Piaget e a Noção de Tempo

Piaget e a Noção de Tempo
PEDAGOGIA

Em seus estudos Piaget trouxe importantes contribuições para o entendimento do processo de aquisição do tempo enquanto um conjunto de operações que permitem coordenar os movimentos dotados de velocidade, tanto dos objetos externos quanto dos estados internos aos sujeitos.

Em seus trabalhos sobre a noção de tempo, Piaget realizou estudos sobre a sucessão dos acontecimentos percebidos e sobre a ideia de simultaneidade. O método empregado nos dois estudos foi muito semelhante e consistiu em dois carrinhos que se deslocavam de um ponto a outro no espaço. Os carrinhos podiam partir do mesmo ponto ou de pontos diferentes, ter a mesma velocidade ou velocidades diferentes e ainda andar durante o mesmo tempo, ou tempos diferentes. Piaget perguntava às crianças: qual carrinho tinha andado mais tempo, ou qual tinha maior velocidade, ou ainda qual tinha percorrido a maior distância. Ele descobriu que as crianças que se encontravam no período pré-operacional não conseguiam coordenar as sucessões temporais e espaciais e também não julgavam que os movimentos eram simultâneos. Em geral, confundiam os conceitos de tempo, distância e velocidade, não distinguindo muito bem um conceito do outro. Ao fazerem julgamentos sobre tempo, por exemplo, afirmavam que a duração era sempre proporcional ao caminho percorrido.

Dessa forma, concluiu que o conceito de tempo somente é adquirido quando a criança já tem a noção de velocidade sob uma forma operatória, isto é, como uma relação entre o espaço percorrido e essa dimensão (tempo), comum às diferentes velocidades. Considerou ainda que os conceitos de tempo, distância e velocidade são construtos, não estão presentes a priori na mente da criança, mas requerem uma construção. Inicialmente (estágio I), a criança pré-operacional julga somente levando em consideração o ponto de parada. No estágio II, a criança começa a considerar outros fatores, como o ponto de partida. É o período em que inicia a descentração, mas ainda intuitivamente. Finalmente, no estágio III, a criança obtém o pleno domínio desses conceitos.

Piaget trabalha com a hipótese da existência de um tempo operatório que pode ser quantitativo ou métrico e consiste em relações de sucessão e duração em que predominam as noções de duração e sucessão baseadas na percepção. Ele aponta conhecimentos que possibilitam a compreensão do educando na organização de procedimentos metodológicos para o trabalho com História nas séries iniciais onde a noção de tempo e espaço é construída, juntamente com a noção de espaço, uma vez que ambas noções são aspectos essenciais da lógica dos objetos e constituem um todo indissociável.

Segundo Piaget (1946) o tempo é a coordenação dos movimentos: quer se trate dos deslocamentos físicos ou movimentos no espaço, quer se trate destes movimentos internos que são as ações simplesmente esboçadas, antecipadas ou reconstituídas pela memória, mas cujo desfecho e objetivo final é também espacial e o espaço é um instantâneo tomado sobre o curso do tempo e o tempo é o espaço em movimento, os dois constituem o conjunto das relações de implicação e ordem que caracterizam os objetos e os seus deslocamentos.

De acordo com Piaget, a compreensão da noção de tempo é essencial para a compreensão da História que supõe a noção de tempo, sob o duplo aspecto da avaliação da duração e da seriação dos acontecimentos (Dutra, 2003).

Ao analisar a resposta das crianças, no que se refere à noção de passado, afirma que mesmo frente a realidades mais concretas ou mais conhecidas, o passado parece concebido em função do presente e não inverso, ou seja, as crianças veem o passado com os olhos do presente: na verdade o passado é para a criança apenas um decalque do presente, mas com uma espécie de aparência antiquada.

Nesse sentido, o passado é um vasto reservatório em que se encontram reunidos todos os embriões das máquinas ou dos instrumentos contemporâneos. (Piaget, apud Dutra, 2003). No que se referem à relatividade dos conhecimentos históricos as crianças vão deixando de ter uma análise egocêntrica para desenvolver um pensamento descentrado, admitindo a relatividade do conhecimento histórico.

O estudo do conceito de tempo histórico, então, significa um meio para atingir outros fins, uma vez que permite a estruturação dos conteúdos de história, orientada por uma visão de totalidade. O processo de construção do referido conceito contribui para a transformação do sistema cognitivo, permitindo adquirir novos conhecimentos, organizar os dados de outra forma, transformar inclusive os conhecimentos anteriores.

A estruturação dos conteúdos da história nas séries iniciais do ensino fundamental, segundo o conceito epistêmico de tempo histórico, é fundamental para o processo de assimilação dos conhecimentos, possibilitando definir estratégias de aprendizagem específicas para o desenvolvimento, em crianças, de uma orientação teórica na perspectiva da história.

De acordo com Fermiano (2004), se utilizarmos a teoria de Piaget para trabalharmos a construção dos três níveis de tempo histórico: tempo de curta duração (acontecimento, fato histórico), tempo médio ou média duração (situação econômica, social, política, cultural em determinada época), tempo de longa duração (estrutura: tipo de sistema ou formação social, econômica, política, cultural), de acordo com sua compreensão, sua vivência acontecerá um entendimento da disciplina de História de forma prazerosa.

O educando procura encontrar explicações para o passado elaborando-as a partir da sua vivência no mundo que a cerca. A pesquisa de Oliveira (2000) observa que o educando tem dificuldade no período operatório concreto, de analisar situações que envolvam duas variáveis ao mesmo tempo: idade e ordem dos nascimentos, assim como, “não relaciona ideia de sucessão no tempo”, isto porque a ideia de tempo histórico é uma construção causal e não meramente cronológica.

De acordo com Oliveira (2000), ao analisarmos as características de pensamento das crianças em relação ao passado observamos que ela não interpreta a história como uma série de acontecimentos sem nenhuma ligação, procura estabelecer relações para que os acontecimentos, fatos, sejam relacionados com um todo que ocorre simultaneamente e que há implicações em conjunto.

O ensino de História tem mostrado uma exigência cada vez maior neste sentido, pois as representações que os educandos fazem a respeito do mundo que a cerca, deve ser o ponto de partida para o trabalho, mas, para isto é preciso ouvir as ideias dos educandos, não precisa concordar, a princípio apenas ouvir. Utilizando das palavras de Fermiano, alfabetizar o olhar a respeito das imagens, as impressões, a oralidade, são novos pressupostos para o ensino de História que muito têm a ver com a teoria piagetiana porque pressupõem a ação do indivíduo em interação com o meio como princípio da aprendizagem.

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