Álcool: a ingestão moderada é maléfica?

Álcool: a ingestão moderada é maléfica?
NUTRICAO
Pequenas quantidades de álcool causam desinibição e euforia devido a sua ação no sistema dopaminérgico (pertencente ao sistema nervoso central), estimulando a liberação de neurotransmissores (serotonina, dopamina noradrenalina e peptídeos opioides) que são responsáveis pelo componente hedônico cerebral (sensação de prazer e da recompensa).


A ingestão de maiores quantidades afeta os neurotransmissores cerebrais: ácido gama-aminobutírico (GABA) e o glutamato.


O álcool potencializa os efeitos do GABA (principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central), produzindo sensação de relaxamento, sonolência e desânimo. Também altera a ação sináptica do glutamato (neurotransmissor excitatório), reduzindo a memória e cognição.


No estômago, o álcool provoca irritação da mucosa estomacal, mas é o fígado o responsável por metabolizar o álcool.
Primeiramente, a enzima álcool desidrogenase converte o álcool em acetaldeído. Posteriormente, a enzima aldeído desidrogenase converte o aldeído em ácido acético, que é finalmente convertido em dióxido de carbono e água para ser eliminado. Contudo, quando grandes quantidades de álcool são ingeridas, o organismo não consegue metabolizar totalmente o acetaldeído e este é acumulado no organismo.


A capacidade das enzimas metabolizarem o álcool difere de acordo com a genética do indivíduo, ou seja, mutações em genes específicos modificam a susceptibilidade às reações promovidas pelo álcool. Como exemplo, os asiáticos possuem alterações no gene responsável pela ativação da enzima aldeído desidrogenase, tornando seu metabolismo mais susceptível à ressaca. As mulheres também sentem mais os efeitos do álcool, comparadas aos homens, porque as enzimas hepáticas são menos ativas e devido à menor percentual de água no organismo (o álcool torna-se menos diluído, estando em maior concentração no sangue).


Devido à capacidade enzimática para eliminar o álcool, o tempo que leva para ser eliminado do organismo depende tanto da genética como da quantidade de álcool ingerida. Grandes quantidades podem levar de 12 a 16 horas para serem eliminadas.


A ingestão frequente de bebidas alcóolicas também pode ocasionar que o indivíduo desenvolva tolerância ao álcool. Quando a atividade do álcool desidrogenase encontra-se bloqueada, o organismo passa a utilizar outras duas vias: a CYP2E1, principal componente do sistema microssomal hepático de oxidação do etanol; e a catalase, localizada nos peroxissomas dos hepatócitos, responsável por apenas cerca de 10% do metabolismo do álcool.


A tolerância metabólica é resultado da eliminação mais rápida do álcool, fazendo com que uma quantidade cada vez maior da bebida seja necessária para produzir a mesma reação.

Benefícios do consumo moderado:

Apesar do consumo excessivo de álcool estar associado a diversas doenças (cirrose hepática, pancreatite, câncer, distúrbios do sistema nervoso central, entre outros), estudos epidemiológicos concluem que o consumo baixo ou moderado de bebidas alcoólicas reduz o risco de morrer em consequência de doenças cardiovasculares.


Particularmente, o vinho possui resveratrol. Um polifenol sintetizado por algumas plantas como uma reação defensiva contra ataques de bactérias e fungos.


É um antioxidante e antiinflamatório natural que: inibe a oxidação das lipoproteínas de baixa densidade (LDL); evita a formação de radicais livres, retardando o envelhecimento celular; reduz a permeabilidade capilar e melhora o fluxo sanguíneo; aumenta a liberação de óxido nítrico, diminuindo a agregação plaquetária e pressão arterial.


A atividade antioxidante é resultado da doação de um átomo de hidrogênio de seu grupo hidroxil (OH) para o radical livre, tornando a molécula estável.


Uma das maiores fontes dietéticas de resveratrol é o vinho tinto. Autores relatam que o suco de uva pode trazer os mesmos benefícios à saúde, contudo, a maioria dos estudos mostra que as quantidades de resveratrol no suco de uva são significativamente inferiores ao do vinho.


Para os europeus, o vinho é considerado um “elixir” devido à presença de minerais (magnésio, potássio, cobre, zinco, magnésio, iodo, boro) e vitaminas (biotina, ácido pantotênico, niacina, tiamina e ácido ascórbico).


A relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e o risco cardiovascular foi investigada demonstrando que a ingestão crônica de álcool em quantidades moderadas (15g de álcool/dia para mulheres, equivalente a uma taça de 140 mL de vinho; e 30g/dia para homens, o correspondente a duas taças para homens) tem efeito protetor cardiovascular.


Como os franceses são tradicionais apreciadores da bebida, em 1992, sendo denominada como “Paradoxo Francês”, a conclusão de epidemiológicos relatando que os habitantes de certas regiões francesas com consumo moderado de vinho tinham menor incidência de doença coronária que habitantes de outros países com semelhantes hábitos dietéticos (dieta rica em colesterol e gordura saturada), mas que não consumiam bebidas alcoólicas nessa proporção.


Embora não estejam elucidados os mecanismos responsáveis pela proteção cardiovascular, sugere-se que o etanol provoque efeitos antioxidantes, redução da agregação plaquetária, vasodilatação arterial mediada pela libertação de óxido nítrico, melhora da sensibilidade à insulina e redução da liberação de marcadores inflamatórios.


É necessário ressaltar que o consumo excessivo de álcool contribui para doenças cardiovasculares porque pode ocasionar derrame hemorrágico, favorece a coagulação e a trombogênese. O vinho também causa problemas de saúde se ingerido além dos limites.
O consumo aceitável de álcool segundo a Organização Mundial de Saúde corresponde a duas doses/dia para homens e uma dose/dia para mulheres. Uma dose padrão equivale a 10-15g de álcool: 330 mL de cerveja, 140 mL de vinho ou 40 mL de destilado.


Peculiaridades do consumo de álcool por indivíduos com diabetes mellitus:
Com exceção de gestantes, lactantes, pacientes com pancreatite, hipertrigliceridemia ou neuropatia diabética, não há necessidade de restrição total de bebidas alcoólicas a pacientes com diabetes.


A maior parte dos indivíduos que controla a glicemia de forma adequada pode ingerir quantidades pequenas ou moderadas de álcool. Contudo, é necessário atentar porque o álcool potencializa a ocorrência de episódios de hipoglicemia quando ingerido em jejum (os metabólicos do etanol inibem a gliconeogênese).


A bebida deve ser ingerida junto a refeições contendo carboidratos, verificando com maior frequência as concentrações de glicemia capilar.


O uso de bebidas alcoólicas deve ser evitado por pacientes que utilizam hipoglicemiantes à base de biguadinas porque o álcool interfere na ação do medicamento, estimulando a liberação de insulina pelo pâncreas e dificultando a retirada do paciente da hipoglicemia.


Apesar de elevar a glicemia (1g de álcool possui 7 kcal), não é possível contabilizar carboidratos em drinks (destiladas ou fermentadas) porque as bebidas alcoólicas elevam a glicemia devido às calorias provenientes do álcool, e não dos carboidratos.


Assim como as recomendações para indivíduos saudáveis, a ingestão diária deve ser limitada a uma dose para mulheres e duas doses para homens.


Conclusão:

A ingestão de álcool é considerada normal em diversos países, contudo, existe uma linha tênue entre o consumo moderado e o excessivo.


Também é importante lembrar que algumas medicações podem ter seus efeitos potencializados pelo álcool, enquanto outras drogas podem ser inibidas.


Referências:


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• Organização Mundial de Saúde, 2014. Disponível em: http://www.who.int/gho/alcohol/en
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• Whitfield JB. Clin Chem Lab Med, 53(5):480-487; 2005

Débora Lopes Souto
Doutora em Ciências Nutricionais (2012-2015) e Mestre em Nutrição Humana (2010-2011) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Especialista em Nutrição Clínica (Associação Brasileira de Nutrição). Autora de livro, artigos científicos e trabalhos publicados em anais de eventos. Atende em consultório particular e atua como pesquisadora no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (RJ).
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