A Síndrome De Burnout: Aspectos Relevantes Para O Mundo Do Trabalho

A Síndrome De Burnout: Aspectos Relevantes Para O Mundo Do Trabalho
PSICOLOGIA
Para Codo e et al (1999), burnout consiste na “síndrome da desistência”, pois o indivíduo, nessa situação, deixa de investir em seu trabalho e nas relações afetivas que dele decorrem e, aparentemente, torna-se incapaz de se envolver emocionalmente com o mesmo. Dessa forma, pode-se pensar que estudos sobre desistência e, consequentemente, sobre burnout se iniciaram juntamente com os estudos de Pavlov. Este pesquisador constatou que cães submetidos a uma tarefa progressivamente difícil de realizar (como por exemplo, diferenciar um círculo de uma elipse) apresentavam um rompimento no comportamento, e esse rompimento foi denominado, por Pavlov, de “neurose experimental” (Codo et al 1999). Por analogia, os seres humanos poderiam entrar em burnout ao se sentirem incapazes de investir em seu trabalho, em conseqüência da incapacidade de lidar com o mesmo (Codo et al 1999).

O termo burnout, no sentido que se está estudando, foi empregado na década de 70 pelo psicólogo clínico Freudenberger.

Entretanto, é possível considerar a hipótese de que ele apenas nomeou um sentimento que já existia e havia sido experimentado por muitos (Codo et al 1999). Freudenberger (1974) descreveu um indivíduo com burnout como estando frustrado ou com fadiga desencadeada pelo investimento em determinada causa, modo de vida ou relacionamento que não correspondeu às expectativas.

Para Guimarães, (2000) burnout é uma forma de adaptação que pode resultar em efeitos negativos tanto para a própria pessoa quanto para seu local de trabalho. Portanto, é consequência de uma tentativa de adaptação própria das pessoas que não dispõem de recursos para lidar com o estresse no trabalho. Essa falta de habilidade para enfrentar o estresse é determinada tanto por fatores pessoais como por variáveis relativas ao trabalho em si e à organização. Entretanto, a mais influente definição de burnout foi desenvolvida por Maslach e Jackson (1986, citados por Codo, 1999), cuja definição multidimensional inclui três componentes: exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal.

• Exaustão emocional:
é caracterizada por um sentimento muito forte de tensão emocional que produz uma sensação de esgotamento, de falta de energia e de recursos emocionais próprios para lidar com as rotinas da prática profissional e representa a dimensão individual da síndrome;

• Despersonalização: é o resultado do desenvolvimento de sentimentos e atitudes negativas, por vezes, indiferentes e cínicas em torno daquelas pessoas que entram em contato direto com o profissional, que são sua demanda e objeto de trabalho. Num primeiro momento, é um fator de proteção, mas pode representar um risco de desumanização, constituindo a dimensão interpessoal de burnout;

• Falta de realização pessoal no trabalho: caracteriza-se como uma tendência que afeta as habilidades interpessoais relacionadas com a prática profissional, o que influi diretamente na forma de atendimento e contato com as pessoas usuárias do trabalho, bem como com a organização.

Para Codo et al (2002), trata-se de uma síndrome na qual o trabalhador perde o sentido da sua relação com o trabalho, de forma que as coisas não lhe importam mais e qualquer esforço lhe parece inútil.

Segundo uma pesquisa do Instituto de Ciência e Tecnologia de Manchester, os executivos brasileiros estão entre os mais insatisfeitos em todo o mundo com o trabalho. A pesquisa foi realizada em 24 países, com 700 administradores, todos eles respondendo a questionários sobre o nível de satisfação e sobre sintomas de problemas físicos e psicológicos causados pelo estilo de trabalho. No ranking de saúde mental, o Brasil aparece em 17º lugar. No de satisfação no trabalho, 14º, e em saúde física, 18º. Sintomas de esgotamento, dores de estômago e insônia, ansiedade, insegurança e irritação são os fatores físicos e psicológicos mais diagnosticados, e que estão prejudicando o desempenho profissional, assim como as relações familiares, conforme Codo et al (2002).

Profissionais estão sendo forçados a se adaptarem a um ambiente de exacerbada competição, a se defrontarem com ineditismos e dominar informações a intervalos cada vez mais curtos para acompanhar as exigências.

Nesse sentido, a literatura aponta que profissionais jovens geralmente possuem um entendimento irrealístico sobre o que podem e o que não podem fazer, sendo freqüentes as frustrações profissionais, conforme Cherniss, 1980. Os jovens profissionais precisam aprender a lidar com as demandas do trabalho e com seus sentimentos em relação ao mesmo, por esta razão podem apresentar maiores índices, Maslach, (1982 citada por Savoia, 1999) identificou quatro fatores que contribuem para que profissionais jovens desenvolvam a síndrome:

• Sentimentos nobres com relação às mudanças sociais;

• Poucas habilidades e recursos;

• Treinamento inadequado;

• Falta de consciência sobre a existência e o risco de Burnout.

Para Lautert (1997), instituições, como a hospitalar, possuem uma estrutura organizacional complexa quanto aos profissionais, papéis, estrutura, divisão de trabalho, metas, hierarquia e normas que a regulam. Há uma prática profissional voltada, quase que exclusivamente, para a eficácia do atendimento ao paciente e, muitas vezes, percebe-se uma menor valorização das condições de trabalho essenciais para a saúde do trabalhador, que permanece exposto por um período prolongado a situações que exigem alta demanda emocional.

Para Rosa (2005), estudos expressam claramente a relação existente entre a satisfação no trabalho e a Exaustão Emocional.

A insatisfação com o ambiente físico, com a função exercida, com a falta de participação nas tomadas de decisões e com a supervisão eleva o sentimento de desgaste emocional. Nesse sentido, Cherniss (1989) destaca os fatores organizacionais que incluem sobrecarga laboral - falta de inovação e estímulo, pouca autonomia, relações interpessoais negativas entre colegas e entre estes e os superiores, interações problemáticas com os clientes, e ainda pressões burocráticas e falta de “feedback” - como elementos organizacionais importantes para o surgimento do Burnout.

Já a dimensão de Despersonalização, segundo Rosa (2005), associou-se a praticamente todas as dimensões de satisfação.

Pode-se pensar que o trabalhador, ao estar insatisfeito com suas atribuições, tende a se afastar da sua clientela como uma forma de enfrentamento da situação estressante. Esta insatisfação, somada às relacionadas ao estilo de supervisão, ao ambiente físico de trabalho, aos benefícios e políticas da organização, bastante voltadas para o cliente e não para o trabalhador, influencia negativamente o sentimento de envolvimento profissional com os usuários de seu trabalho.

A Realização Profissional relaciona-se com a satisfação com a supervisão, com benefícios e políticas organizacionais e com o conteúdo do trabalho. Esse resultado sinaliza que estar o trabalhador satisfeito com suas atribuições, com sua chefia e com os benefícios e políticas da organização é um elemento importante de realização profissional e, consequentemente, podem ser entendidos como fatores de proteção ao Burnout. Essa dimensão, em muitas situações, pode funcionar como um mecanismo de controle que busca restaurar as perdas psicológicas, repondo um quadro de valores, crenças e pressupostos orientadores de um comportamento coletivo conveniente aos objetivos organizacionais, conforme Rosa (2005).

De acordo com Rosa (2005), as instituições de saúde e seus profissionais possuem uma cultura caritativa e assistencial.

Percebe seu trabalho também como uma “prática de ajuda”, que obtém como recompensa a “experiência de gratificação pessoal”. Esta crença, não raras vezes, impede que o trabalhador identifique os estressores profissionais que podem lhe causar danos a sua saúde mental. Atualmente, verifica-se uma tendência das organizações hospitalares no investimento da estrutura física, mais especificamente estéticas de suas instalações, com o intuito de gerar avaliação positiva no usuário, estando essa questão relacionada ao mercado consumidor. No entanto, os profissionais que trabalham na instituição precisam, acima de tudo, de melhores condições e organização de trabalho, com suporte de seus supervisores, benefícios e políticas organizacionais que contemplem sua qualidade de vida.

Neste sentido, ao se constatar que muitos são os fatores de insatisfação no trabalho que se relacionam às dimensões de Burnout, verifica-se que a presença da síndrome pode afetar a prestação de serviços e a qualidade do cuidado oferecido, já que afeta diretamente o cuidador. Há que se pensar na necessidade de intervenções pontuais de forma preventiva, principalmente com relação aos trabalhadores mais jovens da instituição, de acordo com Rosa (2005).

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