Sexualidade na Velhice

Sexualidade na Velhice
PSICOLOGIA

A pirâmide das idades mostra um envelhecimento progressivo da população nos países ocidentais. Esta camada da população é atualmente um fenômeno presente em todos os países que conseguiram aumentar a esperança de vida através dos progressos combinados da medicina e do meio ambiente.

Na França e em Portugal, cerca de 30% da população tem mais de 50 anos. Se no Brasil, em média, apenas 16% dos indivíduos atinge atualmente esta idade, nas aglomerações urbanas esta população está muito mais concentrada.

Não somente os seres humanos vivem mais tempo, mas também as condições de saúde e o potencial de integração social são prolongados. Entretanto, os estereótipos ligados à degradação biológica, a qual serviu durante séculos para caracterizar o processo do envelhecimento, continuam a impregnara ideia das pessoas. As repercussões do processo de envelhecimento sobre a sexualidade constituem um assunto particularmente contaminado por preconceitos.

Até recentemente, ainda se acreditava que por volta dos cinquenta anos o declínio da função sexual era inevitável face à menopausa feminina e à instalação progressiva das disfunções da ereção masculina. Além disto, a atividade sexual perdia fatalmente seu objetivo de procriação e, portanto, sua justificativa social.

A concepção pioneira de Freud (1905/1969) afirmando o prazer como objetivo da sexualidade humana desvinculou-a da reprodução. A tese de Freud veio a ser confirmada com a recente emergência do conceito de saúde sexual e com a sua dissociação progressiva do conceito de reprodução, o que coloca em evidência a autonomia da vida sexual e sua importância para a realização e o bem-estar dos indivíduos durante toda a vida.

Mas esta liberdade ideológica só pôde tornar-se realidade com a conquista tecnológica dos hormônios sintéticos. Tornou-se assim possível tanto a contracepção quanto a terapia de reposição hormonal que facilita manter a função sexual prazerosa após a menopausa. Mais recentemente, o sildenafil e o tadalafil vieram proteger os homens das perturbações da ereção cujo potencial patológico se revela provavelmente muito mais a nível psicológico que fisiológico. Assim, os progressos da medicina minimizam as barreiras biológicas que dificultavam a manutenção da atividade sexual na segunda metade da vida.

Espera-se que junto com a dilatação da esperança de vida e do progresso científico e técnico que homem tem sido capaz de pôr em marcha, haja uma evolução social e cultural e uma mudança das mentalidades capaz de integrar a sexualidade das pessoas idosas harmoniosamente em tais avanços.

Para compreender a problemática da sexualidade nos adultos maduros e idosos (após os 50 anos de idade), é preciso levar em conta os fatores básicos que afetam o comportamento e a resposta sexual em qualquer idade:

1. Saúde física. A doença pode reduzir ou impedir o interesse pela sexualidade em qualquer idade. Pesquisadores provaram que raramente o equipamento sexual se deteriora no envelhecimento normal, impedindo os adultos maduros de permanecer sexualmente ativos enquanto tiverem saúde. A sexualidade está entre os últimos "processos biológicos provedores de prazer" a deteriorar-se.

2. Preconceitos sociais. Do ponto de vista do ciclo vital, o envelhecimento é um processo bio-psico-social, ou seja: caracterizado por mudanças fisiológicas, psicológicas e nos papéis sociais. Independentemente da especificidade e da heterogeneidade do envelhecimento individual, a psicogerontologia tem assinalado que a experiência subjetiva do envelhecimento é amplamente influenciada pela ideologia cultural.

A vivência subjetiva é marcada pela inevitabilidade das modificações corporais e das competências físicas, pelas modificações em nível dos recursos cognitivos e adaptativos, pelas alterações de papéis e da posição nas hierarquias sociais, assim como pelo impacto negativo de atitudes e estereótipos relativos ao envelhecimento. A crença na progressiva e generalizada incompetência assim como na impotência sexual dos idosos faz parte intrínseca destes estereótipos. Acuados entre as múltiplas exigências adaptativas que as alterações do envelhecimento comportam, os indivíduos enfrentam dificuldades para preservar a identidade pessoal e a integridade de alguns papéis e funções, sobretudo aqueles relativos à sexualidade que a sociedade atentamente vigia. 
     

3. Auto-estima. Na sociedade contemporânea, os valores culturais orientados para a juventude tendem a depreciar os indivíduos idosos em termos de sua aptidão e atração sexual, particularmente as mulheres. Pessoas desta faixa etária são levadas a aposentar-se também do terreno sexual, no qual as iniciativas representam um risco importante de desapontamento e frustração.

Além disso, toda manifestação de sensualidade é rapidamente suspeita de deslizar para a dissolução da demência senil. Todos temem o estereótipo do velho gagá que perdeu o controle de suas pulsões. Tendo interiorizado estes valores culturais, o indivíduo envelhecido pode não ter consciência de recalcar a sexualidade, ou simplesmente sentir-se impelido a reprimi-la deliberadamente. O conflito entre suas pulsões e a norma social, ataca a sua auto-estima.

4. Conhecimentos sobre a sexualidade. Muitos homens deixam de ter relações e se tornam impotentes porque, não compreendem as mudanças fisiológicas ligadas ao processo do envelhecimento, interpretam-nas como sendo sintomas de impotência. Com sua auto-estima baixa, ficam receosos de não conseguir uma ereção e acabam evitando ter relações para não serem confrontados com a frustração.

Num estudo verificaram que a causa mais frequente de cessação das relações sexuais é atribuída aos homens, tanto no depoimento dos próprios homens, quanto no das mulheres, apesar de os homens declararem continuar interessados em sexo mais freqüentemente do que as mulheres.

5. Status conjugal. A regularidade das relações sexuais está muito ligada à oportunidade representada pela situação conjugal. De um ponto de vista demográfico, a proporção de mulheres é predominante nesta população devido a uma esperança de vida nitidamente superior à dos homens. Esta diferença tende a acentuar-se à medida que a idade avança. A primeira consequência deste dado objetivo é a limitação das oportunidades de relações sexualizadas, particularmente para as mulheres. Entretanto, a falta de um parceiro disponível pode explicar o abandono de relações sexuais, mas não explica a renúncia a interesses  a comportamentos sexuais, fato que ocorre frequentemente mesmo entre pessoas casadas e satisfeitas com a sua relação conjugal.

Se a condição de saúde pode ser uma das explicações possíveis para o abandono da sexualidade ativa e explicar assim, indiretamente, um menor interesse pela sexualidade em geral, outras explicações poderão ser encontradas no âmbito das experiências de vida prévias e relativas, especificamente, à qualidade da relação conjugal e sexual desenvolvida ao longo da vida. Por um lado, se inibições existiam, elas tendem a criatalizar-se e, por outro lado, a degradação das relações afetivas, devido a conflitos e rancores não elaborados, pode afastar emocionalmente o casal. Raiva e ressentimento acumulados ao longo dos anos destroem a atração erótica .

Como vemos, com o passar do tempo, estes cinco fatores básicos que contextualizam a sexualidade humana passam a pesar ainda mais sobre o indivíduo envelhecido, restringindo a amplitude das escolhas pessoais. O caminho da renúncia é facilitado face à sua fragilidade psicofisiológica, contexto que representa um sexto fator, específico à esta população.

Duas teorias complementares permitem compreender o processo subjetivo que favorece esta renúncia à sexualidade. Por um lado, a teoria psicosociológica dos scripts que explica a ligação direta entre os papéis culturais atribuídos aos indivíduos segundo seu status social (inclusive faixa etária), e os scripts intrapsíquicos que permitem aos indivíduos reconhecer e reagir a circunstâncias sexualmente excitantes dentro de um contexto socialmente significativo positivamente valorizado. A cultura ocidental atribui um script sexual negativo ao indivíduo envelhecido, script que ele se recusa a assumir.

Por outro lado, a teoria psicanalítica explica como a clivagem entre a ternura e a sensualidade proposta por Freud (1912/1969) é reativada neste período tardio da vida de maneira ainda mais insidiosa. Vovô e vovó são anjos da guarda com um corpo diáfano, liberado de todo traço de sensualidade. Esta fábula deve ser preservada a todo custo; se preciso for, sob o controle dos filhos que se tornam, por sua vez, guardiões do recalcamento (ou da supressão). Ocorre, assim, uma inversão dos papéis que ocupavam na adolescência. Os adultos maduros são então compelidos a ocultar cuidadosamente todo e qualquer interesse sexual sob pena de serem socialmente desconsiderados e afetivamente rejeitados pela própria família.

A complementaridade entre a teoria sociológica e a teoria psicanalítica permite esclarecer a dupla natureza deste fenômeno no qual o processo intrapsíquico de exclusão da sexualidade é fruto, ao mesmo tempo, da interiorização dos ideais culturais e da situação de fragilidade psicofisiológica que leva a assumir a clivagem imposta.

A geração que ultrapassou os cinquenta anos, idade que marca o início das alterações bio-psico-sociais caracterizando o envelhecimento, confronta-se atualmente com um conflito entre os estereótipos e os valores ligados à sexualidade internalizados ao longo da vida e a oferta recente de recursos que permitem assumir as inclinações pessoais realmente percebidas.

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