Quebrando Ciclos: Bater não é educar

Quebrando Ciclos: Bater não é educar
PSICOLOGIA
Como psicóloga venho acompanhando alguns adultos e várias crianças que sofreram violência psicológica e física, odeio aquela imagem das redes sociais que é um pedaço de pau e a frase: "minha vara da infância, minha mãe era a juíza". Pessoas achando graça de coisas extremamente séria. É uma reprodução de violência mesmo sabendo que não adianta, que a criança vai "aprontar de novo", ela vai aprontar/teimar pelo simples fato de ser criança, ser um humano em desenvolvimento que desafia para entender os seus limites. Muitos pais batem utilizando as frases para se justificar: " eu apanhei e mesmo assim amo minha mãe/pai", "sou o que sou porque apanhei", " apanhei e estou vivo". Será que há necessidade de deixar as crianças passarem por isso?


Trabalhando com mulheres em uma comunidade do DF, mulheres que sofreram violência de seus companheiros, havia um cartaz na porta prédio dizendo: “Deixe no outro a sua melhor marca. Quem ama não bate”. Se não é aceito pela sociedade que a mulher apanhe de seu companheiro, porque é aceito que ela/eles bata/batam nos seus filhos?


Não há necessidade de “educar” com violência, violentar a pele, a alma, a infância. A indignação por ter uma ordem contrariada é momentânea, sua força é centenas de vezes superior ao de seu filho e descontar sua raiva não adianta, será uma contínua reprodução do que é a violência infantil. Pois, quem bate ensina a bater e assim não acredito que violência seja inato, mas sim ensinado que passa a ser reproduzido e aceito. Sim, existem crianças “más” que se tornam homens maus e muitos se tonam psicopatas capazes de atrocidades imagináveis. Não acredito em crianças com Personalidade Antissocial ou psicopatas. Entendo que houve casos que crianças cometeram casos deixando o mundo chocado, mas acredito que quando a criança apresenta Transtorno de Conduta, ela está externalizando de alguma forma o que está acontecendo com ela naquele momento.


E ao logo do tempo ela pode ser “moldada” por valores socialmente aceitos de pessoas que a influenciam, seja um tio, um vizinho, um professor... espelhando-se e doutrinando-se a respeito do que é certo e errado para a comunidade que ela está inserida e quais são suas punições quando infringe essas regras. No caso da criança com Transtorno de Conduta, não quer dizer que os sinais desapareceram mas, sim que ela tornou-se um adolescente/adulto com adaptações de uma cultura abarcada com valores e regras. Aprendeu a mascarar suas dores que podem, ou não, cutucar algum “instinto” de se tornar uma pessoa pervença.


Certa vez, atendi um senhor que batia no pai idoso durante o banho. É um absurdo pensar que um filho bate no pai e sobretudo um idoso. No entanto, a justificativa dele é que o pai o colocava ajoelhado sobre milho e o chicoteava por qualquer desapontamento. As chicotadas prosseguiram até os seus 23 anos. Agora, o pai acamado não tem mais forças para batê-lo, mas utiliza de humilhações e ofensas, o violentando com palavras.


Não estou justificando a atitude do paciente, mas o que quero dizer é que aos 53 anos se emociona ao lembrar-se das severas punições e nos dias de hoje, no momento em que sofria violência verbal do genitor perdeu o controle e reproduziu a violência ensinada desde a sua infância.


É importante às pessoas que sofreram violência doméstica durante a infância, tente quebrar o ciclo e experimentar educar seus filhos com disciplinas positivas. Não se trata de o “não espancar”, afinal é o mínimo que se espera de quaisquer pais com suas faculdades mentais em ordem. Trata-se de buscar meios, e se possível ajuda, para sanar esta “cultura” que o bater, humilhar, castigar severamente não traz danos psicológicos e resolve. Sabemos que não resolve e que os danos psicológicos são lamentáveis, assustadores advindos de pessoas que deveriam cuidar e proteger. A criança tem que respeitar seus responsáveis não por medo de apanhar, dos xingamentos ou severas formas de castigo. Mas, por respeito, por autoridade e não autoritarismo. Violência física, psicológica, verbal e sexual são violências de qualquer forma e não existe justificativa para os pais fazerem uso de nenhuma delas.


E para as pessoas que acham correto “educar” com violência, informo que você deve deixar o seu legado, e esta não deve ser a marca deixada para seu filho porque sua raiva passa e a infância de seu dele também.

Vanderléia de Fátima Timóteo da Silva
Graduada em psicologia desde 2009, em Brasília atende crianças e adultos. Voluntária na ONG Aconchego- Convivência Familiar e Comunitária, publica textos e artigos sobre psicologia infantil na revista Ponto Cirúrgico e tem o blog Cultura Pra Criança. O blog tem a intenção de resgatar brincadeiras antigas, o cozinhar com crianças, a construção de brinquedos e tudo um pouco que abarca este universo.
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