Deficiência visual, família e escola

Deficiência visual, família e escola
PEDAGOGIA
A falta ou a deficiência de um dos sentidos, como a visão, traz consequências para o desenvolvimento e aprendizagem dos indivíduos. A falta da visão, além de afetar a locomoção do sujeito no espaço físico, afeta também a sua capacidade de leitura e escrita. No entanto, toda pessoa é capaz de desenvolver-se e aprender algo independentemente de suas limitações, deficiências ou síndromes desde que sejam respeitadas suas limitações físicas e mentais e principalmente se estimulado de forma adequada. Nesse sentido, pessoas com deficiência visual ou cegueira podem apropriar-se de conhecimentos sistematizados e elaborados socialmente assim como participar efetivamente no meio social, desde que recebam os estímulos e orientações necessárias ao seu desenvolvimento, construção de aprendizagens e conceitos.


Sendo assim, tornam-se relevantes alternativas para minimizar ou superar as dificuldades que eles encontram durante toda a sua vida escolar.


Em se tratando do ambiente escolar e da deficiência visual ou cegueira, uma das alternativas disponíveis para a alfabetização é o Sistema conhecido como Braile. Esse sistema é fundamental para a aprendizagem da leitura e escrita das pessoas cegas ou para o aprimoramento daquelas que perderam a visão após serem alfabetizadas da forma convencional.


DEFICIÊNCIA VISUAL

Quando uma criança nasce, a família deseja que ela não apresente nenhum tipo de deficiência, seja física, cognitiva ou sensorial.


As deficiências sensoriais, do ponto de vista científico, dizem respeito a alterações em um ou mais órgãos dos sentidos. Mas do ponto de vista prático, a deficiência sensorial caracteriza-se pela incapacidade plena de utilizar os sentidos que se dispõe, independentemente de quantos eles sejam. Nesta perspectiva, a deficiência sensorial não constitui a falta de um dos sentidos, mas a impossibilidade de usá-los plenamente no dia a dia durante toda a vida.


A cegueira ou deficiência visual é um tipo de deficiência sensorial. A deficiência visual, em qualquer grau, compromete a capacidade da pessoa de se orientar e de se movimentar no espaço com segurança e independência. Sendo assim e para uma melhor compreensão do assunto, neste capítulo far-se-á o conceito de deficiência visual e suas diferentes formas de apresentação.

Conceituando Deficiência Visual

O termo deficiência vem do latim deficientia, e segundo o Dicionário Aurélio (2004) significa falta, imperfeição ou insuficiência.


Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1999) referem-se à deficiência visual como uma “redução ou perda total da capacidade de ver com o melhor olho e após a melhor correção ótica”.


A deficiência visual é um estado de redução do sentido visual, decorrentes de patologias congênitas, hereditárias ou adquiridas (acidentes, infecções, entre outras). A situação que define de fato a baixa visão é a permanência da deficiência mesmo após tratamento clínico e ou cirúrgico.


A deficiência visual não denomina apenas os indivíduos que não possuem nenhum resquício visual, ela também classifica as pessoas com problemas visuais que as façam legalmente cegas.


Características da Deficiência Visual

A deficiência visual pode se caracterizar por Cegueira e visão reduzida. De acordo com Lima (2005, p.71) a Cegueira,
caracteriza-se por perda da visão, em ambos os olhos, com visão de menos de 0,1% no melhor olho após correção, ou um campo visual não excedente a 20 graus, no maior meridiano do melhor olho, mesmo com o uso de lentes de correção. Sob o enfoque educacional, a cegueira representa a perda total ou o resíduo mínimo da visão que leva o indivíduo a necessitar do Método Braile como meio de leitura e escrita, além de outros recursos didáticos e equipamentos especiais para a sua educação.


Os autores Ochaíta e Espinosa (2004, p. 152) classificam a cegueira como “uma deficiência sensorial que se caracteriza pelo fato de que as pessoas que dela padecem têm seu sistema visual de coleta de informações total ou seriamente prejudicado.”


A cegueira pode ser congênita ou adquirida (em decorrências de causas orgânicas ou acidentais) e traz consequências para o desenvolvimento e a aprendizagem, porque a informação não é obtida por meio dos olhos, requisitando, portanto sistemas de ensino por vias alternativas. Portanto, a cegueira não impossibilita um completo desenvolvimento das faculdades mentais de um indivíduo.


A visão reduzida, para alguns autores, significa visão subnormal. De acordo com Lima (2005, p.71), a visão reduzida caracteriza-se por “acuidade visual dentre 6/20 e 6/60, no melhor olho, após correção máxima”.


Isso significa que a visão subnormal compromete a função visual impossibilitando a pessoa ter uma visão clara para realizar suas atividades diárias. A baixa visão gera inúmeros transtorno e constrangimentos, pois as pessoas enxergam de uma forma diferente nas mais diversas distâncias, ou seja, de perto, a meia distância ou de longe. No entanto vale salientar que o uso da visão mesmo sendo baixa, não é prejudicial para o indivíduo. Muito ao contrário, a sua utilização proporciona melhor desempenho e eficiência da visão principalmente se o indivíduo tiver o apoio da família.


A participação e a compreensão da família são de extrema importância no processo de desenvolvimento das pessoas com deficiência visual e no resgate de sua autoestima.
FAMÍLIA

Poder enxergar tudo que nos rodeia é tão importante quanto ouvir os sons que são produzidos a nossa volta. Tal como a audição, a visão capta registros próximos ou distantes e permite organizar, no nível cerebral, as informações trazidas pelos outros órgãos dos sentidos.


Por isso, a deficiência visual congênita ou adquirida, trás um impacto grande na vida do indivíduo, tanto no seu desenvolvimento individual quanto psicológico.


Além da perda do sentido da visão, a cegueira adquirida acarreta também outras perdas tais como emocionais, mobilidade, execução das atividades da vida diária e profissional, da comunicação e da personalidade como um todo. Sendo assim, a deficiência visual em qualquer grau, compromete a capacidade da pessoa de se orientar e de se movimentar no espaço com segurança e independência. Por isso, o desenvolvimento das habilidades de orientação e mobilidade, parte essencial do processo educacional de qualquer criança deficiente visual, precisa começar desde cedo, em casa, com o apoio dos pais.


À família, base do desenvolvimento do ser humano, cabe a tarefa de oferecer ao portador de deficiência visual condições para seu crescimento como indivíduo, tornando-o capaz de ser feliz e produtivo, dentro de sua realidade, de suas potencialidades e de seus limites.


Embora não seja fácil, a família precisa entender que a pessoa com deficiência é acima de tudo, uma pessoa completa com sentimentos, sonhos e desejos. Por isso, deve evitar focar a atenção na sua cegueira ou ainda na sua baixa capacidade visual. A primeira atitude que a família do deficiente visual deve ter, é acreditar na capacidade e potencialidades que ele tem e ainda considerá-lo capaz de estudar, ser independente, trabalhar, praticar esportes e tantas outras coisas que seus amigos, parentes e conhecidos fazem. Além da família, a escola e a sociedade também devem contribuir no sentido de ajudar a enfrentar os obstáculos colocados pela deficiência.


ESCOLA


Ao longo da história as pessoas com deficiência, física, auditivas, visuais e outros, foram discriminadas, segregadas e afastadas da convivência com as pessoas consideradas normais. Foram excluídos dos ambientes sociais públicos, porque eram diferentes dos outros, sendo até mesmo considerados seres inferiores e incapazes de conviverem em sociedade. Não trabalhavam, não estudavam e viviam a margem da sociedade.


Este cenário começou a mudar a partir da Conferencia Mundial de Educação para Todos, realizada em 1990 na Tailândia, com a finalidade de refletir sobre uma sociedade e uma escola inclusiva. Outro evento marcante foi a Conferencia de Salamanca, realizada na Espanha em 1994, que resultou na Declaração de Salamanca cujo eixo central propõe a inclusão das pessoas com necessidades especiais no ensino comum e sua participação social plena. A partir de então vários outros eventos e políticas públicas de inclusão foram implementadas, inclusive no Brasil.


No Brasil, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 3º inciso IV, vem “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Garante ainda em seu artigo 205, no capítulo III, a educação como um “direito de todos e dever do Estado”. Portanto, todos têm direito a uma educação gratuita e de qualidade, inclusive os deficientes visuais ou as pessoas com visão reduzida.


A visão reduzida sob o enfoque educacional, “trata-se de resíduo visual que permite ao educando ler impressos a tinta, desde que se empreguem recursos didáticos e equipamentos especiais” (LIMA, 2005, p.71).


Isso significa que as pessoas com visão reduzida têm uma visão residual, mas necessita de adaptações nas atividades pedagógicas para que consiga realizá-las e efetivar a aprendizagem. Durante todo o processo de aprendizagem de uma criança portadora de deficiência visual é necessário procedimento e recursos especializados. No entanto, de acordo com o estudo Piagetiano, a função cognitiva de crianças com deficiência visual desenvolve-se bem mais lentamente comparando-se com as crianças videntes. Por isso a alfabetização de crianças cegas requer uma metodologia ainda mais diversificada do que para as crianças videntes. Sendo assim, o professor não deve ser um mero repassador de informações ou um repetidor de estratégias de ensino já experimentados ou ainda um alfabetizador repassador de conteúdos. Do professor alfabetizador exige-se criatividade, desenvoltura e reflexão da sua prática pedagógica. O professor deve ser um observador criterioso e ficar atento a evolução do aluno.


Todavia, um ponto crucial durante esse processo, é perceber a criança cega ou com baixa visão, como um ser inteiro, proprietária dos seus pensamentos, e construtora do seu próprio conhecimento, ainda que em condições distintas.
A educação, como elemento transformador, precisa provocar a participação e a interação entre escola, educadores e educandos, sejam eles deficientes visuais ou não. Em se tratando de pessoas cegas, é importante que os educadores acreditem em seu ofício e que estejam capacitados para exercerem seu papel no processo ensino-aprendizagem utilizando metodologias distintas para que haja interação e posteriormente o efetivo conhecimento formal.


Durante décadas, as pessoas cegas tinham somente o Braile como forma de acesso a informação escrita. Sendo assim, as crianças cegas que frequentavam a escola eram alfabetizadas por esse método ao qual permite a pessoa cega ler e escrever textos utilizando apenas as pontas dos dedos.
O Braile e suas características

O Sistema Braile é um modelo de lógica, simples e polivalente, que se adapta a todas as línguas e a toda a espécie de grafias. Esse sistema foi inventado em 1825 por Louis Braille que, com sua invenção permitiu aos cegos enxergarem novos horizontes na ordem social, cultural e espiritual, arrancando-os da cegueira mental em que viviam.


O Sistema Braile é um alfabeto convencional cujos caracteres são indicados por seis pontos distribuídos em duas colunas, numerados de1 a6. A partir desses seis pontos é possível fazer 63 combinações que podem representar letras simples e acentuadas, pontuações, algarismos, sinais algébricos e notas musicais. Este agrupamento também possibilita representar caracteres da literatura, da matemática, da informática e da música. No entanto, a escrita Braille não possui símbolos que sintetizem a frase. Cada palavra tem suas letras distintas, com auxílio de pontos que indicam maiúsculas e espaços suficientemente sensíveis ao toque para melhor identificar as palavras.


A escrita em Braile é realizada através da reglete. A reglete é um pequeno artefato articulado com orifícios na parte superior e reentrâncias na parte inferior. O punção é um tipo de caneta que permite perfurar os pontos em uma folha de papel. Com o passar do tempo os instrumentos foram evoluindo e então surgiu a máquina de escrever em braile. Era semelhante a uma máquina de escrever comum, mas sua função é reproduzir células em relevo sobre o papel.


Com a evolução dos recursos tecnológicos, foi desenvolvido na década de 80, um software de computador para braille. Recursos adicionais incluem software de reconhecimento de voz, teclados especiais para computador e scanners ópticos. Os programas de braille mais recentes conseguem produzir páginas em frente e verso através de um sistema de interpontos, que intercalam as impressões em alto e baixo relevos nas entrelinhas.


Conclusão

As pessoas com deficiência visual têm os mesmos direitos, sentimentos, sonhos e vontades que outras não deficientes. Ter uma deficiência não significa ser pior ou melhor que outras pessoas. No entanto, é importante que a criança com deficiência visual seja encaminhada a serviços de atendimento especializados o mais cedo possível, pois dessa forma serão maiores as possibilidades de desenvolver seu potencial.


A participação da família é fundamental para o processo de atendimento à criança ou adulto com deficiência visual. É relevante que os pais entendam as dificuldades enfrentadas pelo filho com deficiência, dialogando com ele em uma atitude positiva diante dos desafios.


Além da família, a escola e a sociedade devem contribuir no sentido de ajudar o deficiente visual a enfrentar os obstáculos colocados pela deficiência. Ao trocar experiências, sentimentos e informações ajuda a compreensão da necessidade que criança ou adulto com deficiência visual, têm de um espaço para construir novos valores e significados para viver em sociedade.
REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição da Republica Federativa do Brasil. São Paulo: Editora Saraiva, 2002.


BRASIL, Ministério da Educação e Cultura/Secretaria de Educação Fundamental/Secretaria de Educação Especial. Parâmetros Curriculares Nacionais. Adaptações Curriculares. Estratégias para Educação de alunos com Necessidades Educacionais Especiais. Brasília: MEC/SEF, 1990.


FERREIRA, Aurélio B. Holanda. Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2ª Ed., São Paulo: Editora Nova Fronteira, 2004.


LIMA, Priscila Augusta de Lima. O aluno com deficiência visual na escola. In: Veredas – Formação superior de professores: módulo 7 – volume eletiva 3 /SEE-MG. Belo Horizonte: SEE- MG, 2005.


OCHAÍTA, Esperanza; ESPINOSA, Maria Ángeles. Desenvolvimento e intervenção educativa nas crianças cegas ou deficientes visuais. In: COLL, César; MARCHESI, Álvaro e PALACIOS, Jesús (orgs). Desenvolvimento psicológico e educação: Transtornos de desenvolvimento e necessidades educativas especiais 3. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2004.

Maria de Fátima de Oliveira Almeida
Graduada em: Pedagogia - Educação Infantil e Séries Iniciais do Ensino Fundamental pela Universidade Luterana do Brasil (2010), em Normal Superior pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2007) e em Licenciatura em Matemática pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2002). Especialista em Educação. Atualmente é professor da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, tutora a distancia - If Sudeste MG - Campus Rio Pomba e tutor de sala da Universidade Norte do Paraná. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação e Aprendizagem (Texto informado pelo autor)
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