Manifestações periodontais na gravidez

Manifestações periodontais na gravidez
ODONTOLOGIA
A gravidez é uma situação especial para o diagnóstico e o tratamento periodontal. Pesquisas recentes mostram que a doença periodontal pode alterar a saúde geral da gestante e causar efeitos indesejáveis para o bem-estar do feto, elevando o risco de parto prematuro e de bebês com baixo peso do nascimento.

Pinard relatou em 1877 o primeiro caso de "gengivite da gravidez". Apenas recentemente, a pesquisa em Periodontia começou a enfocar os mecanismos causadores desse tipo de gengivite.

A gengivite da gravidez consiste numa patologia extremamente comum, ocorrendo em cerca de 30 a 75% das mulheres grávidas. Caracteriza-se pela presença de eritema, edema, hiperplasia e de aumento no sangramento gengival. Histologicamente, a descrição é igual à gengivite; os fatores etiológicos, entretanto, são diferentes, apesar das semelhanças clínicas e histológicas. Os casos variam entre inflamações moderadas a hiperplasias graves, com dor e sangramento.

As alterações nos mecanismos imunoinflamatórios que ocorrem durante a gravidez podem estimular uma resposta exacerbada das estruturas periodontais de suporte. A condição periodontal prévia à gravidez pode influenciar na progressão e na gravidade da doença, devido à flutuação no nível hormonal no sangue.

A gengivite gravídica envolve comumente a gengiva da região anterior da boca e as áreas interproximais tendem a serem as áreas mais envolvidas. O edema tecidual pode aumentar a profundidade das bolsas gengivais e provocar mobilidade dentária transitória. A inflamação na região anterior pode ainda se tornar mais intensa quando existe respiração bucal excessiva, principalmente no primeiro trimestre, por causa da "rinite da gravidez".

Está comprovada que existe uma alteração na composição da placa subgengival da paciente grávida. Kornman & Löesche observaram em seu estudo que, durante o segundo trimestre da gravidez, há um aumento da gengivite e do sangramento gengival sem nenhum aumento no nível de placa. Entretanto, a proporção entre bactérias aeróbicas e anaeróbicas aumentou assim como Bacteroides melaninogenicus e Prevotella intermedia (de 2.2 para 10,1%). Houve também aumento de Porphyromona gingivalis. Na gengivite gravídica parece haver uma mudança do tipo de microbiota subgengival, predominando as bactérias anaeróbias.

Durante a gravidez, o hormônio progesterona chega ao nível de 100 mg/ml, 10 vezes mais que seu pico na fase lútea do ciclo menstrual. O estradiol no sangue pode estar 30 vezes mais alto do que durante o ciclo reprodutivo. O estrógeno e o hormônio progesterona têm diferentes papéis. O estrógeno pode regular a proliferação ce¬lular, a diferenciação e a queratinização dos tecidos de revestimento, enquanto a progesterona influencia a permeabilidade em nível da micro vascularização, altera o índice e o padrão de produção de colágeno e aumenta o metabolismo dos folatos (necessário para a manuten-ção dos tecidos).

Uma alta concentração dos hormônios sexuais no tecido gengival, saliva, soro e flui¬do crevicular gengival (FCG) pode intensificar, da mes¬ma maneira, a resposta inflamatória tecidual. Já em 1982, Vittek et aI. demonstraram a presença de receptores específicos para o estrógeno e a progesterona no tecido gengival. Dessa forma, esta se torna uma evidência bioquímica direta de que esse tecido pode funcionar como um espelho, mostrando os níveis dos hormônios sexuais. Muramatsu & Takaesu (1994) encontraram um aumento da concentração dos hormônios sexuais na saliva, no primeiro mês de gestação, alcançando seu pico aos nove meses, junto com o aumento na por-centagem de Prevotella intermedia. Consequentemente, o número de áreas gengivais sangrentas e com vermelhidão aumentou até um mês após o parto. Existe também evidência de concentração dos hormônios sexuais no fluido crevicular gengival, promovendo um meio de cultura adequado para os patógenos periodontais.

A avaliação periodontal da paciente grávida começa com um levantamento cuidadoso da sua história mé¬dica. Essa história deve salientar qualquer complicação que a paciente apresente e relatar a ocorrência de abortos espontâneos prévios, cólicas, manchas e vômito pernicioso. Sendo possível, o passo seguinte é contatar o obstetra para discutir a condição médica da paciente, as necessidades de tratamento dentário e a proposição do tratamento a ser realizado.

Outra patologia bucal relativamente comum em mulheres grávidas é o granuloma gravídico, que é indistinguível histologicamente dos granulomas piogênicos orais. Embora sugerido pelo termo, o granuloma gravídico não representa consequência da gestação, mas sim um fator predisponente à lesão face às alterações hormonais que ocorrem nesse período. Aparece geralmente durante o segundo ou terceiro mês de gestação.

O granuloma piogênico representa um crescimento tecidual na forma de pápula ou nódulo, consistindo em uma reação excessiva do tecido conjuntivo frente a estímulos variados como acúmulo de placa e cálculo, corpos estranhos e trauma. Acomete indivíduos de qualquer idade, embora seja mais comum nas crianças e nas mulheres adultas jovens.

Embora o termo se refira a um granuloma e à presença de pus, tais elementos não são encontrados na lesão, sendo esta decorrente de uma produção incontrolada de tecido de granulação durante a fase de reparação.

Origina-se, com maior frequência, na papila interdental dos dentes anteriores superiores, localizando-se também na língua, lábios, mucosa bucal e rebordo alveolar endentado. Pode ser séssil ou pedunculado, apresentando rápido desenvolvimento. A lesão apresenta coloração vermelho-brilhante que, com o passar do tempo, devido à maturação da lesão, torna-se rósea, resultado do aumento da fibrose e diminuição da vascularização. É geralmente indolor, porém, algumas vezes o tecido pode ulcerar provocar sangramento e sintomatologia decorrente de traumatismo local.

O tratamento dos granulomas gravídicos consiste na remoção do fator irritativo causal e observação clínica. Na maioria dos casos, as lesões regridem após o término da gestação. Quando não ocorre a regressão do granuloma, é recomendada a excisão cirúrgica após o término da gestação. Pode haver recorrências.

O diagnóstico diferencial do granuloma piogênico deve ser realizado com outras patologias que se caracterizam clinicamente pelo crescimento tecidual, como a hiperplasia fibrosa inflamatória, a lesão periférica de células gigantes e o fibroma ossificante periférico.

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