artigo

terça-feira, 1 de janeiro de 2008 - 00:00

Tamanho do texto: A A

Varizes nos membros inferiores

por: Colunista Portal - Educação

O que são?
As varizes são veias superficiais anormais, dilatadas, cilíndricas ou saculares, tortuosas e alongadas, caracterizando uma alteração funcional da circulação venosa do organismo.

Existem varizes internas?

Não; como mostrado no conceito acima, as veias são superficiais. As veias profundas não podem ser consideradas varicosas, mas podem sofrer trombose. As varizes estão sempre situadas no tecido subcutâneo (camada de gordura que fica sob a pele) ou no território intradérmico e, portanto, são sempre visíveis e na maioria das vezes palpáveis.

Esta é uma doença rara ou comum?

É uma das doenças mais comuns da humanidade. No Brasil, ocorre em 35% das pessoas acima de 15 anos. O número aumenta com a idade. Estima-se que 1 em cada 5 mulheres e 1 em cada 15 homens sejam portadores desta moléstia, que, além da deformidade estética, pode ser incapacitante, com complicações e seqüelas graves. Estudos realizados em Israel e nos EUA mostram que 3% dos homens e 20% das mulheres têm varizes aos 30 anos de idade. Aos 70 anos, 70% dos indivíduos apresentam algum tipo de varicosidade. A maior incidência no sexo feminino está bem estabelecida, variando de 2 a 5 vezes a mais que no sexo masculino, de acordo com as estatísticas de diferentes trabalhos.

Por que ocorrem as varizes?

Esse é o "preço" que o homem paga por ser um animal bípede. No nosso organismo, possuímos 3 tipos de circulação: a arterial, que leva o sangue do coração ao resto do corpo; a venosa, a qual é responsável pela drenagem do sangue das extremidades do corpo para o coração; e a linfática, cuja função é drenar o interstício. De acordo com a Lei da Gravidade, e tomando-se como ponto zero o coração, podemos notar que o sangue venoso, nos membros inferiores (pés, pernas e coxas), "corre" contra a ação da gravidade e também contra a pressão do abdome; por isso, precisa lançar mão de certos subsídios para impedir o refluxo sanguíneo, ou seja, para que o sangue que já subiu não desça novamente. Os mecanismos anti-refluxo são: o "bombeamento" do sangue pela musculatura da panturrilha (batata da perna); a estrutura da parede das veias superficiais nos membros inferiores, cuja espessura é normalmente resistente à dilatação; e a presença das válvulas (pequenas formações saculares dentro das veias), as quais não permitem o refluxo sanguíneo e direcionam o fluxo de baixo para cima.

Existem condições que propiciam o surgimento de varizes?

Sim. Todas as situações intrínsecas ou extrínsecas capazes de debilitar a parede venosa, aumentar a pressão dentro do vaso e/ou acometer a função das válvulas serão potencialmente causadoras de varizes. As principais condições que favorecem o surgimento de varizes — isto é, os fatores de risco — são:


raça — a população afro-asiática é notoriamente menos acometida pela doença varicosa;

idade — influi na tonicidade dos tecidos;

sexo — a maior freqüência entre as mulheres possivelmente se deve ao fato de ter maior taxa de estrogênio (hormônio feminino);

predisposição hereditária — um componente genético tem sido relacionado ao aparecimento das varizes, o que faria com que o indivíduo já nascesse com a tendência para tal;

obesidade — também influencia no tônus tecidual;

hábitos alimentares — a dieta pobre em fibras pode levar à constipação intestinal (prisão de ventre) e conseqüentemente ao aumento da pressão abdominal;

hábitos posturais — a permanência, por mais de 6 horas diárias, na posição em pé ou sentado, geralmente causada pelo tipo de ofício do indivíduo, favorece o edema postural dos membros inferiores e a doença varicosa;

gravidez — o risco de varizes é maior em mulheres multíparas (aquelas que tiveram 2 ou mais gestações);

uso de anticoncepcionais;

traumatismo;

moda — o uso de cintas abdominais apertadas pode aumentar a pressão intra-abdominal e dificultar o retorno venoso;

Trombose Venosa Profunda — "entupimento" das veias profundas, que são responsáveis pela drenagem de 80 a 85% do sangue venoso nos membros inferiores, fazendo com que este retorno se dê através das veias superficiais (safenas magnas e safenas parvas);

tabagismo — favorece a formação de trombos no organismo. O risco aumenta muito quando este hábito é associado ao anticoncepcional.

Depilação pode causar varizes? E usar salto alto?

Não existe nenhuma relação estabelecida entre a formação de varizes e a depilação ou uso de salto alto.

Musculação e ginástica propiciam esta doença?

A ginástica, desde que recomendada por um médico e acompanhada por professores de Educação Física não só não provoca varizes como também é bastante aconselhável para evitá-las, principalmente se for uma atividade aeróbica. Quanto à musculação, também não apresenta contra-indicação, desde que não seja exagerada .

Atletas podem ter varizes?

Sim, caso possuam fatores de risco compatíveis. Os remadores, halterofilistas e fisiculturistas têm maior predisposição para a ocorrência de tal enfermidade, pois nestes exercícios exige-se grande aumento da pressão intra-abdominal.

Subir escadas ou carregar peso diariamente provoca varizes?

Não. Em relação a carregar peso, não há influência; já subir escadas pode ser considerado até um exercício físico, ajudando portanto a incrementar o retorno venoso.

Quais são os sintomas relacionados à doença varicosa?

As principais queixas clínicas dos pacientes são: dor tipo "queimação" ou "cansaço"; sensação de as pernas estarem pesadas ou ardendo; edema (inchaço) das pernas, principalmente ao redor do tornozelo, que freqüentemente melhora com a elevação dos membros inferiores e se agrava no fim do dia, quando se permanece por longo tempo em pé ou sentado, no calor, nos períodos próximo ou durante a menstruação e também durante a gravidez.

Existe tratamento?


Sim, e difere de acordo com o calibre (grossura) das varizes. Aqueles cordões varicosos, salientes e visíveis, que elevam a pele, são de tratamento cirúrgico, enquanto que as microvarizes (pequenas veias de trajeto tortuoso ou retilíneo, de aproximadamente 1 a 2 mm de largura, que não causam saliência na pele, são de tratamento microcirúrgico. Já as telangiectasias ou aranhas vasculares ("vasinhos" ou "mapinha"), que são finos vasos encontrados com mais freqüência na região externa ou interna das coxas, devem ser tratadas pela escleroterapia (injeção de solução alcóolica ou hipertônica dentro destes vasos, o que irrita suas paredes fazendo com que se contraiam e desapareçam). Nos casos em que há a concomitância de veias calibrosas com telangiectasias, a cirurgia deve ser realizada em primeiro lugar. Naqueles pacientes que não querem ou não podem fazer nenhum dos tipos de tratamento citados, pode ser empregado o tratamento clínico com medicamentos, elevação dos membros inferiores e fundamentalmente o uso de meia elástica de média compressão.

Que complicações posso ter caso não queira operar?

Podem ocorrer, além daqueles sintomas já relacionados, a acentuação dos trajetos varicosos (progressão da doença); hiperpigmentação cutânea (manchas ocres), ocasionada pelo extravasamento de sangue no tecido subcutâneo; eczema varicoso provocado pela presença de hemoglobina livre no tecido subcutâneo, que causa processo inflamatório crônico (vermelhidão) e exsudativo (transpiração de secreção); flebite superficial (veias varicosas inflamadas contendo coágulos dentro delas), que podem levar à hipercromia (tingimento) da variz e/ou a formação de um "cordão endurecido" no local; prurido (coceira); erisipela (infecção da pele); lipodermatoesclerose (pele e tecido subcutâneo endurecidos e espessados); e hemorragia, que geralmente é de grande volume de sangue, devido à hipertensão venosa da variz que rompeu, mas que é de fácil controle com a compressão digital (dedo da mão) local e a elevação dos membros inferiores; úlcera varicosa ou de estase (ferida geralmente localizada na porção interna dos tornozelos em regiões já alteradas pela hiperpigmentação e eczema).

A aplicação é muito dolorosa?

O conceito de dor é algo bastante subjetivo e varia de pessoa para pessoa, embora as injeções de substâncias escleroterápicas costumem ser bem toleráveis. Os esclerosantes mais utilizados são:

Glicose hipertônica — apresenta poder esclerosante menor que o das outras; entretanto, tem efeitos colaterais quase nulos;

Ethamolinato de Sódio — pode ser usada isoladamente, diluída em água destilada ou em conjunto com a glicose. Tem bom poder esclerosante, todavia pode produzir reações alérgicas, manchas acastanhadas nas veias injetadas (mais comuns em indivíduos de pele escura) e escara (ferida necrótica) no local da injeção;

Glicerina crômica — tem bom poder esclerosante; no entanto, em raros casos pode causar irritação cutânea e também reação de "corpo estranho" por depósito de cristais;


Polidocanol — também é outro ótimo esclerosante, todavia seu uso pode ocasionar atrofia do tecido subcutâneo, alergias e escaras.

E quanto ao uso de laser?

Pode ser aplicado isoladamente ou associado à escleroterapia. Está indicado particularmente nas telangiectasias de coloração avermelhada ou nas chamadas "manchas vinhosas".

Como é feita a cirurgia?

Para um bom resultado curativo e estético, o cirurgião vascular deve, antes da operação, marcar, nos membros inferiores do paciente, os locais das incisões e o trajeto das veias varicosas que vai retirar, traçando com caneta dermográfica (por ser difícil de sair). Quando as veias forem bastante grossas, há a necessidade de se abrir um pequeno corte para retirá-las e dar pontos para fechá-lo. Isto também acontece quando é preciso retirar as veias safenas. Nas veias não tão calibrosas, processa-se um pequeno furo (incisão de cerca de 1mm) com o bisturi, e, com a ajuda de uma agulha de "crochet", retira-se a variz. Em lugar de pontos (desnecessários), usam-se algumas fitas adesivas. Foi recentemente desenvolvida técnica cirúrgica vídeo-endoscópica para o tratamento das veias perfurantes (veias que comunicam o sistema venoso profundo com o superficial) insuficientes, que podem causar grande edema, eczema, lipodermatoesclerose e úlcera.

Quais os riscos da cirurgia?

Risco existe em qualquer ato cirúrgico; todavia, está próximo do zero, ainda mais hoje em dia, com as boas técnicas anestésicas e apurada avaliação pré-operatória.

Qual é a anestesia utilizada?

Dependendo da quantidade de veias varicosas que precisam ser retiradas, pode ser feita operação com anestesia local, com ou sem sedação, ou anestesia peridural.

Quantos dias é preciso ficar internado?

Normalmente, um dia de internação é suficiente.

É possível operar-se estando menstruada?

Sim, desde que o volume da menstruação seja normal, ou que a paciente não apresente anemia durante este período. Pode ser necessária a utilização de absorvente interno durante o ato cirúrgico.

As veias retiradas não vão fazer falta? E se tiver que retirar as safenas?

As veias que são retiradas, por estarem doentes, não colaboram para a circulação; ao contrário, sua retirada causa melhoria na drenagem venosa dos membros inferiores, aliviando sintomas, melhorando a estética e prevenindo as complicações da evolução da doença. Atualmente, há um cuidado bastante grande a fim de preservar as veias safenas magnas, pois podem ser necessárias como "pontes" no coração, no tratamento da angina do peito e do infarto do miocárdio, ou "pontes" nos membros inferiores, salvando-os de gangrena e amputação. Entretanto, as veias safenas muito dilatadas e/ou a presença de refluxo autorizam sua retirada para tratamento da doença varicosa, mesmo porque, neste caso, são imprestáveis como "ponte".

Quanto tempo após a cirurgia posso iniciar a aplicação?

Geralmente, um mês após a operação dá-se início ao tratamento escleroterápico das veias residuais, as quais são quase sempre pequenos trajetos que foram interrompidos. Isto se deve ao fato de que, após este intervalo de tempo, já ocorreu a reabsorção das equimoses (extravasamento de sangue no tecido subcutâneo, alterando sua coloração).

Que complicações podem decorrer da cirurgia?

As complicações têm muito baixa incidência quando a intervenção é realizadas por cirurgião vascular. Podem ocorrer:

Infecção — extremamente rara;
Lesão nervosa — quando acontece, traz distúrbio da sensibilidade, podendo provocar áreas de parestesia (dormência) ou de hiperestesia (área muito sensível à dor) no 1/3 inferior da perna;
Linforréia — extravasamento de linfa (líquido incolor do vaso linfático) por uma cicatriz;
Linfocele — extravasamento de linfa no tecido subcutâneo;
Edema persistente — raríssimo;
Quelóide — mais comum em indivíduos de pele escura;
Cicatriz hipertrófica — cicatriz exacerbada num grau menos intenso que o quelóide; na verdade, ambos independem de boa técnica cirúrgica, mas sim da constituição do indivíduo.

Depois de tratar as varizes podem voltar?


Não. As veias retiradas cirurgicamente ou esclerosadas não voltam, porém outras veias varicosas poderão surgir no futuro, uma vez que a medicina não conhece a causa exata da doença e só é capaz de tratar aquela circunstância da enfermidade e ajudar na prevenção.

Dicas para evitar as varizes:
Evitar ganhos exacerbados de peso. EMAGREÇA!!!
Adotar uma dieta rica em fibras para evitar a constipação intestinal;
Procurar não permanecer muito tempo parado em pé ou sentado;
Não usar cintas abdominais apertadas;
Realizar caminhadas e/ou exercícios físicos com supervisão médica;
NÃO FUMAR!!!
Utilizar sistematicamente meias elásticas de média compressão, principalmente durante a gravidez;
Evitar anticoncepcionais.


www.hospitalgeral.com.br
Dr. João Sahagoff, angiologia
CreativeCommons

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.

Comentários


colunista

Colunista Portal - Educação

O Portal Educação possui uma equipe focada no trabalho de curadoria de conteúdo. Artigos em diversas áreas do conhecimento são produzidos e disponibilizados para profissionais, acadêmicos e interessados em adquirir conhecimento qualificado. O departamento de Conteúdo e Comunicação leva ao leitor informações de alto nível, recebidas e publicadas de colunistas externos e internos.

Fisioterapia