Poluentes Emergentes: Um Novo Desafio

Poluentes Emergentes: Um Novo Desafio
BIOLOGIA

A água, antes de chegar às torneiras das casas brasileiras, passa por um longo processo que, dividido em etapas, tem como objetivo tornar a água usada em processos industriais, na limpeza de nossas casas, nos sistemas de esgoto (entre outros usos) tão potável quanto possível. Faz-se necessário que haja uma preocupação especial com esse recurso tão importante e valioso.

Atualmente, além de separada e filtrada a água é também clorada. Esse processo faz com que pequenas moléculas se associem aos átomos de coloro, tornando-as mais densas que a água e sendo assim possível serem captadas. Entretanto todo esse processo não garante que a água chegue totalmente limpa em nossas residências, inúmeras partículas sintéticas passam imunes a todos esses cuidados e acabam sendo consumidas por todos nós.

Essas partículas sintéticas são chamadas de Poluentes Emergentes. Já são mais de 3 milhões de substâncias orgânicas sintéticas catalogadas, número que cresce constantemente, correspondendo a cerca de 200 milhões de toneladas anuais que podem acabar contaminando as águas de todo o mundo.

Apesar do número assombroso, os Poluentes Emergentes correspondem a menos de 1% da composição da água que bebemos diariamente. Entre os compostos mais comuns estão derivados de herbicidas usados em lavouras, antissépticos (triclosan), laxativos (fenolftaleína), relaxantes musculares (diclofenacos) e esteróides.

Riscos à Saúde
Muitas dessas substâncias emergentes possuem caráter lipofílico, ou seja, têm afinidade com lipídios, logo, com nossos hormônios. Em pesquisa desenvolvida pelo Instituto Nacional de Ciências e Tecnologias Analíticas Avançadas (INCTAA) do instituto de Química da Unicamp, a progesterona e o estradiol foram algumas das substâncias comuns encontradas em amostras de água de torneira colhidas em 16 capitais brasileiras.

Presentes em maior ou menor concentração, correspondem a hormônios presentes nas pílulas anticoncepcionais. A presença dessas substâncias na água comum pode estar relacionada a casos de infertilidade, especialmente a masculina, e também à menarca, cada vez mais precoce nas mulheres. Esses efeitos, é claro, não se apresentam a curto prazo, mas ao longo de vários anos, efeito cumulativo e crônico da ingestão dessas e outras tantas substâncias quantidades mínimas durante toda a vida.

Nos Estados Unidos, por exemplo, foi detectada a presença de relaxantes musculares como emergentes na água.

Os medicamentos são comuns entre os Poluentes Emergentes, pois o corpo absorve apenas uma parte do que é ingerido, sendo que cerca de 70% dos medicamentos são excretados e eliminados na urina, posteriormente parando no sistema de esgoto e, ao final dos processos de limpeza da água, ainda está presente na água potável.

É extremamente difícil estudar e precisar todos os efeitos nocivos que os Poluentes Emergentes podem causar ao ser humano e ao meio ambiente. Isso se dá em parte pela grande variedade de substâncias emergentes, além da dificuldade de filtrar e controlar a dosagem dos mesmos, que costuma variar de lugar para lugar, não sendo possível afirmar com precisão a relação entre a presença de um determinado poluente e uma determinada reação adversa a ele.

Processos Oxidativos Avançados
Ainda segundo o estudo idealizado pelo INCTAA, um forte sinal da presença dos poluentes emergentes é a presença também da cafeína que indica a existência por afinidade química de vários agentes poluentes, inclusive os emergentes, tão concentrada a ela esteja.

É nos centros urbanos e industriais que a cafeína está mais presente e, logo, os Poluentes Emergentes. Se os Poluentes Emergentes são difíceis de serem capturados pelos processos comuns de limpeza da água, qual a solução para diminuí-los? Atualmente os Processos Oxidativos Avançados tem se mostrado a melhor alternativa em relação a custo e benefício.

Há pelo menos três tipos de POA's usados atualmente: adição de Peróxido de Hidrogênio (H2O2)+ luz Ultravioleta (UV), Ozônio + UV e Ozônio + H2O2. Os POA's ocorrem em temperatura ambiente e há aproveitamento da luz solar na liberação de radicais livres, essenciais no processo de decomposição.

O processo se inicia com o tratamento tradicional da água, passando por todos os estágios e, ao final, a água é submetida a um dos Processos Oxidativos Avançados para decomposição dos compostos orgânicos sintéticos. De um modo geral, os POA's funcionam em nível molecular, adicionando um radical hidroxila que, sendo um íon, vai desencadear um processo oxidativo na molécula poluente associando-se à outro átomo, extraindo átomos de hidrogênio ou elétrons de um ânion.

Ao final do processo têm-se como subprodutos ácidos minerais, dióxido de carbono e água. No Brasil, só agora tem-se voltado os olhos para a questão dos Poluentes Emergentes. Em países mais desenvolvidos como nos Estados Unidos e Inglaterra, esse tema já é pauta constante há algum tempo e já houve avanços nas políticas de tratamento desse tipo de poluente.

Em nosso país, apesar da tomada de consciência, do crescimento constante da economia e da concentração populacional cada vez maior em espaços urbanos, nada se avançou em termos de legislação que continua sendo a mesma desde sua última atualização, há cinco anos sob a justificativa de que mais estudos se fazem necessários para que se possa delinear um panorama mais detalhado.

Juliana Carvalho dos Santos
Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade de Brasília.
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