O Cuidado em Enfermagem - uma aproximação teórica

O Cuidado em Enfermagem - uma aproximação teórica
ENFERMAGEM

Autores:

Maria de Lourdes de Souza; Vicente Volnei de Bona Sartor; Maria Itayra Coelho de Souza Padilha; Marta Lenise do Prado

RESUMO

Trata o presente trabalho de uma reflexão sobre o cuidado de enfermagem elegendo a dimensão ético-política e alguns aspectos histórico-filosóficos que o caracterizam. O ato de cuidar desvela o existencial, de onde derivam sentimentos, atitudes e ações, como vontades, desejos, inclinações e impulsos, ou seja, o homem perante o mundo, os outros, e a si mesmo. Compreender o valor do cuidado de enfermagem requer uma concepção ética que contemple a vida como um bem valioso em si, começando pela valorização da própria vida para respeitar a do outro, em sua complexidade, suas escolhas, inclusive a escolha da enfermagem como uma profissão.

Palavras-chave: Cuidados de enfermagem. Enfermagem. Ética de enfermagem.



CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O cuidado manifesta-se na preservação do potencial saudável dos cidadãos e depende de uma concepção ética que contemple a vida como um bem valioso em si. Por ser um conceito de amplo espectro, pode incorporar diversos significados. Ora quer dizer solidarizar-se, evocando relacionamentos compartilhados entre cidadãos em comunidades, ora, dependendo das circunstâncias e da doutrina adotada, transmite uma noção de obrigação, dever e compromisso social.

O cuidado significa desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção e se concretiza no contexto da vida em sociedade. Cuidar implica colocar-se no lugar do outro, geralmente em situações diversas, quer na dimensão pessoal, quer na social. É um modo de estar com o outro, no que se refere a questões especiais da vida dos cidadãos e de suas relações sociais, dentre estas o nascimento, a promoção e a recuperação da saúde e a própria morte. Compreender o valor do cuidado de enfermagem requer uma concepção ética que contemple a vida como um bem valioso em si, começando pela valorização da própria vida para respeitar a do outro em sua complexidade, suas escolhas, inclusive a escolha da enfermagem como uma profissão.1

Cuidar em enfermagem consiste em envidar esforços transpessoais de um ser humano para outro, visando proteger, promover e preservar a humanidade, ajudando pessoas a encontrar significados na doença, sofrimento e dor, bem como, na existência. É ainda, ajudar outra pessoa a obter auto conhecimento, controle e auto cura, quando então, um sentido de harmonia interna é restaurada, independentemente de circunstâncias externas.2

O cuidado em enfermagem, nesta concepção de colocar-se no lugar do outro, aproxima-se das idéias do humanismo latino ao identificar os seres humanos pela sua capacidade de colaboração e de solidariedade para com o próximo. Deste modo, prestar cuidado quer na dimensão pessoal quer na social é uma virtude que integra os valores identificadores da profissão da enfermagem. Assim, compartilhar com as demais pessoas experiências e oportunidades, particularmente as que configuram o bem maior, a vida, constitui um dos fundamentos dos humanistas, que se apresenta na essência do cuidado de enfermagem.

Nesta relação de respeito ao outro, é preciso considerar o conceito de mutualidade como meio-termo ou equilíbrio entre duas posições extremas: o paternalismo e a autonomia. O primeiro centralizado na provedoria, e o segundo, assentado extremamente no cliente. Os atributos da mutualidade caracterizam-se por sentimento de intimidade, conexão e compreensão, com objetivo de satisfação de ambos intervenientes.3

Ao posicionar o cuidado de enfermagem no contexto de um agir solidário na vida e na morte, a Enfermagem respeita as razões morais de cada cidadão ao mesmo tempo em que convive com dores e alegrias advindas da relação interpessoal. Ao operar nesta dimensão, às vezes extremas, o cuidado orientado pela solidariedade busca a simetria e o equilíbrio nas suas múltiplas atividades enquanto função cuidadora.

O CUIDADO DE ENFERMAGEM E O VALOR DA VIDA HUMANA

A idéia de ajudar os outros na solução de problemas ou de um indivíduo colocar-se no lugar do outro, na maioria das sociedades, ainda permanece válida como referência e conteúdo básico da noção de cuidado em Enfermagem no século XXI. Seu fundamento é o de integrar as pessoas em torno do bem comum e manter o elo social. Assim, cuidar e solidarizar-se significam comprometimento e engajamento político-cultural, prevenindo rupturas da e na sociedade.

Nesta linha de raciocínio, os temas que traduzem o comprometimento e o engajamento social se referem, basicamente, à preservação, conforme indicamos abaixo:46

a) da espécie humana, envolvendo a compaixão e a ternura;

b) do social e da política, entendendo a diversidade de convívio democrático em ambientes político-culturais diferentes;

c) da cultura global, compreendendo a plurali-dade cultural e interétnica e,

d) da vida ecológica e cosmológica, participando da sustentabilidade e do cuidado para com as futuras gerações.

A noção subjacente do engajamento e do comprometimento considera a atividade do cuidado de enfermagem valiosa por si mesma. O cuidado é parte integrante do processo de sobrevivência da vida humana associada. Dessa noção advém o entendimento do valor intrínseco da vida, que ocupa um lugar central no conjunto dos valores da humanidade.

O valor intrínseco da vida, bem como sua centralidade no conjunto de valores da humanidade, em termos de vida humana, animal e vegetal, pois quaisquer formas e/ou estados da vida transmitem a idéia de algo valioso. O sentido do que seja valioso, em geral, encontra múltiplas interpretações éticas. Uma das formas de interpretar o sentido valioso da vida consiste categorizá-lo em instrumental, subjetivo e intrínseco.7

Vida humana como valor instrumental diz respeito ao quanto a vida de cada um serve aos interesses das demais pessoas. Algo é instrumentalmente importante se seu valor depender de sua utilidade e de sua capacidade para ajudar as pessoas a obter o que desejam, tal qual o dinheiro, os medicamentos, entre outros. Caso contrário, são simplesmente bens disponíveis, instrumentais valiosos para a pessoa em particular. Cabe refletir sobre o quanto a qualidade e a riqueza de uma vida saudável e empreendedora sugere o bem-estar de outras, assim como o que representa o cuidado de enfermagem nesta perspectiva. O aspecto da instrumentalidade sugere adquirir bens para si por meio de um esforço baseado em seu próprio mérito numa situação de livre união social com outros indivíduos.

Vida humana como valor subjetivo refere-se a quanto a pessoa mede seu valor para ela mesma, ou seja, em termos de até que ponto ela quer esta vida e até que ponto estar vivo é bom para cada pessoa. Nesse caso, necessita de autodeterminação e de um plano racional de vida, o que provavelmente, em termos genéricos, os animais, as plantas ou as futuras gerações não dispõem das faculdades físicas, morais e intelectuais para fazê-lo.

Vida humana como valor intrínseco refere-se ao valor subjetivo que uma vida tem para a pessoa de cuja vida se trata. Parte-se do pressuposto de que há um desejo dos homens em tratar uns aos outros não apenas como meios, mas como finalidades em si mesmos. Isto porque o instrumental geralmente se associa à subjetividade da pessoa, uma vez que só vale para aquela pessoa que deseja esse bem. Assim também para a vida humana. Ela pode ter um valor subjetivo na medida em que a pessoa estabelece seu valor para ela mesma, ou seja, em termos de até que ponto ela quer esta vida e o quanto estar vivo e saudável é bom.

A partir dessa compreensão, o que representa o cuidado de enfermagem em termos da vida humana como valor?

Essas três categorias estão presentes na arte e nos fundamentos do cuidado em Enfermagem, articulando-as e valorizando-as, pois uma das premissas da vida humana associada, jamais posta em dúvida nas atitudes e nas ações humanas, consiste em viver e prosperar. "Pessoa" se identifica, no contexto deste trabalho, pela sua atividade e criatividade.

O cuidar em enfermagem, a partir dessas premissas, se identifica por ser uma atividade universal e intrinsecamente valiosa, mesmo que compreendido somente no contexto da saúde, esta entendida como uma maneira de abordar a existência com uma sensação não apenas de possuidor ou portador, mas também, se necessário, de criador de valores e de instaurador de normas vitais.8 Além desta concepção, se pensarmos a saúde como sentimento de segurança na vida, que por si só não impõe nenhum limite, este sentimento viabiliza viver e prosperar. Observe-se que uma vida não-saudável (sofrimento, dor e mal-estar) torna-se indefinida e sem atributos.910 Se o ser humano revela um valor em si e a vida em sociedade requer a promoção da saúde para o desempenho de suas atividades na polis, o cuidado em enfermagem potencializa as possibilidades do viver e as construções sociais da vida humana associada.

O cuidado de enfermagem promove e restaura o bem-estar físico, o psíquico e o social e amplia as possibilidades de viver e prosperar, bem como as capacidades para associar diferentes possibilidades de funcionamento factíveis para a pessoa. Nessa perspectiva, o cuidar em enfermagem insere-se no âmbito da intergeracionalidade, pois se revela na prática com um conjunto de ações, procedimentos, propósitos, eventos e valores que transcendem ao tempo da ação. Abraça, pois, diferentes gerações, imprimindo-lhes realização e bem-estar.

O postulado do longo tempo reflete, por si só, uma releitura da justiça tipicamente temporal em duas direções:

a) a continuidade da vida humana associada ao longo do tempo e;

b) sentimento intuitivo de que os seres sob os cuidados da Enfermagem são cidadãos, sujeitos de direitos e deveres de uns para com os outros.

O cuidado em enfermagem, portanto, possui na sua amplitude o componente humanístico ao promover a continuidade da espécie humana saudavelmente humanizada desta geração e das seguintes. Além deste aspecto humanístico, insere-se no contexto da liberdade e da autonomia, tanto no âmbito individual quanto no âmbito universal, pois o cuidado de enfermagem deve ser um suporte para viver bem, promovendo condições para uma vida saudável e em benefício do bem comum.

O benefício político dos cuidados de enfermagem estende a noção de excelência moral de cidadãos livres e iguais, que cooperam com as gerações por vir, sendo transformado em função para "assistir o indivíduo, saudável ou doente, no desempenho das atividades que contribuem para a saúde ou para a sua recuperação",11: 25 bem como em atividades funcionais na manutenção, promoção, restauração da saúde e assistência ao moribundo.

Nesta linha de raciocínio, o cuidado de enfermagem baseia-se em ações que se estendem ao longo da construção da cidadania, porque potencializa a expressão do cidadão em sua existência social. O cuidado ao longo da vida social fomenta a autonomia e dignifica o ser, e ao readquirir a autonomia do ponto de vista do estar saudável, a enfermagem promove e se insere na humanização da vida. Assim, o cuidado agrega uma série de ações profissionais de natureza própria da enfermagem, que se concretiza em prática multidisciplinar e com sustentação teórica apoiada, inclusive, em outras ciências. Isto se dá no processo de interação terapêutica entre seres humanos, fundamentadas em conhecimento empírico, pessoal, ético, estético e político com a intenção de promover a saúde e a dignidade no processo de vida humana.12

O cuidado de enfermagem consiste na essência da profissão e pertence a duas esferas distintas: uma objetiva, que se refere ao desenvolvimento de técnicas e procedimentos, e uma subjetiva, que se baseia em sensibilidade, criatividade e intuição para cuidar de outro ser. A forma, o jeito de cuidar, a sensibilidade, a intuição, o 'fazer com', a cooperação, a disponibilidade, a participação, o amor, a interação, a cientificidade, a autenticidade, o envolvimento, o vínculo compartilhado, a espontaneidade, o respeito, a presença, a empatia, o comprometimento, a compreensão, a confiança mútua, o estabelecimento de limites, a valorização das potencialidades, a visão do outro como único, a percepção da existência do outro, o toque delicado, o respeito ao silêncio, a receptividade, a observação, a comunicação, o calor humano e o sorriso, são os elementos essenciais que fazem a diferença no cuidado.13

Essa perspectiva implica reconhecer uma necessária formação profissional que considere e destaque essa compreensão, o que pode ser alcançado pela reflexão a partir das Humanidades e da Filosofia Política, embora reconhecemos que isso não transmite, necessariamente, um saber científico e/ou uma competência política em Enfermagem, mas estrutura uma personalidade segundo uma certa paidéia, ou um ideal civilizatório. Isso reconhece a importância de inserir nos programas de ensino de Enfermagem, a História, a Filosofia e as Artes, para que o cuidado em enfermagem não seja transformado em esquemas e simplificações funcionais, e de subordinações.

COMENTÁRIOS FINAIS

Ao inserir o cuidado de enfermagem no âmbito político e ético, entendemos parte significativa na formação do enfermeiro o estudo das humanidades, em geral. Entendemos que uma formação humanística contrapõe-se à mera operacionalidade e dá sentido existencial ao cuidar. O cultivo das humanidades contribui para o hábito do pensamento crítico, sem o qual o cuidado em enfermagem não pode sustentar-se como premissa de apoio a vida humana associada.14: 28 Por isso, pensar em modos ou modelos de cuidar em enfermagem requer a compreensão do sentido e do significado desse cuidado, sua dimensão político-social e sua implicação sobre a vida dos cidadãos. Não é, portanto, uma questão unicamente instrumental e operacional para o trabalho, mas, antes, o reconhecimento de sua finalidade para a vida humana. Também, em reconhecer que esse ou aquele modo de cuidar não são neutros, mas apoiados no conjunto das idéias teórico-filosóficas que orientam as escolhas feitas por quem o executa.

Neste sentido, não podemos pensar em modelos de cuidado em enfermagem sem ter um referencial teórico-filosófico explicitado e fruto de reflexões pessoais e coletivas, que passam pela compreensão do valor desse cuidado no contexto sócio-político em que se insere. Isto porque a enfermagem caracteriza-se como uma profissão histórica e culturalmente filosófico-humanista, que potencializa a saúde do cidadão e a própria construção da cidadania. Por isto mesmo não pode focalizar-se somente no biológico, em patologias e, menos ainda, submeter-se ao poder de outras áreas, práticas sociais e de organizações que controlam e manipulam a saúde, política, econômica e ideologicamente.

A valorização do cuidado, inscrita na valorização da vida em todas as suas formas, pode ainda dar maior visibilidade às injustiças sociais, assim como permitir mais facilmente compreender as experiências dos limites humanos do sofrimento e da morte e da própria sociabilidade humana. A valorização do cuidado em enfermagem pode levar à necessidade moral de convivermos em nossa corporeidade com o outro, respeitando precisamente a dignidade do corpo do outro, ou seja, o outro em sua totalidade. Nesse sentido, a política e o humanismo oferecem suportes para que a enfermagem reafirme os valores, sentido e existência do cuidado que se preconiza como próprio desta prática profissional e que se convalida na convivência cidadã.

REFERÊNCIAS

1 Souza ML, Sartor VVB, Prado ML. Subsídios para uma ética da responsabilidade em enfermagem. Texto Contexto Enferm. 2005 Jan - Mar; 14(1): 75-81. [ Links ]

2 Waldow VR, Lopes MJM, Meyer DE. Maneiras de cuidar, maneiras de ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas; 1998. [ Links ]

3 Henson RH. Analysis of the concept of mutuality. Image: Nurs Scolarship. 1997: 29(1): 77-81. [ Links ]

4 Bilgrien MV. Solidarity. A principle, an attitude, a duty? New York: Peter Lang; 1999. [ Links ]

5 Lepak KJ. Prelude to solidarity. New York: Columbia Unviersity Press; 1988. [ Links ]

6 Meulen RT, Arts W, Muffels R. Solidarity in health and social care in Europe. London: Philosophy Med; 2001. [ Links ]

7 Dworkin R. El dominio de la vida. Una discusión acerca del aborto, la eutanasia y la liberdad individual. Barcelona: Ariel; 1998. [ Links ]

8 Canguilhem G. Etudes d'histoire et de philosophie des sciences. 5eme ed. augm. Paris: J.Varin; 1983. [ Links ]

9 Aristóteles. Ética a Nicômacos. Tradução de Mário da Gama Kury. 3a ed. Brasília: Ed. UnB; 1985. [ Links ]

10 Aristóteles. Política. Tradução Mario de Gama Kury. 3a. ed. Brasília: UnB; 1997. [ Links ]

11 Atkinson LD, Murray ME. Fundamentos de enfermagem. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1989. [ Links ]

12 Padilha MICS, Cartana MH, Maia AR, Jatobá AI. Programa de pesquisas colaborativas de avaliação das práticas de cuidado de profissionais de saúde em serviços hospitalares de Florianópolis/SC. Florianópolis: 2003. Relatório de Pesquisa vinculado ao Plano Sul de Pesquisa e Pós-Graduação em parceria do MCT/CNPq. [ Links ]

13 Figueiredo NMA de, Machado WCA, Porto IS. Dama de Negro X Dama de Branco: o cuidado na fronteira vida / morte. Rev Enferm UERJ. 1995 Out; 3(2): 139-49. [ Links ]

14 Walter N. Humanism: finding meaning in the Word. New York: Prometheus Books; 1998. [ Links ]

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