Mieloma múltiplo: Doença rara requer diagnóstico rápido e preciso

Mieloma múltiplo: Doença rara requer diagnóstico rápido e preciso
FARMACIA
Aos 47 anos, Lúcia Pereira Gomes Fava descobriu que estava com mieloma múltiplo. Tudo começou com dores no fêmur - osso localizado na coxa. Adepta a prática de exercícios físicos e com uma vida bem movimentada, ela resolveu procurar um ortopedista. O médico pediu vários exames e desconfiou de problema no osso da bacia. "Quando vieram as dores ainda brinquei, dizendo que estava ficando velha", lembra Lúcia.


O mieloma múltiplo é uma doença rara e de diagnóstico nem sempre claro. É um tipo de câncer dos plasmócitos, que são células produtoras dos anticorpos imunoglobulinas. Ele não se apresenta na forma de tumores ou nódulos, suas células ficam espalhadas pela medula óssea. Normalmente elas representam menos de 5% da composição da medula. Quando a pessoa tem mieloma, os plasmócitos crescem em número superando os 20% do total das células da medula óssea, podendo chegar a até 90%. "Essa doença é muito sofrida e a sobrevida média de um paciente, com tratamento, é entre 3 e 4 anos", informa Vânia Hungria, professora de Hematologia e Oncologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.


Lúcia fez sessões de fisioterapia, que não resolveram. Procurou, por iniciativa própria, a acupuntura, até que chegou um dia em que ela não conseguia levantar da cama. "Eu travei, não conseguia levantar. Liguei para um primo que é médico. Ele aplicou uma injeção e me levou para o hospital", recorda Lúcia. No início, os médicos desconfiaram de hérnia de disco e novos exames foram pedidos. Um deles apontou o nível da proteína IgA muito alto. "Na hora, eu brinquei, achando que proteína em excesso era bom", conta.


O mieloma representa 1% de todos os tipos de câncer, mas é o segundo mais comum no sangue. Nos EUA, a estimativa é que, a cada ano, surjam 15 mil novos casos de mieloma múltiplo. No Brasil, não existem levantamentos específicos. Como a miscigenação é grande, calcula-se que a incidência da doença está em sete casos para cada 100 mil habitantes.



A DEFICIÊNCIA BRASILEIRA EM DIAGNOSTICAR

Com o exame em mãos, Lúcia procurou um hematologista que, ao analisar o resultado, explicou que ela tinha um câncer raro e maligno. "Na hora fiquei aflita porque um câncer prolifera", relembra. Do momento em que ela sentiu as dores até o diagnóstico final foram três meses. "O Brasil tem um sério problema em diagnosticar o mieloma. Alguns pacientes passam dois anos tratando sintomas sem saber que tem a doença e chegam para o tratamento do câncer já em estágio avançado", avisa Ângelo Maiolino, professor de Hematologia e coordenador do Programa de Transplante de Medula Óssea do Hospital Universitário Clemente Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


A falta de informações sobre a doença é uma barreira a ser vencida. No Brasil, ao contrário do que acontece nos EUA, a pessoa passa por diversos médicos até chegar a um hematologista e iniciar o tratamento do mieloma em si. "O correto é pedir um diagnóstico completo quando o paciente se queixar de dores ou apresentar quadros de anemia. Toda dor tem uma razão e é preciso tratar a causa", informa Maiolino ao contar que as pessoas com mieloma chegam ao Hospital Universitário em situação dramática, com insuficiência renal, fraturas ósseas e anemia grave.


Exames como eletroforese de proteína (feito a partir da coleta de sangue) possibilitam diagnosticar a doença. Mas um exame de sangue mais comum, o hemograma completo, pode apontar alterações causadas pelo mieloma, como a presença de anemia. Outra forma de diagnosticar esse câncer é com o teste Freelite; desenvolvido recentemente, ele detecta pequenas quantidades das células do mieloma no sangue.
AS VERTENTES DA DOENÇA

O mieloma múltiplo pode ou não apresentar sintomas. Quando eles não existem é porque o nível de proteínas ainda se encontra baixo e não requer tratamento. A doença ocorre em diversos tipos e suas vertentes são classificadas pela proteína que é apresentada em excesso. A diferença está no comportamento do câncer. As proteínas mais comuns são a IgG (imunoglobulina G) e IgA (imunoglobulina A). "O plasmócito secreta imunoglobulina inteira ou parte dela. As principais são IgG e IgA. O excesso de proteínas pode vir no sangue ou na urina, nesse caso é chamada proteína de Bence Jones", explica Vânia.


O TRATAMENTO E SEUS EFEITOS

Com a doença diagnosticada, parte-se para o tratamento. "De forma geral fazemos sessões de quimioterapia e depois o transplante", informa Vânia. "Foram quatro sessões de quimioterapia no começo. Era muito forte, cheguei a perder a coordenação motora", conta Lúcia lembrando do início do tratamento.

Atualmente, a forma mais usada para se atingir a remissão completa do mieloma, não a cura, é através do transplante de células tronco hematopoéticas. Elas podem ser coletadas de três formas: diretamente na medula óssea, no cordão umbilical, ou no chamado sangue periférico. Normalmente, o transplante é autólogo - o paciente como próprio doador. Nesses casos, antes da coleta das células, a dose de quimioterapia é aumentada para reduzir o nível de células cancerígenas.

"Fiz meu primeiro transplante em abril de 1995. Queriam fazer dois transplantes seguidos, mas eu disse que não agüentaria. Você fica muito vulnerável à infecções", recorda Lúcia. "Recomenda-se o segundo transplante seguido quando a resposta não é satisfatória, caso contrário, só quando houver a recidiva", esclarece Maiolino.

De modo geral, o transplante tem garantido aos pacientes pelo menos 5 anos sem a presença da doença. Na recidiva, o mieloma pode vir com ou sem sintomas. "Ele pode voltar com vários problemas. Quando houver somente o aumento de proteínas, pode não ser necessário a retomada do tratamento", explica Brian Durie, diretor do programa de Mieloma do Cedars-Sinai Cancer Center na Califórnia, EUA e fundador da International Myeloma Foundation (IMF).

No caso da Lúcia, o mieloma voltou em fevereiro de 2000. O indicador foi dor no dedo da mão. Um caso isolado, isso porque esse tipo de câncer costuma afetar somente ossos grandes. "Fiz o exame e constatou a recidiva" conta Lúcia, que em março retomou a quimioterapia e, em agosto do mesmo ano, fez o segundo transplante. "Foi bem difícil, meu rim parou e fiquei internada na semi-intensiva", recorda. Hoje, além de fazer exames a cada seis meses, Lúcia toma o medicamento Zometa (ver boxe).

Além da quimioterapia e do transplante, o mercado dispõe de alguns medicamentos que são usados para tratar a recidiva ou para dar continuidade no tratamento pós-transplante, como é o caso da Talidomida, distribuída gratuitamente pelo governo.

Uma outra medicação, que tem se mostrado eficiente, é o Velcade do laboratório Ajanssen-Cilag. Ele degrada as proteínas dentro das células e bloqueia a proliferação. "Em três meses de tratamento já se tem boa resposta", atesta Durie. O problema é o preço: US$1.000 cada aplicação. O tratamento requer quatro doses e ainda não é custeado pelo governo brasileiro. Nenhuma das duas medicações é usada como primeira opção de tratamento para a doença. Existem estudos para isso, mas ainda não há nada comprovado.
EM ESTUDO

Ainda em estudo está o Revlimid, do laboratório Celgene. Seu uso ainda não está aprovado no mundo. Ele tem ação similar à da Talidomida, inibindo a angiogênese - formação de vasos sangüíneos que, normalmente, acompanha o crescimento da doença - e tem gerado grandes expectativas por causar menos efeitos colaterais e ter toxidade baixa.


Um estudo em fase 3, nos EUA, com 350 pacientes, mostrou que o Revlimid em combinação com o dexametasona (medicamento usado em tratamento quimioterápico), levou 61,2% das pessoas a apresentarem remissão da doença. "Existem vários estudos em andamento, mas não se sabe quais serão os resultados. Em um deles pode estar a chave da remissão total do mieloma", esclarece Durie.



LUTANDO CONTRA O MAL

"Os pacientes com mieloma estão vivendo mais. É uma doença com a qual a pessoa pode conviver por muitos anos", lembra Durie. A afirmação do especialista norte-americano se faz verdadeira e tem como exemplo Lúcia, que há mais de dez anos convive com o câncer.


"Quando descobri, fiquei em choque. É uma doença que pode matar em dois meses. Aí eu pensei, tenho marido, duas filhas, preciso segurar a barra", lembra Lúcia, que conversou sobre o tratamento com a família e disse que estava na hora de pensar mais em si mesma.


Lúcia leva uma vida normal. Aos 58 anos, depois de dois transplantes, é frequentadora assídua das aulas de uma academia e cuida da casa. "Até procurei emprego, mas é difícil pela idade" conta ela que foi aposentada por invalidez logo após o primeiro transplante.


A luta contra o câncer depende muito da própria pessoa. O apoio da família é fundamental. "É uma luta que você tem que enfrentar", finaliza Lúcia, que deixa um conselho: "continuem lutando com todas as forças, porque vale a pena viver. A gente consegue vencer seja o que for".


Onde buscar ajuda


A escassez de informações sobre a doença no País foi um ponto importante na instalação da International Myeloma Foundation (IMF) para a América Latina no Brasil. A frente da fundação está Christine Jerez Telles Battistini, que assistiu a luta da mãe contra o mieloma múltiplo por oito anos. A IMF chegou ao Brasil em setembro do ano passado, mas já existe nos EUA há sete anos.


"Nosso objetivo é dar apoio aos pacientes, enquanto buscamos a cura para a doença", informa Christine. Integrantes da fundação, tanto no Brasil, quanto em âmbito internacional, acreditam que o paciente bem informado tem melhor condições de discutir o tratamento com o médico, por que o que é bom para um pode não ser para outro.


A atuação da IMF vem através da realização de seminários, onde médicos e pacientes trocam informações e são apresentados ao que há de mais atual no tratamento da doença. A instituição também distribui materiais gratuitamente, como o manual do paciente, dando detalhes sobre a doença.
Tratamento de suporte

Mesmo depois das sessões de quimioterapia e do transplante, os pacientes com mieloma precisam de acompanhamento médico, para medir a evolução do quadro, e também para a administração de medicamentos.


Os chamados bisfosfonatos têm sido muito utilizados como terapia de suporte. São medicamentos que combatem a hipercalcemia (excesso de cálcio no sangue) e diminuem os eventos ósseos. "É uma terapia de suporte que melhora a qualidade de vida do paciente" informa Vânia Hungria. Atualmente o mais usado é o zometa, da Novartis. Ele é mais potente, tem poucos efeitos e sua aplicação, feita no hospital, leva menos tempo que a de medicamentos similares.


Causas e sintomas

Ainda não se tem um motivo ou fator ligado diretamente ao surgimento do mieloma múltiplo. Contudo, sabe-se que a doença é mais comum em homens acima dos 50 anos e em negros. Existem teorias sobre o impacto da idade, que incluem a redução da capacidade do sistema imunológico de eliminar possíveis células causadoras do mieloma, efeitos hormonais e outros fatores do envelhecimento. Dos pacientes com a doença, somente entre 5% e 10% têm menos de 40 anos.


Eventos ósseos, como fraturas e enfraquecimento, são comuns nas pessoas que sofrem desse câncer. "O mieloma atua como uma traça, comendo a ponta dos ossos", explica Brian Durie. E por conta disso, muitos casos são diagnosticados como osteoporose. Os pacientes com a doença podem ainda apresentar quadros de anemia, disfunção renal e elevação do nível de cálcio no sangue, causada pela destruição dos ossos.


Fonte: Agência Estado

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