Teoria Cognitivista de Jean Piaget

Teoria Cognitivista de Jean Piaget
PEDAGOGIA
A Teoria Piagetiana é universalmente conhecida como a teoria da Epistemologia Genética ou Teoria Psicogenética. Na verdade sua teoria é a mais conhecida e completa concepção construtivista da formação da inteligência visto que nela, Piaget explica como o indivíduo, desde o seu nascimento, ou seja, ao longo de seu desenvolvimento, constrói o conhecimento.

Como pesquisador, educador e psicólogo influenciou grandemente a propostas educacionais de diversos países do mundo, dentre eles, o Brasil. Assim, destacam-se alguns dados biográficos deste pensador suíço, um dos grandes pesquisadores da Ciência Moderna sobre o desenvolvimento humano, especificamente sobre os processos envolvidos na construção do conhecimento.

Um pouco de sua Biografia
De acordo com Cunha (2002), Piaget nasceu em nove de Agosto de 1896 na cidade de Neuchâtel, na Suíça e morreu em 1980. Piaget era Biólogo e em função de sua formação, interessou-se por Filosofia, em especial pelo campo da epistemologia, a partir do qual são elaboradas e discutidas as teorias do conhecimento.

Sua produção teórica o notabilizou como Psicólogo e como Educador, contudo, o escopo de sua produção do conhecimento esteve prioritariamente voltado para a compreensão do sujeito epistêmico e não do sujeito psicológico. Relevante destacar que, embora Piaget tenha demonstrado preocupações com temáticas e problemas de seu tempo, como a Educação, por exemplo, o pesquisador genebriano não elaborou um método pedagógico, como muitos pensam equivocadamente.

A teoria epistemológica de Jean Piaget
Conforme Rappaport (1981), a obra de Piaget explica o processo de desenvolvimento e os mecanismos mentais que o sujeito utiliza nas diferentes fases da vida para poder entender o mundo. Para ela, Piaget dedicou-se ao estudo do “desenvolvimento do conhecimento da lógica, espaço, tempo, causalidade, moralidade, brinquedo, Iinguagem e matemática” (p. 51). Em Ries (2007), Piaget postulava que uma pessoa não resolve determinados problemas porque não apresenta condições estruturais de ordem cognitiva, que lhe permita compreender problemas dessa ordem. Para Ries, Piaget:

[...] entendia que as diferenças entre as crianças e adultos eram de natureza qualitativa; à medida que a criança desenvolve a sua inteligência irá construir estruturas cognitivas progressivamente mais complexas e mais abrangentes, isto é, ela não se torna mais inteligente enquanto desenvolve , mas passa a apresentar um tipo diferente de inteligência diferente do estágio anterior.(RIES, 2007, p. 103 -104).

Para Rappaport (1981), a função do desenvolvimento em Piaget não se acha em produzir cópias internalizadas da realidade externa, mas na construção de estruturas lógicas que permitam ao indivíduo agir no e sobre o mundo de formas cada vez mais complexas.

Na verdade, Piaget privilegiou em seus estudos, o conhecimento acerca do desenvolvimento cognitivo dos humanos dando a essa dimensão da vida mental o necessário aprofundamento e não no processo da aprendizagem, como pode pensar alguns iniciadores no estudo da aprendizagem.

Visão de homem e de mundo
Conforme Ries (2007), em virtude de a teoria de Jean Piaget ser identificada por seu próprio idealizador como matriz interacionista, não é possível imaginar sua compreensão de modo a descolar o homem do mundo. Nessa direção, Ries (2007, p. 107), destaca o pensamento do próprio Piaget, quando evidencia que “[...] conhecer não consiste em copiar o real, mas em agir sobre ele e em transformá-lo, de modo a compreendê-lo em função de sistemas de transformação a que estão ligadas essas ações”. (PIAGET, 1978, p.19).
A partir do pensamento de Piaget, parece evidente que para ele o desenvolvimento cognitivo dos seres humanos acha-se configurado em um processo sequencial, ou seja, ocorre a partir de fases do desenvolvimento, sendo, portanto cada uma das fases necessária para a organização da fase subsequente.

Piaget e os conceitos de assimilação, acomodação e equilibração
Conforme destacado em Cunha (2002), Piaget considera que o processo de construção do conhecimento inicia-se com o desequilíbrio entre o sujeito e o objeto. Para ele, a origem do conhecimento por parte do sujeito envolve dois processos complementares e, por vezes, simultâneos. O primeiro é chamado de Assimilação e o segundo a Acomodação.

Em Mussen (1977), a assimilação é tomada como a capacidade de o sujeito incorporar um novo objeto ou ideia a um esquema, ou seja, às estruturas já construídas ou já consolidadas pelo indivíduo; Já a acomodação seria a tendência do organismo de ajustar-se a um novo objeto e assim, alterar os esquemas de ação adquiridos, a fim de se adequar ao novo objeto recém-assimilado.

Para Cunha (2002), após algum tempo, o indivíduo passa a dominar o novo objeto assimilado e acomodado, chegando a um ponto de equilíbrio.

Fases do Desenvolvimento segundo Jean Piaget
O desenvolvimento intelectual, segundo Jean Piaget envolve quatro períodos de desenvolvimento experienciados necessariamente de forma sequencial, considerando os determinantes de natureza biológica (CUNHA, 2002). Cada fase do desenvolvimento alicerça a fase seguinte de maneira que as aquisições ocorridas em uma fase constituem pré-condição para a seguinte. Especificamente em relação às fases de desenvolvimento e nelas a expressão da capacidade de apreensão do conhecimento pelo sujeito epistêmico, Bock (1983), afirma:

Segundo Piaget, cada período é caracterizado por aquilo que, de melhor o indivíduo consegue fazer nessas faixas etárias. Todos os indivíduos passam por todas essas fases ou períodos, nessa sequência, porém o início e o término de cada uma delas dependem das características biológicas do indivíduo e de fatores educacionais, sociais. Portanto, a divisão nessas faixas etárias é uma referência, e não uma norma rígida. (BOCK, 1983, p. 84)

Abaixo estão relacionadas as fases de desenvolvimento da teoria piagetiana apontadas por Rappaport (1981) e Ries (2007):
• período Sensório-motor (0 a 2 anos);
• período Pré-operatório (2 a 7 anos);
• período das Operações concretas (7 a 11 ou 12 anos);
• período das Operações formais (11 ou 12 anos em diante).

A partir dessa afirmação e considerando as pesquisas de Piaget, passaremos então a discorrer sobre o que se acha reservado para cada fase do desenvolvimento humano, de acordo com Bock (1993, p. 84-90), a saber:

a) Período Sensório-Motor: (recém-nascido e o lactente - 0 a 2 anos)
Em Cunha (2002), a característica central do primeiro período é a inexistência de representações e ou imagens mentais dos objetos que entornam a criança. Nesse período o conhecimento se processa a partir de impressões que chegam ao organismo via órgãos dos sentidos (por isso a denominação de Sensório – da sensação e Motora – do movimento motor). Nesse período de desenvolvimento o processo predominante será o da assimilação, que começa com os reflexos, ou seja, com as estruturas inatas, os quais possibilitam, ao recém-nascido, o estabelecimento dos primeiros contatos com os objetos que o cerca favorecendo-o às construções dos primeiros referências cognitivos que para o autor, nesse período apresentam-se um tanto pouco desenvolvidos.
Como exemplo, Cunha destaca a passagem do reflexo de preensão para o de agarrar. Para ele, essa elaboração configura–se em alterações cognitivas produzidas pela experiência do bebê junto aos objetos, o que significa já estar ocorrendo o processo de acomodação além da assimilação. Em Rappaport (1981), essa fase do desenvolvimento representa a conquista visto o seu aprendizado do bebê, por meio da percepção e dos movimentos, considerando o universo da cotidianidade em que esteja inserido o bebê.

b) Período pré-operatório (ou a primeira infância - 2 a 7 anos)
Período da representação, da linguagem e da socialização, que de acordo com Cunha (2002), o aspecto mais destacado desta fase do desenvolvimento é a capacidade de representação – ou a transformação de esquemas de ações em esquemas representativos. É nesta fase que nota-se evidente progresso na função da linguagem. No decorrer deste período, a linguagem vai deixando de ser representativa para assumir configurações socialmente convencionais.

Em Bock et al (1993), em função do notável relevo da linguagem, o desenvolvimento do pensamento ganha celeridade sendo por isso que esta é a conhecida fase dos famosos "porquês".

Segundo Rappaport (1981), neste período do desenvolvimento, o egocentrismo se caracteriza por uma visão do real que tem por referência o próprio eu, ou seja, a criança nessa fase não concebe uma situação no mundo sem que não faça parte, desse modo, ela confunde-se com objetos e pessoas atribuindo-lhes seus próprios pensamentos. Assim, a criança pode dar explicações animistas, frente a acontecimentos por ela vividos, ou seja, a criança irá atribuir características humanas para animais, plantas e objetos, por exemplo: “dizer que a boneca vai dormir porque está com sono ou que a panela está sentada no fogão.” (RAPPAPORT, 1981, p. 69)

c) Período das operações concretas (7 a 11 ou 12 anos)
Para Cunha (2002), nessa fase do desenvolvimento, o processo de pensar da criança alcança a capacidade de operar mentalmente visto que não possuía em função de operar por representações. Conforme este autor, embora consiga operar mentalmente, essas operações possuem um caráter concreto, ou seja, precisam realizar parte da tarefa empiricamente, ou com a presença e apoio de suportes de objetos e materiais concretos.

Para Rappaport (1981), nessa fase do desenvolvimento identifica-se um significativo declínio do egocentrismo intelectual e certa ascensão do pensamento lógico. Para esta autora, o que marca esta fase do desenvolvimento, seria a organização de esquemas visando à aquisição dos elementos conceituais, sendo, portanto, sua relação com o mundo muito mais mediada pelos elementos racionais e muito menos pela assimilação egocêntrica.

No que se refere ao desenvolvimento da linguagem verifica-se um encolhimento da linguagem egocêntrica até o seu total desaparecimento. Já, quanto ao desenvolvimento social, este ocorre não só e ao mesmo tempo em que o desenvolvimento intelectual, mas acaba por configurar com um dos aspectos mais evidentes neste período. Nessa fase do desenvolvimento, se observa na criança uma interação mais genuína e mais efetiva, isso, tanto com relação aos outros colegas, como com referência aos adultos de sua convivência.

d) Período das operações formais (+ ou - 12 anos em diante)
Para Piaget, entre os 12 e 16 anos, o sujeito experiência a fase de desenvolvimento chamada de operações formais. A característica focal desta fase é a transformação dos esquemas cognitivos, operados concretamente em esquemas baseados na realidade imaginada.
Para Bock et AL (1993, p.89), neste período, o adolescente possui condições intelectuais para elaborar conceitos éticos como liberdade, justiça e outros. Conforme esta pesquisadora, neste período “o adolescente domina, progressivamente, a capacidade de abstrair e generalizar, cria teorias sobre o mundo, principalmente sobre aspectos que gostaria de reformular”.

Cunha (2002), afirma que nesta fase pode acontecer de o jovem imaginar sociedades alternativas, sistemas filosóficos perfeitos e busca por profissões inusitadas. Há acordo entre os pesquisadores do desenvolvimento de que esta fase abre-se para o indivíduo largos horizontes de possibilidades de transformações, tanto do próprio jovem como do mundo que o cerca em função de realidades que ele passa a dominar em virtude dos recursos intelectuais mais avançados e pertinentes ao seu desenvolvimento.

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