Desenvolvimento Cognitivo das crianças de 0 a 2 anos

Desenvolvimento Cognitivo das crianças de 0 a 2 anos
PSICOLOGIA

De acordo com PAPALAIA & OLDS (2006), se os bebês pudessem falar, eles protestariam que sua inteligência foi subestimada durante séculos. Esta subestimação persistiu quase até a atualidade por causa de dois movimentos importantes ao final do século XIX. Enquanto os psicólogos estavam começando a propor teorias do desenvolvimento humano, os médicos estavam estabelecendo uma rotina na qual os bebês nasciam em hospitais, eram expostos a drogas sedativas e isolados de suas mães – situação não muito propícia para melhor demonstrar as habilidades dos recém-chegados! Além disso, os primeiros testes para estudar a inteligência dos bebês eram baseados em testes para adultos ou animais, nenhum dos quais adequados, portanto.


Hoje, nossa visão das habilidades cognitivas dos bebês mudou radicalmente. Durante as últimas décadas, houve mais pesquisas nesse tópico do que durante toda a história pregressa. Agora sabemos que o bebê humano normal e saudável é acentuadamente competente. Os bebês vêm ao mundo com as capacidades de aprender e lembrar, assim como de adquirir e usar a linguagem. Os recém-nascidos começam avaliando o que seus sentidos lhes informam. Eles usam suas habilidades cognitivas para distinguir entre experiências sensoriais (tais como os sons de diferentes vozes), construir sobre seu pequeno repertório inato de comportamentos (principalmente mamar) e exercer controle crescente sobre seu comportamento e seu mundo (PAPALIA & OLDS, 2006).


Exemplo: Lucas, com um ano de idade, adorava pipoca e também brincar. Um dia seu pai, colocou algumas pipocas em sua mão, fechou-a, e a posicionou sobre a bandeja da cadeira de Lucas. Com ambas as mãos, ele forçava os dedos a se abrir, via a pipoca, e soltava quando tentava pegá-las. Quando tinha os dedos livres, o pai os fechava novamente sobre as pipocas. Depois de duas outras tentativas, Lucas descobriu que podia manter os dedos da mão dele abertos com uma mão enquanto pegava a pipoca com a outra. Um dia, quando tinha numa das mãos um brinquedo que não queria largar, Lucas encontrou outra solução. Ele abriu os dedos do pai com sua mão livre e os mantiveram abertos com a ajuda do queixo, de forma que pudesse usar a mesma mão para pegar as pipocas.


Lucas demonstrou comportamento inteligente, comportamento que envolve aprendizagem complexa iniciada de modo independente. Geralmente concorda-se que o comportamento inteligente tem dois aspectos-chave. Primeiro, ele é orientado para a meta: consciente e deliberado e não acidental. Segundo, é adaptativo: dirigido à adaptação às circunstâncias e às condições de vida.


A inteligência é influenciada tanto pela capacidade herdada quanto pela experiência. A inteligência permite que as pessoas adquiram, lembrem e usem o conhecimento; compreendam conceitos e relacionamentos; e apliquem o conhecimento e a compreensão nos problemas cotidianos.

Como e quando os bebês aprendem a resolver problemas? Como e quando se desenvolve a memória? O que explica as diferenças individuais nas habilidades cognitivas? Podemos medir a inteligência de um bebê? Podemos prever o quão inteligente será esse bebê posteriormente?


A maioria dos pesquisadores do desenvolvimento cognitivo usa uma de quatro abordagens para o estudo de tais questões:

Abordagem Comportamentalista ou behaviorista: Estuda a mecânica básica da aprendizagem. Ela preocupa-se em como o comportamento muda em resposta à experiência. Desde que tenha um reforço positivo. No início deve ser primário (balas, brinquedos), gradualmente poderá ser substituído pelo social, como elogios. Assim, o comportamento se mantém.

• Abordagem Piagetiana: Observa as mudanças na qualidade do funcionamento cognitivo, ou o que a pessoa é capaz de fazer. Ela se relaciona com a evolução das estruturas mentais e como as crianças se adaptam a seu ambiente, sustentando que a cognição se desenvolve em etapas.

Abordagem Psicométrica: Tenta medir as diferenças individuais em termos de quantidade de inteligência, quanta inteligência uma pessoa tem. Quanto mais alto o escore de uma pessoa num teste de inteligência, mais inteligente presume-se que ela é.

• Abordagem do processo de informações: Concentra-se nas diferenças individuais quanto ao modo no qual as pessoas usam sua inteligência. Ela procura descobrir os processos envolvidos na percepção e no manuseio da informação.

• Abordagem Behaviorista: Os bebês aprendem a sugar um mamilo? Provavelmente não. Mamar é um reflexo com o qual nascem. Mas, mamar logo se torna um comportamento aprendido quando leva à satisfação de ter enchido o estômago.


Os seres humanos nascem com a capacidade de aprender a partir da experiência. Os bebês aprendem com o que veem, ouvem, cheiram, degustam e tocam. A maturação é essencial para essa capacidade crescente de aprender.


Certas capacidades neurológicas, sensórias e motoras devem estar presentes antes que a aprendizagem relacionada possa ocorrer. Os teóricos da aprendizagem reconhecem a maturação como fator limitador, porém não se concentram na mesma. Seu principal interesse são os mecanismos pelos quais as pessoas aprendem.


Os behavioristas estudam dois processos simples de aprendizagem: condicionamento clássico e condicionamento operante.


No condicionamento clássico, uma pessoa ou um animal aprende a responder automaticamente a um estímulo que originalmente não provocava a resposta. Ou seja, a pessoa aprende a antecipar acontecimentos.

Por meio de um estudo de Blass, Ganchrow & Steiner (1984), bebês com apenas duas horas de vida foram condicionados de maneira clássica a virar a cabeça e mamar caso sua testa fosse acariciada: acariciavam-se suas testas ao mesmo tempo em que recebiam uma mamadeira de água adocicada. Bebês recém-nascidos aprenderam a mamar quando se ouviam uma sineta ou sinal; a mostrar o reflexo de Babkin (virar a cabeça e abrir a boca) quando seus braços eram movidos (ao invés do estímulo usual, pressão na palma da mão); a dilatar e contrair as pupilas de seus olhos; a piscar; e a mostrar alteração na frequência cardíaca.


No condicionamento operante, o bebê aprende a dar uma determinada resposta para produzir um efeito particular. O condicionamento operante, no qual o aprendiz atua e influencia o ambiente, pode ser usado para aprender comportamentos voluntários (em contrastes com os comportamentos involuntários, como piscar).


O condicionamento clássico e operante podem juntos produzir um comportamento cada vez mais complexo. Em estudos com bebês de uma a 20 semanas de vida, os bebês recebiam leite se virassem a cabeça para a esquerda ao ouvirem o som de uma sineta. Os bebês que não aprendiam a virar a cabeça por meio desse condicionamento operante eram então condicionados de maneira clássica. Quando a sineta tocava, o canto esquerdo da boca do bebê era tocado, e ele então virava a cabeça e recebia o leite. (O toque era o estímulo não condicionado; virar a cabeça era a resposta não condicionada. A sineta era o estímulo condicionado; virar a cabeça para a sineta tornou-se a resposta condicionada). Na idade de quatro a seis semanas, todos os bebês haviam aprendido a virar a cabeça ao ouvir a sineta. Então, os bebês aprenderam a diferenciar a sineta de uma campainha. Quando a sineta soava, eles eram alimentados pela esquerda; quando a campainha tocava, eram alimentados pela direita. Com aproximadamente três meses de idade, os bebês haviam aprendido a virar para o lado que trazia comida, sinalizado pela sineta ou pela campanha. Aos quatro meses, eles aprendiam até a inverter suas respostas à sineta e à campainha, ação de complexidade impressionante (PAPALIA & OLDS, 2006).


Caso os bebês não tivessem a capacidade de lembrar pelo menos em curto prazo, eles não seriam capazes de aprender. Estudos utilizando condicionamento operante constataram que bebês de dois a seis meses são capazes de lembrar-se de realizar uma ação que lhes proporcionou prazer, contanto que a situação de teste seja virtualmente idêntica aquela na qual se deu o treinamento inicial (PAPALIA & OLDS, 2006).


Abordagem Piagetiana: A abordagem cognitiva de Jean Piaget exerce hoje relevante papel em todas as áreas da psicologia e, principalmente, nos campos aplicados da educação e da psicoterapia. Abandonando a ideia de avaliar o nível de inteligência de um indivíduo por meio de suas respostas aos itens de determinados testes, Piaget adotou um método clínico por meio do qual procura acompanhar o processo do pensamento da criança para daí chegar ao conceito de inteligência como capacidade geral de adaptação do organismo (PAPALIA & OLDS, 2006).

Os conceitos fundamentais da abordagem de Piaget são: esquema, ou estrutura, que é a unidade estrutural do desenvolvimento cognitivo; assimilação, processo pelo qual, novos objetos são incorporados aos esquemas; acomodação, que ocorre quando novas experiências modificam esquemas; equilibração, resolução de tensão entre assimilação e acomodação; operação, rotina mental caracterizada por sua reversibilidade e que representa o elemento principal do processo do desenvolvimento cognitivo.


O desenvolvimento cognitivo se dá em quatro períodos (PAPALIA & OLDS, 2006):

- O período sensório-motor (zero a dois anos), caracterizado pelas atividades reflexas;

- O período pré-operacional (dois a sete anos), em que a criança pode lidar simbolicamente com certos aspectos da realidade, mas seu pensamento ainda se caracteriza pela responsabilidade; Dividido em: Pensamento simbólico pré-conceitual: dois a quatro anos e Pensamento intuitivo: quatro a sete anos.

- O período das operações intelectuais concretas (7 a 12 anos), em que a criança adquire o esquema de conservação;

- Período das operações intelectuais abstratas (dos 12 anos em diante), caracterizado pelo pensamento proposicional e que representa o ideal da evolução cognitiva do ser humano.


Abordagem Psicométrica: A curiosidade de Piaget pelos processos de pensamento das crianças foi inicialmente estimulada por seu trabalho com os primeiros testes de inteligência que estavam sendo desenvolvidos em Paris. No início do século XX, administradores de escolas daquela cidade pediram ao psicólogo Alfred Binet que criasse uma maneira de identificar as crianças que eram incapazes de manejar as atividades acadêmicas e que deveriam ser afastadas das aulas regulares e receber treinamento especial. O teste que Binet e seu colega Theodore Simon desenvolveram foi o precursor dos testes psicométricos, usados com crianças de todos os níveis de habilidade, que tentam avaliar a inteligência por meio de números. Um deles é a escala de Inteligência Stanford-Binet, uma versão americana dos testes Binet-Simon tradicionais (PAPALIA & OLDS, 2006). É importante frisar que estes testes foram realizados a partir da realidade europeia (Paris), então temos que adaptar alguns objetos e realidades próprias do nosso país.

Em contraste com a preocupação de Piaget com a mudança qualitativa, a meta dos testes psicométricos é medir quantitativamente os fatores que constituem a inteligência, como compreensão e raciocínio. Os testes de QI (Quociente de Inteligência) consistem de perguntas ou tarefas que supostamente mostre o quanto dessas habilidades uma pessoa dispõe, comparando-se, para isso, seu desempenho com o desempenho de outras pessoas submetidas ao teste. O escore de uma criança é comparado com normas padronizadas – padrões obtidos a partir dos escores de uma amostra mais ampla e representativa de crianças da mesma idade que foram submetidas ao teste enquanto ele estava sendo desenvolvido (PAPALIA & OLDS, 2006).


Os criadores de testes criam técnicas para tentar garantir que os mesmos tenham alta validade (isto é, que os testes meçam as habilidades que alegam medir) e confiabilidade (isto é, que os resultados dos testes sejam razoavelmente consistentes de uma vez para outra). Os testes podem ser significativos e úteis somente se forem válidos e confiáveis. Para crianças em idade escolar, os escores dos testes de inteligência podem prever o desempenho escolar de modo relativamente preciso e confiável. Testar a inteligência de bebês e crianças jovens é outra questão (PAPALIA & OLDS, 2006).


Abordagem do processo de informações: Os pesquisadores do processamento de informações concentram-se na memória, na resolução de problemas e na aprendizagem. Eles veem as pessoas como manipuladores de percepções e símbolos. Sua meta é descobrir o que bebês, crianças e adultos fazem com a informação desde o momento em que a percebem até sua utilização. Assim como a abordagem psicométrica, a teoria do processamento de informações preocupa-se com as diferenças individuais no comportamento inteligente; mas ela se concentra na descrição dos processos mentais envolvidos na aquisição de informações ou na resolução de problemas, ao invés de simplesmente pressupor diferenças no funcionamento mental a partir de respostas dadas ou problemas resolvidos.


Em função da fraca correlação entre os escores em teste de desenvolvimento de bebês e em testes de QI posteriores, muitos psicólogos acreditavam que o funcionamento cognitivo do bebê tinha pouco em comum com aquele de crianças mais velhas e adultas, em outras palavras, que havia uma descontinuidade no desenvolvimento cognitivo. Hoje, as descobertas sobre a capacidade de bebês de interpretar suas percepções questionam essa visão. Quando avaliamos como os bebês processam as informações em vez de como realizam testes psicométricos, constatamos que o desenvolvimento mental é razoavelmente contínuo desde o nascimento até a infância (McCall & Carriger, 1993).

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