Adquirindo a Sintaxe

PEDAGOGIA
Sabemos que, para adquirir a linguagem, a criança tem como tarefa básica à apreensão de como se manifestam relações diferentes nos enunciados de sua língua materna e que, para tanto, ela necessita entender como as formas sintáticas são usadas. Para exprimir as relações funcionais entre os termos do enunciado, ou seja, quais formas sintáticas são usadas, por exemplo, para exprimir as relações entre sujeito e predicado; entre modificador e núcleo.

Além disso, ela precisa apreender quais são as formas sintáticas utilizadas na expressão de tempo, número e assim por diante.

Vejamos como isso acontece.

A aquisição da sintaxe ocorre na fase, em que a criança produz as chamadas palavras-frase. Mas, que vêm a ser as palavras-frase? São as palavras que a criança produz parecidas com as sentenças. Ou seja, quando ela diz:

11. “aga!”,
12. “aga, aga, aga”, e
13. “aga?”, ela não está apenas reproduzindo pela imitação um som que ouviu dos adultos. Ela está nos informando que:
11a. “ela está vendo água”,
12a. “ela quer água” e, por fim, está nos perguntando:
13a. “é água?”.

A diferenciação de sentido atribuído ao enunciado de uma só palavra de uma forma gerativa é dada pela aplicação da intensidade e dos marcadores entoacionais.

Menyuk (1975) apresenta algumas observações feitas sobre a estrutura dos enunciados produzidos durante esta fase de desenvolvimento, que são relatadas a seguir.

1 – os enunciados de uma só palavra não pertencem a uma única classe gramatical, podendo ser categorizados. De acordo com as classificações dicionarizadas, em substantivos, verbos, adjetivos e preposições (Menyuk, 1969, cap.2), podendo ocorrer uma grande similaridade nos itens lexicais utilizados por todas as crianças, como, por exemplo, o uso inicial de palavras como.

14. “mama”,
15. “tata”,
16. “papa”
17. “au-au”,
18. “nenê” e, de palavras onomatopaicas, como
19. “tom-tom”;

2 – Os enunciados de uma só palavra não são funcionalmente utilizados para nomear objetos, podendo ser usados ou interpretados como imperativos afirmativos ou interrogativos;

3 – Os enunciados de uma só palavra podem ser articulados de um modo padronizado, ou de forma distorcida, podendo ser, também, invenções da criança;

4 – Na fase dos enunciados de uma só palavra, a criança pode estar produzindo longos enunciados balbuciados que contenham itens lexicais irreconhecíveis, mas marcados pela entoação e intensidade, bem como pode estar produzindo itens lexicais isolados e irreconhecíveis. Isto acarreta na possibilidade de ocorrer uma transvariação no uso destas estruturas, que pode ser encontrada durante todas as fases do desenvolvimento;

5 – As formas usadas, pela criança, para expressar vários significados nesta fase do desenvolvimento são itens lexicais isolados marcados pela entoação e ênfase;

6 - O uso dessas formas ocorre a partir do enunciado imperativo inicial de choro e do enunciado declarativo do arrulho até os enunciados declarativos, imperativos e interrogativos no balbucio; dos enunciados balbuciados aos enunciados de uma só palavra, afirmativos, interrogativos, imperativos e negativos;

7 – A compreensão do significado dos itens lexicais, dos traços prosódicos e numa certa extensão, da estrutura das sentenças em que são produzidos, precede a produção do item lexical em muitos meses, não estando claro em todas as ocorrências;

8 – A criança parece ter somente a capacidade de estocar na memória os traços e propriedades de apenas um item lexical e não os de uma sequência, para a geração produtiva;

9 – Os aspectos relevantes da estrutura dos enunciados ouvidos são os seus padrões de intensidade e de entoação;

10 – Nos primeiros enunciados de uma, duas ou três, produzidas pelas crianças, observou-se que são omitidos os artigos, verbos de ligação e outras palavras denominadas morfemas relacionais;

Considera-se importante ressaltar aqui, a pesquisa realizada por Shipley, Smith e Gleitman (1965) nas quais foram apresentados brinquedos no local e o substantivo do enunciado sempre era o nome do brinquedo que os sujeitos podiam identificar. A população desta pesquisa foi dividida em dois grupos de acordo com as produções espontâneas: a) menos avançada – produção de uma só palavra; b) mais avançada – produção de duas palavras. O grupo mais avançado apresentou como resposta mais freqüente, sentenças gramaticais imperativas; enquanto o grupo menos avançado apresentou respostas relevantes com a palavra isolada. Os resultados desta pesquisa permitem inferir que as crianças menos avançadas prestam atenção apenas ao item da cadeia com que estão mais familiarizadas, mais do que ao acento da intensidade. Já, as crianças mais avançadas obtêm pistas da reposta mais com a estrutura do enunciado do que com a palavra tônica.

Outra pesquisa, realizada com crianças de 2 anos e meio a 3 anos, observou o efeito da intensidade e posição na recordação das sílabas. Seu resultado indica que crianças desta idade são sensíveis às pistas acústicas de intensidade ao recordar uma cadeia de sílabas sem sentido, sendo que a última sílaba da cadeia é recordada corretamente com mais frequência.

Observou-se, também, que em relação à aquisição de novas estruturas, a criança pode empregar um determinado tempo observando certas estruturas e como elas podem ser utilizadas. Não as produzindo a não ser algum tempo depois, como pode estar empregando uma parte do tempo, produzindo estas estruturas e observando o quanto sua produção se ajusta às suas verificações antes de observar outras estruturas.

Estes resultados implicam na dedução de que a semelhança e precisão de repetição podem ser o resultado do nível de competência linguística da criança, ou seja, daquilo que ele entende a respeito da estrutura do enunciado.

À medida que as crianças entrem em contato com outros contextos, suas sentenças-cópias podem não preencher adequadamente os requisitos da situação e, desta forma, ela expande seus enunciados.

Como as sentenças aumentam em extensão e a amplitude da memória auditiva se amplia, conforme a criança vai amadurecendo seu conhecimento sintático presume-se que a amplitude da memória auditiva seja um mecanismo a partir daí e que permite a produção de enunciados mais longos. E que há limites nos mecanismos vocais motores das crianças novas que restrinjam a extensão de enunciados típicos.

Mackay (1968) constatou que a velocidade da fala das crianças é menor que a dos adultos, por isso, a produção e o entendimento de enunciados podem refletir estas restrições das amplitudes de memória e de produção.

Sobre as orações iniciais foi observado que:
1-As classes concebidas como átonas (artigos e preposições) aparecem nesses enunciados;
2-Há restrições impostas sobre a sequência da ocorrência de morfemas nestes enunciados.

Ou seja, sequências como, por exemplo:
20. “lápis o”,
21. “bola nenê a do” não ocorrem, o que indica seleção dos morfemas produzidos, bem como seu arranjo, não ocorre por acaso, apesar de alguns deles conterem combinações sequenciais que as crianças nunca escutaram.

Isto demonstra que as crianças selecionam alguns morfemas dos enunciados escutados e arranjam-lhes sequências de forma especial, assinalando-se que os enunciados de uma só palavra das crianças possuem mais uma função assertiva do que de rotular os objetos no contexto. Ou seja, algo está sendo afirmado, interrogado, exigido ou enfatizado sobre algo. Portanto, o tópico da sentença está sendo modificado.

Esses enunciados iniciais (menores) foram categorizados por Gruber (1967) como performativos e à medida que eles se estendem, ou seja, ficam maiores, mantendo os elementos iniciais, denominou-os de reportativos.

Os enunciados performativos são frases com predicado e não atribuem nenhuma característica ao tópico, as sentenças que são usadas para exigir ou indicar. Assim, quando a criança produz, por exemplo:

22. ‘meia meu’, a criança pode estar dizendo:
22a. “Eu quero minhas meias”,
22b. “Estas são minhas meias”,
22c. “Estas meias são minhas?” Dependendo da intensidade e do marcador de entoação do enunciado.

Vejamos outro exemplo:
23. “olha bonita”
Esse enunciado, de acordo o nível de intensidade e do marcador de entoação que lhe atribuído, pode expressar:
23a. “Veja que bonita!”
23b. “Estou vendo algo bonito, veja também!”
23c. “O que eu estou vendo é bonita?”

Gruber, bem como outros pesquisadores, constatou que quando utiliza desses enunciados a criança, geralmente, aponta para um objeto, ou segura, ou estende suas mãos para segurá-lo ou rejeitá-lo.

Devido às ações que os acompanham de seus traços prosódicos e de seu conteúdo, eles comunicam significações básicas adequadas, por vezes redundantes.

Além disso, mesmo não possuindo estrutura completamente bem formada destes tipos de sentença, podem ser classificadas com as denominações, apresentadas na tabela a seguir, extraída de Menyuk (1975) e adaptada por mim.

Todas estas demonstrações nos mostram como ocorrem as mudanças na estrutura dos enunciados das crianças, durante esta fase de desenvolvimento.

A partir da hipótese dos universais linguísticos somados à hipótese de todas as línguas possuírem as mesmas regras de estrutura básica subjacente (apesar da ordem dos elementos poderem variar de língua para língua). Inferiu-se que os enunciados podem ser gerados pela junção de duas ou mais sentenças, durante a fase de aquisição de estruturas e de operações transformacionais.

Observou-se, nas pesquisas, que as sentenças iniciais geradas pelas crianças seguem essa dedução, tendo em vista que a forma mais simples de expandir o enunciado é a adição de uma sentença à outra.

Mas, a criança além de juntar sentenças de uma só palavra percebe restrições na conjunção de seus elementos, seja em relação à suas propriedades ou em relação a sua ordem no enunciado.

Assim, constatamos que algumas sequências não são utilizadas, pelas crianças, nos enunciados, mas são facilmente observáveis nos enunciados do adulto, como por exemplo:

24.“Vá para o quarto”;
25.“Venha pegar o cachorro”.
Porém, as seguintes sentenças são encontradas nessa fase.
26.“aquele meu boneco”
27.“quero aquele livro” enquanto, não há registro da produção, pelas crianças, de suas inversões, tais como:
26a.“meu aquele boneco”
27a.“aquele quero livro ”
À medida que ocorre a evolução do enunciado, essas sentenças podem se desenvolver para enunciados, como:
28.“eu quero aquele livro”.

Essas observações levam à dedução de que as regras gramaticais básicas são realizadas nos enunciados, através da conjunção de sentenças, não ocorrendo inversões, tais como:
a)Predicado –sujeito
quero o livro meu, no lugar de
quero o meu livro
b)Objeto - verbo
aquele livro quero, no lugar de
quero aquele livro
c)Substantivo – determinante
livro meu, no lugar de meu livro na linguagem das crianças, nessa idade.

É importante ressaltar que as pesquisas realizadas se voltam para a aquisição da língua inglesa. Desta forma, apesar dos dados apresentados ocorrerem em outras línguas também, durante a aquisição da língua portuguesa, algumas dessas inversões acontecem.

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