Relação entre cognição e linguagem

Relação entre cognição e linguagem
FONOAUDIOLOGIA
Para Mogford & Bishop (2002) a relação entre cognição e linguagem é um tema recorrente e de muito interesse entre os psicolinguistas. Pode a linguagem desenvolver-se amplamente como um sistema autônomo, ou existe algum dote cognitivo necessário antes da aquisição da habilidade verbal? Essa pergunta tem permeado muitas pesquisas.

 Se essa questão for analisada pela perspectiva de que certas habilidades cognitivas não verbais são pré-requisitos para o desenvolvimento da linguagem (como na teoria piagetiana), então “as crianças que não possuem tais habilidades não seriam capazes de desenvolver a linguagem”. Piaget, como vimos, salientava que a linguagem aparece após um estágio do desenvolvimento cognitivo, sendo que o aspecto cognitivo era necessário para o aparecimento da linguagem.

Porém, ao considerar que “as crianças nas quais o desenvolvimento sensorial, motor ou mental estão prejudicados de várias formas, nas quais a linguagem e outros aspectos do desenvolvimento cognitivo estejam dissociados” torna-se possível demonstrar a independência lógica do sistema cognitivo e linguístico.

Aqui não falaremos das alterações de linguagem nas deficiências auditivas, cognitivas, mentais, motoras e neurológicas, mas, quando analisamos os aspectos da linguagem nessas deficiências, pode-se observar que a linguagem pode se manter, em maior ou menor grau, independente dos aspectos cognitivos.

Vimos que, na concepção de Vygotsky, as atividades mentais e de comunicação humana são sociais e dialógicas em sua gênese, estrutura e funcionamento.

Para ele, o desenvolvimento humano se dá nas trocas entre parceiros sociais, por meio de processos de interação e mediação. Os fatores sociais, de acordo com Vygotsky, desempenham um papel fundamental no desenvolvimento intelectual.

Quando o conhecimento existente na cultura é internalizado pelas crianças, as funções e as habilidades intelectuais são provocadas para o desenvolvimento deste conhecimento; este aprendizado leva ao desenvolvimento, tornando-se um círculo que leva ao desenvolvimento contínuo.

A aprendizagem é o processo pelo qual o sujeito adquire informações, habilidades, atitudes, valores, etc., a partir de seu contato com a realidade, o meio ambiente e com o outro, possibilitando o despertar de processos internos do sujeito.

É na troca com o outro e consigo mesmo que se vão internalizando conhecimentos, papéis e funções sociais, o que permite a formação do conhecimento e da própria consciência – a troca com o outro é feita por meio da linguagem.

Vygotsky aponta uma relação interna (de constitutividade) entre cognição e linguagem, e como nos traz Morato (2000) “o que coloca Vygtosky entre os que entendem que a relação entre linguagem e cognição (e não apenas ‘pensamento’) passa pela noção de significação (e não propriamente pela noção de comunicação ou pela de representação).”
Então, poderíamos dizer: LINGUAGEM > TROCA COM O OUTRO > AQUISIÇÃO DE INFORMAÇÕES/CONHECIMENTOS > TROCA COM O OUTRO > POR MEIO DA LINGUAGEM – portanto, linguagem e cognição caminham lado a lado e se entrelaçam em determinados momentos. O sujeito precisa da linguagem para desenvolver, precisa do conhecimento para se expressar, e a expressão desse conhecimento se dá por intermédio da linguagem. Existe uma interdependência entre cognição e linguagem.

Existem períodos críticos para o desenvolvimento da linguagem?

A maioria dos autores concorda que os primeiros anos de vida são cruciais para o desenvolvimento da linguagem, e de que se algum fator interferir na aquisição da linguagem neste período, “é possível não poder recuperar posteriormente o déficit de linguagem, mesmo que o fator causador deste seja retirado” (MOGFORD & BISHOP, 2002, p. 24-25).

É o que pode se observar no filme “A maçã”, em que as gêmeas, após anos e anos trancafiadas, apresentaram um déficit de linguagem muito grande. Podemos observar que casos de isolamento e negligência (como no filme), privações – não só alimentar, mas social, emocional e de estimulação no início da vida – podem interferir e muito na aquisição e desenvolvimento da linguagem.

Esses quadros poderão ser revertidos com a terapia, com estimulação? Alguns, os autores afirmam, dependendo da idade em que esse processo terapêutico/estimulação tem início.

Quanto mais tarde, mais difícil recuperar o tempo perdido. Os aspectos de plasticidade na representação neurológica da linguagem diminuem com a idade, “de forma que a probabilidade de permanecerem deficiências linguísticas após uma lesão de hemisfério esquerdo aumentar com a idade.”

Colunista Portal - Educação
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