O Caso Anna O.

O Caso Anna O.
PSICOLOGIA
Freud estava especialmente interessado na mais peculiar de todas as pacientes de seu colega, a célebre Anna O., que Breuer havia começado a tratar em 1880.

Anna O. era uma mulher de 21 anos que adoeceu enquanto cuidava de seu pai, que depois morreu vítima de um abscesso tubercular. Sua doença começou com uma tosse intensa. Em seguida ela desenvolveu vários outros sintomas físicos, como sérios distúrbios da visão, da audição e da fala, impossibilidade de ingerir alimentos, paralisia de três extremidades com contrações e anestesias, bem como lapsos de consciência e alucinações.

Breuer diagnosticou a doença de Anna O., como um caso de histeria, e elaborou, gradualmente, uma terapia que acreditava ser efetiva na dissolução daqueles sintomas. 

Ela manifestava dois estados distintos de consciência: em um deles, era uma mulher jovem relativamente normal; no outro, era uma criança problemática e teimosa. Breuer observou que a alternância entre as duas personalidades distintas parecia ser induzida por alguma forma de auto-hipnose, e ele foi capaz de causar a transição de uma para outra personalidade, colocando Anna O. em um estado hipnótico.

Breuer sabia que Anna fora muito apegada ao pai e cuidara dele junto com a mãe enquanto ele estava em seu leito de morte. Durante seus estados de consciência alterada, Anna podia recordar fantasias nítidas e sentimentos poderosos que ela experimentara enquanto seu pai estava morrendo.

Breuer ficou admirado ao observar que à recordação de sua paciente de circunstâncias carregadas de afeto, durante as quais seus sintomas haviam aparecido levaram esses mesmos sintomas a desaparecer. A própria paciente descreveu o tratamento como uma “limpeza de chaminé” e como sua “cura pela fala”.

Ela ficou tão entusiasmada que continuou a discutir um sintoma após o outro. Por exemplo, ela lembrava estar sentada ao lado do pai enquanto a mãe estava ausente e ter uma fantasia ou devaneio sobre uma serpente. Em sua visão, a serpente estava prestes a picar seu pai. Ela tentou afugentar a serpente, mas seu braço ficara dormente em decorrência de ter ficado dobrado sobre o encosto de sua cadeira. A paralisia permaneceu até que ela fosse capaz de recordar a cena sob hipnose e recuperar o uso do braço.Em determinado período de sua doença, durante algumas semanas, Anna O. recusava-se a beber, e saciava sua sede com frutas. Certa noite, durante um estado de hipnose autoinduzida, ela descreveu uma cena em que ficara enojada ao ver um cachorro bebendo água de um copo. Logo depois, pediu água e, então, acordou de sua hipnose com um copo nos lábios.

Em seu relato de caso, Breuer tratou o episódio narrado por Anna O. durante o transe, como o relato verdadeiro do incidente responsável por sua aversão a beber. E disse ter concluído que a maneira de curar um sintoma particular de “histeria” era recriando a memória do incidente que o havia provocado originalmente, desencadeando assim uma catarse emocional e induzindo o paciente a expressar todo sentimento associado ao fato.

O desaparecimento repentino de um dos vários sintomas de Anna O. forneceu, assim, a base do que Breuer chamou posteriormente de “procedimento técnico terapêutico”. Segundo Freud e Breuer, esse método catártico*, aplicado sistematicamente a cada um dos sintomas de Anna resultou na cura completa da histeria.

Breuer ficou encantado com esta extraordinária paciente. Ele despendia tanto tempo com ela que sua esposa ficou enciumada e ressentida. Assustado pelas conotações sexuais das reclamações da sua esposa, ele abruptamente terminou o tratamento de Anna O.

Algumas horas após o término do tratamento, Breuer foi chamado à beira da cama de Anna O., que estava em meio a uma crise. Ele encontrou-a em um estado agitado, com fortes dores de um parto histérico. Embora não tivesse percebido quaisquer sentimentos da paciente em relação a ele, a gravidez fantasma refletia os anseios eróticos intensos de Anna O. por Breuer.

Esse acalmou a paciente induzindo um transe hipnótico e, em um estado de agitação extrema, organizou uma partida imediata para uma segunda lua de mel com sua esposa em Veneza.Embora Breuer tenha considerado a experiência com Anna O., muito desconcertante, Freud ficou intrigado pelo poder das lembranças inconscientes e dos afetos suprimidos de produzir sintomas histéricos. Breuer estava relutante em publicar seu relato, mas Freud insistiu que ele o escrevesse de memória 13 ou 14 anos após sua ocorrência. A colaboração de Breuer e Freud resultou na publicação de “Comunicação Preliminar”, em 1893. No artigo, eles articulam a ligação causal entre traumas psíquicos e sintomas histéricos.

Com a publicação em 1895 de “Estudos sobre a Histeria”, Breuer e Freud apresentaram um tratado clínico muito mais sofisticado sobre a patogênese e o tratamento dos sintomas histéricos. 

Na introdução, em meio a diversas citações explícitas sobre a influência de Charcot, os autores sugerem que a memória recalcada de um trauma psíquico age como um corpo estranho, que muito depois de penetrar no organismo deve continuar a ser visto como um agente que ainda está ativo.

O paciente histérico sofre de “reminiscências”, segundo Freud. Em outras palavras, uma ideia reprimida incompatível é a fonte das manifestações sintomáticas. O paciente experimenta um trauma na infância que provocara sentimentos esmagadores de natureza intensamente desagradável. A experiência traumática representava uma ideia incompatível ao paciente e foi, portanto, intencionalmente dissociada ou reprimida da consciência. A excitação nervosa associada à ideia incompatível foi transformada ou convertida em canais somáticos que produziram sintomas histéricos.

Com isso, tudo o que restou na percepção consciente foi um símbolo mnemônico apenas remotamente conectado ao evento traumático, frequentemente por meio de ligações mascaradas. Freud supôs que, se a lembrança da experiência traumática pudesse ser trazida de volta à percepção consciente do paciente, junto com o afeto suprimido associado a ela, os sintomas desapareceriam quando o afeto fosse descarregado.   

O caso Anna O. desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do pensamento de Freud. Ela foi frequentemente descrita como a primeira paciente psicanalítica, afirmação que o próprio endossou em uma conferência na Clark University (Estados Unidos): ... declarei então que não havia sido eu quem criara a psicanálise: o mérito cabia a Joseph Bruer, cuja obra tinha sido realizada numa época em que eu era apenas um aluno preocupado em passar nos exames (1880-2) (FREUD, 1914, p.16).Freud, no entanto subestimava seu papel, a psicanálise nunca teria aparecido se ele não transformasse a “cura pela fala” de Breuer, ligando-as às ideias de Charcot a respeito da histeria traumática e à sua própria técnica de reconstrução de memórias recalcadas pela interpretação e associação livre.

Quase todos os pacientes que Freud tentou analisar no início de sua carreira assemelhavam-se a Anna O. em ao menos um ponto: eles procuravam Freud não por causa de algum problema emocional, mas por estarem sofrendo de sintomas físicos.

Por exemplo, a primeira paciente de Freud, Emmy Von N., sofria de dificuldades de fala que ele descrevia como “interrupções espásticas que resultam em gagueira”. Ela também reclamava de “movimentos convulsivos frequentes, com tiques na face e nos músculos do pescoço” e costumava repetir compulsivamente exclamações verbais e produzir sons de estalidos.

Outra paciente, Lucy R., uma governanta inglesa, sofria de estranhas alucinações olfativas em que predominava o cheiro de pudim queimado.

Outra ainda, Elisabeth Von R., veio a Freud porque há mais de dois anos sofria de dores nas pernas. 

Em todos esses casos, Freud determinou que a doença de seus pacientes era histeria e procurou trazer à tona o incidente traumático que supostamente teria produzido os sintomas.

Nessa época, Freud acreditava que, no estágio final da terapia, seria proveitoso descobrir de quais maneiras as coisas estão conectadas e dizer ao paciente sua descoberta.

Quando, no entanto, ele apresentou suas conclusões a Elizabeth Von R., afirmando que sua doença havia sido produzida pela sua paixão por seu cunhado, ela objetou dizendo que isso não era verdade. Freud, no entanto, persistiu em sua explicação e declarou que sua paciente estava curada.

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