A Crítica Genética do manuscrito ao virtual

A Crítica Genética do manuscrito ao virtual
PEDAGOGIA
A própria essência do trabalho literário não reside na apreciação das coisas já feitas, partindo do gosto, mas antes de um estudo preciso do processo de fabricação. (Maiakovski, 1984 )

O presente trabalho tem como proposta uma reflexão a cerca do destino dos estudos de Crítica Genética, ciência que analisa a origem e as transformações de uma obra literária. Fazer crítica genética consiste na apreciação de uma obra em seu processo criador. Ela analisa os manuscritos e rascunhos, meticulosamente, pois estes são os objetos mais importantes de estudo do geneticista, que tem o objetivo de alargar, aprofundar o olhar. É enfatizada a preocupação com estudos futuros de crítica genética, já que a era virtual ameaça a existência do manuscrito.

Da rasura à virtualização da obra

Os estudos genéticos surgiram na França em 1968 com Louis Hay e Almuth Grésillon, que faziam um estudo da obra do poeta alemão Heinrich Heine. No Brasil ela só surgiria mais tarde em 1985 com I Colóquio de Crítica Textual: o Manuscrito Moderno de Philippe Willemart. Um percurso pela história da crítica genética, nos mostra que muitos pensadores fizeram crítica genética sem saber quando faziam relevantes estudos sobre a natureza oficial de uma obra.

Ao analisarmos o processo evolutivo dos estudos críticos vemos como é maravilhoso o inusitado caminho percorrido por alguém que tenta percorrer e entender uma obra desde a rasura. Junto a esse interesse, vem a questão da preservação das obras literárias, do esforço dos escritores em fazer obra imortal e nada torna uma obra mais viva do que estudar sua origem , seus percursos e percalços até a publicação e , algumas vezes ,ou senão no nosso séculos a maioria das vezes, a sua impressão por meio da virtualidade. O conhecimento dos resultados é indescritível, porém o estudo do processo de realização da obra tem sempre primazia. O estudo literário passa a ser visto como o estudo do processo de fabricação de uma obra.

A partir de meados dos anos 90, houve um grande interesse nos estudos de crítica literária. Houve então um momento interdisciplinar, onde as várias ciências abordaram a questão da genética com propriedade. Vários pesquisadores se dedicaram ao estudo da crítica genética efetivamente. A Crítica Genética é uma prática cientifica que está estritamente ligada a outras áreas como a Linguística, a Psicanálise e a Análise do discurso. É a transdisciplinaridade com a diversidade de teorias que possibilita o conhecimento dos vários ângulos da criação literária.

Todo esse trabalho exige muita dedicação e disciplina. Trilhar um caminho repleto de esboços, rasuras, metamorfoses é muito complexo e exige uma atenção e percepção minuciosa. Às vezes o geneticista assemelha-se a um arqueólogo ou historiador, quando busca, na genética a origem da ideia, do surgimento do pensamento para a execução da obra.


A crítica genética analisa a obra de um determinado autor, do manuscrito, hoje chamados de documentos de processo até a sua publicação. Através da análise de documentos preservados em museus ou academias, ou vindos da mão do próprio autor, busca-se elucidar os caminhos trilhados até a conclusão da sua obra. O material a que se tem acesso é composto de manuscritos, esboços, ou transcrições quando não estão legíveis. Trata-se de uma elaboração crítica de diversos documentos que compõem o processo criativo. O geneticista toma em suas mãos o material e começa a trilhar o caminho que o autor percorreu, suas pegadas, dúvidas, as substituições de termos, datas, lugares e tudo que compõe uma obra literária. Afinal, a parte significativa de uma obra poética começa na rasura, pois jamais um texto literário foi considerado pronto ou publicado na forma em que brotou.

Como críticos, possuímos a faculdade de analisar a obra do autor, fazendo uma apreciação minuciosa. Um dos fatores mais relevantes no trabalho do geneticista é a percepção. É como se passeássemos pela mente do escritor na tentativa de descobrir o que ele está dizendo a si mesmo no momento da criação. O principal papel do geneticista é assumir a sua própria subjetividade e construir hipóteses para a trajetória do autor.

O geneticista é um curioso, ele viaja profundamente pelos caminhos mais difíceis na tentativa de conhecer profundamente a obra criticada. Como afirma CALVINO ( 1990, p. 91)

Essa reação, talvez, possa ser explicada porque, na verdade, o crítico passa a conviver com o ambiente do fazer artístico, cuja relevância os artistas sempre conheceram e reconheceram, na medida em que sabem que a arte não é só o produto considerado "acabado". Eles parecem ter plena consciência de que a obra consiste na cadeia infinita de agregação de idéias, ou seja, na série infinita de aproximações para atingi-la.

Já existem escritores que escrevem suas obras nas páginas virtuais, em redes sociais e dividem com o público leitor a sua criação, possibilitando assim comentários. Nesse momento o leitor tem a medida exata da repercussão da sua obra. É quase instantâneo, ele não precisa esperar sua obra ser publicada e seu público leitor se manifestar de uma maneira mais demorada para saber o impacto da obra escrita. A análise crítica do público leitor é deveras relevante, na medida em que ele participa instantaneamente da obra ainda em construção ou já acabada.

Quanto ao uso do meio digital para estudos da ciência crítica, considero um tanto impessoal. Sabemos que o computador se estabeleceu como um facilitador nas nossas vidas, porém em se tratando das análises de um geneticista, o percurso do caminho da criação parece impessoal. Quando trabalhamos com o manuscrito, podemos perceber detalhes na grafia que computador algum poderia reproduzir. A escrita apressada em função do registro da ideia é algo que só a visão humana é capaz de captar. Alguns estudiosos acreditam que os estudos grafológicos, apesar de considerados pseudocientíficos, podem desvendar um pouco da personalidade do escritor. A rasura sobre a rasura em um mesmo texto é algo que os meios digitais não poderiam acompanhar. As rasuras, os desenhos, as anotações de rodapé jamais serão expostas de forma tão clara a exprimir o pensamento como aquele vindo do punho do autor. É como se pudéssemos sentir quase a presença do escritor, é como se pudéssemos tocá-lo, tocando em sua grafia, na folha que passou por suas mãos, suas incertezas, hesitações. O amarelado do papel dá a uma obra, uma temporalidade e quase nos reporta àquele sagrado momento da primeira ideia, do surgimento.


Em contrapartida a escritora SILVA, diante da grande preocupação com o futuro da crítica genética, defende a ideia de que mesmo que não haja na era digital manuscritos, rascunhos, cadernos de notas, a crítica genética sobreviveria porque o verdadeiro objeto de estudo do geneticista é o processo de criação. Considero que não podemos esquecer que nesse processo de criação o manuscrito é o principal objeto, já que representa o “gene”, a origem, o começo. A imagem metafórica do rascunho representa o início, a primeira ideia. A etimologia da palavra “genética” tem como origem o grego “genno” , que significa “fazer nascer” , o princípio, que para os nossos estudos representaria o começo de uma obra. Considero que a sobrevivência da Crítica Genética na pós-modernidade ocorrerá, porém acompanhando as mudanças que o tempo impõe, embora a era digital, algumas vezes, não preserve o rascunho, ela “deleta”, apaga, substitui sem deixar traços do caminho percorrido ou no máximo salva versões impessoais ausentes das marcas do autor.

Conclusão:
A crítica genética confronta o texto como é atualmente, com o que ele foi ou poderia ter sido. A capacidade de analisar todas as possibilidades que o texto proporciona a quem o manuseia, partindo da rasura, imaginar o que teria impelido o autor à criação, é fascinante. A materialidade dos rascunhos possibilita o estudo, a análise da construção da obra geneticamente falando tornando o manuscrito a pré-história do texto. Ele desempenha um papel de suporte quase que exclusivo da obra. É preciso, através da rasura, fazer uma sutura do significado de cada palavra, para enfim enriquecer a abordagem biográfica da obra.

Supostamente “ameaçada” pela propalada extinção do manuscrito, em decorrência da invenção do computador, pois muitos criadores hoje não escrevem mais à mão, a Crítica Genética tornou-se assim mais importante ainda, por ser mais raro, portanto precioso, o seu objeto básico de estudo.

Referências Bibliográficas:
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CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: Lições Americanas- Ed. Companhia das Letras, 1990
LÉVY, Pierre - Cibercultura. Rio de Janeiro : Ed. 34, 1999
LYRA, Pedro. Desafio – Uma poética do amor. 3ª.ed. Fortaleza/Rio de Janeiro, Ed.UFC/Topbooks, 2002.
RECUERO, Raquel da Cunha – Redes Sociais na Internet (Artigo Acadêmico)
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SANTAELLA, L. (1983). O que é Semiótica. São Paulo: Brasiliense.
SANTAELLA, L. (2001). Matrizes da Linguagem e Pensamento. São Paulo: Iluminuras. (p.32)
SILVA, Márcia Ivana de Lima e; Crítica genética na era digital: o processo continua; Porto Alegre, v. 45, n. 4, p. 43-47, out./dez. 2010 (Artigo de periódico)
SOUZA, Carlos Henrique Medeiros de; GOMES, Maria Lúcia Moreira – Educação e Ciberespaço. Brasília: Usina das Letras – 2008
LIMA, Sônia Maria Van Dijk. Manuscrito: objeto da crítica genética In: Anais do IX Encontro da ANPOLL, Vol. I. João Pessoa, 1995, pp.137-140 (Artigo de periódico)
WILLEMART, Philippe – Crítica Genética e Psicanálise – São Paulo : Perspectiva; Brasília, DF : CAPES, 2005
WILLEMART, Philippe - A Crítica Genética Hoje - Alea: Estudos Neolatinos, vol. 10, n..1, enero-junio, 2008, pp. 130-139 Universidade Federal do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro, Brasil

Eleonora Campos Teixeira
Doutoranda em Cognição e linguagem (UENF- RJ); Especialista em Literatura Brasileira (PUC- MG); Professora de Língua Portuguesa da Faculdade Metropolitana São Carlos (FAMESC - RJ); Coordenadora de Projeto de Leitura da Faculdade Metropolitana São Carlos (FAMESC - RJ); e-mail : norinhatli@yahoo.com.br , Campos dos Goytacazes - RJ; Brasil; http://lattes.cnpq.br/0770197565632073
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