Câncer de mama e sexualidade feminina: os simbolismos existentes nessa relação

Câncer de mama e sexualidade feminina: os simbolismos existentes nessa relação
PSICOLOGIA
1 INTRODUÇÃO

Embasado na Psicologia Junguiana, busca-se compreender como a mulher simboliza sua sexualidade com e sem o câncer de mama, retratando questões sobre o adoecer e identificando os possíveis significados relacionados aos símbolos implicados nessas representações.

Os seios são uma das representações de feminilidade da mulher, da sua sexualidade. É de se supor, portanto, que o câncer de mama expressa uma possível perda de contato consigo mesma, tocando profundamente sua estrutura emocional e física.

Considerando o sintoma como um símbolo e que o adoecer modifica a relação da mulher com o mundo e consigo mesma, este trabalho explora a questão da doença como uma representação simbólica da psique, considerando a interação entre psique, símbolo e sexualidade feminina, bem como enfatizando a totalidade do ser e a sua integração.

O câncer é identificado, na maioria das vezes, como uma caminhada progressiva e dolorosa em direção à mutilação e à morte. Ele é o mais temido pelas mulheres devido a sua alta frequência e, sobretudo, pelo impacto psicológico que provoca. Envolve negativamente a percepção da sexualidade mais do que qualquer outro tipo de neoplasia que atinge a mulher. (SANTOS, KOCH, FRASSOM, SCHENATO & MELO, 1998). O problema investigado nesta pesquisa refere-se às diferenças de representações e simbolizações próprias da sexualidade entre mulheres afetadas e não afetadas pelo câncer de mama.

A presente pesquisa sobre “Câncer de Mama e Sexualidade Feminina – os simbolismos existentes nessa relação”, trata-se de um trabalho de conclusão de curso de graduação em psicologia e foi realizado em um Hospital Geralda cidade de Teresina-PI, durante o período de agosto a novembro de 2008.

Com o objetivo geral buscou-se compreender como as mulheres, com e sem o câncer de mama representam simbolicamente sua sexualidade.

Os objetivos específicos são: levantar através da literatura os símbolos utilizados na cultura ocidental sobre a sexualidade; verificar os símbolos femininos utilizados pela mulher para descrever sua sexualidade; identificar os significados possíveis relacionados às representações desses símbolos; e captar a percepção da mulher em relação à sua sexualidade depois do câncer de mama.

Para a mulher, os seios são carregados de forte acepção simbólica e vistos como uma insígnia de sua identificação e sua sexualidade. Por isso busca-se compreender como a ocorrência do câncer de mama pode influenciar na simbolização da mulher e de sua sexualidade, estudando a existência de diferenças antes e depois do surgimento da doença, contribuindo para a construção da subjetividade feminina.

Espera-se que essa pesquisa possa contribuir para a construção de propostas práticas que tragam melhor qualidade de vida para a mulher com câncer de mama, atenuando o impacto emocional causado pela doença, propiciando-lhe vivenciar melhor a sua sexualidade. E, contribuindo inclusive, para a não recidiva do câncer de mama.


2 REFERENCIAL TEÓRICO

A capacidade de reter, evocar e relacionar experiências sensoriais em forma de símbolos é um traço distintivo do ser humano, em relação ao reino animal. Assim sendo, o símbolo, ao substituir na mente a experiência em si mesma, permite ao homem elaborar, em seu intelecto, uma quantidade imensa de informações que envolvem a codificação dos dados sensoriais em forma de palavras ou imagens, a sua memorização, a sua correlação com outros símbolos e o raciocínio (JUNG, 2008).

Considerando que a mente, no presente estágio evolutivo, funciona através de símbolos, a tradição cultural transmitida verbalmente há de utilizar algum simbolismo, visto que a realidade apreendida de forma direta e espiritual é incomunicável de outra forma.

Tomado nesse sentido, é evidente que o símbolo está intimamente relacionado a todas as manifestações tipicamente humanas. Assim sendo, utiliza-se o símbolo como abordagem deste trabalho, explorando seus significados diante do processo do adoecer da mulher com câncer de mama.

Fala-se sobre o símbolo, relacionando-o com o funcionamento cognitivo do ser humano, explicando como ocorre a simbolização, seus significados e suas representações. Assim pode-se compreender sua relação com o processo de adoecer da mulher com câncer de mama e com a sexualidade feminina.

A palavra “símbolo” deriva da palavra grega symballein, que significa algo como juntar, reunir. Para compreender a interpretação dos sintomas do ser humano em sua totalidade, são necessárias várias impressões individuais organizados em um padrão, ou seja, reunir todos os pequenos símbolos em um único símbolo abrangente (DAHLKE, 2004).

Segundo Ramos (1994) o símbolo é a expressão da percepção do fenômeno psique-corpo, feita através da percepção das alterações fisiológicas e das imagens referentes, sincronicamente. Ou seja, através de uma conexão inesperada entre imagens simbólicas da psique e de acontecimentos da realidade exterior.

Jung foi responsável por descrever categorias simbólicas e sua preocupação era mostrar que a intuição, a emoção e a capacidade de perceber e de criar por meio de símbolos são modos básicos de funcionamento humano.

Um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que, inversamente, um sofrimento corporal pode afetar a psique, pois ela e o corpo não estão separados, mas são animados por uma mesma vida (Jung apud Ramos, 1994).

Percebe-se, então, que a doença pode ter muitas causas, mas tem sempre uma finalidade: transformação.

Portanto, a emergência de alguma doença no corpo é, em sua maioria, uma manifestação simbólica em que a psique codifica apresentando ao corpo de maneira consciente para que possa haver uma conscientização psíquica da manifestação simbólica, a qual será responsável por possíveis mudanças favoráveis neste indivíduo ‘doente’ (ALT, 2000).
Destaca-se também a ideia central de que os pacientes psicossomáticos se diferenciam dos demais pela pobreza do seu mundo simbólico. O paciente psicossomático teria pouca ligação com seu inconsciente. Frente a qualquer estresse, esse paciente, por incapacidade de simbolizar, reagiria com uma doença somática (RAMOS, 1995).

Neste caso, o símbolo aponta uma disfunção, um desvio que precisa ser corrigido, quando a relação ego-Self fica alterada. Um sintoma seria então uma representação simbólica de uma desconexão ou perturbação no eixo ego-Self, o qual pode ser corporal ou psíquico (RAMOS, 1995).

Segundo Jung, um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que, um sofrimento corporal consegue afetar a alma; pois alma e corpo não são separados, mas animados por uma mesma vida (JUNG, 2007).

A doença se manifesta no corpo como um sintoma, é a expressão visível de um processo invisível, o qual deseja interromper nosso caminho como um sinal de advertência, indicando que alguma coisa não está em ordem.

Passa-se agora a considerar a relação símbolo / sexualidade. Neste ponto, busca-se compreender o que a mulher deixa na sombra pra não ter na consciência, mostrando que uma representação simbólica pobre da sua sexualidade pode contribuir para a manifestação do câncer de mama.

O significado do seio e da sexualidade aqui abordado está ligado à cultura ocidental, que considera o seio como símbolo de sexualidade da mulher.

Para Seixas (1998) a sexualidade humana é uma construção da espécie, vinculada às formas de relação interindividuais. É uma função normal, aceitável sob qualquer forma que se apresente.

Quando se trata da mulher, percebe-se que em cada época a sociedade dita como a mulher deve se portar sexualmente. Pode-se dizer ainda que as mulheres associam à sexualidade a ternura, aos sentimentos e aos afetos, havendo coerência maior entre os sentimentos sexuais e toda a vida emocional (MALUF, 2008).

Gradim (2005) afirma que mulheres com câncer de mama sofrem alterações diretas em um órgão tido como erótico e ligado à sexualidade feminina. Isto poderá afetar fortemente na representação e percepção da sua sexualidade e na sua vivência como mulher.

A doença e seus sintomas podem ser considerados como oportunidades de desenvolvimento em um aspecto duplo. Quando o indivíduo adoece, na maioria das vezes, é obrigado a se tornar honesto consigo mesmo, mostrando um padrão de vida, de atitudes e de comportamentos a serem resgatados (DAHLKE, 2004).

Ressalta-se que o câncer de mama sinaliza que a suave maneira feminina tornou-se um empecilho para o domínio da vida, que a suavidade se transformou em dureza e que, se as circunstâncias o permitem, é preciso renunciar totalmente a uma parte da feminilidade. A perda pode transformar-se em oportunidade para encontrar uma nova identidade individual.

Portanto, o câncer de mama é entendido como uma mensagem na qual a mulher ainda pode buscar uma “correção” para sua totalidade de ser. Esta ‘correção’ pode não garantir o controle do câncer, mas possivelmente contribui para sobrevida e qualidade de vida significante para a mulher, que consequentemente poderá vivenciar melhor sua sexualidade.


3 METODOLOGIA

Para o desenvolvimento deste estudo, realizou-se uma pesquisa de campo, que fornece dados para confrontamento teórico.

O método utilizado para realizar a pesquisa de campo foi o estudo qualitativo. Este estudo trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas. Corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis, ou seja, preocupa-se com um nível de realidade que não pode ser quantificado, respondendo a questões muito particulares (MINAYO, 2002).

A pesquisa foi realizada em um Hospital Geralda cidade de Teresina-PI, referência regional no tratamento do câncer.

Foi realizada com uma população de 10 mulheres, com idade entre 35 e 55 anos. Dentre estas, 5 foram mulheres que desenvolveram câncer de mama e 5 que nunca o apresentaram.

Inicialmente foi realizada uma entrevista (APÊNDICE A), apenas com o objetivo de traçar o perfil sócio-demográfico das entrevistadas.

Como procedimento de coleta de dados, foi utilizada a associação livre de ideias, método desenvolvido por Jung que trabalha através de símbolos. Para isso foram utilizadas figuras (APÊNDICE B) que remetem a sexualidade feminina, o qual visa fazer emergir conteúdos relativos a representação simbólica da sexualidade de cada mulher.

A associação livre de ideias consiste no fato de que à medida que o paciente fica livre do controle consciente (dentro dos limites possíveis), não permitindo que a coerência lógica se imponha ao seu relato, uma outra determinação se torne acessível: o inconsciente. Permite a atualização de elementos implícitos ou latentes que seriam perdidos ou mascarados nas produções discursivas (GARCIA-ROSA, 2005).

Utilizou-se nas entrevistas um gravador de áudio com garantia de maior fidelidade.

A autorização para a coleta de dados foi obtida pelo termo de consentimento livre e esclarecido, documento que expressa o compromisso de cumprimento de cada uma das exigências definidas na Resolução CNS 196/96. Trata-se de uma declaração elaborada pelo pesquisador, em que se esclarece, ao sujeito voluntário, a pesquisa pretendida, e não o contrário, uma declaração do sujeito de que foi esclarecido quanto à pesquisa (BRASIL, 1996). E também segundo os critérios éticos do Conselho Federal de Psicologia, resolução nº 016/2000. Após a coleta dos dados e leitura crítica e interpretativa das fontes, foram identificados e analisados todos os dados obtidos através da análise de conteúdo.


4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Sabe-se que o câncer de mama reflete, ao mesmo tempo em que favorece, o surgimento de muitas questões na vida das mulheres, como implicações sociais, psicológicas e sexuais. A análise do conteúdo traduzem representações subjetivas, familiares e sociais em torno do câncer de mama e da sexualidade feminina, descritas neste trabalho como: relação conjugal, significados do seio, auto-percepção, relacionamento familiar, percepção da sexualidade e medo da morte.

Em se tratando do modelo de relacionamento conjugal tradicional, este é pautado em valores que não são questionados. Os papéis de gênero são demarcados de forma rígida e a conduta feminina é enormemente controlada (HEILBORN, 2004).

As entrevistas mostraram que estas mulheres perceberam o relacionamento conjugal como ruim, que não foi “mil maravilhas”, não era prazeroso, uma mata cheia de espinhos, demonstrando insatisfação quanto ao marido, sendo que duas delas dão ênfase a uma visão negativa sobre o mesmo. A exemplo:

“Minha vida sexual não era mil maravilhas não, não era prazeroso, até porque meu esposo era grosseiro, não tinha afeto nenhum, mas eu o aceitava”. (Jasmim)

A submissão das mulheres à vontade sexual de seus maridos aparece neste estudo. Uma vez que, mesmo não tendo muito interesse pelo sexo naquele momento, elas o faziam. Uma delas mostra como se submetia a relação sexual contra a própria vontade para proteger os filhos ou preservar a imagem familiar:

“Quando ele chegava em casa, ele queria me obrigar a ficar com ele, eu me sentia forçada a ir, às vezes eu me sentia estuprada. (...) Eu me sentia obrigada a ter relações com ele pra evitar alarme (...) pra proteger os filhos”. (Tulipa)

Dentre as mulheres não portadoras do câncer de mama, todas elas relatam um relacionamento conjugal prazeroso. Destacam-se a seguinte fala:

“Meu marido me ensinou que nada disso é pecado, que é uma coisa muito natural”. (Lírio)

Isso mostra que apesar da rigidez educacional, estas mulheres conseguiram despertar-se para a sua sexualidade e sua feminilidade, relacionando-se bem consigo mesma e com o parceiro.

Costa (2004) relata que as mamas são zonas erógenas fundamentais, cuja estimulação isolada em algumas mulheres pode levar a atingir o orgasmo. Ele ressalta que apesar da ênfase dada à beleza da mama, a sensualidade da mulher é mais importante do que sua estética.

Duas das entrevistadas não portadoras do câncer de mama, trazem o prazer relacionado ao seio:

“(...) até mesmo em pegar (fala se tocando), é bom demais. Meu seio faz eu sentir alguma coisa né... prazer... e saúde também”. (Azaléia)

Já dentre as mulheres portadoras do câncer de mama, destaca-se a fala de uma delas no que se refere ao seio como prazer:

“Ah era muito maravilhoso descobrir o que prazer que a gente sente, a sensação no seio”. (Girassol)

Observa-se que esta fala é utilizada depois do surgimento do câncer, sendo que a entrevistada relatou várias vezes que antes do câncer, não se conhecia e não tinha contato com seu corpo.

Uma das portadoras que retirou um quadrante de um dos seios destacou o seguinte:

“(...) falta um pedacinho" (Jasmim)

A dificuldade de se ver ou de se ter um corpo mutilado pode trazer sentimentos que terão que ser trabalhos introspectivamente para aceitar a situação e, quando ela ocorre em um órgão de identificação feminina, leva a mulher a reconstruir um conceito sobre esse novo corpo. Uma das portadoras do câncer de mama relata o seguinte:

“Quando eu tirei, me senti nua (...)”. (Tulipa)

Isso mostra a dificuldade de entrar em contato com seu novo corpo e consigo mesma, simbolizando o seio como uma identidade, que lhe dava segurança e proteção.

Quanto ao contato / percepção do corpo, um ponto importante a destacar é que uma das mulheres portadoras do câncer de mama passou a ter maior contato com seu corpo, a se conhecer, se perceber, após o surgimento do câncer. Como afirma a teoria da doença como oportunidade de crescimento, o câncer surgiu como uma forma dela entrar em contato com seu próprio corpo e consigo mesma. A exemplo:

“Não me dava conta do meu corpo (...). Hoje cada pedacinho do meu corpo é importante pra mim”. (Girassol)

Um aspecto importante é destacado por uma das entrevistadas não portadoras do câncer de mama: a construção da sua imagem de acordo com a educação familiar rígida e a imagem percebida da mãe (com quem ela não queria se parecer) levando a repressão de sua sexualidade e adiando a descoberta do seu corpo:

“(...) quando minha mãe me teve ela tinha 14 anos, (...) isso pesou muito pra o despertar da minha sexualidade. Eu não queria ser igual a ela (...)”. (Lírio)

A perda do seio pode ter um impacto significativo, causando distorções na autoimagem e na percepção de si mesma. Destaca-se a seguinte fala:

“Me sinto desigual das outras” (Hortência)

Nesta fala nota-se o sentimento de “diferente, desigual”, mostrando que esta mulher ainda não desenvolveu estratégias para lidar com as dificuldades consequentes à alteração da imagem corporal. Às vezes uma doença / sintoma apontam que algo está errado, que precisa de atenção e de cuidado, como aparece na fala de uma entrevistada portadora do câncer de mama, que passou a se perceber e se amar após o surgimento da doença:

“(...) eu aprendi a me amar”. (Girassol)

Outro ponto a destacar é que dentre as cinco mulheres portadoras do câncer de mama, uma (que não se separou) evita entrar em contato com os seus sentimentos, observado na seguinte fala:

“Eu sou uma mulher que não gosta de tristeza, eu vou à praça, gosto de ficar rindo, eu não gosto de ficar triste, eu já invento outra coisa... ficar sozinha é muito ruim...” (Hortência)

Percebe-se aqui que estar sozinha favorece a oportunidade do surgimento de pensamentos inoportunos, referindo-se a uma situação que foi evitada durante toda a sua vida.

Duas das entrevistadas não portadoras do câncer de mama destacam a educação rígida e o conservadorismo da família ao falar sobre sexualidade. A exemplo:

“(...) eu sempre tive uma educação... assim, muito rígida, muito travada, onde sexualidade era um tabu. (...) falar de prazer sexual era um verdadeiro absurdo”. (Lírio)

Apesar da educação rígida recebida, essas mulheres puderam se perceber como mulher e descobrir sua sexualidade após o relacionamento com o parceiro.

A sexualidade é inerente ao ser, é parte da nossa vida e está presente no nosso modo de ser. De um modo geral, sabe-se que a doença nem sempre é um obstáculo para a prática sexual. No caso de mulheres com câncer de mama, há alteração direta em um órgão tido como erótico e ligado à prática sexual (GRADIM, 2005).

Uma das mulheres não portadoras do câncer de mama refere-se à sua sexualidade como “estar bem consigo mesma”:

“Eu acho que a sexualidade da pessoa depende muito do estado de espírito da pessoa, (...) é você estar bem consigo mesma e com a sua cabeça”. (Camélia)

Outra fala mostra como a entrevistada (não portadora do câncer de mama) simboliza sua sexualidade como uma borboletinha, que antes ela voava sem rumo e hoje sabe a altura que voa, mostrando que hoje ela possui um contato maior, mais seguro e mais experiente com sua sexualidade:

“Uma borboletinha... é isso! Antes ela voava meio sem rumo e hoje ela já sabe a altura que ela voa”. (Camélia)

Uma das mulheres portadoras do câncer de mama retrata que após a perda da mama havia perdido sua sexualidade. Ela associa o seio como um fato denominador da sua sexualidade:

“Quando eu perdi a mama, senti que não tinha mais”. (Tulipa)

A temática confirmação do câncer de mama é geralmente associada a uma doença com desfecho ruim, a possibilidade da morte. Na fala de duas entrevistadas, o câncer representa a morte. Uma delas ainda enfatiza não se importar em perder o seio, contanto que ainda possa viver:

“(...) não me importo em tirar o seio, pode tirar tudo, se for pra salvar a minha vida e viver mais”. (Violeta).

Estes relatos mostram a preocupação delas diante da possibilidade da morte, além dos sentimentos de incerteza e ansiedade e uma delas ainda enfatiza que não se importa em perder o seio, contanto que sua vida seja salva. Isso mostra que mais uma vez o câncer está associado a uma doença carregada de negatividade que momentaneamente parece afastar qualquer sentimento de esperança para a continuidade da vida.

Segundo Rossi; Santos (2003) ao receberem o diagnóstico de câncer de mama as mulheres passam a ter consciência da morte iminente, além de sentimentos como tristeza e angústia.

Por isso, constata-se que o medo da morte é um fator muito presente em pessoas que desenvolveram o câncer.


5 CONCLUSÃO

Os incômodos trazidos pelas mulheres participantes deste estudo englobam aspectos existenciais, como contato com o corpo, percepção de si mesma e relação com o ambiente à sua volta.

Culturalmente a mulher ainda é criada e educada para ser mais reservada e não demonstrar desejo. No conteúdo das entrevistas, percebe-se a submissão de algumas mulheres portadoras do câncer de mama à vontade sexual de seus maridos em detrimento da sua.

Nota-se que as mulheres não portadoras do câncer de mama, mesmo aquelas que tiveram uma educação rígida e repressora, puderam vivenciar e experienciar várias questões subjetivas referentes à sexualidade e a feminilidade, sentindo mais prazer, tocando-se, conhecendo-se. Já as portadoras do câncer de mama tiveram menos prazer, menor contato consigo mesma e com o corpo.

Foi possível, entretanto, observar que algumas das mulheres portadoras do câncer de mama apresentaram dificuldade no que diz respeito ao relacionamento conjugal. Três delas se divorciaram e ficaram vários anos sem manter nenhum tipo de relacionamento amoroso ou sexual, dedicando-se apenas ao cuidado dos filhos.

A desinformação e a rigidez na educação dos pais são evidenciadas no depoimento de uma das entrevistadas não portadoras do câncer de mama, quando diz que a educação rígida que recebeu dificultou e adiou o despertar da sua sexualidade, vindo a se descobrir apenas após o relacionamento com o parceiro. As não portadoras do câncer de mama fazem uma avaliação positiva em relação a sua autoimagem e a sua autoestima. Já as portadoras fazem uma avaliação negativa a respeito do seu corpo, com exceção de uma delas que se percebe positivamente, mas ressalta-se que isso ocorreu somente após o surgimento do câncer.

Para uma das entrevistadas portadora do câncer de mama, o câncer surgiu como uma possibilidade de contato consigo mesma, onde ela passou a se dar valor e a se amar depois do aparecimento da doença. A mudança desta mulher pode ser vista como uma forma de enfrentamento, vindo a mostrar que, mesmo após seu surgimento, ainda é possível se amar, se valorizar, ter desejo, ter prazer, ser mulher.

A sexualidade, como qualquer outro campo da vida do indivíduo, requer um aprendizado que se faz socialmente, fazendo parte do construto da identidade feminina e de como a vivenciamos. Isso pode contribuir para que a mulher entre em contato ou não com os aspectos subjetivos da sexualidade e feminilidade.

O sintoma surge como uma possibilidade de voltar ao equilíbrio, mostrando que algo no ser está disfuncional e precisa de atenção e de cuidado.

Ressalta-se que existem diversas pesquisas que envolvem e discutem incessantemente questões referentes ao medo, aos conteúdos e significados que surgem na mulher após o aparecimento do câncer de mama. Mas, poucas falam e se preocupam em saber como elas viviam antes da doença, como era sua estrutura emocional, como vivenciavam seu próprio corpo, sua sexualidade, sua feminilidade e como isso pode ter contribuído para o surgimento da doença.

Por fim, destaca-se que esta pesquisa não objetiva demonstrar caminhos para evitar o câncer de mama. Mas o fato é que, entrevistar mulheres não portadoras do câncer de mama e fazer uma comparação com as portadoras, fez-se de suma importância para que se pudesse perceber como a vivência satisfatória da sexualidade, feminilidade, sensações e desejos, são essenciais para que elas possam estar em equilíbrio, não construindo ou oportunizando o surgimento de doenças psicossomáticas como o câncer.


REFERÊNCIAS

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HEILBORN, M. L. Dois é par: gênero e identidade sexual em contexto igualitário. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

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JUNG, C. G. O homem e seus Símbolos. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

MALUF, M. F. M. O perfil da sexualidade em mulheres com câncer de mama [Dissertação]. São Paulo: Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, 2008. 190p.

MINAYO, M. C. S. Pesquisa social: teoria, método e criatividade / Suely Ferreira Deslandes, Otavio Cruz Neto, Romeu Gomes; Maria Cecília de Sousa Minayo (organizadora). 31 Ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2012.

RAMOS, D. G. A Psique do Coração: uma leitura analítica do seu simbolismo. 10ª ed. São Paulo: Cultrix, 1995.

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ROSSI, L.; SANTOS, M. A. Repercussões psicológicas do adoecimento e tratamento em mulheres acometidas pelo câncer de mama. Psicologia Ciência e Profissão, v.23, n.4, p. 32-41, 2003.

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SEIXAS, A. M. R. Sexualidade feminina: história, cultura, família - personalidade & psicodrama. São Paulo: SENAC, 1998.

Suzanne Maria de Carvalho Leal
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