Manipulação de fórmulas

Manipulação de fórmulas
FARMACIA
A manipulação de fórmulas farmacêuticas é uma atividade antiga e que permite ao farmacêutico desempenhar seu papel diante da sociedade, assistindo ao paciente de forma  individualizada e não coletiva, uma vez que as fórmulas manipuladas são prescritas conforme a individualidade do paciente, de acordo com suas necessidades terapêuticas particulares.

Abaixo selecionamos um excelente texto que relata a atividade de manipulação de fórmulas, a equipe de tutores do Portal Educação selecionou como leitura complementar para aquisição de novos conhecimentos sobre esta histórica profissão, cuja atividade de manipulação de fórmulas sempre esteve intimamente relacionada.


Odontofármacos: Fórmulas farmacêuticas manipuladas à disposição dos pacientes e Odontólogos

"Pode-se dizer com segurança que o Brasil desenvolveu um modelo de farmácia magistral sem paralelo em todo o mundo."

A história mostra que, desde o inicio dos tempos, as profissões do médico, odontólogo e farmacêutico estão intimamente relacionadas. A medicina começou a ser praticada no Egito, por volta de 4600 A.C. Relatos de alguns problemas dentais tais como dor de dente e feridas gengivais, datam de 3600 A.C. Hipocrates (460-377 A.C.), ao estruturar as bases da medicina, já referia-se a moléstias da boca e dos dentes. No Brasil, com a chegada da Família Real e a Corte Portuguesa, foi fundada a primeira escola de medicina e farmácia, onde médicos e farmacêuticos tinham a mesma formação, como a manipulação e a terapêutica médica. Em 1898 houve a criação de mais duas escolas de Odontologia: uma em Porto Alegre e outra em São Paulo, a Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia. Em 1904, foi fundada a Escola de Farmácia e Odontologia de Juiz de Fora. Em 1912, o curso da Faculdade de Farmácia e Odontologia do Rio de Janeiro e em março de 1916, a  do Ceará. Somente em 1925, no Rio de Janeiro, o curso de Odontologia passa a ter uma Faculdade de Odontologia, , vindo a separar-se da faculdade de Medicina em 1933.

A manipulação de medicamentos no Brasil confunde-se com a história da farmácia neste país, uma vez que foram os jesuítas que trataram de instituir as primeiras enfermarias e boticas em seus colégios. Nestas boticas, os jesuítas dispensavam drogas e medicamentos vindos do velho continente, bem como preparavam remédios com plantas medicinais nativas baseados nos conhecimentos dos velhos pajés. A transformação das boticas em farmácias não foi nada fácil. Até meados de 1886, os farmacêuticos e boticários, habilitados ou não, tinham pouca diferença no conceito da média da população e pelos legisladores da época, com poucos conhecimentos sobre a profissão farmacêutica.

Após a segunda guerra mundial, com o estabelecimento das primeiras indústrias farmacêuticas no Brasil, a manipulação de medicamentos foi perdendo terreno, restringindo-se aos ambientes hospitalares e a algumas poucas farmácias. A partir da década de 70, principalmente no Rio Grande do Sul, houve o ressurgimento das farmácias de manipulação como atividade restrita do profissional farmacêutico e, no limiar da passagem do século, aconteceu um crescimento vertiginoso desta atividade, com significativo aumento em todo o país do número de farmácias de manipulação, felizmente também acompanhado de crescimento técnico-científico dos farmacêuticos e a incorporação de modernas farmacotécnicas aplicadas arte e ofício de criar medicamentos individualizados, na dose certa, na forma farmacêutica mais apropriada.

Pode-se dizer com segurança que o Brasil desenvolveu um modelo de farmácia magistral sem paralelo em todo o mundo, com  muitas farmácias de manipulação com mais de 20 anos de experiência e com um grau de qualidade e segurança próprios ao segmento, utilizando-se de técnicas e equipamentos modernos, desenvolvidos especialmente para a manipulação em pequena escala. Programas de computador especializados para a atividade proporcionam rapidez e segurança, uma vez que podem disponibilizar informações aos farmacêuticos sobre dosagens, incompatibilidades, interações medicamentosas, efeitos adversos, farmacodinâmica, além de manter um histórico de todo o tratamento dos pacientes. Para atestar esta qualidade e o amadurecimento do setor, basta constatar que o número de farmácias de manipulação já certificadas pelo sistema de gestão da qualidade ISO 9001 já supera os números obtidos pela indústria farmacêutica no Brasil.

Entre as vantagens que podem oferecer os medicamentos manipulados pode-se destacar:
- Maior adesão ao tratamento farmacológico, com a possibilidade da associação entre vários fármacos, diminuído o número de cápsulas que tem que ser ingeridas.

- Doses adequadas ao peso/idade dos pacientes, diferentes das colocadas a disposição pela indústria de medicamentos.

- Possibilidade de ajuste de doses/concentrações ou mudança de apresentação de medicamentos industrializados, de modo a melhorar a adesão e a efetividade do tratamento.
- Manipulação de medicamentos descontinuados pela indústria por falta de interesse econômico – a pesquisa, desenvolvimento, fabricação e registro de medicamentos de uso especializado geralmente não se mostram atrativos financeiramente para a industrialização.

- Adequação de formas farmacêuticas mais palatáveis, conforme o gosto do paciente, permitindo a opção pelo prescritor da forma farmacêutica mais adequada à via de administração escolhida.

- Possibilidade de desenvolvimento de apresentações pouco usuais, adequada ao gosto das crianças como: pirulitos, balas, pastilhas, gomas, xaropes, etc.

- De modo geral, o medicamento manipulado pode apresentar um custo menor que o industrializado, por eliminação das etapas de pesquisa, desenvolvimento e distribuição.

A manipulação de fórmulas aplicadas à Odontologia segue os mesmos princípios e exigências mínimas para a manipulação de produtos líquidos e semi-solidos, regulamentados através da resolução RDC 33/2000, do Ministério da Saúde, que estabelece os requisitos e regras de Boas Práticas de Manipulação para o segmento magistral.

Na área da Odontologia, a farmácia magistral pode oferecer fórmulas personalizadas que podem ser utilizadas diretamente pelos pacientes, para complementar o tratamento profissional em ações que visam a higienização, assepsia oral, controle químico da placa bacteriana,  tratamento da halitose, formulações para o controle e prevenção da cárie e para clareamento dos dentes, entre outras.

Na higienização, assepsia e controle da placa bacteriana, o agente profilático mais utilizado atualmente é o Digluconato de clorexedina, um agente antimicrobiano com amplo espectro de ação. A clorexedina produz uma reação na formação da película adquirida, alteração na retenção e nos mecanismos de crescimento bacteriano, resultando na redução da colonização bacteriana sobre o dente. A característica fundamental da eficácia da clorexedina é a sua substantividade, podendo ficar retida na cavidade bucal por aproximadamente 12 horas. Esta substância é efetiva no controle da placa supragengival e na redução da inflamação da gengiva quando usada em enxaguatórios bucais, como géis ou dispositivos de irrigação. As soluções de clorexedina para bochechos mais efetivas variam de 0,12% a 0,2%. Quando está a 0,2%, deve-se utilizar 10 ml da solução por bochecho. Quando está a 0,12%, pode-se utilizar 15 ml. Também podem ser manipulados dentifrícios na forma de gel com clorexedina  de 0,6 a 1,0%, com a mesma eficácia.

Dentre os agentes químicos utilizados nos programas de prevenção à cárie, o mais conhecido é o fluoreto de sódio, devido a seu baixo custo e aos resultados plenamente satisfatórios obtidos no controle desta doença. Os compostos fluoretados tem importância como agentes preventivos e terapêuticos, sendo altamente reativos devido a sua eletronegatividade, ativam a remineralização do esmalte dental induzidos pelo cálcio e pelo fosfato, ao mesmo tempo inibindo a desmineralização e reduzindo a solubilidade do esmalte por sua simples ação dinâmica no meio líquido. A aplicação tópica de flúor tem a finalidade de converter a hidroxiapatita em fluorapatita, formando, desta forma, uma camada insolúvel  de fluoreto de cálcio na superfície do esmalte.

Por sua vez, o fluoreto de cálcio age como um reservatório que libera o fluoreto para o ambiente líquido que envolve os dentes. A aplicação tópica de fluoreto reduz, em média, cerca de 40% o índice de cárie. A forma mais comum de fluoreto encontrada no mercado farmacêutico são as soluções de fluoreto de sódio com concentração de 0,02%,  0,05% ou 0,2%, com sabor ao gosto do paciente. Também podem ser manipulados na forma de géis dentais  nas concentrações nas mesmas concentrações.

Atualmente, a técnica para clareamento dental mais utilizada envolve produtos oxidantes através da liberação de radicais livres, que neste caso mostra ação benéfica, tendo a capacidade de se difundir livremente pelo esmalte e dentina graças à permeabilidade da estrutura dental.  Entre os agentes oxidantes, o mais usado é o Peróxido de carbamida, geralmente obtido na farmácia com a  reação entre o Peróxido de hidrogênio e a Uréia. Para a aplicação caseira, sob prescrição e orientação do odontólogo, é usado na forma de gel, em concentrações de 10 a 15%.

1. Solução de Fluoreto de Sódio    2. Solução de Clorhexedine    3. Gel de Peróxido de Carbamida    4. Gel com Fluoreto de Sódio

A manipulação de fórmulas magistrais aplicadas à odontologia oferece aos pacientes a possibilidade de contar com produtos com adequação específica ao seu caso clínico obtendo desta forma uma melhor resposta terapêutica.  O farmacêutico magistral atua como um solucionador de problemas ou dificuldades terapêuticas a serviço do odontólogo, apto a preparar medicamentos específicos e diferenciados para cada paciente. Este profissional faz o elo entre o prescritor (médico ou dentista) e o paciente, estabelecendo um relacionamento multi-profissional em prol da melhoria da saúde do paciente.

 Cézar Moura Pires - Graduado em Farmácia e Bioquímica pela UFRGS – 1977.
Responsável Técnico da Farmácia Natufarma, de Caxias do Sul, desde 1982.


Obras consultadas:
Anderson de Oliveira Ferreira, Gilberto Fernandes de Souza. Preparações Orais Liquidas – Formulário, procedimento de preparo, flavorização, estabilidade e conservação. Pharmabooks, 2005.

Gerson Appel e Márcia Réus. Formulações Aplicadas à Odontologia. 1. ed., RCN Editora, São Paulo,2003.

Daniel Antunes Junior. Farmácia de Manipulação – Noções Básicas. 1. Ed., Tecnopress Editora e Publicidade Ltda., São Paulo, 2002.

Anderson de Oliveira Ferreira. Guia Prático da Farmácia Magistral. 2.Ed., Juiz de Fora, 2002.

Disponível em http://www.conceitosaudebucal.com.br/saudebucal/47.html

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