Infecção do trato urinário (ITU) na gestação

Infecção do trato urinário (ITU) na gestação
ENFERMAGEM

A infecção do trato urinário (ITU) é definida como a invasão, colonização e propagação de micro-organismos no trato urinário, desde a uretra até os rins, que causa lesões teciduais com graus variáveis no sistema urinário e pode levar a uma diversidade de manifestações clínicas variando desde uma bacteriúria assintomática até um abscesso perirrenal com sepse (DUARTE et al, 2004; COUTINHO 2004; POLETTO; REIS, 2005; DUARTE et al, 2008; MULLER et al, 2008; SALCEDO et al, 2010).



A contaminação do trato urinário por bactérias da microbiota intestinal é, normalmente, a principal causa da ITU (MULLER et al, 2008; JACOCIUNAS; PICOLI, 2007). Entre os principais agentes causadores da ITU estão Escherichia coli, Proteus sp., Saphylococcus saprophyticus, Klebsiella sp., Enterobacter sp., e Enterococcus sp. (JACOCIUNAS & PICOLI, 2007). A bactéria gram-negativa aeróbica Escherichia coli é o uropatógeno mais predominante, sendo responsável por, aproximadamente, 85% das ITUs adquiridas na comunidade. Em contraste, os organismos que costumam colonizar a vagina raramente causam infecção (DALBOSCO et al, 2003; DACHI, 2000).



A infecção fúngica é uma causa incomum da ITU e acomete, frequentemente, pacientes imunossuprimidos, principalmente transplantados e portadores da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Esporadicamente, pode ocorrer por causa viral ou mesmo acometimento do trato urinário (VIEIRA NETO, 2003). De acordo com Dalbosco et al (2003), a urina é habitualmente estéril devido a presença de mecanismos de defesa de trato urinário contra a invasão bacteriana. As bactérias podem atingir o trato urinário por três vias: ascendente, hematogênica e linfática, mas estudos científicos consideram que a via ascendente é a mais importante na patogênese da ITU (DUARTE, 2004).



Para atingir o trato urinário por via ascendente é necessária a aderência bacteriana à mucosa vaginal e, posteriormente, à mucosa uretral ou vesical. Por via retrógrada, as bactérias podem passar pelo ureter e alcançar a pelve renal, seja por refluxo vesicouretral ou por alterações do peristaltismo ureteral associado à aderência bacteriana. Além disso, podem prosseguir a invasão tecidual e colonizar o parênquima renal (PR) produzindo inflamação aguda (KOFF, 2003). Raramente, os micro-organismos podem atingir o PR através da corrente sanguínea, ocorrendo em lactentes por meio dos cocos geram positivos ou em adultos com infecções fúngicas.


A presença de obstrução favorece este mecanismo de ITU. Os usuários de drogas injetáveis constituem um grupo de risco para esta via de infecção (KOFF, 2003). A via linfática é pouco comum e ocorre em casos de obstrução intestinal ou abscessos intra ou retroperitoniais, especialmente em pacientes com estado geral comprometido (KOFF, 2003). Segundo Koff (2003) e Coutinho (2004), o desenvolvimento da ITU depende dos fatores bacterianos e das defesas do hospedeiro. O fator bacteriano mais importante é o poder de aderência das bactérias às células do hospedeiro, uma vez que a aderência inadequada resulta na eliminação das bactérias através da micção. Existem diferentes tipos de aderência na superfície bacteriana.



O pili tipo 1, denominado de manose-sensitivo, da E. coli é um dos mais conhecidos porque adere aos receptores de manose na superfície celular do intestino, vagina, intróito vaginal e urotélio. As fímbrias tipo P são pili que aderem a outros receptores das células uroteliais. Após a adesão, as bactérias produzem substâncias como, por exemplo, hemolisina e proteases que facilitam a invasão e multiplicação. A hemolisina é um peptídeo que causa a lise dos eritrócitos e causa danos a outras células (KOFF, 2003). A produção de endotoxinas bacterinanas promove a paralisia da musculatura lisa ureteral, resultando no bloqueio do peristaltismo e no favorecimento da ascensão bacteriana até os rins (DALBOSCO et al, 2003).



Dentre os fatores ligados ao hospedeiro que dificultam a colonização e a multiplicação microbiana destaca-se a proteína de Tamm-Horsfall, um uromucóide produzido pelo rim e presente na urina que satura os receptores de manose do tipo pilli 1 e, dessa forma, bloqueia a aderência de micro-organismos ao epitélio. Na bexiga também existem fatores antibacterianos e antiadesivos como o revestimento mucopolissacarídeo cuja lesão permite a aderência microbiana. O peristaltismo ureteral constitui outra barreira protetora contra a invasão bacteriana, uma vez que favorece a lavagem de bactérias (DALBOSCO et al, 2003; KOFF, 2003; COUTINHO, 2004).



A micção é um fator mecânico eficiente na remoção das bactérias que eventualmente penetram na bexiga, além de apresentar condições desfavoráveis para o crescimento microbiano devido a elevadas concentrações de uréia e ácidos orgânicos (DALBOSCO et al, 2003). O crescimento rápido do epitélio vaginal, devido à produção de estrógenos, causa descamação celular com bactérias aderidas. Os estrógenos também aumentam a produção de glicogênio, resultando nas condições adequadas para a proliferação dos lactobacilos que, por sua vez, diminuem o pH vaginal e dificultam a proliferação bacteriana (KOFF, 2003).



Por outro lado, algumas condições do hospedeiro favorecem a colonização microbiana como, por exemplo, a glicosúria e o aumento do pH da urina (RIYUZO et al, 2007). Esses fatores são responsáveis pela elevada incidência de ITU em diabéticos e em gestantes, respectivamente. A invasão do parênquima renal pelas bactérias desencadeia uma resposta imunológica do tipo humoral caracterizada pela síntese de anticorpos neutralizantes que bloqueiam a fixação local de bactérias.

Ao mesmo tempo, anticorpos dos isotipos IgM ou IgG ativam o sistema complemento cujos fragmentos estimulam os processos de quimiotaxia e opsonização culminando na exsudação celular, fagocitose e morte microbiana. A liberação excessiva de espécies reativas de oxigênio (ROS) provenientes do processo inflamatório e a ação deficiente dos sistemas antioxidantes provocam lesões nas células tubulares e, de forma crônica, resultam no aparecimento de cicatrizes renais, com perda de parte funcional do rim o que pode progredir para uma doença renal crônica, ou seja, um efeito indesejável dos mecanismos de defesa (DALBOSCO et al, 2003; RIYUZO et al, 2007).


O aumento da intensidade da lesão pode ter consequências a longo prazo, como o desenvolvimento de fibrose do rim ocasionando o desenvolvimento da hipertensão arterial, deterioração da função renal e complicações no período gestacional (RIYUZO et al, 2007). A ITU pode ser também classificada como não complicada e complicada. A primeira ocorre em pacientes com estrutura e função normais do sistema urinário e que adquiriram a infecção fora do ambiente hospitalar.


A segunda acontece em pacientes com anormalidades estruturais ou funcionais do trato gênito-urinário devido a antecedentes patológicos que incluem as de causa obstrutiva (hipertrofia benigna de próstata, tumores, urolitíase, estenose de junção uretero-piélica, corpos estranhos), anatomofuncionais (bexiga neurogênica, refluxo vesico-ureteral, rim-espongiomedular, nefrocalcinose, cistos renais, divertículos vesicais); metabólicas (insuficiência renal, diabetes mellitus, transplante renal) e nas condições clínicas que requerem uso de sonda vesical de demora ou qualquer tipo de instrumentação.



Essas condições aumentam o risco para ITU, bem como a sua recorrência reduzem a eficácia do tratamento ou mudam o espectro bacteriano mais comum para as formas mais resistentes à medicação antimicrobiana (HEILBERG & SCHOR, 2003; DUARTE et al, 2008; NISHIURA & HEILBERG, 2009). As ITUs podem ser agrupadas em quatro entidades clínicas diferentes, de acordo com a localização anatômica da lesão, existindo relações entre elas: bacteriúria assintomattica (BA), uretrite, cistite e pielonefrite. A BA é caracterizada pela colonização de bactérias no trato urinário do paciente que apresenta considerável eliminação de bactérias na urina, porém não exibe manifestações clínicas.



Dessa forma, é de fundamental importância a realização de exames microbiológicos para diagnóstico, sendo necessárias, pelo menos, duas uroculturas com o isolamento do mesmo micro-organismo e com contagem acima de 105 colônias/mL de urina. A prevalência de BA na população é geralmente baixa de 1 a 10%, no entanto, pode aumentar em gestantes (15%) e em idosos, especialmente, naqueles hospitalizados (HEILBERG & SCHOR, 2003; NOGUEIRA & MOREIRA, 2006; DUARTE et al, 2008; NISHIURA & HEILBERG, 2009). A Uretrite é definida pela infecção que leva ao acometimento uretral e ao surgimento dos sintomas como disúria e aumento da freqüência urinária, porém não é acompanhada de urocultura positiva e sim por sedimento urinário normal ou com leucocitúria (leucocitúria estéril) (HEILBERG & SCHOR, 2003). Aproximadamente, 50% das mulheres acometidas apresentam bacteriúria não significativa, ou seja, menor que 105 unidades formadoras de colônia (UFC) por ml.


Os principais agentes etiológicos envolvidos são habitualmente encontrados na cavidade vaginal e que provocam as infecções genitais, alguns não detectáveis nos cultivos urinários de rotina, como a Chlamydia trachomatis e Mycoplasma hominis. Entretanto, o potencial de invasão desses germes no sistema urinário é baixo, o que explica a baixa frequência destes na ITU (DUARTE et al, 2008). A cistite ocorre quando existe aderência da bactéria à bexiga sendo caracterizada por uma infecção do trato urinário "baixo". A maioria dos casos de cistites (95%) ocorre em mulheres saudáveis e com o trato geniturinário normal.



Os fatores de risco para as cistites são as relações sexuais, uso de espermicidas, demora na micção pós-coito e história recente de ITU. As manifestações clínicas incluem: disúria, polaciúria, urgência miccional, desconforto suprapúbico, hematúria macroscópica, urina de odor desagradável e, algumas vezes, dor lombar baixa. A urina pode tornar-se escura e fétida, sendo sanguinolenta em 30% dos casos e, em algumas situações, detectam-se leucócitos no exame de urina. Os patógenos mais encontrados nos episódios de cistite são: Escherichia coli (75% a 90%), Staphylococcus saprophyticus (5% a 15%), Klebsiella species e Proteus mirabilis (KASS, 1957; HEILBERG & SCHOR, 2003; COUTINHO, 2005; NOGUEIRA & MOREIRA, 2006; DUARTE et al, 2008; NISHIURA & HEILBERG, 2009).


A Pielonefrite (PN) aguda, também denominada de infecção do trato urinário "alto" ou nefrite intersticial bacteriana, é caracterizada pela infecção do parênquima renal e pode causar alterações anatômicas e/ou funcionais renais, decorrentes de um processo inflamatório acometendo o rim e suas estruturas adjacentes. Clinicamente, a PN costuma se diferenciar da cistite pela presença de sintomas clínicos mais exuberantes e sistêmicos, como náuseas, vômitos, dor abdominal e, em casos extremos, sepse ou choque séptico.


A maioria dos pacientes tem leucocitose significativa e bactérias detectáveis na urina e, durante a fase aguda, pode ser detectada a hematúria. (HEILBERG & SCHOR, 2003; COUTINHO, 2005; NOGUEIRA & MOREIRA, 2006; DUARTE et al, 2008). A microbiologia é semelhante a da cistite, exceto que o S. saprophyticus raramente causa PN (NISHIURA & HEILBERG, 2009).

2. INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO: ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS
A ITU é uma doença infecciosa que representa um grave problema na saúde pública, uma vez que afeta milhões de pessoas a cada ano. Constitui um dos eventos mais frequentes nos serviços de saúde atingindo todas as idades - do neonato ao idoso - e ambos os sexos, com particular impacto nas mulheres (DACHI, 2000; JACOCIUNAS & PICOLI, 2007). No entanto, no primeiro ano de vida acomete, preferencialmente, o sexo masculino devido às malformações congênitas da válvula da uretra posterior e da uretra (hipospádia, epispádia) e à presença do prepúcio íntegro.



Estudos demonstram que a presença de prepúcio íntegro aumenta o risco de 3 a 11 vezes para o desenvolvimento de ITU no primeiro ano de vida. (RIYUZO et AL, 2007) Durante toda infância, especialmente na fase pré-escolar, as meninas são 10 a 20 vezes mais acometidas por ITU que os meninos. Na vida adulta, também há um aumento da incidência de ITU no sexo feminino, tendo maior ocorrência no início ou relacionado à atividade sexual, durante o período gestacional ou na menopausa.



O fato do sexo feminino ter uma susceptibilidade maior a esta enfermidade se deve a particularidades anatômicas como o comprimento curto da uretra, a maior proximidade do ânus com o vestíbulo vaginal e uretra e colonização da região periuretral (HEILBERG & SCHOR, 2003; VIEIRA NETO, 2003; KOCH & ZUCCOLOTTO, 2003; JACOCIUNAS & PICOLI, 2007; NISHIURA & HEILBERG, 2009). Nos homens, as ITUs são menos frequentes pelo fato que o comprimento uretral e fluxo urinário serem maiores em comparação com as mulheres; a circuncisão, pois a menor ligação de enterobactérias à mucosa do prepúcio exerce proteção, além da próstata produzir uma substância de atividade bactericida.



Estudos demonstram que a maior prevalência de ITU no sexo masculino jovem ou idoso pode estar relacionada a quadros de hipertrofia, neoplasia prostática ou anomalias urinárias estruturais, pois podem causar obstrução do fluxo urinário, causando esvaziamento incompleto, estase urinária com alteração do pH, tornando susceptível ao desenvolvimento de ITU (DALBOSCO et al, 2003; MULLER et al, 2008). No indivíduo idoso, a ITU tem prevalência de 40 a 50%, isso parece ser devido as disfunções hormonais e neurológicas que acarretam dificuldade de esvaziamento vesical (DALBOSCO et al, 2003).



A progressão das ITUs e o surgimento de sequelas graves podem prejudicar o prognóstico do portador e até levá-lo à óbito. Isso torna a ITU responsável por significante taxa de morbidade e mortalidade, além de causar consequências sociais, pois o tratamento medicamentoso e a terapia de substituição renal acabam por marginalizar os indivíduos que portam a doença em estágios mais avançados, além de afetar o aspecto psicológico do portador. Também surgem impactos econômicos, pois atingem capacidade laboral das pessoas em idade produtiva, afetando a previdência pública e seguridade social (NISHIURA & HEILBERG, 2009).


3. INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO NA GRAVIDEZ
A gravidez é um episódio fisiológico na vida da mulher e por isso, na maioria dos casos, evolui sem apresentar variações ou anormalidades. Trata-se de um período de desenvolvimento, de transformação familiar e social, de amadurecimento psicológico e emocional, bem como de adaptação gradual às modificações anatômicas e fisiológicas (BRAZELTON & CRAMER, 2001; RESENDE, 2009). De acordo com o Ministério da Saúde (2000), a ITU é o problema urinário mais comum durante a gestação e de grande importância em função da sua elevada incidência.



Nessa fase da vida é a terceira complicação clínica mais comum, acometendo 10 a 12% das gestantes. Em 1941, Rayer publicou que a gravidez, por si só, era um fator predisponente para o surgimento de todas as formas de ITU. No entanto, atualmente, foi estabelecido que ela, isoladamente, não é responsável pela maior incidência de ITU nesse período. O aumento da incidência de ITU nessa fase da vida se deve às mudanças anatômicas e fisiológicas que ocorrem no trato urinário que, por sua vez, predispõem o desenvolvimento da infecção.



Na gravidez, as alterações anatômicas e fisiológicas impostas ao trato urinário predispõem a transformação de gestantes bacteriúricas assintomáticas em sintomáticas, deixando a impressão de que o maior número de ITU ocorra nesse período de vida. Aproximadamente 80% das mulheres grávidas apresentam dilatação significativa de ambos os ureteres e pelves renais, que se inicia precocemente em até 10 semanas de gestação, devido à compressão extrínseca pelo útero gravídico e pelo complexo vascular ovariano, hipertrofia da musculatura longitudinal do terço inferior do ureter, redução da atividade peristáltica decorrente da progesterona e o aumento do débito urinário.



A associação destes fatores à redução do tônus vesical favorece a estase urinária e o refluxo vésico-ureteral, transformando ITU assintomática em sintomática. Durante a gravidez, a redução da capacidade renal de concentrar a urina reduz a atividade antibacteriana, passando a excretar quantidades menores de potássio e maiores de glicose e aminoácidos, além de produtos de degradação hormonal, fornecendo um meio de cultura apropriado para a proliferação de micro-organismos.

Observa-se ainda que a urina de mulheres grávidas tem pH mais alcalino, situação favorável ao crescimento bacteriano no trato urinário. Sabe-se também que o hiperestrogenismo gestacional favorece a adesão de cepas de E. coli (KOFF et al, 2003; DUARTE et al, 2008; REZENDE, 2009). Segundo Duarte et al (2008), a frequência de ITU nesse segmento populacional aumenta com a atividade sexual, paridade, susceptibilidade individual, baixo nível socioeconômico e com a idade. Antecedentes patológicos também contribuem para o aumento de ITU entre gestantes, por exemplo, hemoglobinopatias, anemias, hipertensão arterial, diabetes mellitus, anormalidades do trato urinário e tabagismo. O quadro clínico das ITUs nas gestantes varia de bacteriúria assintomática até o quadro clínico de pielonefrite (BRASIL, 2000, JACOCIUNAS & PICOLI, 2007, SALCEDO et al, 2010). As ITUs se manifestam, principalmente, no primeiro trimestre da gestação (DUARTE et al, 2002; DUARTE et al, 2008; NOGUEIRA & MOREIRA, 2006).



A BA no primeiro trimestre gestacional apresenta uma prevalência de 5% a 10% das gestantes. Se a infecção não for tratada adequadamente cerca de 25 a 57% dos casos de BA podem evoluir para ITU sintomática (HEILBERG & SCHOR, 2003). A uretrite acomete aproximadamente 50% das grávidas, a cistite cerca de 1 a 1,5% e a pielonefrite até 2% (SALCEDO et al, 2010). A ITU está associada a uma série de complicações para o binômio materno-fetal que podem agravar o prognóstico.


Dentre essas complicações destacam-se: complicações maternas (celulite e abscesso perinefrético, obstrução urinária, trabalho de parto pré-termo, corioamniorrexe prematura, anemia, corioamnionite, endometrite, pré-eclâmpsia, choque séptico, alterações hematológicas, instabilidade hipotalâmica, falência de múltiplos órgãos e óbito) e perinatais (abortamento, restrição do crescimento intrauterino, prematuridade, infecção, baixo peso, leucomalácia periventricular, falência de múltiplos órgãos e óbito) (DUARTE et al, 2008; FIGUEIRÓ-FILHO et al, 2009; GOES, CRAVO & MENDES, 2010).



4. ATENÇÃO À GESTANTE PORTADORA DE INFECÇÃO DO TRATO URINÁRIO: DIAGNÓSTICO CLÍNICO E LABORATORIAL, TERAPIAS FARMACOLÓGICAS E NÃO-FARMACOLÓGICAS E PREVENÇÃO

De acordo com Koch (2003) e Salcedo (2010), os pontos importantes de atenção no cuidado de pacientes que portam a ITU estão relacionados à investigação, ao diagnóstico e tratamento precoces e adequados do processo infeccioso para que se possa prevenir ou minimizar o dano renal crônico. O retardo no diagnóstico e tratamento precoces aumenta o risco de lesão renal extensa e pode levar ao desenvolvimento de sequelas graves como Insuficiência Renal (IR) e Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS).



No caso das gestantes, a assistência pré-natal visa à promoção da saúde e identificação de situações de risco com intervenções oportunas, tendo por objetivo manter a integridade das condições de saúde materna e fetal. Para isso, é necessário que o início do pré-natal seja o mais precoce possível, de preferência antes da 12ª semana de gestação, a fim de identificar e prevenir intercorrências clínicas, cirúrgicas e obstétricas que possam trazer agravos à gestante ou ao feto.



Por isso, torna-se importante ressaltar que os profissionais de saúde, durante a consulta pré-natal, devam fazer investigações pertinentes aos problemas que mais acometem a saúde das gestantes, pois alguns cursam silenciosamente como, por exemplo, a ITU em gestantes (ALMEIDA & BARROS, 2005; DUARTE et al, 2008). Inúmeros estudos têm demonstrado que as condições socioeconômicas são de extrema importância para a saúde materno-infantil e que o acesso aos serviços de saúde e a qualidade da assistência também exercem influência na evolução favorável de indicadores de saúde materno-infantil.



No Brasil, ainda existem situações de insuficiência e baixa qualidade dos serviços que infringem diretamente no prognóstico dos pacientes (ALMEIDA & BARROS, 2005). O diagnóstico precoce e tratamento adequado da ITU são essenciais para o melhor prognóstico materno-fetal visto que a infecção pode ser um evento silencioso e se tornar sintomático quando houver lesões irreversíveis. Além disso, nesse período, o arsenal terapêutico medicamentoso antimicrobiano e as possibilidades profiláticas são limitadas, uma vez que podem levar a toxicidade fetal ou teratogênese (DUARTE et al, 2008; TURIANI, 2009).


O não tratamento ou tratamento inadequado aumenta o risco de desenvolvimento de ITU sintomática e piora o prognóstico materno e fetal devido ao surgimento de complicações (COELHO, 2008). A realização da anamnese permite identificar gestantes com maior risco de desenvolver ITU. Devem ser observadas as manifestações clínicas que fundamentam o diagnóstico como, disúria, polaciúria, urgência miccional, dor no baixo ventre, hematúria, tenesmo vesical. Não é comum presença de febre, porém, se houver, indica gravidade no quadro (DUARTE et al, 2008).



No entanto, a principal manifestação da ITU em gestantes é a bacteriúria assintomática. Por isso, durante o pré-natal, deve ser feito rastreamento através do exame de urina tipo I ou urinálise de rotina no primeiro trimestre de gravidez e, se negativo, outro teste deve ser feito no terceiro trimestre de gestação ou mediante sintomatologia apresentada pela gestante (TURIANI, 2009). A urinálise (exame de urina tipo I) de rotina envolve a avaliação macroscópica da urina (exame físico), a análise química obtida através de fita reagente e o exame microscópico.



Este último permite verificar a presença de hematúria, cilindúria, piúria, bacteriúria, cristaliúria no sedimento urinário centrifugado (HASENACK ET al., 2004). No caso das ITUs, a visualização de qualquer bactéria por campo correlaciona-se com uma urocultura de, pelo menos, 105 colônias/ mL de urina. Por ser um teste de baixo custo é indicado como screening de bacteriúria assintomática (DUARTE et al, 2008). Considera-se a urocultura como padrão-ouro para o diagnóstico laboratorial de ITU, sendo o método mais preciso para quantificar bactérias na urina com elevada sensibilidade. Outros exames complementares incluem o hemograma com contagens globais e diferenciais de glóbulos brancos, uréia e creatinina para identificar a agressividade da infecção traduzida por alterações hematológicas e parâmetros da função renal.

A ecografia de rins e vias urinárias torna-se um exame complementar importante nos casos de ITU complicada (DUARTE et al, 2008). Uma vez diagnosticada a ITU, a indicação da terapêutica medicamentosa preconizada na gravidez é por meio da antibioticoterapia que pode ser via oral e deve durar, no mínimo, 7 dias para que seja erradicado o organismo infectante e não manifeste recorrência. Atualmente, frente à multiplicidade de novos antibióticos, o tratamento deve ser criteriosamente elaborado devido o efeito tóxico e teratogênico de alguns fármacos (PAULA et al, 2005; COELHO, 2008; DUARTE et al, 2008).



De acordo com Paula, Krahe e Carvalho (2005), os esquemas terapêuticos tradicionais são válidos e os antibióticos mais novos presentes no mercado devem ser reservados para o tratamento de casos de complicações infecciosas mais sérias. As primeiras quatro semanas da gestação quando ocorre a organogênese e o final da gestação são as fases nas quais o risco de toxicidade é maior devido à máxima a sensibilidade fetal. Por esse motivo, deve ser avaliada adequadamente a relação risco/benefício com a seleção de antibióticos menos tóxicos, pois a infecção representa um risco para o feto muitas vezes superior ao do fármaco (SALCEDO et al, 2010).


Os antimicrobianos que podem ser utilizados com segurança na gravidez são a cefalexina e ampicilina que estão cada vez mais limitados em decorrência das elevadas taxas de resistência bacteriana; amoxacilina e nitrofurantoína são de boa escolha porque aumentam a concentração urinária; a ciprofloxacina, os riscos não podem ser descartados, não devendo ser, portanto, recomendada (COELHO, 2008). Em casos de pielonefrite, as gestantes devem ser internadas para monitorização dos sinais vitais e débito urinário e o tratamento deve ser realizado preferencialmente por via parenteral em nível hospitalar.



Reservam os esquemas que apresentam maior risco para o feto apenas em casos orientados pelo antibiograma e falta de opções (COELHO, 2008; DUARTE et al, 2008;). Infelizmente, após o diagnóstico clínico da ITU e a confirmação com o exame de urina, não há tempo para realização de cultivo e antibiograma para avaliação do padrão de sensibilidade dos agentes etiológicos devido à gravidade da doença. A realização destes procedimentos é relevante, pois é crescente o número de micro-organismos resistentes a antimicrobianos considerados seguros durante a gestação (COELHO, 2008; DUARTE et al, 2008).



Além de todos os procedimentos relacionados à detecção e tratamento precoces, no decorrer da assistência pré-natal, os profissionais de saúde devem considerar a ITU em gestantes dando ênfase a orientações sobre a ingestão hídrica adequada, as medidas de higiene íntima e corporal, os intervalos de micção que devem ser de duas a três horas e sempre antes de deitar ou após relações sexuais como forma de prevenção da ocorrência e da reincidência (TURIANI, 2009).



REFERÊNCIAS

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Flávia Márcia Oliveira
Possui doutorado em Bioquímica e Imunologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2003) e aperfeiçoamento em Saúde Pública. Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal Sergipe. Tem experiência na área de Imunologia, Patologia e Saúde Pública.
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