Contexto familiar da criança com TDAH

Contexto familiar da criança com TDAH
PSICOLOGIA
De acordo com estudos a criança hiperativa exerce um impacto significativo e às vezes inesperado sobre os membros da família, levando, em alguns casos, à falência emocional desta família pela incapacidade que esta criança tem de se ajustar às expectativas dos seus familiares, ocasionando vários prejuízos como o desgaste emocional, de energia, de tempo, das relações e da saúde mental desta família, que corre um maior risco de ter todas as espécies de problemas.

A criança com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) pode provocar um grande desequilíbrio na dinâmica de toda família, gerando discórdia, inclusive no casal, em relação aos procedimentos utilizados na disciplina da mesma. É difícil para os pais lidar com a variação do seu comportamento, já que ela consegue certo controle sobre algumas atividades solicitadas pelos pais, levando-os a interpretar estes comportamentos da criança como de propósito ou executados só para irritá-los (CASTRO e MALAGRIS, 2003).

Estas crianças possuem a capacidade de esgotar seus pais, deixando-os envergonhados pelo comportamento inadequado e pelas diversas críticas que recebem, assim como rejeitados ou culpados, como descrevem Smith e Strick (2001). É comum que os pais culpem uns aos outros pelos problemas da criança e os fatores estressantes multipliquem-se.

Os irmãos da criança hiperativa também têm sentimentos negativos sobre elas, pois logo percebem que ela concentra mais tempo e atenção dos pais, o que torna uma fonte de inveja, ciúme, raiva e frustração, principalmente quando os irmãos são mais novos. A diferença de tratamento entre eles e a criança hiperativa acarreta, para os primeiros, perda de benefícios ou discriminação, o que aumenta ainda mais os sentimentos negativos.

A relação entre os irmãos é muito difícil, pois sua baixa tolerância à frustração a conduz a não aceitar os direitos dos outros, como também afasta a possibilidade de troca de afeto. Os irmãos da criança que sofre do TDAH tendem a crescer cansados e exasperados por ter que conviver com essa força disruptiva e instável (CASTRO e MALAGRIS, 2003; GOLDSTEIN e GOLDSTEIN, 2002; BARKLEY, 2002).

As interações com os pais também são difíceis, mas com os pais elas parecem se comportar melhor, sendo menos negativas e mais capazes de permanecer em tarefas do que quando em companhia das mães. O fator para isto é uma incógnita, contudo pode estar relacionado ao fato das mães terem mais responsabilidade para interagir com essas crianças.

Muitas vezes é deixada à mãe a tarefa de interagir com este filho nas circunstâncias do dia a dia, como prepará-lo para ir à escola, ensinar suas tarefas escolares, além de cuidar dos outros filhos e das tarefas do lar, mesmo quando trabalham fora de casa. A mãe geralmente se utiliza, com carinho, do diálogo e da razão para lidar com os problemas de comportamento dos filhos, enquanto a maioria dos pais é menos paciente, e não se empenham num repetido apelo para que seu filho hiperativo realize uma tarefa.
Outro fator provável para estas crianças obedecerem mais rápido ao pai é que ele, ao contrário da mãe, interage menos com o filho, e gasta o tempo em atividades agradáveis e não nas atividades rotineiras. Com isto o marido culpa a esposa por não ter o domínio da criança, porém, quando o pai cuida mais da criança. Logo percebe as dificuldades do filho e passa a concordar com o relato da mãe (BARKLEY, 2002 e GOLDSTEIN e GOLDSTEIN 2002).

Várias são as reações dos pais diante dos problemas comportamentais apresentados pelos filhos. De início tentam resolver de sua forma, negando que seu filho possa apresentar algum problema e com isso evitam o auxílio médico, pois seus filhos são apenas ativos pela energia da idade e afirmam que esta teimosia é da fase e logo passará.

De acordo com Barkley (2002), os pais tentam ignorar ou negar a atenção a seus filhos quando estes exibem comportamento disruptivo, como forma de diminuir o problema, já que acreditam que estas crianças estão querendo chamar atenção; com isto, pedem para elas pararem de se comportar desta ou daquela forma, dando-lhes ordens e direções no intuito de tentar controlar os impulsos da criança.

Como não obtêm resultados positivos, utilizam o meio habitual da disciplina física ou outras formas de punição, como perdas de privilégios a fim de tentarem controlar esses comportamentos. Alguns pais, depois dessas tentativas, simplesmente desistem e algumas vezes os fazem próprios às tarefas dos filhos, ou deixam por fazer; eles desistem de lhes dar ordens e deixa-os fazer o que lhes agrada.

Muitos pais quando chegam a esse ponto podem passar por depressão, baixa autoestima e pouca satisfação com o papel que lhes cabe. Ele ainda adverte que a convivência com essas crianças portadoras do TDAH pode comprometer a saúde mental dos pais e seu compromisso com a paternidade, podendo até piorar se esses pais já tiveram problemas emocionais.

A decisão de buscar ajuda geralmente ocorre quando estas crianças entram em idade pré-escolar e percebem que seu filho se comporta de forma diferente em relação a outras crianças, pela sintomatologia apresentada (déficit de atenção, impulsividade e hiperatividade) que se torna difícil de ser ignorada, quando finalmente concluem que algo está errado.

É no ambiente escolar que a grande maioria dos pais toma conhecimento que o comportamento impulsivo e desatento do seu filho não é apenas característico da idade, sendo necessária atenção e um tratamento. Barkley (2002) alerta os pais que quando começarem a suspeitar que seu filho possa sofrer do TDAH procure logo auxílio. Quanto antes os pais identificarem os sintomas e procurarem auxílio de profissionais especializados como médicos (neurologistas, pediatra), psicólogo ou psiquiatra, para obterem uma avaliação completa e detalhada, que conduzam ao tratamento, mais cedo serão evitados os malefícios que este transtorno ocasiona na vida da criança e dos que convivem ao seu redor.

De acordo com Barkley (2002) os pais podem ter algumas reações emocionais quando descobrem que seus filhos são portadores do TDAH. Alguns se sentem aliviados, aceitando de forma positiva, enquanto outros negam. Eles engajam-se na negação do rótulo, do diagnóstico ou da base neurológica. Quando eles são os últimos, a saber, que seu filho é portador do TDAH é natural negar o problema até que possam refletir sobre a informação e conhecer esse transtorno. Outros pais, no entanto, recebem a informação com alívio, porque já existe uma causa para o comportamento do filho e desta forma já podem buscar auxílio e libertar-se do peso que carregam quanto à incerteza e a culpa de terem criado um problema. Outro tipo de reação comum frente ao diagnóstico é os pais sentirem ira e voltá-la a todos que lhe asseguram que seu filho não tem nada de errado, ou àqueles que culpam os pais pelo transtorno do seu filho. Outra reação que é natural é a tristeza; tem pais que se entristecem com a preocupação pelos filhos, pelos riscos que ele pode correr e pelas mudanças na família para se adaptarem a nova realidade de ter um filho portador de TDAH. Esta tristeza com o tempo é amenizada.

Porém, o resultado desejado sobre a informação é a aceitação de como seu filho é e como pode se tornar com o auxílio do tratamento. Com esta aceitação é necessário reconhecer que algumas coisas não podem ser modificadas, devendo-se aceitar as limitações de seu filho, evitando intolerância, raiva e frustração, com toda e qualquer pressão inadequada sobre a criança. A partir do momento que os pais aceitam seus filhos como são, passa a enxergar adiante das limitações dele e a ver como ninguém seus esforços e talentos únicos (BARKLEY, op cit.).

Muitas informações que os pais têm sobre o transtorno são erradas e isto pode intensificar o problema e não solucioná-lo. Eles criam uma variedade de concepções erradas sobre seu filho hiperativo, como citam Golstein e Goldstein (2002), estando entre estas concepções a ideia que com o tempo ele vai superar, pois faz parte da fase, e, com isto, os pais desculpam a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade.

Outra concepção é de que a mãe não é boa, sendo acusada de ser muito permissiva ou exigente; outro fator pode ser rotular a criança de desatenta e impulsiva de propósito, o que leva a pressuposição que é má, que suas ações são idealizadas para lhe trazer vantagens à custa de todos os outros. Alguns pais, pelos seus próprios sentimentos de culpa, terminam transferindo sua culpa aos outros, pela forma de tratar esta criança.

Como percebemos, existem várias concepções erradas acerca da hiperatividade e isto se deve à falta de informações corretas, já que alguns pais procuram pessoas desinformadas, alguns não admitem que seu filho sofra de um Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, isolam-se e não buscam ajuda dos especialistas, nem procuram ler sobre o problema do filho, alimentando-se de possíveis causas que, segundo eles, serão superadas mesmo sem tratamento.

Com isso percebemos ser essencial a estes pais buscar informações, lerem a respeito do transtorno para entenderem qual a melhor maneira de auxiliar seus filhos. Porém, é essencial que os pais aceitem o fato de que seu filho é portador do TDAH e lute junto com a criança para auxiliá-la a transpor o máximo de problemas que a deficiência impõe. A partir do momento que os pais aceitarem seus filhos com todas suas limitações e adquirirem conhecimentos acerca do transtorno, naturalmente passarão a compreender os comportamentos apresentados pelos filhos com outros olhos e desenvolver uma consciência da maneira pela qual interage com ele.

De acordo com Goldstein e Goldstein (2002), os pais devem ver o mundo com os olhos do filho hiperativo, o que irá auxiliá-lo a lidar com ele no cotidiano. É importante salientar que os pais têm um papel fundamental para auxiliar estas crianças, porém, faz-se necessário também aprenderem a cuidar de si, já que este trabalho é cansativo e estressante.

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