Histórico, conceito e fundamentos da psicomotricidade

A educação psicomotora tem predominância na pré-escola
A educação psicomotora tem predominância na pré-escola

Educação e Pedagogia

23/04/2013

O termo psicomotricidade aparece a partir do discurso médico, mais precisamente neurológico. Isto contribuiu para uma abordagem da psicomotricidade voltada para uma visão organicista que tem como prioridade o estudo do movimento em si. Por isso, nesta abordagem, as atividades corporais não mantinham nenhum vínculo com as atividades psicológicas ou intelectuais.

A partir do século XIX, o corpo passou a ser estudado por neurologistas com o objetivo de compreender as estruturas cerebrais, e, posteriormente, por psiquiatras para conhecer as patologias mentais.
No século XX a psicomotricidade se estabelece como prática independente. Perguntas relativas à contribuição das emoções e dos inúmeros tipos de sensações no desenvolvimento corporal começam a suscitar interrogações sobre a forma de se pensar a psicomotricidade.

O desenvolvimento da consciência corporal, da reflexão e da criatividade, além do pleno desenvolvimento afetivo, cognitivo e motor constituem alguns dos objetivos da psicomotricidade que, se alcançados, possibilitarão adultos sadios e felizes. Portanto, o trabalho psicomotor irá ajudar na estruturação da personalidade da criança, já que ela pode expressar melhor seus desejos, elaborar suas fantasias, desenvolver suas necessidades e trabalhar suas dificuldades.

A dicotomização cartesiana de corpo e alma torna-se então alvo de especulações e questionamentos: Qual a relação entre corpo e alma? Por que diferenciá-los?

Vários estudiosos contribuíram para a visão atual da psicomotricidade. Sua importância na construção histórica dos conceitos de psicomotricidade é indiscutível. Os trabalhos de Wallon, Gesell, Piaget e Ajuriaguerra são utilizados com bastante frequência por pessoas que se interessam ou trabalham com educação psicomotora.

A psicomotricidade atualmente encontra-se permeada pela interdisciplinaridade, e, por isso, linhas de análise diferenciadas se entrecruzam nas práticas existentes. Práticas fundamentadas nas concepções psicomotoras existentes tendem a considerar que os determinantes biológicos e culturais da criança contribuem dialeticamente na construção do motor (corpo), da mente (emoção) e da inteligência.

Os primeiros trabalhos realizados em psicomotricidade tinham uma proposta reeducativa e um caráter terapêutico, já que se preocupavam em reabilitar funções psicomotoras que se encontravam prejudicadas. Esta ação tinha como alvo, sujeitos que apresentavam déficits motores e cognitivos.
A educação psicomotora, preconizada por Jean Piaget, aparece com a intenção de estimular as crianças de forma adequada, em cada fase do seu desenvolvimento. As práticas em psicomotricidade se estabelecem não somente como uma reeducação psicomotora, mas também como uma educação psicomotora.



A educação psicomotora tem predominância na pré-escola, sendo considerada uma educação de base. Ela está intrinsecamente ligada à capacidade de aprender os conteúdos do período pré-escolar. Com ela, a criança toma consciência do seu corpo, da lateralidade, da sua situação e da situação de outros objetos no espaço, do domínio temporal, além de adquirir habilidades de coordenação de seus gestos e movimentos.

No Brasil, a psicomotricidade foi norteada pela escola francesa. Durante as primeiras décadas do século XX, época da primeira Guerra Mundial, a escola francesa também influenciou mundialmente a psiquiatria infantil, a psicologia e a pedagogia.

Em 1977 é fundado Grupo de Atividades Especializadas (GAE), que veio promover, a partir de 1980, vários encontros nacionais e latino-americanos. O 1° Encontro Nacional de Psicomotricidade foi realizado em 1979. O GAE é responsável pela parte clínica e o ISPE, destinado à formação de profissionais em psicomotricidade e também se dedica ao ensino de aplicações da psicomotricidade em áreas de saúde e educação.

Em 1982, o ISPE-GAE firmou o vínculo científico-cultural com a Escola Francesa através da exclusiva Delegação Brasileira da Organisation Internationale de Psychomotricité et de Relaxation (OIPR). A Sociedade Brasileira de Psicomotricidade (SBP), entidade de caráter científico-cultural sem fins lucrativos, foi fundada em 19 de abril de 1980, graças à luta pela regulamentação da profissão, unindo os profissionais da psicomotricidade para dar sua contribuição com o progresso da ciência, promovendo congressos, encontros científicos, cursos, entre outros.


Começa a ser delimitada uma distinção entre a postura reeducativa e a terapêutica, já demonstrando diferenças em intervenções da psicomotricidade, e que, ao despreocupar-se com a técnica instrumentalista e ao ocupar-se do corpo em sua globalidade, vai dando progressivamente, maior importância à relação, à afetividade e ao emocional, acompanhando as tendências do momento pelo qual passava. No discurso da SBP, a psicomotricidade não é a soma da psicologia com a motricidade, pois ela tem valor em si. Para o psicomotricista, o conceito de unidade ultrapassa a ligação entre psico e soma. O indivíduo é visto na sua globalidade, e não num conjunto de suas inclinações (SBP, 2003; ISPE-GAE, 2007).

Para melhor entendimento sobre a psicomotricidade, citaremos diversas definições, em que cada autor coloca sua visão. A ISPE-GAE e a SBP definem a psicomotricidade e o emprego de seu termo como “uma neurociência que transforma o pensamento em ato motor harmônico. É a sintonia fina que coordena e organiza as ações gerenciadas pelo cérebro e as manifesta em conhecimento e aprendizado” “Psicomotricidade é a manifestação corporal do invisível de maneira visível”. E ainda como “uma ciência terapêutica adotada na Europa há mais de 60 anos, principalmente na França, que instituiu o primeiro curso universitário de psicomotricidade em 1963” (ISPE-GAE, 2007).
A SBP afirma também que a psicomotricidade é “um termo empregado para uma concepção de movimento organizado e integrado, em função das experiências vividas pelo sujeito cuja ação é resultante de sua individualidade, sua linguagem e sua socialização” (SBP, 2003).


Nas palavras de Defontaine: “La Psychomotricité est le désir de faire, du vouloir faire; lê savoir faire et le pouvoir faire” (DEFONTAINE apud OLIVEIRA, 2001, p. 28). Continuando, o autor afirma “A psicomotricidade é um caminho, é o desejo de fazer, de querer fazer; o saber fazer e o poder fazer” (p. 34-35). Defontaine declara que só poderemos entender a psicomotricidade através da triangulação corpo, espaço e tempo. Defontaine define os dois componentes da palavra: psico significando os elementos do espírito sensitivo, e motricidade traduzindo-se pelo movimento, pela mudança no espaço em função do tempo e em relação a um sistema de referência.

Júlio de Ajuriaguerra afirma que a “psicomotricidade se conceitua como ciência da Saúde e da Educação, pois ela é diferente das diversas outras escolas, como da psicológica, condutista, evolutista, genética, etc. visa à representação e à expressão motora, através da utilização psíquica e mental do indivíduo”. (AJURIAGUERRA apud ISPE-GAE, 2007).

Costallat, uma das fundadoras do GAE e do ISPE, afirma que “psicomotricidade é a ciência de síntese, que com a pluralidade de seus enfoques, procura elucidar os problemas, que afetam as inter-relações harmônicas, que constituem a unidade do ser humano e sua convivência com os demais”. (COSTALLAT apud ISPE-GAE, 2007).

Já Loureiro, diz que “A psicomotricidade é a otimização corporal dos potenciais neuro, psico-cognitivo funcionais, sujeitos às leis de desenvolvimento e maturação, manifestados pela dimensão simbólica corporal própria, original e especial do ser humano” (LOUREIRO apud ISPE-GAE, 2007).

Por sua vez, Fonseca afirma que se deve tentar evitar uma análise desse tipo para não cair no erro de enxergar dois componentes distintos: o psíquico e o motor, pois ambos são o mesmo (FONSECA apud OLIVEIRA, 2001). A psicomotricidade para Fonseca não é exclusiva de um novo método ou de uma “escola” ou de uma “corrente” de pensamento, nem constitui uma técnica, um processo, mas visa fins educativos pelo emprego do movimento humano.

Para Nicola, uma conceituação atual de psicomotricidade é que esta ciência nova, cujo objeto de estudo é o homem nas suas relações com o corpo em movimento, encontra sua aplicação prática em formas de atuação que configuram uma nova especialidade. A psicomotricidade estuda o homem na sua unidade como pessoa (NICOLA, 2004, p. 5).
Nicola ainda fornece outro conceito, pautada na soma do termo Motricidade e do prefixo Psico:

Há também uma área do conhecimento que trata a motricidade como um dos seus objetos teóricos e práticos de estudo: é a área da Ciência da Motricidade Humana (CMH), ou Cineantropologia, articulada com um corpo epistemológico próprio e que enfoca a motricidade sob um paradigma diferente do da psicomotricidade. Quando se aborda a motricidade humana, a psique humana não é deixada de fora. É necessário observar os objetos de estudos sob a perspectiva de cada área do conhecimento para uma melhor compreensão.

Desta forma, podemos afirmar que a psicomotricidade é uma ciência que, por ter o homem como objeto de estudo, engloba várias outras áreas, como educacional, pedagógicas e saúde. Leva em conta o aspecto comunicativo do ser humano, do corpo e da gestualidade.

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.


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