Psicologia Infantil: O universo da criança pré-escolar

PSICOLOGIA
Do ponto de vista psicológico e de desenvolvimento a criança na idade pré-escolar, apresenta notável progresso em relação às habilidades motoras, linguagem e funcionamento cognitivo. Nesta fase a criança já é capaz de perceber o quanto é diferente do outro e manifestar de forma evidente e clara suas características pessoais em relação as preferências, atitudes, formas de pensar e sentir. Estabelece seu próprio estilo de relacionar-se com o meio e adaptar-se ao mesmo, adquirindo novas características que contribuem para a formação de sua personaliade. É uma etapa caracterizada por diferentes motivações e ansiedades relacionadas às  descobertas, curiosidades e identificação sexual.

Comportamento Dependente
É comum a criança manifestar formas de comportamento dependente, buscando atenção, ajuda, reconhecimento, aprovação, confiança, afeto e apoio, neste caso, quando estas necessidades básicas não são supridas, há grandes possibilidades de um amadurecimento precoce. O amadurecimento precoce é o recurso que a criança encontra para lidar com os “vazios” não preenchidos por suas necessidades básicas, conflitos e traumas não elaborados e resolvidos.

Ambientes ansiogênicos, o isolamento social e a falta de incentivo à autonomia (dentro dos limites previstos), contribuem de forma significativa para o comportamento de dependência por parte da criança. Entre as tarefas comportamentais, espera-se que a criança na idade pré-escolar tenha certa confiança e capacidade de vestir-se, cuidar de sua higiene, resolver problemas menores sem ajuda, iniciar e completar algumas atividades e ser capaz de brincar sozinha sem supervisão constante. Se a mão for carinhosa, receptiva e protetora ao encorajar a independência e autonomia, seu filho estará motivado a ser mais autoconfiante, diminuindo comportamentos excessivamente dependentes.

O desejo de solucionar problemas e a construção de habilidades e capacitações, pode-se desenvolver cedo, em consequência de reforços e encorajamento dos pais, aos esforços feitos pela criança para ser independente. As crianças altamente motivadas para realizações intelectuais copiam frequentemente os adultos em seus jogos e são possivelmente aceitas como líderes pelas demais crianças. A forte motivação para a realização tende a ser contínua, desde o período de pré-escolaridade até a adolescência e a idade adulta.
Medo e Ansiedade
Nesta fase é comum a criança deparar-se com frustrações, imprevisibilidade dos eventos, dúvidas, novas situações e experiências, portanto, um certo nível de ansiedade é absolutamente compreensível e esperado.  As fantasias da perda do amor dos pais e da proteção que suas figuras representam é outro fator que contribui para o aumento da ansiedade. Sendo muito ligadas afetivamente aos pais, muitas crianças tornam-se ansiosas frente à possibilidade de perder o amor dos mesmos, em virtude de diferentes razões tais como: a chegada de um irmãozinho, separação dos pais, viagens longas (pais) e ainda a rejeição real ou imaginária. Outros aspectos que estão diretamente relacionados à intensa e excessiva ansiedade na criança, são as constantes restrições, punições e a alta exigência dos pais em impor padrões de comportamento incompativeis com a idade, ocasionando sucessivas avaliações negativas.

Os medos também são comuns nesta fase, sendo fontes de ansiedade. Alguns servem a uma função “auto preservativa” e implicam em respostas defensivas e efetivas de evitamento. O medo passa a ser um sintoma e exige atenção, quando as reações são frequentes, prolongadas e intensas, tais como: choro, retraimento, afastamento, submissão, tremores e pânico. Para que a criança atinja um ajustamento emocional adequado, muitas destas respostas que antes ocorriam frente a estímulos eliciadores de medo, devem ser substituídos por reações maduras e dotadas de um propósito. A criança deve ser encorajada á enfrentar seus medos, buscado testar reações mais adaptativas e cabe aos pais este auxilio, através de muito diálogo, ressignificações e técnicas comportamentais específicas. Há ainda uma forte tendência da criança em adotar os medos de seus pais, seja por meio da aprendizagem observacional ou pelo processo de identificação.

Agressividade
As diferentes formas e quantidade de agressão que uma criança exibe, dependem primariamente de suas experiências sociais, incluindo os reforços recebidos por esse comportamento, observação e imitação de modelos agressivos, o grau de ansiedade ou culpa associado à expressão agressiva. A frustração produz frequentemente um aumento da agressão, mas as crianças diferem muito quanto à habilidade em termos de tolerância e quanto à intensidade de suas reações. A agressividade é uma característica razoavelmente estável: meninos altamente agressivos durante o período escolar também são mais passíveis de serem muito agressivos na adolescência e na vida adulta.

Outras crianças da mesma idade, também são fontes frequentes que reforça o comportamento agressivo e muitas crianças tornam-se mais agressivas em consequência da frequência ao maternal e à pré-escola. O uso da punição física perante o comportamento agressivo pode de fato, aumentar a agressão ao invés de inibi-la.O processo de identificação
A identificação, conceito derivado da psicanálise de Freud, refere-se ao processo que leva a criança a pensar, a sentir e a comportar-se como se as características de uma outra pessoa, normalmente um dos pais, lhe pertencessem. A identificação com os pais é necessária, sendo uma fonte muito importante de segurança para a criança pré-escolar. Através da identificação, a criança efetivamente incorpora a si o poder e a adequação do pai ou da mãe. Por outro lado, a criança identificada com um modelo negativo, sente-se menos segura e mais ansiosa. A maioria das crianças sente que seus pais têm numerosas características, habilidades e privilégios desejáveis. São fortes e poderosos, dotados de habilidades e de acesso a prazeres que a criança inveja. Além disso, controlam objetivos e situações desejáveis e importantes. Com base no entendimento psicanalítico, o complexo de édipo também proporciona um processo de identificação, geralmente com o progenitor do mesmo sexo, em virtude da conquista do progenitor do sexo oposto.

O processo de identificação possibilita ainda a adoção de comportamentos, valores, atitudes e interesses geralmente considerados apropriados ao papel masculino e feminino, na cultura a qual pertence a criança, bem como a internalização dos padrões de comportamento moral. Estes aspectos derivados do processo identificatório contribuem para a organização psicológica da criança.

Por volta dos cinco anos de idade, as crianças estão inteiramente cientes dos interesses e comportamentos apropriados ao seu sexo, em relação às suas preferências (modo de se vestir, brinquedos, brincadeiras, programas, etc.).

O grau em que uma criança adota o comportamento dos pais é uma função do afeto e dos cuidados parentais, de sua competência e poder. Se os pais não possuírem tais características, não haverá identificação positiva. A situação ideal à adoção de uma identidade sexual satisfatória e adaptativa seria aquela na qual o pai de mesmo sexo é visto como afetuoso e dotado de características desejáveis e ambos os pais reforçam consistentemente as evidências de uma identificação apropriada com o pai do mesmo sexo.Controle ou Permissividade em relação a criação dos filhos?
Os lares onde o controle é intenso produzem crianças que manifestam relativamente pouco negativismo, desobediência, espontaneidade ou medo.

Crianças que convivem em ambientes familiares democráticos tendem a ser ativas, competitivas, expansivas, agressivas, curiosas e não conformistas.

Crianças maduras, competentes e independentes têm pais altamente consistentes, calorosos, amorosos e seguros. Estes pais respeitam a independência da criança, mas mantêm-se firmes em suas próprias posições, dando justificativas claras e explícitas de suas decisões. O controle parental competente, uma combinação de muito controle e encorajamento positivo dos esforços em direção à autonomia e independência da criança, conduz ao desenvolvimento da maturidade e do senso de competência, bem como do auto controle da exploração e de uma expansividade socialmente orientada.

Descoberta da sexualidade: Fase Fálica
O termo fase fálica compreende o entendimento do desenvolvimento psico sexual de acordo com a visão psicanalítica. Trata-se de uma fase evolutiva da sexualidade situada entre os três e os seis anos, que se caracteriza pela descoberta da sexualidade e do interesse pelo sexo oposto que inicia através do Complexo de Édipo. O menino elege a mãe como namorada e a menina elege o pai como parceiro ideal. As crianças de sexo posto, quando brincam juntas se dão conta de que seus órgãos genitais são diferentes e isso desperta curiosidade. Possibilitar que a criança entenda as diferenças sem traumas ou proibições é o mais saudável, de modo que a situação seja encarada com muita naturalidade por parte dos pais.

É bem comum pânico por parte dos pais, principalmente quando há dificuldades por parte dos mesmos em lidar com o assunto sexualidade. É uma fase relacionada à descobertas, sedução, poder e disputa. O desfecho final desta fase, pode resultar na formação de traços importantes na personalidade da criança.

Durante este período a criança passa a perceber as diferenças sexuais, os papéis desempenhados por mulheres e homens na sua cultura (conflito edipiano para Freud) entendendo de forma diferente o mundo que a cerca. Se a sua curiosidade “sexual” e intelectual natural for reprimida e castigada a criança poderá desenvolver sentimento de culpa e diminuir sua iniciativa de explorar novas situações ou de buscar novos conhecimentos.Complexo de Édipo
O complexo de Édipo é um conceito fundamental para a teoria psicanalítica. Caracteriza-se por sentimentos contraditórios de amor e hostilidade em relação aos pais e no processo de identificação com os mesmos, cujo desfecho da fase pode ser negativo ou positivo.  Segundo a teoria, relação que existe nesta tríade é a essência da conflitiva do ser humano.  Na identificação positiva, o menino identifica-se com o pai e a menina com a mãe. O menino tem o desejo de ser forte como o pai e ao mesmo tempo hostiliza por ciúmes da mãe. A menina é hostil com a mãe por ciúmes do pai, ao mesmo tempo em que busca parecer-se com ela para competir e disputar o amor do mesmo. Na identificação negativa, o processo identificatório ocorre com a figura do sexo oposto, podendo interferir em questões relacionadas a identidade sexual.

A ideia central do conceito de complexo de Édipo, inicia-se na ilusão de que o bebê tem de possuir proteção e amor total, reforçado pelos cuidados intensivos que o recém nascido recebe pela sua condição frágil. Esta proteção está relacionada, de maneira mais significativa, com a figura materna. Em torno dos três anos, a criança começa a entrar em contato com algumas situações em que sofre interdições, facilmente exemplificadas pelas proibições que começam a acontecer nesta idade, além de certas exigências. Neste momento, a criança começa a perceber que não é o centro do mundo e precisa se renunciar ao mundo organizado em que se encontra e também à sua ilusão de proteção e de amor materno exclusivo.

Dicas para entender e auxiliar a criança na idade pré-escolar:

- A fase pré-escolar, é a idade do “como” e do “porquê”. A criança é curiosa, pergunta e interessa-se por tudo. Pense que isso é exploração e esclareça os questionamentos usando explicações adequadas e apropriadas para a idade.
- A criança é muito perceptiva e capta muitas coisas através da observação. Não pense que a criança não está entendendo, portanto, cabe aos pais, familiares e educares, colaborar na construção de um ambiente saudável e equilibrado.
- É comum a criança não aceitar as regras e os limites. A disciplina deve ser exercida sem culpa, com afeto, segurança, persistência e pulso firme tanto por parte dos pais como dos educadores.
- A criança é egocêntrica e resiste em aceitar que o mundo não gira apenas na sua volta, portanto, é normal a adoção de comportamentos que chamem atenção, os quais não devem ser reforçados por parte dos pais e educadores.
- Trata-se de um período de inquietação constante, devido a energia e expansividade.  A criança precisa de atividades, brincadeiras, jogos e uma rotina organizada.
- É necessário que os pais ajudem a criança a desenvolver a sua consciência, tendo em conta que tanto o excesso de proteção como as atitudes de afastamento podem prejudicar o seu desenvolvimento.

As palavras são importantes, mas o seu valor é inferior ao exemplo.

Vanessa Ebeling
Psicóloga Clinica - Especialização em Psicoterapia de Técnicas Integradas pelo Instituto Fernando Pessoa ( em curso ) . Experiência na área hospitalar com pacientes oncológicos e pediátricos. Experiência clinica com dependentes químicos e pacientes em situação de crise. Atuação clinica em consultório particular: atendimento individual, familiar e casal. Grupos educativos e terapêuticos.
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