Psicologia Penitenciária: Ciclo de vida familiar

Psicologia Penitenciária: Ciclo de vida familiar
PSICOLOGIA
Uma forma de compreender a família é observá-la a partir de seu ciclo de vida familiar e de sua história transgeracional.

Vários modelos de ciclo de vida familiar foram propostos por diferentes autores (CERVENY; BERTHOUD, 2002). Contudo, é o modelo apresentado por Carter e McGoldrick (1995) que tem sido utilizado com mais frequência, já que é fácil reconhecer neste modelo as tarefas de cada etapa do ciclo de vida familiar cada processo emocional a ser resolvido nessas etapas.

Abaixo apresentamos as etapas do ciclo de vida familiar de Carter e McGoldrick (1995) e algumas considerações relevantes:

a) Saindo de casa: quando os jovens solteiros saem de casa é necessária a aceitação da responsabilidade emocional e financeira individual. Isso envolve tarefas de diferenciação do “eu” em relação à família de origem, o desenvolvimento de relacionamentos íntimos com adultos iguais e o estabelecimento do “eu” com relação ao trabalho e independência financeira.

b) União de famílias no casamento: com o surgimento de um novo casal é necessário o comprometimento com um novo sistema familiar. Algumas tarefas, diante disso, precisam ser cumpridas como a formação do sistema marital e o realinhamento dos relacionamentos com as famílias ampliadas e com os amigos para incluir o novo cônjuge.

c) Famílias com filhos pequenos: implica a aceitação de novos membros no sistema familiar, sendo necessária uma série de ajustes no sistema conjugal para disponibilizar espaço para o(s) filho(s), as tarefas de educação dos filhos, tarefas financeiras e domésticas e o realinhamento dos relacionamentos com a família ampliada para incluir os papéis de pais e avós.

d) Família com filhos adolescentes: o processo emocional envolve uma maior flexibilidade das fronteiras familiares para incluir a independência dos filhos e a fragilidade dos avós em virtude da idade. Para tanto, o sistema deve modificar os relacionamentos entre pais e filhos para permitir que o adolescente possa transitar dentro e fora do sistema familiar. Além disso, é necessária uma nova focalização nas questões conjugais e profissionais do meio da vida e mudança no sentido de cuidar da geração mais velha.

e) Lançando os filhos e seguindo em frente: o processo emocional se concentra na aceitação das várias saídas e entradas no sistema familiar que será possível apenas com uma renegociação do sistema conjugal como díade, o desenvolvimento de relacionamentos de adulto para adulto entre os filhos crescidos e seus pais, o realinhamento dos relacionamentos para incluir parentes por afinidades e netos e o desenvolvimento de formas de lidar com a incapacidade e morte dos pais (avós).

f) Famílias no estágio tardio de vida: abrange a aceitação da mudança dos papéis geracionais, sendo necessária a manutenção do funcionamento e os interesses pessoais e/ou do casal em fase de declínio fisiológico, o apoio ao papel mais central da geração do meio, a abertura de espaço no sistema para a sabedoria e experiência dos idosos, apoiando a geração mais velha sem super funcionar por ela, a capacidade de lidar com a perda do cônjuge, irmão e outros iguais e a preparação para a própria morte. Envolve também a revisão e a integração da vida.
O ciclo de vida familiar ocorre de forma diferentes quando consideramos famílias de baixa renda. Ao estudar as famílias negras pobres dos Estados Unidos, Fulmer (1995) afirma que as etapas do ciclo de vida familiar são prejudicadas por questões multiproblemáticas como, por exemplo:

• desemprego;
• desnutrição;
• gravidez precoce;
• instabilidade e violência familiar;
• delinquência;
• abuso de substâncias;
• altos índices de mortalidade infantil;
• morte precoce;
• estresses contínuos de habitações inadequadas e;
• constantes dívidas.

Fulmer (1995) acrescenta que esses problemas provocam uma série de crises, pois, em muitos casos, há uma sobreposição desses problemas, o que não ocorre com outras classes sociais.

Ao estudarem famílias brasileiras em contexto de pobreza Penso, Costa e Ribeiro (2008) ressaltam que:

(...) a compreensão da história transgeracional de famílias em situação de pobreza no Brasil tem suas peculiaridades, já que as famílias são expostas a cortes entre as gerações em razão de constantes migrações em busca de condições mais favoráveis de sobrevivência, dificultando, assim, a manutenção e a transmissão de uma memória familiar através das gerações, bem como da perpetuação de seus rituais (p. 17).

Compreender o indivíduo em seu contexto familiar é romper com uma visão linear de sujeito. É percebê-lo como um ser em relação.
A participação da família é fundamental para o trabalho do psicólogo no sistema penitenciário porque, além de ser uma fonte de informações, é ela quem o acolhe no momento de privação de liberdade e que está presente durante a execução penal.

É um erro grotesco pensarmos que a família serve apenas como visitante em dias pré definidos pela unidade prisional. Nesse sentido vale registrar as palavras de Gueiros (2002):

Conhecer a família da qual se fala e para a qual muitas vezes dirigimos nossa prática profissional é muito importante; também é imprescindível compreender sua inserção social e o papel que a ela está sendo atualmente destinado; e, da mesma forma, é necessária a mobilização de recursos da esfera pública, visando implementação de políticas públicas de caráter universalista que assegurem proteção social; entretanto, o mais fundamental é que o indivíduo e sua família tenham efetivas condições para prover sua autonomia, sejam respeitados em seus direitos civis e sociais (acesso à educação, à saúde, à justiça e ao trabalho) e contem com a possibilidade de elevação do nível de qualidade de vida, aspectos estes inerentes à construção da cidadania. (p. 119-120).

Mas isso com a consciência de que a família é apenas uma das redes para nossa intervenção como cita Vasconcelos (1999):

A família é apenas uma das instâncias de resolução dos problemas individuais e sociais. Os serviços públicos devem ser flexíveis para responder de forma diferenciada às diversas formas de apresentação dos problemas locais.

Apenas aqueles a quem interessa esconder os conflitos de classe social, de raça e sexo, negar a relação fundamental dos problemas pessoais com a forma de organização do Estado e da economia, bem como diminuir a importância das lutas dos movimentos sociais e dos partidos políticos, é que busca colocar a família como centro absoluto da abordagem dos problemas sociais (p. 13).

Talvez nós encontremos famílias com um baixo reconhecimento de suas qualidades, mas temos que buscar trabalhar suas competências para que ela possa identificar, também, no membro da família que está no sistema penitenciário qualidades que o impulsionem para fora da vida criminal.

Que informações as famílias podem nos oferecer?

• A percepção da família sobre o(s) crime cometido(s).
• A percepção da família sobre a sentença dada pelo juiz.
• O histórico do presidiário na vida criminal e a postura da família diante dos crimes cometidos.
• As alternativas buscadas pelo presidiário para deixar a vida criminal.
• As redes sociais, principalmente as de apoio social, que a família e o presidiário possuem.
• Como a família está fazendo para manter o sustento sem a ajuda financeira do presidiário.
• Redes sociais frequentadas pelos membros familiares (escola, igreja, reuniões comunitárias, trabalho, festas, grupos de amigos e outros).
• Níveis de escolaridade, profissionalização e disposição para o trabalho.
• A transgeracionalidade do crime e uso de drogas na família.
• Vida do presidiário antes de se inserir na criminalidade (em que trabalhava, como conseguia o sustento, tentativas de não se inserir na criminalidade).

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