Tuberculose em pets: relatos de casos e importância para a Saúde Pública

Tuberculose em pets: relatos de casos e importância para a Saúde Pública
VETERINARIA
INTRODUÇÃO

A tuberculose é uma doença infecciosa, crônica e de importante cunho social até os dias atuais. Atualmente, a descoberta do vírus HIV aliado ao uso indiscriminado de antibióticos, causando resistência, tem trazido a tona a ocorrência de inúmeros novos casos da doença, em seres humanos. Um dos agentes causadores da tuberculose é uma bactéria em forma de bacilo, denominada Mycobacterium bovis. Esse microrganismo é capaz de causar a infecção em animais de diversas espécies sendo que nas espécies susceptíveis, a doença cursa com infecção respiratória, principalmente. Embora seja uma doença de ocorrência predominante em animais da espécie bovina, principalmente em vacas leiteiras e em seres humanos, o microrganismo causador já foi isolado em animais pets (cães e gatos).

RELATOS DE CASOS

Um caso relatado na literatura ocorreu em novembro de 2004 com um cão de 6 anos de idade, do sexo masculino, raça border collie residente de uma zona rural americana. O cão apresentava febre, inapetência, perda de peso e diarreia. Após ser medicado e liberado, o animal foi readmitido ao hospital, apresentando vômitos e piora na condição clínica, motivo que o levou a ser submetido a exames que detectaram alterações hepáticas. Durante esses exames, a biópsia revelou a presença de lesões semelhantes às causadas pelo agente e testes de coloração detectaram a presença de bacilos pertencentes à espécie Mycobacterium bovis no fígado do animal. Devido à severidade do quadro, após alguns dias de tratamento, o animal foi submetido à eutanásia e submetido à necropsia. Técnicas de exames laboratoriais confirmaram o diagnóstico. Estabeleceu-se então uma pesquisa epidemiológica para verificação da origem dessa infecção. No entanto, não houve sucesso uma vez que o animal não apresentava contato com gado e com nenhuma outra pessoa doente. O fato de o animal apresentar lesões em órgãos do sistema gastrointestinal (no caso o fígado) e diarreia sugeria que a via de infecção com o microrganismo tinha sido a ingestão de material contaminado com bacilos o que se deu provavelmente durante um passeio. Soma-se a isso o fato desse agente ter sido isolado, previamente, em lesões de pessoas da população onde o cão residia.

Outro caso de igual importância ocorreu no ano de 2000 em uma gata fêmea residente em uma região também de grande ocorrência para o Mycobacterium bovis, em bovinos e animais silvestres. A morte do animal foram observadas lesões também no fígado, nos pulmões e no intestino e a gata apresentava-se magra.
DISCUSSÃO

Embora não seja uma doença de ocorrência primária na clínica médica de pequenos animais, existem fatores a serem considerados no que se refere à tuberculose, principalmente devido ao seu caráter zoonótico. Existem diversas formas dos pets adquirirem a doença, por exemplo, pela ingestão de leite cru contaminado, carnes não cozidas e pelo contato com animais doentes (silvestres ou domésticos) sendo essa última, transmissão pela via aerógena. Atualmente, apesar de existirem exames que permitam o diagnóstico em bovinos e em humanos, não existe um método que demonstre a infecção em animais. Também não existem mecanismos de prevenção para a doença em pets, como a vacina que é utilizada em seres humanos.

Além disso, excluindo-se a espécie humana, não se recomenda o tratamento de outras espécies. Isso porque a tuberculose é ainda hoje uma doença de grande importância médica para o homem e o animal doente pode servir de fonte de contaminação. A tuberculose é uma doença grave e passível de controle tanto em animais como no homem, sendo que a convivência entre eles faz com que haja possibilidade de transmissão, nos dois sentidos, tanto do animal para o homem quanto do homem para o animal. Assim, é de fundamental importância para a saúde pública e para a saúde animal que se adotem medidas de prevenção, sendo as mais importantes evitar fornecer aos pets produtos de origem animal (leites, queijos e carnes crus) e atentar para que se exclua a possibilidade de contato com outros animais possivelmente infectados e até mesmo com secreções humanas durante passeios.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ABRAHÃO, R. M. C. M. Tuberculose humana causada pelo Mycobacterium bovis: considerações gerais e a importância dos reservatórios animais. 1998. 398 f. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo.

ELLIS, M. D.; DAVIES, S.; McCANDLISH, I. A. P.; MONIES, R.; JAHANS, K.; DE LA RUA-DOMENECH, R. Mycobacterium bovis infection in a dog. The Veterinary Record, v.159, p. 46-48, 2006.

KANEENE, J. B.; BRUNING-FANN, C. S.; DUNN, J.; MULLANEY, T. P.; BERRY, D.; MASSEY, J. P.; THOEN, C. O.; HALSTEAD, S.; SCHWARTZ, K. Epidemiologic investigation of Mycobacterium bovis in a population of cats. American Journal of Veterinary Research, v. 63, n. 11, p. 1507-1511, 2002.

Patricia Rossi Moriconi
Atualmente trabalha na Vigilância Sanitária de Campinas e como docente na Universidade Paulista. Mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal - FMVZ-USP. Pós-graduada pelo Instituto Pró-Alimento em Dinâmica da Segurança Higiênico-Sanitária dos Alimentos. É Médica Veterinária graduada pela Universidade de São Paulo (2009).
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