Planejamento, planejar e planos

Planejamento, planejar e planos
PEDAGOGIA

Comumente, no cotidiano da escola, planejamento, planejar e planos são traduzidos como sinônimos. No entanto, é relevante repensar os conceitos porque são eles que determinam a nossa opinião, a postura que temos frente aos acontecimentos, pois são concepções, argumentações para justificar as escolhas que realizamos.

Ao falar em educação escolar essa questão se torna praticamente decisiva, pois caso não tenhamos um planejamento, ou seja, se não planejarmos seremos inevitavelmente planejados por alguém. Esse alguém poderá ser o livro didático, outro colega do campo do conhecimento no qual atuamos, colegas que nos antecederam e que muitas vezes criticávamos exaustivamente. O processo de construção da escola se diferencia neste aspecto, ou seja, pela forma de como se pensa, isto porque “pensar é transgredir”. Tenho assistido muitos relatos de estagiários de cursos de licenciatura, bem como de alunos estagiários do Curso Normal, testemunhando a importância do planejamento bem elaborado, discutido, reavaliado. As verbalizações mais freqüentes são de que “o que favoreceu, o que me ajudou muito na minha primeira experiência como professora, foi o planejamento. Me senti mais segura.”

Mas, o que entendemos por planejamento?

O planejamento é o pensamento. Quando ainda estamos definindo nossas compreensões, quando estamos a pensar no que realizar para construir uma prática que responde as intencionalidades pretendidas, é apenas pensamento. Não optamos ainda, calculamos a diferença entre uma e outra proposta de ação, trocamos idéias e estamos na fase que, no meu entender, define a prática de sala de aula. Esse momento é inevitável, pois não dá para fugir desse processo, no entanto, a centralidade desse momento está em ter, e quando necessário buscar subsídios teóricos e práticos para que o pensamento possa de modo amplo e restrito, dar importância ao que vamos realizar. Essa a razão básica, pela qual os professores que encaminham estagiários, solicitam que realizem observações das turmas dos alunos, antes de planejar suas intervenções.

As escolas de modo geral, organizam no início do ano letivo a Semana de Planejamento, ou as reuniões de planejamento, o que é muito coerente porque “o planejamento parte de uma leitura de nosso mundo no qual é fundamental a idéia de que nossa realidade é injusta e de que essa injustiça se deve à falta de participação em todos os níveis e aspectos da atividade humana. (GANDIN, 1995, p.28) A discussão do referencial a ser assumido pelo coletivo, ou seja, pelo grupo é imprescindível quando desejamos um processo educativo que contribua para significação de práticas mais conseqüentes e solidários. Isto porque, o exemplo ensina. Trabalhar coletivamente na escola é também conteúdo, é uma forma de ensinar o respeito às idéias dos outros, a convivência, a solidariedade e a socialização.


O que sabemos sobre planejar?

Objetivamente planejar significa tomar decisões. Que decisões? Que escolhas? O que privilegiar e por quê? Essas questões fundamentam as práticas que realizamos, porque escolhemos aquilo que sabemos, acreditamos, apostamos. É um momento extremamente rico. Importa, porém, destacar que essas escolhas não são definitivas. Elas poderão ser ampliadas, mudadas, recontextualizadas com leituras, estudos e experiências outras. Larrosa (2002, p.21) propõe que sejamos capazes de efetivamente vivenciar a experiência. “Experiência é o que nos acontece, nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. Cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece.” É necessário reconhecer que juntos podemos explorar melhor esta possibilidade.



E, por último, como concebemos os planos de aula, curriculares e educacionais?

O plano, na perspectiva pedagógica pode ser definido como o registro do planejar. Quando elegemos, escolhemos, e/ou decidimos por uma possibilidade de ação, é muito importante escrevê-la. Quando se trata do plano de aula, o esquema registrado serve como orientação para que possamos articular nossas ações de modo mais significativo. Os planos curriculares mapeiam a ação da escola. Os passos básicos a serem entendidos e construídos por todos estão definidos e são escritos no plano curricular da escola envolvendo o projeto político pedagógico e os planos de estudo. Os planos educacionais são mais abrangentes e podem ser propostos pelas secretarias municipais, estaduais e inclusive pelas instâncias nacionais. Aliás, os parâmetros curriculares nacionais, são as expressões de um pensamento amplamente divulgado e não deixam de ser um planejar descrito em planos nacionais.

As referencias escritas são sempre de fundamental importância para o pensamento pedagógico-social porque ao reconhecermos que neste país nosso país, os processos de formação de professores são muito diversos e atendem a muitas perspectivas é necessário que sejam elucidados, argumentados, registrados para assim serem melhor analisados. Além disso, mesmo escrevendo um esquema idêntico o que constituí o processo educativo é a forma, como cada professor o encaminha, intervém e sistematiza. Segundo Freire (2001, p.59) “toda aula é nova e única. (...) A responsabilidade é grande, porque o que é único não volta, só tem naquele momento, não se repete.” Portanto, somos muito do que pensamos, do que planejamos e mesmo não sendo possível adivinhar o futuro da escola, é possível problematizá-lo a partir de uma reflexão crítica, para que esse futuro possa vir a ser o resultado de uma escolha e não a conseqüência de um destino. (CANARIO, 2006) No caso do educador, essa escolha sendo construída e discutida no coletivo, fortalece processos de aprendizagem mais humanos e mais solidários. Um desafio a ser enfrentado com ousadia, sem medo!


Referências: ARROYO. Miguel. Ofício de mestre : Imagens e auto-imagens. Petrópolis: Vozes. 2000. ______. Imagens quebradas : Trajetórias e tempos de alunos e mestres. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004. CANARIO, Rui. A escola tem futuro? Das promessas às incertezas. Porto Alegre: Artmed, 2006. FREIRE, Madalena. Ensinar: uma provocação. Revista GEEMPA, Porto Alegre: Editora Vozes, n.8. Coleção: só ensina quem aprende, p. 59-76, 2001 GANDIN, Danilo. Escola e transformação social. Petrópolis, RJ: Vozes, 1988. LARROSA, Jorge Bondía. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação . N. 19, p. 20-28, Jan/Fev/Mar/Abr 2002.

 
Hedi Maria Luft é professora do Departamento de Pedagogia da UNIJUI –
Mestre em Educação nas Ciências e Doutoranda em Educação pela UNISINOS.

Colunista Portal - Educação
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