Teorias e Modelos das Dificuldades de Aprendizagem

A criança aprende de forma ativa
A criança aprende de forma ativa

Educação e Pedagogia

11/07/2012

Quando se revisam as diversas definições das dificuldades de aprendizagem, em realidade, elas refletem concepções e modelos teóricos diversos, sendo a definição uma concretização dessas concepções. Isto é o que acontece com a proposta de Bártoli (1990) e Bártoli e Botel (1988).

Conceituar as dificuldades de aprendizagem , de uma maneira ou de outra, terá implicações tanto para a construção de um modelo de educação ordinário quanto para a educação especial. Ocorre que se a população que é atendida pela educação especial for grande e aumente, tratar-se-á de propor algumas reflexões a respeito. Por exemplo, Bártoli (1990) fala da existência de um terço da população nacional atendida pelo sistema educativo com algum problema de fracasso escolar, e de mais da metade da população infantil das cidades do interior.

Isso sugeriria a ideia de que as dificuldades de aprendizagem não podem ser “todas” questão da própria criança, mas que é possível conceber, de uma maneira ampla, os fatores culturais e comunitários, familiares, escolares, entre outros fatores em uma visão ecológica da aprendizagem infantil – e, portanto, das dificuldades de aprendizagem. É possível conceber a família como um sistema de organização, de comunicação e de estabilidade. Esse sistema, a família, pode desordenar a aprendizagem infantil, o mesmo que podem fazer os fatores sociais tais como a raça e o gênero na escola.

Omitir fatores sociais, econômicos ou culturais é ter uma mente estreita em relação à aprendizagem, deve ser multidisciplinar, em diálogo cooperativo na solução de problemas dentro de um marco ecológico. Este diálogo deverá ter seu enfoque em uma definição ampla dos processos de aprendizagem humana, o que orientará o tratamento das dificuldades de aprendizagem.

Segundo Bastoli (1990), Bártoli e Botel (1988), é preciso primeiro averiguar em que consiste a aprendizagem, e isto pode ser exemplificado a partir da leitura que foi se descontextualizando de seu entorno natural de aprendizagem para ser estudada no laboratório, construindo os passos progressivos e estreitos até seu domínio mecânico. Nas pessoas, se produz uma aprendizagem de forma ativa, dentro de um ecossistema único, em interação com o mesmo, no qual se vai construindo uma vida com significados, com linguagem.

Nos últimos anos, têm sido enfatizados cinco temas em relação à aprendizagem da linguagem a partir de uma perspectiva interdisciplinar, procedente de diversas disciplinas como a filosofia, a psicologia, a sociologia, a psiquiatria, a ecologia, a educação normal e especial, as ciências sociais, e que poderiam ilustrar uma visão mais ampla sobre a aprendizagem e sobre as dificuldades de aprendizagem.

O problema é que é necessária uma seleção de alguns aspectos, posto que a imagem que emerge das diversas disciplinas é fragmentada, o que obriga a repensar o problema a partir da experiência das dificuldades de aprendizagem (ADELMAN, 1992; ADELMAN e TAYLOR, 1986). Trataremos de não separar o cognitivo do afetivo; as habilidades do contexto significativo e do conteúdo; as condutas do contexto social.

Os temas que contribuem para um enfoque ecológico desta natureza podem ser sintetizados em cinco (BÁRTOLI, 1990; BÁRTOLI e BOTEL, 1988):       

       

A interação social. É a linha iniciada por Vygotsky e retomada pelos enfoques sócio-histórico-culturais. A aprendizagem supõe um autêntico diálogo, uma autêntica comunicação aprendiz-mestre, em igualdade e respeito, em processos de mediação instrumental e semiótica, atuando o professor na zona de desenvolvimento proximal de forma dinâmica, em microcosmos ou formatos agradáveis e motivantes em que se repetem as tarefas e se possibilita a aprendizagem.

Bruner (ANO) recolhe de forma muito atrativa o conceito de formato, no qual a criança adquire a linguagem das ações dos adultos, ao repeti-las ou rotulá-las, ao serem tão motivantes e prazerosas. Conceitos similares a esses são discutidos no momento em que desenvolvemos o enfoque sócio-histórico-cultural. O professor ou educador ou o adulto seria o “formatador” da aprendizagem da criança por meio de processos de mediação instrumental e, sobretudo, semiótica e, ao mesmo tempo, seria o agente catalizador, liberador do aprendiz (na terminologia já clássica de John Dewey).             

Reflexão e resposta pessoal. A criança, o aluno, aprende de forma ativa, pessoal e afetiva em processos interativos com o contexto físico e social, com o professor, educador ou o adulto, com as outras crianças ou com as tarefas. Isso está relacionado com noções como a de motivação intrínseca. Tudo isso dentro de um sistema completo de interinfluências.             

Integração. Trataremos de conceber as diferentes competências que participam na aprendizagem de uma maneira harmônica e complexa, de forma integrada. Como em uma orquestra, integram-se os diferentes processos no desenvolvimento de uma tarefa, como por exemplo, a leitura ou a escrita, ou o cálculo. Por exemplo, ler e escrever implica conjugar essas tarefas com os conhecimentos prévios, a automonitorização, a reflexão, as autoperguntas (BÁRTOLI e BOTEL, 1988). Trata-se de processos recursivos, de modo nenhum lineares.
            
Transformação e crescimento. A mudança que se produz com a aprendizagem supõe a conquista de novos níveis de conhecimento, a conquista de novos níveis de consciência, de pensamento, de criatividade, de poder transformador ou liberador, na terminologia de Freire. Trata-se de mudar os sentimentos negativos sobre a escola e a aprendizagem em positivos. Inicialmente, esta mudança pode vir a exigir certa mediação, mas, progressivamente, será autoapropriada pelo aluno. Isto supõe a conexão entre consciência, reflexão e prática.      

Globalidade ecológica, equilíbrio e ajuste. Em cada aprendiz, atuam diversos sistemas e subsistemas (ecologia) interatuando a cultura e a natureza concretizada na família, na escola, no aluno, na comunidade, de forma equilibrada e encaixada como um todo.     

Esses cinco elementos, ou temas permitiriam construir uma concepção de dificuldades de aprendizagem enfatizando os aspectos ecológicos dos processos pelos quais se aprende. O que acontece se algum dos elementos descritos falha, é deficitário ou está ausente na ecologia da criança? Visto que, para que se produza uma aprendizagem correta, é necessária a atuação de forma conjugada dos cinco elementos, podemos falar com propriedade da existência de uma DA até que não se tenha modificado os cinco pontos. É possível, portanto, identificar os contextos em que se podem produzir as DA e intervir em consequência (BÁRTOLI e BOTEL, 1988).







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