Inclusão Social

Inclusão Social
PEDAGOGIA
Introdução
Inclusão social diz respeito à promoção de uma sociedade adaptada para receber a pessoa com deficiência e deixá-la ser o que ela é, um cidadão. Esse processo deve iniciar na família, posteriormente, nas escolas.

No cotidiano das escolas, contudo, essa política educacional apresentou outras facetas. Nela os diretores procurando atender à orientação de não excluir nenhum aluno do convívio com crianças normais passaram a receber, de forma indiscriminada, crianças com deficiências. Assim, ampliou-se o quadro dessa nova clientela de alunos, sem que se tivesse chegado a um consenso sobre as implicações pedagógicas decorrentes e às medidas a serem adotadas.

Os pais, talvez incentivados pelo movimento da inclusão, passaram a procurar as escolas na expectativa de aí encontrar as condições apropriadas para o desenvolvimento de seus filhos. A escola passou, nesse sentido, a desempenhar um papel ambíguo frente à diversidade: de um lado, abriu as portas aos alunos excepcionais; de outro não se preparou e não passou a oferecer as condições necessárias para a educação dos alunos com necessidades educacionais especiais.

Assim, permaneceu desempenhando programações estabelecidas, de cunho intelectualista cujas ações tornaram-se excludentes, devido entre outras coisas, à falta de formação de professores: o professor regular não aprendeu a lidar com o aluno diferente e o professor especializado não aprendeu a lidar com professor do ensino regular”².

O temor da exclusão social acabou acarretando a um problema ainda maior. Os profissionais precisam não só da capacidade de lidar com as diferenças, mas da empatia de interagir com o outro.

Deve haver um trabalho prévio e compromissado com o bem-estar de todas as crianças. Deve ser realizado um trabalho eficaz de auto-estima e valorização do outro. Não havendo este resgate cairemos em uma “competição injusta” – principal razão para o surgimento de rótulos aos que não se enquadram nos padrões tradicionais de ensino. Nesses casos, em função da diferença, o aluno com dificuldade poderá mobilizar no outro uma “competição injusta”, pois não será apenas o João ou a Maria, mas o “lerdo da classe”, o “pestinha” e “aquele que tem problemas” com outros tantos rótulos.

Os rótulos sejam positivos ou negativos, sempre existiram na história da humanidade e, como tal, sempre acabam influenciando na formação da personalidade escolar de qualquer aluno.
Imagine um aluno com uma questão cognitiva, comportamental e/ou emocional convivendo com alunos sem estas questões? Qualquer diferença, mínima que seja, física, comportamental, emocional ou de aprendizagem, acaba gerando reações no outro como “pena” e até de “rejeição”. O processo de inclusão quando não trabalhado poderá promover um processo de exclusão daqueles que “funcionam diferente”. É necessário, portanto que o profissional reconheça as diferenças e esteja preparado para lidar com a criança como criança, tendo ela deficiência ou não.

A proposta dessa pesquisa é repensar o profissional de educação e sua capacitação para o trabalho com crianças deficientes. Não se discute o ajustamento do portador de deficiência à sociedade e à escola, mas o preparo dessa sociedade para possibilitar a ele uma educação e o respeito de ser cidadão.

Esferas da Inclusão
Inclusão Social - “A inclusão social constitui a prática mais recente de que se tem notícia no campo das necessidades especiais, tanto no Brasil como em muitos outros países. A inclusão social vem aos poucos substituindo a prática da integração social, que há quatro décadas ocupa o lugar da segregação e da exclusão de pessoas consideradas diferentes da maioria da população de qualquer sociedade”.

Inclusão Escolar
- “Dizemos que há uma inclusão quando a escola não exclui alguns de seus alunos ou crianças e jovens candidatos à matrícula em razão de qualquer atributo individual do tipo: gênero (sexo), cor (etnias diversas), deficiência (física, mental, visual, auditiva ou múltipla), classe social (situação sócio-econômica), condições de saúde (vírus HIV, transtorno mental, etc.) e outros. Numa escola inclusiva, todos os alunos, com ou sem alguns desses atributos individuais, estudam juntos nas mesmas classes”³.

Da mesma forma, é comum e necessário pensarmos a vida social dos deficientes e seus grandes obstáculos em viver numa sociedade pensada e idealizada para os ditos “normais”. Percebemos as dificuldades dos cegos, com ruas cheias de pequenos obstáculos, os surdos com programas de TV sem intérprete, mais ainda, sem a chance, muitas vezes de concluir um curso superior por falta de quem interprete o que foi dito nas aulas; e os dependentes das cadeiras de rodas? Onde estão as rampas? Escolas e ruas não possuem muitas vezes rampas de acesso para a cadeira poder circular e muito mais. A propaganda da mídia sobre a promoção da inclusão é uma farsa, uma vez que não há condições de capacitação e os poucos cursos pagos são caros. Quando não, os materiais necessários (Braille) são vendidos também por altos preços.

Nossa função como agentes de educação é valorizar a apoiar as pessoas portadoras de deficiência a viverem num mundo onde elas desenvolvem um importante papel, uma sociedade que se adapta para ela e não o contrário.



Conceitos
Integração - Inserção da pessoa deficiente preparada para conviver na sociedade.

Cascata - O sistema de cascata se baseia na individualização dos programas instrucionais, os quais devem se adaptar às necessidades de cada um dos alunos, com deficiência ou não. De cima para baixo!

Inclusão - Modificação da sociedade como pré-requisito para a pessoa com necessidades especiais desenvolver-se e exercer a cidadania.

Caleidoscópio - O caleidoscópio precisa de todos os pedaços que o compõem. Quando se retira pedaços dele, o desenho se torna menos complexo, menos rico. As crianças se desenvolvem, aprendem e evoluem melhor em um ambiente rico e variado. Respeito às diferenças


Inclusão x Integração

O modelo integrativo na sociedade
-Moldar-se aos requisitos dos serviços especiais separados (classe especial, escola especial).
-Acompanhar os procedimentos tradicionais (trabalho, escolarização, convivência social, etc.).
-Contornar obstáculos existentes no meio físico (espaço urbano)
-Lidar com atitudes discriminatórias da sociedade, resultantes de estereótipos, preconceitos e estigmas: rotulagem verbal, discriminação, incapacidade e segregação.
-Desempenhar papéis sociais individuais com autonomia, mas não necessariamente com independência. 4


A prática inclusivista na escola
-Aceitação das diferenças individuais.
-Valorização de cada pessoa.
-A convivência dentro da diversidade humana.
-Aprendizagem através da cooperação.

Dessa forma, o deficiente não estará sendo moldado para se adaptar à sociedade, mas a sociedade buscará mudanças para receber e respeitar as diferenças que existem entre os seus cidadãos.

Alunos frequentam classes comuns com colegas não-deficientes da mesma faixa etária

Este princípio assegura aos alunos deficientes e não-deficientes a oportunidade de aprenderem uns sobre os outros e reduz o estigma experienciado por alunos que estavam separados anteriormente


O Professor - Em escolas inclusivas, o professor tem a responsabilidade de educar tanto as crianças sem deficiência como aquelas com deficiência. Tem também a responsabilidade de assegurar que o aluno deficiente seja membro integrante e valorizado da sala de aula.

O Currículo - Educação inclusiva significa que os alunos com deficiência estão sendo ensinados no mesmo contexto curricular e instrucional com os demais colegas de sala de aula. Materiais curriculares comuns podem precisar ser adaptados, mas somente até o nível necessário para satisfazer as necessidades de aprendizagem de qualquer aluno.

Outros Profissionais - A tendência para uma maior colaboração e apoio mútuo entre professores e a preferência dos terapeutas e consultores em oferecer apoio na própria sala de aula em vez de retirar os alunos de lá, beneficiam a prática educativa em geral e a educação inclusiva em particular. 5

A Criança com Deficiência
O termo “deficiência” significa uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico e social.
As habilitações e todas as formas de capacitar os profissionais para a educação de deficientes, são recursos adicionais. Devemos formar as pessoas com uma visão ampla, uma visão de segurança e competência. Conhecer a Linguagem de Sinais ou o Braille são formas de o profissional se preparar para o caso de se ter na escola uma criança surda ou cega, da mesma forma que o conhecimento que se busca das demais deficiências, como por exemplo, o Retardo Mental e suas complicações, o deixará apto para perceber os avanços da criança.
Avançando na discussão do papel da escola, da educação, e, sobretudo, da presença do professor, enquanto elo no processo ensino-aprendizagem, e do psicopedagogo como mediador do mesmo, na direção de uma consciência de cidadania, a inclusão só terá êxito com seu total engajamento; pois “se o professor não é incluído, como pode promover a inclusão?”6

O Artigo 6º do Capítulo I do Código de Ética da ABPp traz como dever fundamental do Psicopedagogo:
“a) Manter-se atualizado quanto aos conhecimentos científicos e técnicos que tratem do fenômeno da aprendizagem humana.”7

Como o psicopedagogo receberá um deficiente visual ou auditivo e tratará a sua dificuldade de aprendizagem? Como se comunicará com o deficiente? Como lidará com a dificuldade motora e como realizará um trabalho de promoção de sucesso se não sabe como lidar com a pessoa? São muitas as indagações e pouca a busca por mudança.


“O progresso do aluno não depende tanto de suas características pessoais quanto da natureza das oportunidades e dos auxílios que lhe são oferecidas. A reflexão sobre o atendimento adquire um destaque especial nesta estrutura; de fato, o conceito de ensino e de aprendizagem enfatiza tanto o papel ativo do aluno na construção do conhecimento como o apoio que o professor presta ao mesmo” Coll, 1990. 8

”O processo de ‘participação orientada’ pressupõe a participação do aluno em atividades culturalmente valorizadas e a orientação do professor. Ambas as contribuições oferecem uma estrutura psicopedagógica adequada para compreender e situar, nesse sentido amplo, o conceito de apoio. (...) essa tarefa de ajuste progressivo é realizada, fundamentalmente, com a contribuição de atendimentos adequados, que podem ser concretizados de várias formas e que, algumas vezes, podem, inclusive, precisar da participação de elementos pessoais e materiais pouco habituais na sala de aula. É justamente no caso dos alunos com maiores dificuldades ou com algum tipo de incapacidade que a necessidade de apoio se mostra mais peremptória e evidente, e as decisões a esse respeito mais críticas, já que delas dependerá, em grande parte, o seu progresso” Rogoff, 1990.8

A inclusão acontecerá quando os profissionais forem capacitados para trabalhar com todas as suas crianças, sem distinção. Quando ele buscar meios de lidar com as diferenças pelo simples fato de reconhecê-las como diferenças, não como incapacidades. O profissional de educação deve se propor a ver e viver o potencial das suas crianças, não as suas limitações, pois todas as crianças têm avanços e dificuldades. Todas as crianças são especiais e devem ser tratadas como tais.

A Preparação dos Profissionais
Em geral, as instituições reagem defendendo que a inclusão é um processo e que as escolas regulares, bem como os seus profissionais, não estão capacitados para atenderem bem tais crianças. Elas precisam de um desafio, precisam assumir a responsabilidade de trabalhar com todas as crianças, indistintamente, têm que se reconhecer competentes e buscar a competência para que a inclusão ocorra. O ensino só vai mudar se houver uma prática consciente e compromissada.

Mensagem aos Profissionais de Educação
Procurem melhorar cada vez mais a sua prática profissional, dêem cada vez mais a todas as crianças o que elas esperam da escola: crescerem felizes. Que essas crianças aprendam a não discriminar, a serem justas e que vivam na escola o que elas têm direito: a alegria de conviver com crianças da sua idade e com as diferenças.

Ser professor é uma aprendizagem que se dá por meio de situações práticas, onde é necessária a prática reflexiva competente que una conceitos, procedimentos e atitudes, tanto na formação inicial (base para a construção do conhecimento pedagógico especializado) quanto continuada, através das experiências reflexivas realizadas, fomentando os processos reflexivos necessários à prática docente.

Para tanto, faz-se necessário que os Institutos Superiores de Educação apresentem projeto institucional próprio para a formação de professores, contando com instâncias de direção ou coordenação, formalmente constituídas, com corpo docente próprio e apto para ministrar, integralmente, o conjunto dos conteúdos curriculares propostos, e supervisionar as atividades e os programas do curso.

A formação de professores nesta proposta deve estimular a capacidade de pensar, refletir, aprender a aprender, relacionar o conhecimento com dados da experiência diária, estabelecer relação entre teoria e prática, fundamentando criticamente com base em fatos do cotidiano. Com isto, visa-se garantir a possibilidade de “... ao longo da escolaridade, compreender conceitos, princípios e fenômenos cada vez mais complexos e de transitar pelos diferentes campos do saber, aprendendo procedimentos, valores e atitudes imprescindíveis para o desenvolvimento de suas diferentes capacidades”.9

A busca por transformação deve ser inerente ao profissional de educação. Ele deve buscar a sua própria mudança para promover a mudança no outro.




Referências
1. O ESTADO DO AMAZONAS. Terça-feira, 05 de julho de 2005. Caderno 4.

2. MASINE, E. F. S. Avaliação; Inclusão; Promoção automática; Exclusão. Apresentado no Fórum ABPp – “Debate Nacional sobre Avaliação e Aprendizagem ABPp”. São Paulo, 2001. www.psicopedagogia.com.br

3. SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA, 1997.

4. MANTOAN, Maria Teresa Eglér. A Inclusão escolar de deficientes mentais: contribuições para o debate. In: Montoan, Maria Teresa Eglér. Ser ou estar, eis a questão: explicando o déficit intelectual. Rio de Janeiro: WVA, 1997. p. 137-15ª

5. THE ROEHER INSTITUTE. Disability, Community and Society: Exploring the Links. North York: Roeher, 1996 p.68-69. Tradução e adaptação de Romeu Kazumi Sassaki, 1997.

6. DEMO, Pedro. Ironias da Educação: mudança e contos sobre mudança. DP & Editora, 2000.

7. CÓDIGO DE ÉTICA DA ABPp. Conselho Nacional do biênio 91/92 e reformulado pelo Conselho Nacional e Nato do biênio 95/96.

8. MONEREO, C. e SOLÉ, I. O assessoramento psicopedagógico: uma perspectiva profissional e construtivista. Porto Alegre: Artmed, 2000.

9. BRASIL, Ministério da Educação e Desporto. Referenciais para Formação de Professores. Lei nº 9394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: MEC, 1999c.

10. WERNECK, Cláudia. “Mas ele não é mesmo a sua cara?”. Rio de Janeiro: WVA, 2001.

11. REVISTA SENTIDOS. Galeria de Fotos. 2005. www.sentidos.com.br/galeria

Michelle Mirttes Albuquerque Feitosa
Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE/2003), Psicopedagoga (UFAM/2006) e Especialista em Ética (UFAM/2010). Membro da Associação Brasileira de Psicopegadogia/Seção o Pernambuco (ABPp/PE). Membro da Diretoria (Assessora Científica) da ABPp/PE. Tem experiência na área de Educação, Elaboração de Projetos Pedagógicos e Formação de Professores. Atendimento Psicopedagógico.
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