A Paráfrase do ponto de vista da Linguística (Análise em um poema)

A Paráfrase do ponto de vista da Linguística (Análise em um poema)
PEDAGOGIA
Resumo

Este artigo tem como finalidade a análise da paráfrase do ponto de vista da gramática e da comunicação, para um melhor esclarecimento das estruturas apresentadas em algumas orações, visto que não existem paráfrases perfeitas, neste caso tentaremos chegar o mais próximo possível de definições claras e objetivas. Portanto deve-se lembrar de que a paráfrase é sinonímia estrutural, por isso será necessário e imprescindível citar a sinonímia também, uma vez que uma está contida na outra.

1.0 A Paráfrase

A Paráfrase consiste na reescritura de algo sem que haja mudança no significado do que se quer dizer (ideias centrais), ou seja, consiste em construir frases sinônimas utilizando operações sintáticas que preservam o sentido da mesma, uma vez que desenvolve o poder de síntese, clareza e precisão vocabular.

Assim, a paráfrase representa uma reestruturação das orações com novas palavras sem que o sentido das mesmas seja modificado. A paráfrase é uma reprodução da ideia de um escritor, podemos até dizer que a paráfrase é um jogo de palavras, onde são utilizados sinônimos e inversões de períodos, etc. O autor da paráfrase deve comprometer-se em passar claramente a ideia ao interlocutor. Existem algumas formas de estruturação, onde ocorre paráfrase: mecanismos sintáticos;

- a formação da voz ativa em passiva: Maria pegou o livro = O livro foi pego por Maria;

- a nominalização, ou seja transforma o que é verbo em substantivo, na oração: Primeiro o coral cantou o hino, depois a banda executou a marcha fúnebre = O canto do hino pelo coral foi seguido pela execução da marcha fúnebre pela banda;

- a substituição de uma forma verbal finita por uma forma verbal infinita: Aos 30 anos, ficaria mal eu pedir dinheiro a meu pai = Aos 30 anos pegaria mal que eu pedisse/se eu pedisse dinheiro a meu pai. = Aos 30 anos, pegaria mal eu pedir dinheiro a meus pais;

- alçamento de certos verbos: Para a maionese endurecer, é preciso que a vasilha esteja absolutamente seca = Para que a maionese endureça, a vasilha precisa estar absolutamente seca;

- a substituição de verbos por advérbios e vice-versa (aparentemente: parecer; possivelmente: poder; necessariamente: precisar; geralmente: costumar etc.): Os ensaios da banda são feitos habitualmente na noite da quarta-feira = Os ensaios da banda costumam ser feitos na noite da quarta-feira.
Segundo o professor Rodolfo Ilari:

Paráfrases são mecanismos sintáticos que criam alternativas de expressão para um mesmo conteúdo, as quais preservam o sentido e o uso dessas operações tornando-se então um recurso para construir frases sinônimas (p.151, 2007).

Se tratando de paráfrase é importante utilizar a mesma ordem de ideias, não omitir nenhuma informação essencial, ou seja, focalizar a informação principal utilizando construções que preservam o sentido da oração, assim podemos dizer que, mecanismos sintáticos como a paráfrase são chamados assim, porque empregam palavras sinônimas e porque as construções sintáticas, embora diferentes, preservam as mesmas relações de participação dos objetos no processo oracional. Portanto traduzem a mesma intenção do locutor e visam obter os mesmo resultados.

2.0 – Análise Linguística

A seguir analisaremos parafrasicamente o poema de Manuel Bandeira “Testamento”. Como já foi dito anteriormente paráfrase é um texto que procura tornar mais claro e objetivo aquilo que se disse em outro texto. Portanto, é sempre a reescritura de um texto já existente, uma espécie de “tradução” dentro da própria língua. Assim sendo tentaremos mostrar na prática como a paráfrase acontece através da análise desse poema parafraseado por Vânia Alvarez.

Testamento (Manuel Bandeira)

(1A) O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.

(2A) Tive uns dinheiros - perdi-os...
Tive amores - esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

(3A) Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

(4A) Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai. Foi-se-me um dia a saúde...
(5A) Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

Testamento (Vânia Alvarez) (PARAFRASEADO)

(1B) O que desejo não tenho
Tenho aquilo que não desejo.

(2B) Dinheiro: ganho, gasto, perco.
Amores, se os tive se foram...
Nem no desespero rezo.
Praguejo, desdigo a má sorte.
Lamento o que não fiz...
Desculpo-me... choro...

(3B) Vi terras que nunca foram minhas.
Fatiguei os olhos de cores, lugares, amores
E nos mosaicos da memória...
Reinventei a vida... feitas de ficção, mentiras tolas!

(4B) Crianças sempre povoaram meus sonhos.
Mas outros filhos será tarefa impossível...
Neste mundo que é só meu.
O filho que nasceria, já existe em mim...
Feito de dores, de lágrimas, de noites insones...
Filho feito de risos, de cheiro de alfazema no ar!
Amargo e doce... gota a gota...servido
Em doses que se bebe lentamente.
Quis cursar Medicina
E morrer em cada paciente...seres desenganados

(5B) A literatura me desejou ter e fazer...
Nem poeta pude ser, porque os versos que escrevi
Foram copiados as ressas...
Transcrito entre o gostar de viver.
E uns lampejos suicidas, agônicos!
Da vida sim, nunca desistir.
Eternamente lutei

Cognitivamente, esses trechos do poema de Bandeira são paráfrases, pois reúnem aos pares: (1A) + (1B), (2A) + (2B), (3A) + (3B), (4A) + (4B), (5A) + (5B). Isso nos dá autonomia enquanto locutores, a realizar esta análise, assim como, efetuar os agrupamentos e a intuição de que os trechos do poema de um mesmo par são – num sentido que teremos que esclarecer seus respectivos significados: utilizando num grande número de situações práticas, eles “dizem a mesma coisa”. Portanto essa relação é chamada de paráfrase. (1A) e (1B) são paráfrases porque realiza a substituição de palavras, sem comprometer o sentido do texto e porque as construções sintáticas, embora diferentes, preservam a mesma relação de participação dos objetos no processo descrito; (2A) e (2B) são paráfrases porque sua estrutura sintática significa a mesma coisa, ou seja, sintaticamente são semelhantes, e se observarmos no uso passam a mesma mensagem ao seu interlocutor; (3A) + (3B) são paráfrases, pois se observamos houve uma reescritura do texto, mas não há alteração sintática do sentido, ou seja, a mensagem é passada com a mesma clareza para o interlocutor;

(4A) + (4B) houve uma reescritura do texto, além de seu prolongamento textual, porém a autora faz isso, com o objetivo de tornar claro o que está sendo referido no (4A), sem comprometer a ideia principal do que ser quer ser dito, sendo assim temos uma paráfrase já que a mensagem principal foi compreendida; (5A) + (5B) são paráfrase, pois apesar da reescritura do texto houve uma tradução do que estava escrito anteriormente, ou seja, sintaticamente não houve alteração de sentido nem o comprometimento do texto oficial, tornando-o claro e de fácil compreensão pelo interlocutor.

Essas observações que acabamos de fazer mostram que não é possível pensar em sinonímia fora do contexto onde estão empregadas.

Portanto, o uso da paráfrase é essencial para a escrita, já que, não existem sinônimos perfeitos e, sempre que escrevemos algo pensamos num modo em que o texto apresente maior clareza ao interlocutor, uma vez que, esse é o objetivo de qualquer escritor, ser compreendido, essa compreensão será inviável em alguns casos sem fazer uso da paráfrase.

3.0 – Conclusão

Tanto a paráfrase, quanto a sinonímia são necessárias na prática conversacional e nos textos que produzimos isto ocorre muitas vezes sem ser percebido. Mas com o estudo deste tema ficou bem clara essa questão, e com isso, pode-se usar melhor essas formas, assim como pode-se entender o uso dessas estruturas presentes nos textos e no momento da comunicação.

Buscamos através do poema de Bandeira e a versão parafraseada de Vânia Alvarez, esclarecer sobre a reestruturação de orações através de sinônimos, mostrando que palavras podem ser alteradas sem que se mude a ideia principal, Vânia fez isso, conseguiu respeitar a linha de pensamento e a mensagem que o autor original quis passar sem que o significado fosse alterado.

4.0 - Referencias

ILARI, Rodolfo. Introdução a Semântica: brincando com a gramática. 1 ed. São Paulo: Contexto, 2007.

ILARI, Rodolfo; GERALDI João Wanderley. Semântica. 10 ed. São Paulo: Ática, 2004.
Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Paráfrase> acesso em 30/03/2010.
Disponível em <http://www.webartigos.com/articles/14900/1/A-IMPLICATURA-E-A-PARAFRASE-NAS-PRATICAS-CONVERSACIONAIS/pagina1.html > acesso em 04/04/10.

Eronildo da Silva
Possui Pós Graduação Lato Sensu - Linguística Aplicada ao Ensino da Língua Portuguesa pela FAFIRE - Faculdade Frassinetti do Recife (2014); Licenciatura Plena em Letras, habilitação Português/Inglês pela FSM - Faculdade São Miguel (2012); é Biólogo Licenciado pela Universidade de Pernambuco - UPE (2015); desenvolve função de professor na UPE - Escola de Aplicação - Campus Mata Norte - Prof. Chaves
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