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terça-feira, 1 de janeiro de 2008 - 00:00

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Maconha agora é remédio

por: Colunista Portal - Educação

Por Cristina Tardáguila Ferreira

Além de gerar a sensação de paz e amor que marcou a geração Woodstock, a cannabis sativa (nome científico da maconha) também é capaz de pôr fim à dor e de melhorar o sono de quem sofre de esclerose múltipla - revela um estudo independente feito no Reino Unido com um spray oral que poderia se confundir com um batom por seu tamanho, mas é composto por moléculas da controvertida planta.

Produzido pelo laboratório britânico
GW Pharmaceuticals a partir dos princípios ativos tetrahidrocanabinol e canabidiol, retirados diretamente da maconha, o Sativex se saiu muito bem no teste realizado pela equipe da neurologista Carolyn Young no Walton Centre for Neurology and Neurosurgery, de Liverpool. Em uma experiência controlada que durou cinco semanas, 66 pacientes em estágioavançado da esclerose múltipla - doença que consiste na destruição da mielina, um tipo de camada isolante que protege o sistema nervoso central - foram divididos em dois grupos: o primeiro teve acesso livre ao spray decannabis e o segundo recebeu apenas doses de um placebo.

De acordo com o que lhes foi pedido, borrifaram o líquido que tinham em mãos debaixo da língua ou na parte interna da bochecha o número de vezes necessárias para sentir um alívio na dor que lhes afligia. No final da pesquisa, a equipe médica constatou que aqueles que usaram Sativex tinham borrifado o líquido uma média de 9,6 vezes por dia, enquanto os outros haviam apertado o spray quase duas vezes mais, com uma média diária de 19,1 borrifadas de placebo. Os pesquisadores descobriram também que o nível de dor dos pacientes, medido por uma escala de um a onze ao longo do período avaliado, se situou em um patamar significativamente inferior entre os consumidores de Sativex, que, além disso, relataram melhoras substanciais na quantidade e na qualidade de seu sono.

Essas conclusões, encorajadoras para as vozes que sempre ressaltaram os benefícios terapêuticos da cannabis, foram publicadas pela revista britânica especializada
"Neurology" e andam servindo de munição para ajudar o Sativex a conquistar novos territórios. Apesar de produzido no Reino Unido, atualmente, o Canadá é o único país em que se pode comprar esse produto. O spray foi liberado pelas autoridades canadenses em abril de 2005 e é vendido nas farmácias desde junho. O vidrinho, que cabe perfeitamente na bolsa e tem 5,5 ml, permite 51 borrifadas e custa 124,95 dólares canadenses. Curiosamente, no entanto, apesar da globalização, o medicamento não pode ser comprado pela Internet. "Seu uso é, até agora, totalmente restrito ao Canadá", ressalta Lori Ann Hoorigan, gerente de comunicação da Bayer HealthCare, que o comercializa. Nos próximos dias, porém, o produto começará a ser usado experimentalmente na Espanha.

A vovó só não gosta do sabor

O laboratório GW Pharmaceuticals não parece nada desanimado com o futuro. O porta-voz da empresa, Mark Rogerson, tem certeza de que o Sativex é apenas o primeiro de uma gama de remédios vindos da cannabis sativa. Em sua opinião, muito em breve, a sociedade deixará de hesitar ante esse tipo de fármaco e se renderá a seus benefícios. "É perfeitamente possível ter uma substância segura e útil sendo usada pelos médicos ao mesmo tempo que é proibida nas ruas. O Sativex não tem nada a ver com os cigarros de maconha e não compra essa briga. É óbvio que se trata de uma substância polêmica, mas ela vem para o nosso bem, assim como a morfina, derivada do ópio. O fato de usarmos morfina nos hospitais hoje em dia não faz ninguém querer que o ópio seja legalizado nas ruas, certo?" - lembra o britânico a NoMínimo.

Aqueles que pensam que o spray de cannabis não passa de um cigarro de maconha líquido se engana redondamente. "É claro que, por se tratar de um remédio de auto-administração composto por canabinóides, pode provocar intoxicação, mas os pacientes com esclerose múltipla, para os quais o Sativex foi pensado e será prescrito, não estão buscando uma 'onda', mas, sim, tentando se livrar de uma dor insuportável", explica Rogerson.

Sobre a possibilidade de se viciar no spray, o porta-voz garante que não há por que se preocupar: "A cannabis não vicia, não gera dependência química e nunca matou ninguém de overdose. O corpo jamais vai exigir que a pessoa consuma cannabis ou enfrente uma crise de abstinência".

Outro ponto positivo do Sativex, segundo Rogerson, é que ele não apresentou níveis de tolerância, ou seja, sua dosagem não precisa ser elevada de tempos em tempos para se obter o mesmo efeito. "Em uma comparação um pouco forçada, funciona como a pílula anticoncepcional", exemplifica. Mas, como nada no universo consegue a perfeição absoluta, alguns pacientes que testaram o spray de cannabis notaram efeitos colaterais. Os mais comuns foram tonteiras, náuseas, sequidão na boca e ansiedade. "É fato que nenhum remédio é totalmente livre de efeitos colaterais. Os do spray, pelo menos, são pequenos e, o que é mais importante, cessam assim que seu uso é suspenso", arremata Rogerson.

A enfermeira britânica aposentada Carole Shipman, 63 anos, usa o Sativex desde 2001 e proclama com orgulho ter sido a 22a pessoa no mundo a testar o spray. Ele garante que a única atividade incompatível com as borrifadas de cannabis é dirigir. "Quando sei que vou estar ao volante, evito tomar Sativex pelo menos quatro horas antes. Ele reduz consideravelmente o tempo de reação do meu corpo, e eu não me sinto muito segura dirigindo", explica Carole.

Avó de quatro crianças, Carole relata a NoMínimo: "Descobri que sofria de esclerose múltipla há cerca de vinte anos e, quando fui convidada a participar da pesquisa, já tinha tentado sem êxito todos os remédios convencionais, analgésicos e relaxantes musculares possíveis para minimizar as dores nas pernas e nas costas. Topei na hora o desafio proposto e, até hoje, conto com o apoio da família."

Ela toma atualmente sete borrifadas de Sativex por dia e, sem usar outros medicamentos, afirma viver sem dor e não sente nenhum efeito colateral. "Se o gosto não fosse tão amargo, seria totalmente maravilhoso, e eu comeria menos balas de menta por dia", brinca. A enfermeira aposentada garante que o produto não tem aquele cheiro típico da maconha nem provoca mau hálito. "No começo, tive medo de ficar viciada e de que o remédio destruísse o que ainda havia no meu cérebro. Hoje, posso dizer que vivo feliz e aconselho todo mundo a experimentar as novidades da ciência. Elas funcionam!" -comemora.

Enquanto isso, no Brasil...

Os resultados do Sativex parecem, de fato, tão atraentes e promissores que o governo da Catalunha, na Espanha, decidiu colocá-los à prova. Até o fim novembro, 600 pessoas começarão a participar de um estudo-piloto que tem a autorização do Ministério de Saúde da Espanha e visa a avaliar se a cannabis é mesmo eficiente contra diversos quadros de dor - e não só o testado pela pesquisa feita em Liverpool.

Rafael Manzanera, diretor geral de Recursos Sanitários do Departamento de Saúde do governo catalão, anuncia: "Nós seremos os primeiros do mundo a testar o Sativex ante cinco tipos diferentes de dores. Observaremos, ao longo de um ano, como reagem à cannabis pacientes de esclerose múltipla, pessoas que têm dor neuropática central decorrente de outros problemas clínicos, gente que sofre com as náuseas e vômitos provocadas pelas sessões de quimioterapia e quem padece de anorexia e má nutrição decorrentes da Aids." Acredita-se que a dor neuropática afete atualmente 2,4% da população mundial. No universo de pessoas com esclerose múltipla, 52% padecem da dor neuropática central. Desse conjunto, 32% descrevem o que sentem como uma dor severa, freqüente e aparentemente incurável.

O primeiro passo rumo a esses testes com a cannabis foi dado pela Ágata (associação catalã de mulheres com câncer de mama), grupo que, nos anos 90, notou que o uso dessa substância poderia ser útil contra alguns sintomas indesejáveis da doença e que vem lutando desde então para que testes sejam feitos. Desse estudo-piloto participarão seis hospitais de Barcelona e 60 farmácias. Segundo o que ficou estabelecido, acrescenta Manzanera, tanto os médicos quanto os farmacêuticos deverão registrar suas constatações e as queixas dos participantes do programa para serem computadas na hora da apuração dos resultados.

Por enquanto, o estudo catalão não gerou nenhuma polêmica no universo acadêmico espanhol. "Nem o Colégio de Farmácia de Salamanca nem o de Barcelona, grandes centros pesquisadores do país, estão debatendo o uso da cannabis contra a dor. Infelizmente, esse momento importante de testes na Catalunha está passando despercebido", lamenta a farmacêutica Juana Obrero. "Ao consultar referências por aqui, você se dá conta de que realmente a discussão ainda não pegou e fica curiosa para saber se algum dia vai pegar", acrescenta a espanhola.

A liberação do Sativex no Canadá e as pesquisas na Catalunha ainda não tiveram repercussão no Brasil. O neurologista paulista Charles Peter Tilbery, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia, conta que, em eventos internacionais, tomou conhecimento de que o Sativex é realmente eficaz contra a dor, mas ressalta que, no Brasil, não há nenhum grupo utilizando ou testando o produto. "Isso está assim porque o spray não deve ter sido aprovado por nossas autoridades ainda. Infelizmente, vivemos em um dos países mais ricos em termos de plantas e potencial terapêutico, mas não exploramos isso em sua plenitude", lamenta.

Para o neurologista, "as autoridades sanitárias brasileiras andam muito arredias em relação à liberação de medicamentos novos e, como nós só costumamos fazer aquilo que os EUA fazem, provavelmente teremos de ficar de braços cruzados enquanto o Sativex não for liberado por lá e, então, convencer algumas pessoas por aqui".

Tilbery confirma que o spray é um produto farmacológico que não tem substâncias alucinógenas nem provoca dependência química. "O Sativex, para quem ainda está na dúvida, não tem nada a ver com a maconha. Ele realmente não provoca onda, não tem tolerância nem vicia." Apesar disso, lembra, "não passa de um produto sintomático, ou seja, só minimiza os sintomas sem atacar ou aniquilar a doença em si".

Fonte: No Mínimo

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