide também no fato de haverem casos em que mais de um professor leciona a mesma disciplina no decorrer do ano letivo; os espaços físicos insuficientes e/ou inadequados, os recursos didáticos escassos, o elevado número de alunos por turma, que dificulta a comunicação e a absorção de informações em sala de aula, entre outros. Afinal, a avaliação deve ter como finalidade a orientação da aprendizagem, a autonomia dos alunos em relação à própria avaliação e a verificação das competências adquiridas.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Pedro Ferreira de. Avaliação da aprendizagem. Domínio público. [2001?]. 4 p.

Potira Pereira Machado Albinati
Enfermeira docente, cursando Especialização em Saúde Pública e em Enfermagem do Trabalho. Professora e supervisora de estágio pela Escola São Judas no período de março a dezembro de 2011.
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