Equinos: Erlichiose Monocítica e Granulocítica Equina

Equinos: Erlichiose Monocítica e Granulocítica Equina
VETERINARIA
Anaplasma phagocytophilum e Neorickettsia risticii são as únicas bactérias da família Anaplasmataceae descritas como causadoras de doenças em equinos. No Brasil há relatos de ambas.

Erlichiose Monocítica Equina

A erlichiose monocítica equina (EME) é uma doença infecciosa não contagiosa causada pela Neorickettsia risticii. Esta enfermidade foi descrita inicialmente em 1979 no Estado de Maryland (EUA), em região próxima ao Rio Potomac, por isto esta doença é conhecida como a febre do cavalo de Potomac (Potomac horse fever).

Atualmente, a EME também é chamada de colite erlichial equina e síndrome da diarreia aguda equina. E, além dos EUA, encontram-se casos descritos no Brasil, Uruguai, França, Índia e ainda há evidencias sorológicas de sua ocorrência em diversos países.

A EME geralmente tem caráter endêmico e sazonal, com a ocorrência de casos em áreas alagadiças, próximas a rios e lagos, nos meses mais quentes do ano. No Brasil, os casos descritos concentram-se no Rio Grande do Sul em áreas que se encontram próximas a lagoas no litoral do estado.

Todos os equinos são suscetíveis à doença, sendo que animais transportados para áreas endêmicas parecem ser suscetíveis a infecções mais graves do que aqueles nascidos nestas áreas.

Diferentemente da maioria dos membros da família Anaplasmataceae, a transmissão da N. risticii não ocorre pela picada de carrapatos e sim por via oral. Esta é a principal forma de transmissão das neoriquétsias, N.sennetsu, N. helminthoeca e o agente do Stellantchasmus falcatus (agente SF), que sabidamente apresentam um padrão de transmissão oral intermediado por trematódeos.

Caramujos existentes em regiões de ocorrência da EME nos Estados Unidos foram identificados como portadores de N. risticii, assim como as cercárias albergadas por eles, sendo considerados vetores desta bactéria. No Rio Grande do Sul, foram identificados caramujos do gênero Heleobia que albergavam cercarias do tipo Parapleurolophocercous cercariae como portadores de N. risticii.

Em estudos experimentais sobre o modo de transmissão de N. risticii, verificou-se que a EME pode ser obtida facilmente por transfusão sanguínea, e que os equinos também são sensíveis à infecção pelas vias subcutânea e intradérmica, além da oral. Também há relatos de transmissão transplacentária.

Os sintomas de animais com EME são: diarreia aquosa, febre, desidratação e anorexia; com variação do quadro clínico entre leve a severo, podendo levar os animais à morte. A taxa de fatalidade da EME é estimada em 5 a 30% dos animais acometidos.

Em um surto no Rio Grande do Sul, os animais acometidos apresentaram diarreia aquosa e profusa de forma aguda, com evidente prostração e anorexia; e, alguns animais apresentavam marcha rígida ao se locomoverem. Casos de laminite por N. risticii são descritos com relativa frequência.
O diagnóstico da EME, assim como das demais erliquias e anaplasmas, pode ser feito por observação direta em esfregaços sanguíneos, testes sorológicos ou pela PCR. A necropsia pode ser muito útil, especialmente quando ocorrem surtos, e alguns animais acabam vindo a óbito, possibilitando o diagnóstico da causa do surto e o tratamento daqueles que ainda estão vivos.

As alterações necroscópicas mais consistentes da EME são as presenças de conteúdo fluído no cólon maior e ceco, e áreas de hiperemia com extensão e distribuição variáveis na mucosa do intestino. O conteúdo presente no intestino delgado tem consistência variável, de mucosa a aquosa, com áreas hiperêmicas e congestas, podendo ocorrer áreas com lesões intercaladas por áreas sem lesão. As alterações microscópicas revelam uma enterocolite linfohistiocitária, caracterizada por congestão, necrose epitelial superficial e infiltrado inflamatório mononuclear na lâmina própria e submucosa do ceco e cólon maior.

O tratamento da EME pode ser feito com oxitetraciclina, administrada por via endovenosa, na dosagem de 6,6mg/kg ao dia, até que os animais demonstrem melhora dos sinais clínicos, o que geralmente ocorre entre três a cinco dias. Alguns autores indicam que o intervalo entre as doses seja de 12 horas. Em um estudo experimental 70% dos cavalos se recuperam em cinco a sete dias após o início do tratamento com oxitetraciclina quando administrada durante o pico febril, antes do aparecimento da diarreia. Nos casos em que a diarreia já está instalada, o tratamento pode ser mais prolongado e menos eficiente, o que piora o prognóstico do animal. Além do mais, a oxitetraciclina causa colite induzida por antibióticos, e o ideal seria usá-la apenas nas situações em que a suspeita de EME é bastante consistente. Terapia de suporte com fluidoterapia intravenosa e anti-inflamatórios não-esteroides pode ser necessária; se o animal desenvolver laminite, a terapia apropriada deve ser realizada.

A compreensão da forma de transmissão da EME pode permitir a introdução de métodos de controle eficazes nas áreas de risco. No caso do Rio Grande do Sul, único estado onde há relatos da EME no Brasil até o presente momento, pelas suspeitas de envolvimento de caramujos do gênero Heleobia, pressupõe-se que as medidas de controle devam se direcionar para eles, evitando que os cavalos tenham acesso a estes moluscos.

De qualquer forma, todo veterinário que atue em áreas próximas a águas doces, onde existam possíveis vetores, deve estar atento para ocorrência de EME e incluí-la em seus diagnósticos diferenciais.

Erlichiose Granulocítica Equina

A erlichiose granulocítica equina (EGE) é causada pela A. phagocytophilum, anteriormente chamada de E. equi, E. phagocytophila e agente da erlichiose granulocítica humana (EGH). Ela é um agente infeccioso, que infecta os granulócitos dos equinos, preferencialmente os neutrófilos e eosinófilos destes animais.

Esta doença foi primeiramente descrita na Califórnia, EUA, sendo transmitida por carrapatos do gênero Ixodes, e hoje tem descrição mundial. No Brasil, também há relatos da doença nos estados do Rio de Janeiro e Pernambuco, em nosso país se suspeita que os vetores sejam Amblyomma cajennense e Rhipicephalus sanguineus. Os sinais clínicos mais comuns nos equinos com EGE são: febre, letargia, anorexia, hemorragias petequiais, icterícia, edema pulmonar e de membros; ataxia, relutância para se movimentar e claudicação. Ao contrário do que ocorre com N. risticii, equinos com EGE não desenvolvem laminite.

Em animais não tratados, a EGE geralmente se apresenta como doença autolimitante e os casos fatais parecem estar relacionados a infecções secundárias, provavelmente em decorrência da imunossupressão. As infecções subclínicas ocorrem nas áreas endêmicas, onde mais de 50% dos equinos tem anticorpos contra A. phagocytophilum.

O perfil hematológico de equinos com EGE inclui anemia, trombocitopenia e monocitose. O índice ictérico pode estar elevado e pode ocorrer leucopenia. As mórulas de A. phagocytophilum aparecem no interior de vacúolos intracitoplasmáticos como pequenos pontos, redondos, roxos, em agregados frouxos, que lembram uma amora; estes vacúolos medem entre 1,5 a 5 μm. A taxa de infecção dos neutrófilos varia amplamente, de 0,5 a 73%.

Laboratórios do Rio de Janeiro têm observado a presença de mórulas em cerca de 60% das amostras de equinos de esporte, independente de raça, sexo ou idade. Estas análises têm reforçado a hipótese de que casos subclínicos, onde se percebe apenas discreto inchaço de membros, muitas vezes sem dor ou discreta claudicação, são mais frequentes do que se imagina.

Além da observação de mórulas, testes sorológicos como RIFI e western blotting e moleculares como a PCR também são bastante úteis no diagnóstico. Com as considerações frequentes de que a sorologia não identifica espécie, pois apresenta reações cruzadas, e também não diferencia infecções agudas de exposições prévias.

À necropsia, as alterações macroscópicas da EGE são hemorragias petequiais, edema, icterícia, vasculite proliferativa e necrosante de artérias e veias, especialmente dos membros posteriores. Nos machos pode se observar orquite. Lesões inflamatórias vasculares e intersticiais podem ser vistas nos rins, coração, pulmões e cérebro.

O tratamento da EGE consiste em administrar oxitetraciclina intravenosa, na dose de 7 mg/kg uma vez ao dia durante cinco a sete dias. Segundo alguns pesquisadores, é recomendável que se dilua a dose de oxitetraciclina em 500 a 1000 ml de solução salina 0,9% para evitar hipocalcemia. A terapia de suporte é feita com fluidoterapia também intravenosa. Há ainda a recomendação de administrar a droga também por via oral, na dose de 22 mg/kg a cada 12 horas por mais sete dias, a fim de evitar recidivas, mas deve-se ter cuidado com a colite medicamentosa. Como ainda não há vacina para a EGE, o controle restringe-se às medidas de controle contra os carrapatos vetores.

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