A socialização induzida na época das inconstâncias

A socialização induzida na época das inconstâncias
PEDAGOGIA
"A vida das nações, da mesma forma que a dos homens, é vivida, em grande parte, na imaginação" (Powell, 1969, p. 245)

Resumo:
A socialização se estabelece de maneiras diferentes na história e na vida do indivíduo, influenciando consideravelmente na identidade e nas relações futuras do mesmo. Nos texto, se estabelecem três fases, sendo a primeira como gênese do indivíduo; estabelecida pela família, a microsociedade mais próxima e influenciável quando criança. Posteriormente, pelas instituições, com suas regras e leis; atualmente, a terceira fase estabelecida pelo mercado, com suas incitações mercadológicas e eficientes, interferindo em valores os quais o indivíduo vai ideologicamente absorver e estabelecer como verdade. Palavras Chave: Identidade, socialização, imediatismo, instituições.

Introdução

A coesão entre indivíduo e sociedade se faz por meio de vários elementos, que deve preparar o indivíduo para uma convivência social coerente e ética. A esse processo, que influencia o indivíduo a observar os padrões culturais, as regras e normas de uma sociedade, chamamos de socialização. Esta, conforme Weber, baseada em desenvolvimentos e concatenações de ações específicas de pessoas individuais, pois só essas são portadoras compreensíveis para nós de ações orientadas por um sentido (QUINTANEIRO, 2009).

A socialização estabelece uma sensação de pertencimento a um grupo e permite a construção da identidade. Com isso, pode-se dizer que quando ocorre uma socialização deficitária, emergem o crime, a agressão, a indisciplina, ações anti-sociais e outras patologias. Poderíamos dizer que ocorre a perda de sentido daqueles procedimentos que fortalecem os vínculos sociais. Não se pode entender a socialização apenas como introjeção de valores e normas no indivíduo, por meios de mecanismos disciplinares, como propõem os tecnicistas e os funcionalistas. É um processo dotado de caráter dialético, em que o indivíduo é produto e produtor de seu meio, podendo-se dizer que é um processo construcionista, estabelecendo-se por vários meios: inicia pela família, amigos, escola, igreja, clube, mídia e hoje até pelas redes sociais, etc.

A socialização refere-se igualmente a um processo dinâmico. É um conceito agregador que não expressa uma condição estática. Conflitos, tensões e contradições permeiam a construção deste conceito, uma vez que o sujeito é também autor e construtor de sua história. Não existe ser humano sem história e vice-versa.

As ações e os seres humanos alteram a natureza, assim como a organização social. Esse movimento, por sua vez, modifica a consciência, o agir humano e todas as concepções envolvidas. São alterações que conduzem a uma nova síntese, em busca de compreender a sociedade como um todo. Nessa dinâmica, pode-se verificar uma necessidade de imposição de certos valores, ideias e conceitos para que o indivíduo se identifique e passe a defender o processo e o sistema, como sendo dele próprio. Sendo assim, é visível um mundo manipulado, no qual a socialização está mudando com uma certa radicalidade e rapidez que hoje uma visão altruísta futura não se torna evidente. São explicitadas três fases de socialização, a título de entendimento, sabendo-se que as mesmas são influenciadas de maneiras diferenciadas, dependendo do contexto. Por exemplo, aqui cita-se a socialização atual como terceira fase, mas não significa que esta se estabelece nesta ordem ou etapa na atualidade. E a primeira fase, por sua vez, é geral e abrangente a todo sujeito.
1. A Gênese socializante (primeira fase)
O indivíduo vai sendo moldado conforme seu entorno, nascendo com predisposição para a sociabilidade e também tornar-se membro da sociedade. Todas as situações vividas auxiliam o desenvolvimento identitário e a socialização desde o nascimento, juntamente com a família, que pode ser considerada uma microsociedade dentro da sociedade, como coloca Weber, e esta que estabelece todos os parâmetros.

A inserção da criança na sociedade se dá por esta micros sociedade, que será, como coloca Berger & Luckmann (1985), a socialização primária, a base, a necessidade inicial para um ser de natureza sociável. No mundo moderno, as culturas nacionais em que nascemos constituem em uma das principais fontes de identidade cultural. Essas identidades não estão impressas em nossos genes, como coloca Hall (2006). A sociedade, por sua vez, é estabelecida dentro de parâmetros e concepções que são seguidas, são respeitadas, reproduzidas como verdades.

Estas, muitas vezes questionadas, mas relevando-se na medida em que se transformam em conflitos ou radicalidade. Pode-se salientar também que desde o nascimento, o ser humano necessita do outro, se faz com o outro e, nesta relação, constrói sua identidade. O sujeito existe na relação com o outro, desde os primeiro contatos com a mãe. Quando fala do outro ou estabelece formas de vínculos, um sujeito acaba sempre por descobrir alguma coisa de si mesmo.

Na intersubjetividade, o sujeito aprende a apropriar-se de um aspecto da realidade ou dos acontecimentos e a transformá-lo, dando assim um sentido para sua história, por meio de sua capacidade criativa, que é a capacidade de interpretar o mundo e de transformar a realidade (HISADA 1998:22).

O processo de formação da identidade inicia com a interiorização imediata de um acontecimento dotado de sentido. Mas deve ocorrer a absorção desse sentido para o indivíduo. Se este não interiorizou o porque, ou como se executou a sequência do processo de sentido, a socialização se torna deficitária e fragmentada. Deve-se tomar como pressuposto que ela não ocorre apenas por meio da transmissão de regras e valores, mas é também resultante de um processo de "captação", no qual o sujeito se apropria de valores culturais existentes e desenvolve outros.

Berger & Luckmann (1985) dividem a socialização primária como a primeira socialização, desde o nascimento e a secundária, a partir das instituições. A primeira é evidente que tem em geral para o individuo o valor mais importante e que a estrutura básica de toda a socialização secundária deve assemelhar-se a da socialização primária. Esta, por sua vez, só se define realmente quando há identificação, por uma multiplicidade de modos emocionais. (...) a interiorização só se realiza quando há identificação. A criança absorve os papeis e as atitudes de outros significativos, interioriza-os, tornando-os seus. Por meio desta identificação a criança torna-se capaz de se identificar a si mesma, de adquirir uma identidade subjetivamente coerente e plausível. (BERGER & LUCKMANN, 1985: 177)

Portanto, a identidade é um reflexo que retrata as atitudes tomadas pela primeira vez, dessa absorção na infância, a localização individual do individuo em "certo mundo", e só pode ser apropriada neste "certo mundo". Por isso, em muitos casos, a dificuldade de sujeitos ou grupos se estabelecerem em novas regras ou novas situações, diferentes das estabelecidas na socialização primária. Esta, vai ser a "base" de toda a vida, definindo valores e comportamentos para o sujeito. Básicos, pois nenhum indivíduo interioriza a totalidade da realidade em sua sociedade, mesmo que esta realidade seja, no caso, simples. Ela vai sendo agregada ao sujeito pelo sujeito.

Nesse contexto, coloca Hall (2006: 44): O fato de que projetamos a "nós próprios" nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando-os "parte de nós" contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade, então, costura (ou, para usar uma metáfora médica, "sutura") o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis.

Uma metáfora muito condizente. Pois pode-se analisar que não existe opção a esta "sutura" , tão inseridos estamos a esta estrutura. Nos moldamos a ela, não tendo nem mais a capacidade de discernimento do que somos ou não. E voltando a esta mesma socialização primária, a criança, vive, quer queira quer não no mundo tal como é definido pelos pais, mas pode deixar de lado outras definições. E ainda, São necessários graves choques no curso da vida para desintegrar a maciça realidade interiorizada na primeira infância. E preciso muito menos para destruir as realidades interiorizadas mais tarde. Além disso, é relativamente fácil anular a realidade das interiorizações secundárias. (BERGER & LUCKMANN, 1985: 190)

Pode-se dizer, diante disso, que a socialização primária é inevitável. Visível portanto, a importância, de novo salientada da infância e dos pais. Mas, analisando-se isso, não seria este o motivo da "desestrutura" da sociedade atual? Pois o que vemos é uma inversão de valores em que se coloca às instituições uma importância maior que a socialização e educação que provém dos pais.

2. A Institucionalização (segunda fase)
A socialização primária implica sequências de aprendizado inclusive, já socialmente definidas. A criança só pode aprender o que já se impõe a ela. Não deve aprender diferente, nem avançar mais pois precisa disso para se constituir enquanto um sujeito pertencente a uma determinada sociedade.

Já a socialização posterior, a secundária, como cita Berger & Luckmann (1985), as instituições são as protagonistas principais, ampliando e executando o individuo a um pertencimento obrigatório a instituições ao seu entorno, na tentativa de pré-estabelecer a socialização e a inserção social do indivíduo. A vida do individuo não pode ser compreendida adequadamente sem referencia às instituições dentro das quais sua biografia se desenrola. Pois esta biografia registra a aquisição, o abandono, modificação... (...) Grande parte da vida humana consiste me desempenhar papéis dentro de instituições específicas. Para compreender a biografia de um indivíduo, devemos compreender a significação e o sentido dos papéis que desempenhou e desempenha e as instituições da qual são parte. (MILLS, 1975: 175)

Vê-se portanto que para Mills, para conhecer o indivíduo, deve-se conhecer as instituições das quais ele faz parte. Como criatura social, deve-se compreender as características "mais internas" psicológicas, e sua auto-imagem. Afirma também que é necessário compreender a inter-relação dos cenários íntimos com a "moldura institucional", as transformações com esta e os efeitos conseqüentes sobre o ambiente (MILLS, 1975).

Os homens agem uns com os outros e uns contra os outros. Cada qual leva em conta o que os outros esperam. Quando essas expectativas mútuas são suficientemente definidas damos-lhes o nome de padrões. Todo homem espera, também, que os outros reajam ao que ele faz. Essa troca, portanto, fundamenta a identidade do indivíduo, e por sua vez, sua socialização. Essas reações, se forem alteradas ou fora do "imaginado" já podem levar a exclusão. E pergunta-se: esse imaginado seria inserido na sociedade para que fim? Possivelmente saibamos a resposta.

As instituições devem conservar e disponibilizar o sentido tanto para o agir do indivíduo em diversas áreas de ação quanto para toda sua conduta. Através da educação ou da doutrinação orientada visa-se a que o indivíduo só pense e faça o que corresponde às normas da sociedade. E através do controle e censura de tudo o que é publicamente dito, ensinado e pregado deve-se impedir a difusão de opiniões divergentes. (...) Em primeiro lugar, é notório que as "grandes" instituições vinculam "seus" sentidos específicos - ultrapassando a racionalidade de sua organização de ação - a valores gerais como, por exemplo, o "bem comum". (BERGER & LUCKMANN, 2004: 17)

As instituições dizem ao indivíduo como se comportar em relação aos outros, isto é, pessoas e grupos diferentes dele em seu projeto de vida. Mas não lhe dizem como deve levar bem concretamente sua própria vida, quando a validade inquestionável das ordens tradicionais for abalada, quando o "imaginado" se torna ilusório, fora da programação. Esse poderia eficazmente ser o motivo de tanto transtorno. Mas por outro lado, este não existiria, se a socialização primária fosse eficiente.

Ainda Berger & Luckmann: As instituições criam "programas" para a execução da interação social e para a "realização" de currículos de vida. Elas fornecem padrões comprovados segundo os quais a pessoa pode orientar seu comportamento. Praticando esses modos "prescritos" de comportamento aprende a cumprir as expectativas ligadas a certos papéis como casado, pai, empregado, contribuinte, transeunte, consumidor. Quando as instituições funcionam normalmente, o indivíduo cumpre os papéis a ele atribuídos pela sociedade na forma de esquemas institucionalizados de ação e conduz sua vida no sentido de currículos de vida assegurados institucionalmente. (BERGER & LUCKMANN 2004:38)

O autor afirma ainda que a realidade da vida cotidiana mantém-se pelo fato de corporificar-se em rotinas, o que é a essência da institucionalização. Esta mesma sempre reafirmada na interação do sujeito com os outros. Nesta interação, a realidade subjetiva passa a ser transformada continuamente, devido a mudanças nesta mesma realidade; esta não é estática, ocorre um moldagem e constante alteração devido a valores, realidades diversas inclusive com choques entre as percepções dessas realidades.

Ao mesmo tempo, Berger & Luckmann (1985) faz algumas observações sobre o sucesso de uma socialização. A socialização bem sucedida seria o estabelecimento de um elevado grau de simetria entre a realidade objetiva e subjetiva; a socialização mal sucedida, por sua vez, deve ser compreendida em termos de assimetria entre a realidade objetiva e a subjetiva. Afirma ainda que "a socialização totalmente bem sucedida é antropologicamente impossível. A socialização totalmente mal sucedida é no mínimo extremamente rara." (BERGER & LUCKMANN, 1985:216)

O autor ainda afirma que o individualismo, discordância, autodepreciação, são todos sintomas de uma socialização incompleta. Pode-se dizer que esse processo é bem coerente com os casos de depressão ou das patologias de estado de ânimo, devido uma socialização fundamentada no consumo e na descartabilidade. Estas patologias, comuns na sociedade ocidental, são cada vez mais comuns. Pode-se dizer também que o mundo imaginado do indivíduo seria estabelecido pelas instituições, estas executando toda uma sistemática para inserir o indivíduo na sociedade, com um sistema de regras com determinações ao indivíduo, e para que este se sentisse inserido.

3. O Presentismo (terceira fase)
Torna-se visível, portanto, que a socialização primária se dava de maneira mais rígida a algumas décadas atrás, e com isso o indivíduo teria a capacidade e a possibilidade de enfrentar algumas situações do seu cotidiano. Com a secundária, as instituições davam o aporte posterior para essas situações; hoje na atual socialização, ou terceira fase aqui mencionada, as situações problemáticas passaram a ser muito mais difíceis e insolúveis devido a falta de parâmetros para fazer frente a situações comuns do cotidiano.

As identidades, nesta fase, que compunham as paisagens sociais "lá fora" e que asseguravam nossa confomidade subjetiva com as "necessidades" objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático. Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceitualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente.

A identidade torna-se uma "celebração móvel": formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987).

Num universo em que nenhuma interpretação dos fenômenos é definitiva, mas sempre provisória, a continuidade do processo de identificação e as interferências dos fatos repercutem sobre o conjunto das relações sociais, humanas e até mesmo naturais, em constante mutação. Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais (Hall, 2006).

Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a ideia que ternos de nós próprios como sujeitos integrados e capazes de superar dificuldades em muitos casos ínfimas. Esta perda de um "sentido de si" estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento - descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos - constitui uma "crise de identidade" para o indivíduo. (HALL, 2006)

Falando-se em identidade, se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda história sobre nós mesmos ou uma confortadora "narrativa do eu" (HALL, 2006).

A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente.

O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. A identidade torna-se uma "celebração móvel": formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987).

E definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um "eu" coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo, atualmente, continuamente deslocadas, fora do centro, fora da normalidade, sem profundidade, superficiais, conflituosas, culminando com a medicalização. As sociedades modernas são, portanto, por definição, sociedades de mudança constante, rápida e permanente. Esta é a principal distinção entre as sociedades "tradicionais" e as "modernas".

Anthony Giddens argumenta que: (...) nas sociedades tradicionais, o passado é venerado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular na continuidade do passado, presente e futuro, os quais, por sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes (Giddens, 1990:37).

Nesse passado, pode-se dizer que recente, as instituições tinham um papel também fundamental na educação, na convivência, nos valores sociais, sendo de fundamental importância para a socialização inicial e sua manutenção. Hoje, a fragmentação é muito visível, tornando insustentável a convivência com valores tão discordantes. Qual a alternativa para a convivência se tornar suportável? Como estabelecer o aporte a estas vidas "sem sentido"? Pode-se citar duas possibilidades que se fazem visíveis: a medicalização, com a dopagem, e controle dos estados de animo e a religião estabelecendo uma possibilidade de busca e sentido para a vida, com seus rituais e possibilidade de reflexão e interiorização.

3.1 E nas cidades...
Ao mesmo tempo, pode-se verificar que essa fragmentação se torna mais evidente a partir da urbanização, tendo a individualização uma consequência. Visualiza-se uma relação estreita entre mercado, individualidade e urbanização nem sempre percebida. O indivíduo da grande cidade é o incapaz de notar a diferença. Habituado à impessoal desatenção, ele é incapaz de notar a novidade.

Segundo Simmel: Os mesmos fatores que assim redundaram na exatidão e precisão minuciosa da forma de vida redundou também em uma estrutura da mais alta impessoalidade; por outro lado, promoveram uma subjetividade altamente pessoal. Uma vida em perseguição desregrada ao prazer agita os nervos até seu ponto de mais forte reatividade por um tempo tão longo que eles finalmente param de reagir. (...) Surge assim a incapacidade de reagir a novas sensações com a energia apropriada. Isto constitui aquela atitude que, na verdade, toda criança metropolitana demonstra quando comparada com crianças de meios mais tranquilos e menos sujeitos a mudanças." (SIMMEL, 1987:16)

Pode-se dizer que o capitalismo e o modo de vida nas cidades são complementares. Juntos permitiram um encurtamento das distâncias e a possibilidade de estabelecimento de um maior número de laços sociais. Trouxeram mais liberdade individual, libertando o homem dos laços estreitos da comunidade. Tornou tudo mais veloz. Porém, tornou também mais veloz o contato humano, tornou as relações sociais mais objetivas e impessoais, portanto, mais superficiais. (SIMMEL, 1987)

E essa é a ambiguidade principal da modernidade: uma maior liberdade individual caminha lado-a-lado com uma maior impessoalidade - com uma objetivação e instrumentalização das relações sociais. O dinheiro, com toda a ausência de cor e indiferença, torna-se o denominador comum de todos os valores; arranca irreparavelmente a essência das coisas, sua individualidade, seu valor específico e sua incomparabilidade. (...) As grandes cidades, principais sedes do intercâmbio monetário, acentuam a capacidade que as coisas têm de poderem ser adquiridas muito mais notavelmente do que as localidades menores. É por isso que as grandes cidades também constituem a localização (genuína) da atitude blasé . (SIMMEL, 1987:16)

A identidade individual se torna passageira, o consumo se torna a forma de construção do self, e como produtos que se alternam nas propagandas, o indivíduo rompe com a fixidez. O indivíduo agora, sem obrigatoriedade de conduta em conformidade com a comunidade, se torna livre, mas essa liberdade é relativa na medida em que suas opções de construção da individualidade são limitadas (ou ilimitadas) pelo consumo. "Para a grande maioria dos habitantes do líquido mundo moderno, atitudes como cuidar da coesão, apegar-se às regras, agir de acordo com precedentes e manter-se fiel à lógica da continuidade, em vez de flutuar na onda das oportunidades mutáveis e de curta duração, não constituem opções promissoras." (BAUMAN, 2005:60)

Pode-se dizer com isso, que não se torna visível o futuro, pensar nele, planejar o longo prazo. Têm-se a noção e o desejo do agora, instantâneo. As identificações tornam-se solúveis igualmente, momentâneas e voláteis, por isso de difícil planejamento. Ocorre um presenteísmo, onde o importante é agora, depois é inexistente. A influencia do sistema capitalista é notória nas identidades e na atual socialização do indivíduo.

Para Zizek (1996), toda política da identidade faz necessariamente o jogo do Capital com novos produtos e lançamentos. Ocorre, portanto, uma política da universalidade da inadequação, na qual para cada diferença deve ser lançado algo novo, em uma inclusiva ilusão. Em outras palavras, (...) a fantasia é modo de defesa contra a impossibilidade de totalização integral do sujeito e de seu desejo em uma rede de determinações positivas. Isto permite criar uma realidade consistente na qual nenhum antagonismo Real, nenhuma inadequação intransponível pode ter lugar e tudo se dissolve na positividade harmônica de um gozo sem falhas. (Zizek, 1996: 64)

Importante é gozar, não ter regras, é a satisfação momentânea portanto. Toda a mídia se baseia nisso, sendo um veículo eficiente para esta socialização atual, sem família, sem instituições fortes, sem parâmetros, já que o indivíduo é "livre", independente, e está em uma "democracia." É a socialização do imediatismo ou presentismo.

Laclau (1990), por sua vez, insere um novo conceito de "deslocamento": uma estrutura deslocada é aquela cujo centro é deslocado, não sendo substituído por outro, mas por "uma pluralidade de centros de poder". As sociedades atuais, argumenta Laclau, não têm nenhum centro, nenhum princípio articulador ou organizador único e não se desenvolvem de acordo com o desdobramento de uma única "causa" ou "lei". A sociedade não é mais um todo unificado e bem delimitado, uma totalidade, produzindo-se através de mudanças evolucionárias a partir de si mesma. Ela está constantemente sendo "descentrada" ou deslocada por forças fora de si mesma.

As sociedades atuais são caracterizadas pela "diferença"; elas são atravessadas por diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem urna variedade de diferentes "posições de sujeito" - isto é, identidades - para os indivíduos. Se tais sociedades não se desintegram totalmente não é porque elas são unificadas, mas porque seus diferentes elementos e identidades podem, sob certas circunstâncias, ser conjuntamente articulados. Mas essa articulação é sempre parcial: a estrutura da identidade permanece aberta. (LACLAU, 1990).

Afirma ainda: Esta é uma concepção de identidade deslocada é muito diferente e muito mais perturbadora (...) Entretanto, isso não deveria nos desencorajar: o deslocamento tem características positivas. Ele desarticula as identidades estáveis do passado, mas também abre a possibilidade de novas articulações: a criação de novas identidades, a produção de novos sujeitos e o que ele chama de "recomposição da estrutura em torno de pontos nodais particulares de articulação"(LACLAU, 1990:40).

Como pode-se verificar, para o autor, a ideia de que as identidades eram plenamente unificadas e coerentes e que agora se tornaram totalmente deslocadas é uma forma altamente simplista e até linear de contar a história do sujeito moderno. Até que ponto isso seria positivo para a sociedade?

Considerações finais

A socialização primária tem a Base na família, naquele primeiro contexto em que a criança nasce, e estabelece seus primeiros conceitos. Estes, estabelecidos pelos pais. Mas se esta socialização inicial está distorcida, sem os devidos parâmetros, ela se expande para os filhos, reproduzindo-se. E pode-se dizer que os pais também adquiriram fundamentação pela socialização secundária, pelas instituições. Essa estrutura secundária também sofreu algumas alterações nas ultimas décadas.

E a terceira fase, do presentismo, deve-se observar que ela ocorre com uma frequência muito mais acentuada nas grandes cidades, como observa Simmel (1987), onde o individualismo e a impessoalidade se fazem muito presentes. Onde o Dinheiro, como incentivador do consumo é uma realidade.

Já em ambientes mais comunitários ou rurais, a primeira a segunda fases ainda são bastante evidentes. Hoje, necessita-se de um aporte externo, ficando-se mais "abertos" a socialização do "imediatismo", como referido acima, tendo-se perdido inclusive a socialização secundária, esta transformando-se e subordinando-se ao mercado.


Estamos em uma descentração, ficando a mercê de qualquer aporte ou suporte que nos é dado. É como se precisássemos de uma nova moda, de uma nova ideia, de um novo "espetáculo" para aparecer, se destacar, consumir e viver o presente. Torna-se visível uma certa decaída das instituições tradicionais e um avanço substancial dos oligopólios do consumo, sendo esta a nova função do ser humano: seguir seus instintos, sua individualidade, poder consumir, ter bens.

Afirma Bauman (2001), nesse sentido, que no atual período da modernidade, a centralidade não se encontra propriamente no dinheiro, e sim no seu uso, no ato de consumo, se hoje o dinheiro é tão importante é porque apenas através dele podemos nos realizar no consumo de bens. Segundo ele: Numa sociedade de consumo, compartilhar a dependência de consumidor - a dependência universal das compras - é a condição 'sine qua non' de toda liberdade individual; acima de tudo da liberdade de ser diferente, de "ter identidade" (BAUMAN, 2001:98).

Uma observação importante nesta nova socialização e estabelecimento da identidade, e se concordarmos com Bauman, podemos dizer que o conforto da posse de dinheiro foi substituído pelo prazer de seu gasto. É lógico, no entanto, que para consumir é necessário ter dinheiro, mas, o crucial aqui é que a predominância do prazer pelo consumo em detrimento do conforto da posse faz da posse mesma irrelevante. Como consequências disso o instante - de consumo - substitui o "a longo prazo", o presente substitui o futuro. A época atual, capitalista, imediatista, fez surgir uma forma nova e decisiva de individualismo, no centro da qual erigiu-se uma nova concepção do sujeito individual e sua identidade.

As transformações associadas à atualidade libertaram o indivíduo de seus apoios estáveis nas tradições e nas estruturas. Antes se acreditava que essas eram divinamente estabelecidas; não estavam sujeitas, portanto, a mudanças fundamentais. Hoje vê-se um pluralismo, confusão, insegurança e um enorme relativismo dos sistemas de valores e da interpretação. Categorias como "alienação" e "anomia" são propostas para caracterizar a dificuldade das pessoas de encontrar um caminho no mundo moderno. (BERGER & LUCKMANN, 2004)

A insegurança num mundo confuso e cheio de possibilidades de interpretação é um consenso, onde o individualismo, fomentado pelo sistema vigente de consumo, incentiva a aquisição de bens imediatos como saída para as diferentes patologias do cotidiano. Essa desintegração social objetiva uma não compreensão dos sistemas de funcionamento de estruturas sociais básicas, que faz com que o indivíduo se sinta excluído se não "participar" de todo o processo de consumo. Essa participação, por sua vez, é incentivada por todos os meios de comunicação que bombardeiam todo o tempo o indivíduo, numa ditadura inconsciente: "você tem que ter isso, senão, não será ninguém".

É uma indução do mundo imaginado, ou uma manipulação ideológica, pois o consumo leva a imaginada inserção. O que parece evidente é que a socialização, nas suas diferentes fases e estabelecimentos, é sempre induzida, programada. A identidade segue os mesmos parâmetros. Inicialmente, a socialização é induzida pelos pais, que por sua vez também são influenciados, para esta indução, pelas instituições. Estas, influenciariam toda a inserção do indivíduo na sociedade, fora da família, a partir dos 8 anos de idade, aproximadamente. Posteriormente, portanto na atualidade, estas duas fases não estariam tão visíveis. Ocorre um deslocamento, no qual as fases anteriores - socialização pela família e pelas instituições - se tornam tênues ou inexistentes, dependendo o contexto.

A socialização portanto se estabelece de maneira atrofiada, baseada em manipulação ideológica, com importância relevante aos meios de comunicação, estabelecendo uma sutil ditadura, mantendo o indivíduo na obrigação de consumir, sem se importar mais com regras sociais, isso como citado, evidente nas grandes cidades. A socialização, portanto, torna-se baseada no consumo, o indivíduo não consegue se dar conta de seus direitos ou deveres: ele tem que "pagar" suas contas.

Referências Bibliográficas

BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista à Benedetto Vecchi. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2005.
BERGER P., Luckmann T. A construção Social da Realidade: Tratado de Sociologia do Conhecimento. Petrópolis: Ed. Vozes, 1985.
BERGER, P., L. Luckmann, T. Modernidade Pluralismo e Crise de Sentido: A orientação do homem moderno. Petrópolis: Ed. Vozes, 2004.
GIDDENS, A. The Consequences of Modernity. Cambridge: Polity Press, 1990.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 11ª edição, 2006.
HISADA, S. A utilização de histórias no processo psicoterápico. Rio de Janeiro: Revinter, 1998. LACLAU, E. New Reflections on the Resolution of our Time. Londres: Verso, 1990.
MILLS, Wright C. A imaginação Sociológica. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 4ª Edição, 1975. QUINTANEIRO, Tânia. Um toque de Clássicos: Marx, Durkheim e Weber. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009
SIMMEL, Georg. O indivíduo e a liberdade. SOUZA, Jessé e ÖELZE, Berthold (orgs.) Simmel e a Modernidade. Brasília: Unb, 1998.
SIMMEL. George. A Metrópole e a Vida Mental. In: VELHO, Otávio G (org.). O Fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1987.
ZIZEK, Slavoj (Org.), Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro, Contraponto, 1996

Alexandre João Appio
Mestre em Ciencias Sociais pela UNISINOS (2012), especialista em Geografia pela PUC-RS (2008), graduação em Estudos Sociais - Hab. Geografia - UNILASALLE (2001). Atualmente é professor nas disciplinas de Geografia e sociologia, e Metodologia de pesquisa para ensino superior; agente de saúde na Ass. Farmacêutica da Sec. da Saúde do RS;Atua em pesquisas sociais na área de medicalização, consumo e qualidade de vida.
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