A Interação Social na Teoria de Piaget

A Interação Social na Teoria de Piaget
PEDAGOGIA
Em uma de suas passagens, Piaget diz que o homem normal: Segundo (Piaget, 1973, p. 424) “não é social da mesma maneira aos seis meses, ou aos vinte anos de idade, e, por conseguinte, sua individualidade pode não ser da mesma qualidade, nesses dois diferentes níveis". Nessa afirmação de Piaget, está explícita a presença inevitável das relações sociais interferindo no desenvolvimento humano; o termo homem social expressa a condição humana de ser que vive em sociedade e que, portanto, influencia e é influenciado pelas relações sociais.

“A interação social que se segue a cada momento de nossas vidas é um elemento definidor de nossas ações e de nossos comportamentos sociais: um adulto não pode comportar-se como uma criança de cinco anos e isso ele aprendeu ao longo de seu desenvolvimento na relação com os outros homens. Piaget pensa o Ser Social como o indivíduo que se relaciona com os outros, seus semelhantes, de forma equilibrada. Entretanto, Piaget faz uma ponderação muito interessante sobre relação equilibrada, a qual, segundo ele, somente pode existir entre pessoas que estejam no mesmo estágio de desenvolvimento”. (TAILLE, 1992).

Expliquemos melhor: lembrem-se dos estágios de desenvolvimento da criança; o equilíbrio a que Piaget se refere somente pode existir entre pessoas que estejam no mesmo nível de desenvolvimento, ou seja: “A maneira de ser social de um adolescente e uma, porque é capaz de participar de determinadas relações (...) e a maneira de ser social de uma criança de cinco anos é outra, justamente porque ainda não é capaz de participar de relações sociais que expressam e que demandam um equilíbrio de trocas intelectuais”. (TAILLE, 1992, p. 14).

Portanto, dependendo do estágio em que a criança se encontre, poder-se-á falar de um grau maior ou menor de socialização. Nesse caso, a compreensão dos estágios de desenvolvimento é fundamental para a compreensão da socialização da pessoa.

Para Piaget, no estágio sensório-motor não é possível falar “em real socialização da inteligência" (TAILLE, 1992, p. 15), pois nesse período, a criança é essencialmente individual. No estágio pré-operatório, quando o processo de aquisição da linguagem já está em franco desenvolvimento, já se pode falar de uma inicial: “Socialização afetiva da inteligência, embora a ausência de algumas características, como, por exemplo, significados comuns em relação a conceitos e ideias, ainda limitam a possibilidade de a criança estabelecer trocas intelectuais equilibradas”. (TAILLE, 1992, p. 15).

Resumidamente, para Piaget, a socialização possui vários graus. Começa no grau zero, quando a criança é recém-nascida, até o grau máximo, representado pelo conceito de personalidade. A personalidade significa, portanto, o momento de autonomia do indivíduo, quando ele já superou o egocentrismo e consegue estabelecer uma relação - trocas intelectuais - recíproca com os outros.

Para Piaget, as relações interindividuais pressupõem dois tipos de relações sociais: a coação e a cooperação.

A coação social é toda relação entre dois indivíduos em que estão presentes os elementos da autoridade e do prestígio. Nesse tipo de relação, não há diálogo. Segundo Taille (1992, p. 19) "uma vez que um fala e outro se limita a ouvir e a memorizar". O indivíduo coagido é levado a acreditar no que diz a outra pessoa, que, por ter mais poder, tem também, autoridade e prestígio, sem que seja preciso verificar a veracidade ou procedência dos fatos.
As relações de cooperação, por sua vez, representam o mais alto nível de socialização e desenvolvimento mental, visto que pressupõem reciprocidade e diálogo entre indivíduos autônomos. Aqui, a relação não se baseia em uma pessoa que fala e outra que acredita, cegamente, no que é dito; aqui, o ato de acreditar não está submetido à autoridade e ao prestígio de outrem, mas na capacidade de discernimento de cada pessoa ou, ainda, como diz Taille (1992, p. 20), "agora não há mais assimetria, imposição, repetição, crença (...) Há discussão, troca de pontos de vista, controle mútuo dos argumentos e das provas".

Em sua obra “O julgamento moral da criança” (1930), Piaget estabelece que a moral se desenvolve em um processo crescente que vai da dependência moral á autonomia moral. O desenvolvimento da autonomia, por sua vez, é um processo mediado pelos adultos, crianças e adolescentes, com os quais a criança se relaciona cotidianamente. No desenvolvimento da autonomia, há dois mecanismos fundamentais , a cooperação e a reciprocidade, que comportam dois tipos de sanções: as sanções expiatórias, e as sanções de reciprocidade.

Sanções expiatórias: essas sanções caracterizam-se por não apresentar qualquer relação entre a falta cometida e a punição recebida, porque estão baseadas, apenas, na autoridade dos adultos.

Sanções de reciprocidade: nessas sanções, há relação estreita entre o ato e a punição, por isso, apresenta "elo de reciprocidade", de coerência.

Em geral, as regras são praticadas e internalizadas pela criança em três momentos subsequentes: anomia, heteronomia e autonomia.

Anomia: nesse momento, a criança não segue regras, mas busca satisfazer seus interesses. Aqui, não importa para a criança participar de atividades coletivas regidas por regras estabelecidas em comum acordo.

Heteronomia: nessa fase, já começa a ser desenvolvido certo interesse por atividades coletivas, com regras estabelecidas mutuamente.

Autonomia: na autonomia, a criança já consegue jogar e relacionar-se, obedecendo a regras que são estabelecidas em comum acordo.

Está claro que, para Piaget, o conhecimento deve ser visto como uma construção em constante processo. Isso pressupõe entender que a criança é capaz de criar, recriar e experimentar de forma autônoma, impulsionando seu próprio desenvolvimento. Nesse sentido, o ato de errar não pode ser visto como falha e sim como um momento necessário da aprendizagem; a ausência do erro denuncia a ausência da experimentação e, consequentemente, a ausência da aprendizagem.

Visto que a socialização e a moral vão sendo consolidadas ao longo da infância, o trabalho coletivo, em Piaget, tem o papel de mediador das relações e de instigador da capacidade de participação, cooperação e respeito mútuo. O trabalho coletivo socializa, estabelece laços de afetividade e permite à criança perceber-se como parte de uma coletividade, superando seu egocentrismo.

No Construtivismo piagetiano o educador não é o detentor do saber, mas o facilitador do processo ensino-aprendizagem. O aluno não é mero receptor de conhecimento, mas o agente ativo que constrói conhecimento. A relação professor-aluno deve ser de respeito mútuo e cooperação.
É claro que não se pode tomar uma teoria como verdade absoluta. O conhecimento é sempre relativo e uma teoria é sempre limitada. Por isso, uma teoria deve servir como uma possibilidade, dentre tantas, de construção de educação diferenciada.

A própria prática pedagógica, que se renova a cada dia, deve ser vista como um palco onde se experimenta, se inventa e se recria o ato de ensinar: nesse palco, podem surgir outras teorias.

Por fim, na aplicação de uma teoria, é preciso levar em conta a realidade sociocultural dos alunos, para que não se caia no risco de reproduzir e de copiar mecanicamente determinada concepção de educação: o que deu certo em determinado lugar não, necessariamente, pode responder às necessidades de outra e diversa realidade.

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