Aparelho auditivo: O processo de adaptaçâo e orientação

Aparelho auditivo: O processo de adaptaçâo e orientação
FONOAUDIOLOGIA

Uma parte importante do processo de seleção e adaptação de uma prótese auditiva é a escolha das características eletroacústicas que, teoricamente, devem fornecer a amplificação desejada para determinado indivíduo. Dentre essas, a seleção cuidadosa da saída máxima é crucial para o ajustamento e adaptação adequada do deficiente auditivo ao uso da amplificação.

A adaptação do Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI) é o processo que leva o indivíduo a incorporá-lo em seu cotidiano, na medida em que necessita da informação auditiva e aceita o seu uso. É importante lembrar que a aceitação para o AASI é um impacto emocional forte, pois é ele quem torna a surdez visível à sociedade. Cabe ao fonoaudiólogo o papel de explicar ao cliente e sua família a função do AASI, seu funcionamento e cuidados com o meio.

Moldes bem ajustados e aparelhos confortavelmente adaptados facilitam o processo de incorporação do aparelho pelo usuário em seu cotidiano. Entretanto, é muito difícil que um aparelho permita ao usuário obter ótimo aproveitamento em todas as situações e em todos os ambientes, por melhor que esteja adaptado. Um dos maiores objetivos é capacitar este indivíduo a ter melhor desempenho na comunicação.

Enfim, toda pessoa surda precisa de um trabalho de orientação. Este não inclui somente orientações quanto ao uso, manuseio e cuidados com o aparelho. Inclui principalmente orientações para que o mesmo se ajuste à nova situação, melhorando os aspectos comunicativos, psicológicos e outros oriundos das deficiências auditivas.

Alguns passos da seleção e adaptação de AASI devem ser considerados:

• Assessoramento: determinação da causa e extensão da perda auditiva, bem como a necessidade de uso da amplificação com base na história audiológica, podendo-se neste momento utilizar inventários de autoavaliação.
• Planejamento: análise dos resultados da avaliação audiológica e identificação das áreas de dificuldades auditivas e necessidades específicas.
• Seleção: decisão quanto ao tipo de adaptação (monoaural ou binaural), tipo de aparelho auditivo e suas características eletroacústicas.
• Verificação: constatação de que as características selecionadas são adequadas às necessidades do cliente, tais como: acústica, aspectos estéticos, conforto auditivo e desempenho do AASI nas diversas situações em que o indivíduo se encontra durante o uso do mesmo.
• Orientação: aconselhamento quanto ao uso e cuidados com o aparelho auditivo, de acordo com uma expectativa realista frente às dificuldades características quanto ao tipo e grau de perda auditiva, explorando, conforme a necessidade, o uso de acessórios e recursos auxiliares.
• Validação: uso de questionários de autoavaliação, escalas de benefícios durante o processo de adaptação objetivando a satisfação do cliente.

Quanto às dificuldades mais comuns relacionadas à amplificação, podemos citar:

• Desconforto auditivo para sons de intensidade forte.

O ouvido deficiente pode afetar negativamente a habilidade individual para tolerar sons fortes. Sons fracos tornam-se inaudíveis, enquanto que os sons fortes podem ser percebidos de forma desconfortável.

Se isto acontece, um dos meios de solucionar este problema é diminuir o volume do aparelho auditivo ou alterar os ajustes relacionados ao ganho do aparelho, de acordo com a necessidade do seu usuário.

Efeito de Oclusão

Esta sensação pode ser percebida quando se insere o dedo dentro do canal auditivo. Quando um molde ou cápsula é colocado no canal auditivo, pode-se notar que a própria voz parece provocar uma sensação de eco. Este problema pode ser minimizado das seguintes formas:

- Mantendo-se o conduto o mais aberto possível por meio de ventilações;

- Reduzindo-se o ganho em frequências baixas; e

- Adaptando o molde ou cápsula o mais profundo possível dentro do conduto auditivo, de forma a alcançar a sua porção óssea, desde que não cause desconforto físico ao cliente.

Feedback ou Retroalimentação

Há dois tipos de feedback acústico: o produzido pelo aparelho auditivo, indicando a necessidade de reparo e, o mais comum, o feedback externo produzido pelo escape de amplificação sonora pelo conduto auditivo externo, retornando ao microfone do aparelho.

Isto ocorre devido à falta de fixação ou inserção correta do molde ou cápsula, contato da mão com o microfone do aparelho e presença de cerume no canal auditivo, causando um bloqueio para a passagem de som.

Estes problemas podem ser solucionados por meio da colocação correta do molde ou cápsula ou substituição dos mesmos caso seja necessário, diminuição do tamanho da ventilação do molde ou cápsula, redução da amplificação para frequências altas ou alteração do pico de amplificação por meio de filtros ou ajustes eletrônicos.

Percepção de ruídos ambientais

Quando se perde a audição gradualmente, sons como, ruído de vento, tique-taque de relógio, passos, água corrente e barulhos de motores em geral fundem-se no ruído ambiental e deixam de ser notados pelo indivíduo, tornando-se completamente inaudíveis e, desta forma, podem-se facilmente ser esquecidos.

Outro aspecto importante é o de que a habilidade de se ouvir de forma seletiva sons importantes em meio ao ruído ambiental também diminui em indivíduos portadores de deficiência auditiva.

Entretanto, quando se coloca um aparelho auditivo estes ruídos são amplificados e reaparecem repentinamente, causando muitas vezes desconforto para quem os utiliza.

Um dos recursos utilizados para minimizar a captação destes ruídos é a ativação de supressores de ruídos, que atenuam a amplificação de sons onde há predominância de frequências onde estão os ruídos.

Todavia, como o ruído é constituído pelas mesmas frequências da fala, é obviamente impossível filtrar a amplificação do ruído sem afetar a qualidade do sinal de fala. Na realidade, se fosse possível tornar or ruídos totalmente imperceptíveis, o mundo perderia a sua cor e visualmente, suas cores seriam branco e preto.

Para finalizar, sugerimos que os profissionais envolvidos no processo de seleção e adaptação de próteses auditivas sigam as recomendações propostas no Eriksholm Workshop on Auditory Deprivation and Acclimatization, ocorrido na Dinamarca, em 1955:

• Os primeiros sinais de uma perda auditiva são críticos para a adaptação binaural da amplificação. Quanto maior o tempo de existência da perda auditiva, particularmente sem usar aparelhos, pior será o prognóstico de sucesso com o emprego da amplificação. Explique ao paciente a possibilidade de haver deterioração na habilidade de processar a fala na orelha que não receber amplificação;

• Recomende amplificação binaural para todos os novos usuários de próteses auditivas (a menos que haja alguma contraindicação médica ou audiológica). Lembre-se de que a localização sonora, a audibilidade do sinal e a audição na presença de ruído podem ser melhoradas com o uso de dois aparelhos;

• Documente sua recomendação de adaptação binaural para aqueles pacientes que se recusarem a fazer uso de duas próteses auditivas;

• Aos indivíduos que preferem adaptação monoaural, a orelha não protetizada deve ser monitorada anualmente por meio de audiometria de tons puros e logoaudiometria;

• Adaptação binaural deve ser considerada se ocorrerem sinais de privação auditiva na orelha não protetizada. Alguns casos parecem ser parcial ou completamente reversíveis após a amplificação restituir a simetria de limiar;

• Quando houver uma assimetria interaural significativa no reconhecimento da fala, é importante descartar a ocorrência do fenômeno da interferência binaural (no qual a resposta binaural é pior que a resposta monoaural da melhor orelha). Se houver interferência da pior orelha sobre o processamento da informação apresentada na melhor orelha, a adaptação binaural pode não ser mais possível;

• Usuários experientes de próteses auditivas unilaterais devem ser encorajados a tentar um período de experiência com um segundo aparelho. O paciente deve ser orientado sobre o tempo necessário para que a orelha recém-protetizada comece a “responder” à amplificação.

• Alguns usuários poderão nunca aceitar o uso binaural de próteses auditivas (especialmente aqueles indivíduos usuários de longo termo de amplificação monoaural), outros aceitarão e irão questionar porque isso não foi feito há mais tempo.

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