Kurt Cobain: pequeno esboço de seu possível quadro Borderline

Kurt Cobain: pequeno esboço de seu possível quadro Borderline
PSICOLOGIA

 Sabemos que por de trás de toda obra há sempre um criador e essas, carregam e muito, materiais, características fiéis de quem as cria. Farei um breve resumo de algumas obras do inigualável Kurt Cobain. Lembrando que o que descrevo abaixo só se refere a um pequeno esboço de um possível quadro que podemos enquadrar o sujeito em questão, tal que se refere ao Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) ou também conhecidamente, Transtorno de Personalidade Limítrofe; e que tal não se torna tão “eficiente”, pois para diagnosticar um indivíduo se faz necessário “estudá-lo” / analisá-lo por tempo prolongado, de no mínimo seis meses, e claro, tê-lo pessoalmente envolvido nesse diagnóstico. Como não é possível tal contexto, o presente diagnóstico apenas se refere a uma ousada interpretação de suas escrituras (obras) baseadas em uma descrição psicológica/ psicanalítica.




Para você leitor, entender do que se trata um Transtorno de Personalidade Borderline, citarei os elementos fundamentais de um diagnóstico desse tipo de transtorno a partir de fontes conceituadas como o DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fourth Edition), publicado em 1994 pela American Psychiatric Association e os critérios que pautam o diagnóstico através de outra fonte reconhecida internacionalmente, que é o CID 10 (Classification of Mental and Behavioural Disorders Clinical descriptions and diagnostic guidelines ou Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento décima edição).




Seguindo o DSM- IV, verifica-se:


SINTOMAS AFETIVOS


1. Instabilidade afetiva acentuada devida reatividade intensa do humor (por exemplo: episódios de disforia, irritabilidade, ou ansiedade geralmente durante algumas horas e raramente, no máximo, alguns dias).




2. Ira, ódio ou raiva inapropriados, intensos e de difícil controle (por exemplo: apresenta frequentes demonstrações de irritação, raiva constante, sentimento de vinganças, lutas corporais recorrentes.)




3. Sentimentos crônicos de vazio e tédio.





SINTOMAS IMPULSIVOS


4. Conduta recorrente de tentativas ou ameaças de suicídio e comportamentos de automutilação.




5. Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado por extremos de idealização e desvalorização, ou amor e ódio, bom ou mau etc.




6. Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (por exemplo, exageros em: gastos financeiros, sexo, drogas, álcool, direção imprudente, comer, cleptomania ou outros tipos de compulsões.) Nota: não incluir comportamento suicida ou auto-mutilante estabelecido no critério 4.





Sintomas interpessoais


6. Esforços frenéticos para evitar um abandono/rejeição real ou imaginado. Nota: não incluir comportamento suicida ou auto- mutilante estabelecido no critério 4.




7. Instabilidade na identidade: auto- imagem, preferência sexual, gostos e valores persistentemente instáveis.

SINTOMAS COGNITIVOS


9. Ideação paranoide transitória relacionada ao estresse, ou severos sintomas dissociação.



Dentro do CID- 10 encontra-se esse transtorno enumerado e nomeado por:


F60.3 - PERSONALIDADE COM INSTABILIDADE EMOCIONAL


Transtorno de personalidade caracterizado por tendência nítida a agir de modo imprevisível sem consideração pelas consequências; humor imprevisível e caprichoso; tendência a acessos de cólera e uma incapacidade de controlar os comportamentos impulsivos; tendência a adotar um comportamento briguento e a entrar em conflito com os outros, particularmente quando os atos impulsivos são contrariados ou censurados.



Dois tipos podem ser distintos: o tipo impulsivo, caracterizado principalmente por uma instabilidade emocional e falta de controle dos impulsos; e o tipo "borderline", caracterizado, além disto, por perturbações da autoimagem, do estabelecimento de projetos e das preferências pessoais, por uma sensação crônica de vacuidade, por relações interpessoais intensas e instáveis e por uma tendência a adotar um comportamento autodestrutivo, compreendendo tentativas de suicídio e gestos suicidas.




Inclui:

Personalidade (transtorno da):

• agressiva

• borderline

• explosiva




Exclui:

Personalidade dissocial (transtorno da) (F60.2)

Para se tornar mais didático esse breve diagnóstico da estrela do rock Kurt Cobain, citarei uma de suas músicas e ao lado das estrofes, citarei alguns critérios que o enquadram ao TPB e explicar como eles se encaixam em fatos demonstrados na vida dele posteriormente, ok? Vamos lá:



I'm so happy

Eu estou tão feliz= sentimento de exaltação, euforia

'Cause today I've found my friends

Porque hoje eu encontrei meus amigos

They're in my head

Eles estão na minha mente

I'm so ugly but that's okay,

Eu sou tão feio, mas tudo bem = DESPERSONALIZAÇÃO e sentimento de desvalia com sua auto- imagem. Essa estrofe é marcante para o diagnóstico de Kurt em TPB no que se refere à despersonalização

'Cause so are you, we broke our mirrors

Você também é, quebramos nossos espelhos= DESPERSONALIZAÇÃO e sentimento de desvalia e menosprezo com o outro

Sunday morning is everyday

Manhã de domingo é todo dia= sentimento de vazio e disforia, depressivo= instabilidade emocional, comparada ás estrofes posteriores e anteriores.

For all I care and I'm not scared

Me importo com tudo e não estou com medo = euforia e audácia= instabilidade emocional (mesmo critério acima do porquê de ser considerada labilidade emocional)

Light my candles in a daze

Acendo minhas velas, com deslumbre = euforia= labilidade emocional

'Cause I've found God

Pois encontrei Deus= êxtase,exaltação= instabilidade emocional

I'm so lonely, but that's ok

Eu estou tão só, mas tudo bem= sentimento de vazio

I shaved my head and I'm not sad

Eu raspei minha cabeça e não estou triste= instabilidade emocional recorrente ao sentimento de felicidade citado anteriormente e despersonalização novamente, já que não se importa com sua auto- imagem. Pessoas que sofrem de TPB a auto-imagem não é muito clara. Então tendo cabelo ou não, gordo ou magro, isso não irá fazer muito sentido, pois ele não consegue se ver realmente)

And just maybe I'm to blame

E apenas talvez, eu deva ser culpado= ansiedade depressiva (conceito de Melanie Klein, autora da Psicanálise, em que seus estudos contribuem muito para o entendimento do comportamento Borderline quando trata sobre conceitos como “Seio bom” e “Seio mau”, e especialmente as fases do luto, entre elas ansiedade depressiva)

For all I've heard, but I'm not sure

Por tudo que ouvi, Mas eu não tenho certeza

I'm so excited

Estou tão empolgado= excitação= instabilidade, pois logo após por várias passagens o sentimento de vazio foi substituído pela excitação (no contexto da composição)

I can't wait to meet you there, but I don't care

Eu não posso esperar para te encontrar lá, mas eu não me preocupo

I'm so horny

Estou com tanto tesão

But that's okay, my will is good

Mas está tudo bem, minha intenção é boa

I like it - I'm not gonna crack Eu gosto - eu não vou pirar

I miss you - I'm not gonna crack Eu sinto sua falta - eu não vou pirar

I love you - I'm not gonna crack Eu te amo - eu não vou pirar(amor

I killed you - I'm not gonna crack Eu te matei - eu não vou pirar (heterodestrutividade)



*Nessa música, em especial na estrofe que o autor cita “eu sou feio”, mesmo supondo que essa poderá ser uma METÁFORA utilizada por Kurt, tal como outros compositores “brincam” com letras, palavras em suas canções, não é descartada a possibilidade dessa estrofe ser um indicativo de um material inconsciente e como tal, ser julgada a mesma função de sua forma literal; então proponho a interpretação igualitária.


A partir da interpretação acima, quando citado “eu não vou pirar” o autor ou o personagem envolvido no enredo da música demonstra que sente a sensação de enlouquecer, mas nega que isso irá acontecer, pois busca o autocontrole, tentando desesperadamente controlar seus impulsos, para não se descompensar.



Há também aqui um vazio em que busca alguém para sanar esse sentimento, e essa interpretação equivale a todo esse refrão: amor e ódio se mesclam denotando mais uma vez instabilidade emocional, um sentimento bastante ambíguo e característico do sujeito Borderline.



Verifica-se um misto de sentimentos de vingança e comportamentos autodestrutivos (impulsos de destruição a si) e heterodestrutivos (impulsos destrutivos a outrem).



Em algumas músicas de Cobain tal como “Lithium”, percebemos uma alta instabilidade emocional. Em algumas estrofes observa-se que há momentos de euforia e disforia, sendo essa marcada por um profundo sentimento de vazio e excitação, como se suas sensações perpassassem de um extremo ao outro em segundos. Lógico, que o simples fato de alguém escrever uma música refletindo sobre seus sentimentos e crises existenciais não se torna necessariamente o motivo de enquadrá-lo em um distúrbio, mas percebemos que ao longo da vida de Kurt, ele demonstrou comportamentos autodestrutivos e até mesmo seu próprio fim, se suicidando, e antes desse fato, ter apresentado diversos comportamentos destrutivos tais como o uso excessivo de drogas.



Outro elemento fundamental para o psicodiagnóstico Borderline no cantor são suas relações interpessoais que segundo o CID-10 que compõem relações tempestivas, intensas, ou instáveis e “por uma tendência a adotar um comportamento autodestrutivo, compreendendo tentativas de suicídio e gestos suicidas”.

Outra característica que difere Cobain de outras pessoas e o insere no diagnóstico de TPB são “Esforços frenéticos para evitar um abandono/rejeição real ou imaginado” (critério 4 DSM-IV)


Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado por extremos de idealização e desvalorização, ou amor e ódio, bom ou mau etc.



Há rumores de que Kurt namorou, se assim podemos, Tracy Marander, e que após um turbulento relacionamento em que havia se entregado e essa entrega não correspondida da mesma forma, compôs a música “about girl”. Consta nessa melodia que Kurt é submisso à pessoa amada, comportamento tipicamente borderline, onde visa com essas atitudes evitar o abandono do outro.



Em “About girl”, Kurt canta: “ But I can't see you every night; Free; I do...; I'm standing in your line; I do... hope you have the time; I do... pick a number two; I do... keep a date with you”. Traduzido: “Mas eu não posso te ver toda noite; De graça; Aceito...; Estou esperando na sua linha; Aceito... Esperar que você tenha tempo; Aceito... Pegar a segunda senha; Aceito... Marcar um encontro com você”.


Na música “Aneurym”, ele descreve como se sente tão angustiado pela ansiedade exacerbada, onde deseja a aprovação do outro, onde vomitou minutos antes de se encontrar com uma suposta namorada “Amo-te tanto que me deixa doente”.


Outra situação da vida de Cobain em que ele encontra-se um pouco mais estável no que se refere a relações amorosas, é quando encontrar Courtney Love, sua namorada que passa ser sua noiva. Esse relacionamento não demora muito para voltar a intensidade típica da personalidade do cantor. Segundo arquivos de um magazine ele descreve essa “paixão louca”:


Nos últimos dois meses fiquei noivo e minha atitude mudou drasticamente. Eu não posso acreditar o quanto estou feliz. Às vezes até me esqueço que estou em uma banda, eu estou tão cego pelo amor. Eu sei que soa constrangedor, mas é verdade. Eu poderia desistir da banda agora mesmo. Não importa, mas estou sob contrato.



Como vemos, ele admite até mesmo a possiblidade abandonar o emprego pela mulher amada, mas seu controle vem apenas, única e exclusivamente de um contrato seu com a banda.


Esses trechos listados ilustram o quanto o borderline é susceptível à vontade do outro, se tornando vulnerável às relações interpessoais. Demonstra fragilidade ao passo que se torna um objeto como um “João bobo”. Verifica-se que o sujeito que sofre de TPB se entrega de forma intensa e por vezes se torna vulnerável ao desejo da pessoa que supostamente ama.



Na verdade me refiro com a frase “supostamente ama”, pois para ele não importa quem seja a pessoa, mas sim “alguéns”, nessa linha de pensamento não há “o alguém”, mas “qualquer alguém”, tamanha é a sua carência afetiva.



Uma comparação simples a respeito do TPB é a respeito dos sintomas afetivos, que demanda grande sofrimento por quem convive com esse tipo de transtorno, que é a característica de ser uma “criança”, tal como Cobain relatada sobre si mesmo em sua carta de suicídio: “Eu sou mesmo um bebê errático e triste!”. Há certas características infantis no que se refere ao sentir do Borderline, na sua carência e sua tentativa de preencher esse vazio aderindo a relacionamentos intensos, com o objetivo de cessar o vazio, a carência, a angustia e a tristeza que estão dentro dele.



Mesmo observando de que esse relacionamento não tem muito futuro, ele persiste no erro, a fim de negar a solidão e o abandono.


Costumeiramente associo o sentimento Borderline de Ira, referente ao critério 2 do DSM-IV ao filme “Um dia de fúria” (“Falling Down”) do diretor Joel Schumacher, em que o personagem do filme depois de tantas insatisfações sociais e crises existenciais se revolta, aliado a um grande teor de estresse decorrente da vida turbulenta e caótica de uma metrópole, apresenta comportamentos intensos reativos a todas as suas insatisfações. A diferença nessa comparação é que o sujeito Borderline na verdade não tem um dia de fúria, mas sim vários dias de fúria, podendo até mesmo chegar a minutos ou horas de fúria em apenas um dia.



O sujeito borderline é alguém que sofre, que demanda atenção de outros a todo instante, e pela maioria das pessoas não serem um contingente forte e resistente, acabam se afastando, pois é preciso paciência e compreensão, qualidades essas que nem todas as pessoas estão dispostas a oferecer. Devemos perceber com atenção e com olhos voltados a esse público sem discriminação ou preconceitos.

O tratamento e estudos sobre o tema é altamente complexo, já que há grandes discussões a respeito do tema e de uma suposta “cura”. Por se tratar de um transtorno de Personalidade, tal perdura na vida da pessoa desde sempre e o tratamento tem como objetivo oferecer um prognóstico menos conflitante para o sujeito e familiares e amigos, além da sociedade em geral, devido a seus comportamentos hetero e autodestrutivos.



Outros dados que remontam a vida complicada e todo sofrimento vivido por Cobain é relatado por conhecidos e parentes a respeito de sua infância. Aos oito anos de idade seus pais se separaram o que decorreu uma grande mudança de atitude tanto na escola quanto em casa, segundo relatos de sua mãe a diversas fontes sobre o cantor. Esses comportamentos se referiam a praticar bullying na escola; desenhos que envolviam anatomia e celebridades com uma conotação mórbida; além de apresentar TO, Transtorno Opositor ou Oposicional a adultos.




Após a separação de seus pais, começou a sentir vergonha por ter uma família desunida, já que na época a maioria de seus colegas não tinham pais separados e isso para ele causou grande impacto emocional, tendo que passar por psicoterapia.




Verificando estudos a respeito desse tipo de transtorno, é comum perceber algum trauma na infância tais como perdas ou separações que o tenham atingidos profundamente; violência sexual; negligencia nos cuidados por parte dos pais; genética; ou até mesmo uma disfunção cerebral. No caso, a separação de seus pais, pode ter desencadeado um conflito tão grande que o tenha atingido até a vida adulta, tornando sua vida turbulenta e incômoda.



Ele por diversas vezes foi diagnosticado com Depressão pelas características do vazio, pelas ideações suicidas, e seus comportamentos destrutivos proveniente de TPB. Outros transtornos como a Bipolaridade também são confundidos com o Borderline, além de ser comumente confundido também com o Transtorno de Personalidade Antissocial.




Por fim e como foi de fato, o fim de Kurt, prevemos um dos critérios para diagnóstico de TPB que são os Sintomas impulsivos




“4. Conduta recorrente de tentativas ou ameaças de suicídio e comportamentos de automutilação.”



Para finalizar, em uma passagem da carta de suicídio de Cobain há uma síntese do sentimento real e puro do que se passa na cabeça de um limítrofe( Borderline):


“E acho que eu simplesmente amo as pessoas demais, tanto que chego a me sentir mal."



Quaisquer dúvidas ou demais contatos, meu e-mail está a disposição: raquelfreirepsi@yahoo.com.br


Raquel Freire do Amaral
Formada na Universidade Paulista. Atua na área de Psicoterapia de Crianças e Adultos, Consultoria Empresarial e Escolar. Ministra Palestras, Cursos e Workshops em seu Espaço "PsicoVida" em Valença- RJ e por todo o Brasil. Possui experiência na área de Psicoterapia com abordagem teórica em Psicanálise; Psicodiagnóstico Infantil; Terapia Sistêmica/ Familiar; Psicologia Jurídica.
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