Transtornos globais do desenvolvimento e suas características

Transtornos globais do desenvolvimento e suas características
PEDAGOGIA
Percorrendo os períodos da história universal, desde os mais remotos tempos, notam-se teorias e práticas sociais segregadoras, inclusive quanto ao acesso ao saber. Dessa forma, poucos podiam participar dos espaços sociais nos quais se transmitiam e se criavam conhecimentos, incluindo as escolas.


Portanto, desde os tempos mais remotos, se praticava a pedagogia da exclusão.

Na antiguidade, os indivíduos com deficiência são vistos como “doentes” e incapazes, sempre estiveram em situação de maior desvantagem ocupando, no imaginário coletivo, a posição de alvos da caridade popular e da assistência social, e não de sujeitos de direitos sociais, entre os quais se inclui o direito à educação (MAZZOTTA, 1996).


Assim, as pessoas com deficiência não frequentavam a escola e também não conviviam com os demais membros da família e da sociedade. A atenção dispensada a essas pessoas eram somente sob o aspecto clínico, ou seja, somente para atendimentos médicos. Não havia, portanto, atendimento pedagógico e as mesmas eram discriminadas pela própria família, uma vez, que esta escondia-os da sociedade. No entanto, com os avanços da sociedade moderna houve uma desmistificação no que se refere aos direitos da pessoa com deficiência e aquelas que apresentam Transtorno Global do Desenvolvimento.


O movimento mundial de educação para todos, que culminou no Brasil nas políticas públicas de educação inclusiva, também abriu espaços no ensino regular para alunos com Transtornos Globais do Desenvolvimento.


O Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD) são caracterizados por prejuízos severos em diversas áreas do desenvolvimento tais como: habilidades de comunicação, presença de comportamentos, interesses e atividades estereotipadas e ainda habilidades de interação social recíproca.


As crianças com Transtornos Globais do Desenvolvimento apresentam dificuldades em começar e manter uma conversa. Algumas delas evitam o contato visual e não suportam o toque do outro, preferindo manter-se isoladas, mas podem estabelecer contato por meio de comportamentos não-verbais.


Os Transtornos Globais do Desenvolvimento também causam variações na atenção, na concentração e, eventualmente, na coordenação motora. As mudanças de humor sem motivo aparente e os acessos de agressividade são comuns em alguns casos. As crianças apresentam seus interesses de maneira distinta e podem focar sua atenção em uma só atividade, como por exemplo, observar determinados objetos.


A Resolução nº 4 de 2 de outubro de 2009 em seu Art. 4º detalha que crianças com Transtornos Globais do Desenvolvimento são aqueles que apresentam um quadro de alterações no desenvolvimento neuropsicomotor, comprometimento nas relações sociais, na comunicação ou estereotipias motoras. Incluem-se nessa definição alunos com autismo clássico, síndrome de Asperger, síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância (psicoses) e transtornos invasivos sem outra especificação (Resolução CNE/CEB 4/2009, Seção 1, p. 17)

Assim, por esta resolução, define-se transtornos globais do desenvolvimento o autismo, a síndrome de Asperger, a síndrome de Rett, o transtorno desintegrativo da infância (psicoses) e os transtornos invasivos sem outra especificação.
O autismo é um distúrbio que afeta a capacidade da pessoa de estabelecer relacionamentos e responder apropriadamente aos ambientes. As pessoas autistas parecem não perceber os sentimentos dos outros, em relação a ele, demonstrando também pouca ou nenhuma afetividade.


De acordo com Secretaria de Educação especial do MEC, o autismo pode ser compreendido como “um transtorno do desenvolvimento caracterizado, de maneira geral, por problemas nas áreas de comunicação e interação, bem como por padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades”. (BRASIL, 2005c, p. 15-16)


Segundo a Classificação dos Transtornos Mentais, da Organização Mundial de Saúde, (apud ROSA, 2003, p. 82) o autismo se constitui em transtorno global do desenvolvimento caracterizado por a) um desenvolvimento anormal ou alterado, manifestado antes da idade de três anos; b) apresentando uma perturbação característica do funcionamento em cada um dos três domínios seguintes; interações sociais, comunicação, comportamento focalizado e repetitivo. Além disso, o transtorno se acompanha comumente de numerosas outras manifestações inespecíficas, por exemplo, fobias, perturbações de sono ou da alimentação, crises de birra ou agressividade (auto agressividade).


Beerends (2007, p. 207) ressalta que algumas crianças, “apesar de ter a integração comprometida, apresentam inteligência e fala intactas. Outras podem apresentar retardo mental, mutismo ou importantes retardos no desenvolvimento da linguagem”. Dessa forma, as crianças com autismo normalmente apresentam dificuldades de comunicação, mostrando-se fechados, distantes, presos a comportamentos restritos e ainda rígidos padrões de comportamento com resistência a mudanças.


Acredita-se que as crianças autistas levam mais de tempo para aprender as relações sociais do que as outras crianças. Normalmente a pessoa com autismo corresponde às manifestações das relações sociais por condicionamento. As manifestações de afeto são ignoradas. Um abraço, um aperto de mão, pode até ser correspondido, mas será de forma reflexa.


De acordo com Beerends (2007, p. 207-208) o autista “não manifesta prazer ou desagrado em situações cotidianas, porém, possui comportamentos agressivos especialmente quando está em ambientes estranhos ou quando algo estranho invade o seu espaço pessoal”. Suas ações explosivas e gritos são manifestações expressivas quando se sentem frustrados.
A incidência maior desse transtorno, segundo Rosa (2009, p.114) ocorre “em crianças do sexo masculino, numa proporção estatística de até quatro meninos para uma menina. Porém, os estudos mostram que, quando as meninas são acometidas de autismo, este se dá de forma muito mais severa”.


O reconhecimento do transtorno autista em uma criança, de acordo com Facion e Silva (2005, p. 135), podem-se indicar quatorze sintomas cardeais que frequentemente estão presentes neste transtorno. A criança não se mistura com outras crianças; age como se fosse surdo; resiste ao aprendizado; não demonstra medos de perigos reais; resiste a mudanças de rotina; usa as pessoas como ferramentas; risos e movimentos não apropriados; resiste ao contato físico; acentuada hiperatividade física; não mantém contato visual; apego não apropriado a objetos; gira objetos de maneira bizarra e peculiar; às vezes é agressivo e destrutivo; modo e comportamento indiferente e arredio.


A criança diagnosticada com transtorno autista pode ainda iniciar a linguagem, mas repentinamente isso é interrompido, sem retorno. Pode ainda cheirar ou lamber objetos, ferir-se intencionalmente ou mostrar-se insensível a ferimentos. O autismo é uma psicose , ainda sem determinantes e sem cura. Porém, existem terapias, medicamentos e instituições que podem amenizar o problema permitindo que as pessoas que convivem com o autista, saibam lidar com ele e este por sua vez, tenha uma vida mais independente possível.


“Já o Transtorno de Asperger tem como características, de acordo com o DSM - IV da Associação Americana de Psiquiatria, (2002, p.107), um prejuízo severo e persistente na interação social [...] e o desenvolvimento de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse e atividade” [...]. Características semelhantes com o autismo. Porém, o Transtorno de Asperger difere do autismo pela ausência de atraso no desenvolvimento da linguagem. Não há atrasos clinicamente significativos na linguagem.


Sendo assim, o Transtorno de Asperger é caracterizado por uma alteração qualitativa das interações sociais semelhantes ao autismo, mas não é acompanhada de um retardo ou de uma deficiência de linguagem ou do desenvolvimento cognitivo. Além disso, não há atrasos significativos no desenvolvimento cognitivo ou no desenvolvimento das habilidades.


A Síndrome ou Transtorno de Rett é caracterizado essencialmente, segundo a Associação Americana de Psiquiatria, (2002, p.104), pelo “desenvolvimento de múltiplos déficits específicos, após um período de funcionamento normal durante os primeiros meses de vida” da criança. Há um desenvolvimento inicial aparentemente normal da criança, seguido de uma perda parcial ou completa de linguagem, da marcha e do uso das mãos, associado a um retardo do desenvolvimento craniano. Ocorre também, entre os 5 e os 30 meses de idade, segundo Facion e Silva (2005, p. 135), “uma perda das habilidades voluntárias anteriormente adquiridas das mãos, com o desenvolvimento subsequente de movimentos estereotipados característicos, que se assemelham a torcer ou lavar as mãos”. Estudos mostram que o interesse pelo ambiente social diminui nos primeiros anos após o início do transtorno podendo ser reestabelecido mais tarde. Mostram ainda que aparecem problemas na coordenação da marcha ou movimentos do tronco com o enrijecimento do corpo, severo retardo psicomotor e um severo prejuízo da linguagem expressiva ou receptiva. Esse transtorno leva quase sempre a um retardo mental grave.


O Transtorno Desintegrativo da Infância foi por muito tempo conhecido “como síndrome de Heller, demência infantil ou psicose desintegrativa” ( FACION e SILVA, 2005p. 136). Nesse transtorno, a criança nos dois primeiros anos de vida, após o nascimento, apresenta um desenvolvimento aparentemente normal podendo apresentar uma comunicação verbal e não-verbal, bons relacionamentos sociais, interações em jogos e ainda comportamento adequados para a idade. Porém, antes dos dez anos de idade observa-se uma perda clinicamente significativa de habilidades anteriormente adquiridas em pelo menos duas das seguintes áreas: “linguagem expressiva ou receptiva, habilidades sociais ou comportamento adaptativo, controle intestinal ou vesical, jogos e habilidades motoras” (idem).


Observa-se também, anormalidades do funcionamento com prejuízos qualitativo na interação social, na comunicação e ainda padrões repetitivos, restritos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades incluindo estereotipias motoras.


O Transtorno Invasivo do desenvolvimento é uma categoria utilizada segundo Associação Americana de Psiquiatria (2002, p.109), quando há um “prejuízo severo e invasivo do desenvolvimento da interação social recíproca ou de habilidades de comunicação verbal e não-verbal, ou quando comportamentos, interesses e atividades estereotipados estão presentes” mas que não são critérios para outro transtorno invasivo do desenvolvimento específico.


Portanto, diante das características dos transtornos acima citados e ao considerar a inclusão de crianças com transtornos globais do desenvolvimento no ensino comum, é necessário que a escola reflita seu papel na construção da cidadania. O professor por sua vez deverá ser um educador capacitado, acolhedor, observador, criativo, ágil e pesquisador. Também é importante que os professores utilizem metodologias diversificadas, atividades adaptadas, e atendimento educacional especializado pensado para cada sujeito, observando as suas peculiaridades, suas possibilidades e suas necessidades.

Referências

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM IV). 4. Ed. Porto alegre: Artes Médicas, 2002.


BEERENDS, Lais. A Cinoterapia na inclusão social. In: IESDE Brasil S/A. Projetos de Inclusão Social: casos de sucesso. Curitiba: IESDE Brasil S/A, 2007.


BRASIL. Resolução CNE/CEB 4/2009. Diário Oficial da União, Brasília, 5 de outubro de 2009, Seção 1, p. 17. Disponível em http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rceb004_09.pdf. Acessado em 09/01/2014.


FACION, José Raimundo; SILVA, Maria de Fátima M. Caldeira. Diversidade na Aprendizagem: Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TID). In: SILVA, Maria de Fátima Minetto Caldeira. Diversidade na Aprendizagem das pessoas com necessidades especiais. Curitiba: IESDE, 2005.


MAZZOTTA, Marcos José da Silveira. Educação especial no Brasil – História e políticas públicas. São Paulo, Editora Cortez, 1996.


ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID – 10: descrições clínicas e diretrizes diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993. In: ROSA, Suely Pereira da Silva. Fundamentos teóricos e metodológicos da inclusão. Curitiba: IESDE Brasil S. A., 2003.


ROSA, Angela Coronel da. Conhecendo as necessidades especiais II. In: Educação Inclusiva / [organizada pela ] Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Curitiba: Ibpex, 2009.

Maria de Fátima de Oliveira Almeida
Graduada em: Pedagogia - Educação Infantil e Séries Iniciais do Ensino Fundamental pela Universidade Luterana do Brasil (2010), em Normal Superior pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2007) e em Licenciatura em Matemática pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2002). Especialista em Educação. Atualmente é professor da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, tutora a distancia - If Sudeste MG - Campus Rio Pomba e tutor de sala da Universidade Norte do Paraná. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação e Aprendizagem (Texto informado pelo autor)
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