Avaliação de Desenvolvimento da Linguagem

Avaliação de Desenvolvimento da Linguagem
FONOAUDIOLOGIA
Desenvolvimento pragmático
A pragmática estuda “o funcionamento da linguagem em contextos sociais, situacionais e comunicativos...”, ou seja, analisa os aspectos funcionais da comunicação, o uso intencional da linguagem, portanto, quando avaliamos a pragmática, estamos avaliando as “intenções comunicativas do falante e da utilização que faz da linguagem para realizar essas intenções”

(Acosta et al, 2003, p. 33-35). Em relação à linguagem infantil, dois aspectos deverão ser analisados: as funções comunicativas, que seriam as habilidades comunicativas; e a conversação, que seriam as habilidades conversacionais, compromisso conversacional, fluência do discurso e adequação referencial (dêixis).

O que observar?
O uso da linguagem em várias situações comunicativas. Para Acosta et al (2003, p. 47), o objetivo principal é “avaliar e ‘descrever’ a competência comunicativa das crianças e o caráter interativo e de uso da língua.” Portanto é fundamental “...conhecer a capacidade da criança para comunicar-se de maneira eficaz e adequada em diferentes contextos e diante de interlocutores diversos.”

Objetivos:

a) Conhecer as funções comunicativas que refletem as produções das crianças:
• determinar as intenções comunicativas (o que tentam transmitir?)

• determinar a compreensão dos significados ou intenções comunicativas que outros interlocutores tentam transmitir.

• determinar os expoentes linguísticos utilizados pela criança para expressar suas intenções comunicativas.

b) Avaliar as habilidades conversacionais:

• verificar a participação da criança em intercâmbios de conversa;

• verificar o grau de envolvimento nos intercâmbios conversacionais – a criança inicia a conversação, ela limita-se a responder as perguntas do interlocutor, ela participa ativamente da organização, gestão e desenvolvimento da conversação?

• verificar se a criança tem habilidade para iniciar ou mudar de assunto;

• verificar a habilidade para tomar e ceder turnos;

• verificar o conhecimento dos recursos e estratégias linguísticas e não linguísticas que a criança usa quando participa da conversação;

• verificar como a criança usa as respostas – o grau de coerência ou incoerência, enunciados ambíguos ou não;

• verificar a habilidade para fazer autocorreção para superar mal-entendidos.
c) Conhecer o nível de desenvolvimento ou domínio dos elementos dêiticos.
Procedimentos e estratégias de avaliação:
• Testes padronizados: é difícil encontrar testes padronizados para avaliação da pragmática, Acosta et al (2003) citam: PLON – Teste de linguagem oral de Navarra de Aguinaga et al (1990) e o CRIL – Criterion Reference Inventory of Language de Wiig (1990).

• Observação comportamental: é a situação ideal, pois permite uma observação direta e sistemática em contextos naturais; pode-se observar a criança em vários contextos, na sala de aula, no intervalo, em situações comunicativas reais e espontâneas e também na clínica, numa situação de brincadeira com um adulto conhecido. Este material poderá ser gravado e posteriormente o examinador poderá analisar:

- Os atos comunicativos da criança;

- Meio comunicativo: verbal, vocais e gestuais;

- Funções comunicativas: pedido de objeto, pedido de ação, consentimento, informação, protesto, nomeação, narrativa, jogo, jogo compartilhado;

- Trocas de turno e funções comunicativas.

Fernandes (2000, p. 78) salienta que os dados que o examinador obtém na gravação permite “a análise do espaço comunicativo ocupado pela criança numa situação interacional e dos recursos comunicativos de que ela dispõe para tanto.” Após a análise do material e da transcrição, a autora propõe a utilização do Protocolo para transcrição de fita em que se registrará o número total de atos comunicativos expressos pela criança, número de atos comunicativos expressos por minuto pela criança, percentual do espaço comunicativo ocupado pela criança, número total de vezes em cada função comunicativa foi expressa por um determinado meio comunicativo.
Não podemos esquecer que além do código verbal, o sujeito traz consigo um conjunto de gestos simbólicos com valor comunicativo que também deverá ser analisado (BEFI-LOPES, 2004).

Desenvolvimento fonológico

Wertzner (2000, p. 5) salienta que o objetivo da avaliação do sistema fonológico da criança é verificar o inventário fonético da mesma, analisar as regras fonológicas que ela usa. As regras fonológicas abrangem “os fonemas usados contrastivamente, sua distribuição, e ainda o tipo de estrutura silábica observada.”

Acosta et al (2003, p. 67), seguindo Stoel-Gammon (1991), apresenta alguns traços que são frequentemente encontrados em crianças com alterações de linguagem:

1) série restrita de sons da fala;

2) palavra limitada e forma silábica;

3) persistência de padrões de erro;

4) desproporção cronológica;

5) tipos de erros incomuns; 6) variabilidade extensiva, mas ausência de progresso.
Na avaliação dos aspectos fonológicos da criança, devemos observar o domínio dos encontros consonantais, domínio dos fonemas e produtividade dos processos fonológicos.

Wertzner (2000) salienta que a fala espontânea é a melhor prova de análise fonológica, porém, nem sempre a fala do sujeito com distúrbio fonológico é compreensível, portanto, recomenda que sempre que possível realizar a análise de um trecho da fala espontânea, verificando-se os processos fonológicos apresentados e realizando um inventário fonético do sujeito. Propõe utilizar provas de imitação de vocábulos e nomeação de figuras.

Primeiro realiza-se a fala espontânea, posteriormente, a nomeação de figuras, em que o examinador deve solicitar à criança que nomeie a figura mostrada. Caso a criança não saiba o nome da figura, o examinador nomeia mostrando-lhe em seguida as cinco figuras próximas, então volta à figura não nomeada, solicitando à criança que a nomeie. Na prova de imitação o examinador solicita à criança que repita a palavra dita. As três provas deverão ser gravadas para posterior análise e transcrição fonética.

Acosta et al (2003, p. 68-69) sugerem que após verificar-se a existência de um transtorno fonológico, faz-se necessário a análise específica das características do sistema fonológico desajustado, distinguindo os processos de compreensão e produção.

Quanto ao processo de compreensão avalia-se a discriminação de sons por meio de:

• Diferenciação de sons e ruídos ambientais em função da fonte sonora, em que a criança deve identificar a procedência do som ou ruído, de onde ele vem;

• Diferenciação de duas palavras ou logotomas (palavra sem significado) produzidas pelo examinador – lista de palavras com um som diferente (bala/pala; fala/vala; pente/dente). É esperado que com quatro anos as crianças dominem a prova com palavras, já com os logotomas, que é uma tarefa mais complexa; é difícil para a maioria das crianças com cinco anos de desenvolvimento normal;

• Diferenciação entre a pronúncia correta e incorreta de uma palavra. Nesta prova o examinador deverá falar uma lista de palavras, algumas com a pronúncia correta outras incorretas, a criança deverá apontar quando estiver incorreta;

• Diferenciação entre o som emitido pelo examinador e o produzido pela criança. O examinador solicita que a criança repita o som que ele produziu, e deve identificar se produziu igual ou não ao modelo.

Quanto à produção deve-se avaliar:
• Os fonemas que apresentem alterações fonológicas e que já deveriam fazer parte do repertório fonético da criança;

• Causas desses erros – modelo linguístico inapropriado, características dialetais, dificuldades de discriminação de sons, anomalias estruturais ou funcionais nos órgãos ou aspectos, etc.

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