O conceito cristão para uma vida responsável.

O conceito cristão para uma vida responsável.
RECURSOS-HUMANOS

SUMÁRIO

 

INTRODUÇÃO...................................................................................................................... 07

 

1  ÉTICA CRISTÃ: UMA POSSIBILIDADE DE SUSPENSÃO DA MORALIDADE. 09

 

1.1  A SITUAÇÃO DA ÉTICA CRISTà EM RELAÇÃO A OUTRAS ÉTICAS............. 09

1.2  A SUSPENSÃO DA CONSCIÊNCIA EM JESUS CRISTO.................................... 12

 

2  ÉTICA CRISTÃ E A FÉ EM JESUS CRISTO............................................................. 17

 

2.1  EXPERIÊNCIA DA FÉ COMO TENDÊNCIA  UNIVERSAL DO HOMEM............ 18

2.2  A IDENTIDADE RELIGIOSA DO SER HUMANO E O LUGAR DA  EXPERIÊNCIA DE DEUS     19

2.3  A ÉTICA CRISTÃ DETERMINADA PELA RELAÇÃO DO HOMEM                 COM JESUS CRISTO      21

2.3.1  Agir e viver a partir origem da vida: Jesus Cristo.................................................. 22

2.4  VIVER A FÉ  A PARTIR DO LUGAR CONCRETO E LANÇAR-SE AO ENCONTRO         24

 

3  A VIDA  RESPONSÁVEL............................................................................................... 28

 

3.1  JESUS CRISTO – REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE..................................... 29

3.2  A AÇÃO A PARTIR DE REDUÇÕES........................................................................ 30

3.2.1  A verdade científica e a ética cristã......................................................................... 32

3.3  A AÇÃO EM CONFORMIDADE COM A REALIDADE........................................... 33

3.3.1  Conformação com Jesus no caminhar da vida.................................................... 35

3.3.2  A ação concreta.......................................................................................................... 37

3.4  A RESPONSABILIDADE PARA COM O PRÓXIMO............................................... 38

3.5  A LIBERDADE HUMANA PARA A AÇÃO RESPONSÁVEL................................ 40

 

CONCLUSÃO........................................................................................................................ 44

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................................. 46

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

Hoje se vive uma crise ética. Faltam valores que guiem a vida das pessoas. Mas com a crise vem a purificação. Surge daí a exigência de um novo modo de orientação da vida do homem. O discurso da ética cristã quer ser uma resposta à crise e apontar ao ser humano um caminho para a vida plena.

Diante do contexto atual onde há uma diversidade de reflexões éticas, há lugar para a ética cristã? Há, mas ela se coloca num nível diferente de outras éticas porque quer abordar o agir do ser humano a partir da origem que é Deus. Cada homem pode assumir uma ação cristã a partir do momento que se lançar na aventura do encontro com Cristo.

A pesquisa tem como objetivo estudar os fundamentos de ética cristã para os dias atuais a partir da concepção ética de Dietrich Bonhoeffer, com algumas referências a Sören Kierkegaard e outros autores modernos.

O primeiro capítulo trata da ética cristã como uma possibilidade de suspensão da moralidade. É um salto que é dado de uma vivência ética a partir do geral, para uma vivência religiosa determinada a partir de Deus. Esta suspensão é um ir além. Ética cristã não está no mesmo nível de outras éticas. É a ética colocada a partir da origem - Deus.

O segundo capítulo apresenta a ética cristã a partir da fé em  Cristo. A ação do cristão só vai brotar a partir do encontro de fé com o Deus vivo. E este Deus se revelou na pessoa de Jesus Cristo. É no encontro de fé com Jesus que o homem começa a viver uma nova realidade. E esta nova vida a partir da origem só se realiza no lugar concreto onde está cada ser humano.

O terceiro capítulo é uma reflexão sobre a vida responsável.  É a ética cristã abordada a partir de uma terminologia não bíblica, com o objetivo de trazer Jesus Cristo para mais perto do homem moderno. A ‘responsabilidade’, tão explorada pelos pensadores modernos, principalmente os existencialistas, é transposta no sentido de um comprometimento incondicional com a pessoa de Jesus Cristo.

Na responsabilidade para com Cristo abre-se uma nova realidade, que é a do amor e doação ao próximo. Ao voltar-se para a outra pessoa, o ser humano de certa maneira repete ou reproduz o voltar-se de Deus para o ser humano.

Toda a ação em responsabilidade só é possível a partir da liberdade do homem. O homem não se compromete por causa de uma imposição. Só é possível uma autêntica experiência de vida e ação cristãs a partir da liberdade, ou seja, na abertura e doação voluntária para com Jesus Cristo e sua realidade.

 

1  ÉTICA CRISTÃ: UMA POSSIBILIDADE DE SUSPENSÃO DA MORALIDADE

 

1.1 A SUSPENSÃO DA MORALIDADE

 

Para um início de abordagem da ética cristã faz-se necessário situá-la em relação à outras éticas.  Tanto Dietrich Bonhoeffer, quanto Sören Kierkegaard utilizam uma categoria importante para um ponto de partida desta ética: “Suspensão da moralidade”. Esta categoria estabelece uma relação da ética cristã com a moralidade em geral. Bonhoeffer escreve o seguinte: “A noção do bem e do mal parece ser o alvo de toda reflexão ética. A primeira tarefa da ética cristã consiste em suspender este saber. (...) A ética cristã reconhece já na possibilidade da noção do bem e do mal o rompimento com a origem. O ser humano em sua origem só sabe de uma coisa: Deus”[1].  

Sören Kierkegaard fala da suspensão da moralidade de modo diferente: mostra a relação entre o homem que age a partir da fé e o homem que age a partir da moralidade. Ele afirma que

 “a fé é exatamente aquele paradoxo conforme o qual o indivíduo se acha como tal acima do geral; (...) é o indivíduo quem depois de ter estado como tal subordinado ao geral, consegue ser agora, graças ao geral, o indivíduo, e assim sendo superior a este; de modo que o indivíduo como tal acha-se em relação absoluta com o absoluto”[2] .

 

Embora dito de modo diferente, esta idéia de Kierkegaard é semelhante à de Dietrich Bonhoeffer da suspensão do saber do bem e mal que a ética cristã estabelece.

A afirmação de que na ética cristã há uma suspensão da moralidade não pretende negar a moralidade. Há um princípio geral inerente ao ser humano. Este princípio é a moralidade, que é a “qualidade dos atos humanos, devido a qual esses atos são bons ou maus”[3]. E é impossível negar sem mais a noção de bem e de mal inerente a cada homem. Todo ser humano está já dentro de uma busca de adequar-se às leis do geral. Kierkegaard, ao se referir à moralidade afirma o seguinte: “A moralidade, por si mesma, está no geral, e sob este aspecto aplica-se a todos. Descansa imanente em si própria, sem ter nada exterior que constitua o seu fim, sendo ela própria fim de tudo quanto lhe seja exterior; e desde que se tenha integrado nesse exterior não vai mais além”[4]. Isso quer dizer que a moralidade é a noção de bem e de mal que todos possuem e que não pode ser negada pela ética cristã, nem por qualquer pessoa ou ciência.

Em vários teóricos da ética, está presente uma busca séria e radical de abordar a ética. Assim como eles, toda pessoa que vive uma vida engajada e responsável consigo mesma e com as outras pessoas está na plenitude das possibilidades do agir a partir da moralidade. 

A ética cristã, não abole qualquer tipo de moralidade ou vivência ética, seja ela dos gregos, dos modernos, ou de qualquer homem aplicado na busca de agir a partir de um sentido nobre. O que ocorre é que ela é radicalmente diferente, por se colocar desde outro ponto de partida.

Toda ética é uma busca de distinguir entre o bem e o mal, ou o moral e o imoral. O homem nisso vai tentar viver a partir de uma atitude nobre, que mais condiga com a sua dignidade.  A suspensão da moral que propõe a Ética Cristã não significa aniquilação ou supressão da moral.

Suspender, (segundo Dicionário Aurélio) significa deixar pendente; fazer ou conservar pendente ou pendurado; interromper temporariamente. Outra palavra da mesma família de suspender é pendurar, que significa, suspender alguma coisa em lugar mais elevado; estar na dependência, depender. Vistas estas palavras, percebe-se que suspender traz algo de contraditório. É a colocação de algo em lugar mais elevado e também é tirar a validade temporariamente. Não é propriamente abolir ou suprimir.

Colocar em lugar mais elevado é agir a partir de um princípio superior. Kierkegaard para se referir a esta suspensão da moral usa o termo ‘paradoxo’. O Dicionário Aurélio traz paradoxo como: “conceito que é ou parece contrário ao comum; contra-senso, absurdo, ou contradição, pelo menos na aparência”. Este sentido parece revelar bem o que Kierkegaard entende por paradoxo. É uma elevação da moral a um nível mais elevado, mas aos olhos da própria moral é um absurdo, é incompreensível.

Um exemplo claro do paradoxo ético é o sacrifício de Isaac, exigido por Deus a Abraão (Gênesis 22, 1-19). Deus submete Abraão a uma prova, exigindo o sacrifício de seu filho obtido após longa espera. Pede a Abraão aquilo que constituía o único fundamento humano de sua fé e a garantia das promessas. Aos olhos da moral o que Abraão tem que fazer é um assassinato. Mas a partir da fé é a prova, feita por Deus a Abraão. Não há explicação racional disto. Só se pode dizer que ele creu e se dispôs a sacrificar o filho.

Abraão não se justifica diante da mulher, ou de seu criado que o acompanha até ao pé da montanha do sacrifício. Esta justificação demonstraria que sua ação estaria subordinada ao geral. Visto com seriedade este ato de Abraão chega a causar terror para a compreensão da moral.

Aos olhos da moral, o sacrifício de Isaac é um caso de assassinato porque o pai não tem o direito de matar o próprio filho, antes tem o dever de amá-lo. Sua ação parece negar o seu amor para com Isaac. Mas não é o dever com o geral que Abraão expressa em sua ação. Por isso, ela não tem o significado de falta de amor para com seu filho. Ele o ama ainda mais, mas com outra qualidade de amor.

 

O paradoxo da fé está, pois, em que o indivíduo está acima do geral, de modo que, para lembrar uma distinção dogmática, o Indivíduo determina sua relação com o geral tomando como referência o absoluto, e não a relação ao absoluto com referência ao geral[5].

 

É a partir da relação pessoal de Abraão para com Deus que surge a necessidade de imolar o seu filho. O texto bíblico diz: ‘Deus submeteu Abraão à prova’. Quer dizer que Deus, e não seu dever para com o geral exige de Abraão que ele sacrifique seu filho.

Na ética, o geral é tomado como lei e norma. O geral é, de certo modo, o absoluto. Quem desobedecer ao preceito do geral, ou como coloca Kant: quem não agir em conformidade como o universal, não age corretamente. Para a ética cristã, esse dever com o universal deve ser suspenso. O fundamento do dever precisa estar em primeiro lugar relacionado para com Deus.

Se amar a Deus é um dever absoluto, a moral se acha rebaixada ao relativo. De qualquer maneira não se conclui daí que a moral deva ser abolida, porém recebe uma expressão muito diversa, a do paradoxo, de modo que, por exemplo, o amor para com Deus pode levar o cavaleiro da fé a dar ao seu amor com relação ao próximo a expressão diversa daquilo que do ponto de vista moral, é o dever[6]

 

Se não existir um modo diferente de agir, subordinado ao absoluto, Abraão não deve ser considerado o pai da fé e sua ação é um engano decorrente de uma crise religiosa.  Mas como entender o paradoxo, a fé, ou seja, a suspensão da moral?

Explicar por explicar não teria nenhum sentido. É como dizer que a fé em Cristo possa se dar ao luxo de uma compreensão descomprometida. “Se nos tempos antigos, o espantoso era que a gente pudesse se escandalizar, agora o espantoso é que não há o espanto, que a gente se torna num instante, antes de ter olhado ao redor de si, um pensador especulativo que especula sobre a fé” [7]. Não se pode entender o paradoxo, e por isto não se pode falar a respeito dele de modo descomprometido.

Assim como Abraão, toda pessoa num certo nível de sua vida age de modo inacessível e até de certa forma incompreensível para outras pessoas.  A fé de Abraão é única, irrepetível e incompreensível. A experiência religiosa de cada pessoa é também única e irrepetível. E a ética cristã vem ao encontro desta individualidade ímpar da ação do homem e nisto se diferencia de outras éticas.

 

1.2  A SUSPENSÃO DA CONSCIÊNCIA EM JESUS CRISTO

 

A busca do caminho estreito da fé cristã se dá a partir da ação de um indivíduo. O agir de cada cristão não pode uma cópia da ação de outra pessoa, mas é cada vez único, como cada pessoa é única em sua individualidade.  A ação em conformidade com Jesus Cristo exige uma suspensão da moralidade, porque chama ao comprometimento exclusivo com Deus. Esta relação para com Deus vai determinar a relação com o próximo e com todas as coisas.

A consciência é a sustentação da pessoa a partir de si mesma. É a instância da pessoa que aprova ou incrimina suas ações. Ela conserva a unidade da pessoa para consigo mesma. É o homem, somente a partir de si mesmo, que tem de assumir a vida. Frente às pessoas, coisas e acontecimentos, o homem precisa dar um sentido a partir de si para sua vida.

Pela consciência, o ser humano dá sentido a partir de si mesmo. Ele assume o que verdadeiramente tem sentido. É chamado a tomar uma decisão para o bem de sua vida em conformidade com o geral. “Devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne lei universal”[8]. Ele distingue o bem e o mal; e dentro de uma honestidade assume o bem para si mesmo. Quando não acontece isto, ele não se justifica diante de si mesmo e das pessoas. Sua ação não se torna universal, porque subverte uma lei da consciência.

Mas, a consciência, entendida do modo como foi exposto, pode atravancar o comprometimento do homem para com a pessoa viva; exigido por Deus no Evangelho de Cristo. Neste sentido, se expressa Dietrich Bonhoeffer:

 

Se Kant, partindo do princípio da veracidade, chega à grotesca conclusão de que eu deveria responder com sinceridade também ao assassino que invadiu minha casa em perseguição a um amigo meu, neste caso a autojustificação da consciência, exacerbada até a insolência ultrajante, bloqueia a ação responsável. Se responsabilidade é a resposta global e condizente com a realidade que o ser humano dá ao chamado de Deus e do próximo, aqui transparece claramente o caráter parcial da resposta dada por uma consciência comprometida com princípios. A recusa de ferir o princípio de veracidade por causa do meu amigo, a recusa de mentir descaradamente por causa do meu amigo – pois toda tentativa de minimizar o fato da mentira procede novamente da consciência legalista e autojustificadora -, a recusa, portanto, de assumir culpa por amor ao próximo me coloca em contradição com minha responsabilidade fundamentada na realidade.[9].

 

Bonhoeffer não afirma que a consciência não tenha o seu valor único. Ela deve ser preservada, e por isso a liberdade e a igualdade de direitos precisam ser garantidas de modo concreto pelas constituições e códigos legais. Se suplantada pode levar às maiores aberrações. Um exemplo disto é o nazismo que pregava unicamente a superioridade da raça alemã. Por um tipo de lavagem cerebral inculcava esta idéia, a partir da qual se degradaram milhares de pessoas que eram considerados inferiores. 

Uma ação a partir de uma suspensão (não superação) da consciência e em conformação com Cristo é sempre assumida livremente pela pessoa, nunca imposta. Descarta-se de antemão uma imposição da fé às massas, como foi imposta uma ideologia por regimes totalitários.

Pode-se dizer que a fé em Cristo exige uma renovação da consciência, ou como diz São Paulo, uma “renovação da mente” (Rm 12,2) E esta renovação da consciência pede um comprometimento profundo com o ser humano: “Amem os seus inimigos, e façam o bem aos que odeiam vocês” (Lc 6, 27), e “não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos”( Jo 15, 13 ). É um aperfeiçoamento da lei e um compromisso superior, a partir de Deus “sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu” (Mt 5, 48).

Quando Jesus age contra a lei é somente para fazer valer ainda mais a dignidade do ser humano: “É permitido fazer cura no dia de sábado? ‘Suponham que um de vocês tem uma só ovelha, e ela cai num buraco em dia de sábado. Será que ele não a pegaria e não a tiraria de lá? Ora, um homem vale muito mais do que uma ovelha! Logo, é permitido fazer uma boa ação no dia de sábado’”( Mt 12, 9-12).

Jesus não veio para suplantar a autonomia ou a consciência do ser humano:

 

também a consciência libertada em Jesus Cristo coloca ação responsável diante da lei, por cujo cumprimento o ser humano é preservado na unidade consigo mesmo baseada em Jesus Cristo e de cujo desprezo só pode nascer irresponsabilidade. É a lei do amor a Deus e ao próximo, como está explicitada no Decálogo e no sermão da montanha. (...) Também como libertada, a consciência continua sendo o que era, ou seja, o elemento premonitório da transgressão da lei da vida. Mas, como a lei não é mais a última instância, e sim Jesus Cristo, na disputa entre a consciência e a responsabilidade concreta deve acontecer a livre decisão por Cristo[10].

 

A ação em comprometimento com Deus, a primeira vista pode parecer que suprime a lei e se coloca a partir da arbitrariedade. Mas isto é só aparente. Nisto vale a palavra de Cristo: “Não pense que eu vim abolir a lei e os profetas” (Mt 5, 17). O compromisso unicamente com Cristo liberta o ser humano de egoísmos e de legalismos.

A ação do cristão não vai ser determinada unicamente pela consciência. Esta é elemento inalienável, mas não quer perder-se, não macula sua inocência. O homem que busca a liberdade de Cristo aprimora a lei e chega a assumir a responsabilidade pelos outros, mesmo que isso o torne culpado diante de sua consciência.

No caso descrito por Kant, o homem teria agido de forma a defender seu amigo. Mesmo sabendo onde ele está, teria mentido descaradamente para o assassino que vem a procura dele. Isto o torna culpado diante de sua consciência porque ele mentiu. Mas com certeza teria feito valer as palavras de Jesus: “Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15, 13 ). O homem que age assim não o faz porque se acha todo poderoso, mas por causa de seu amor para com Deus e com o próximo concreto, que precisa dele naquele momento. 

A ação a partir de um compromisso para com Deus só é possível através de uma conversão que pode ser comparada a uma metamorfose. A ética cristã parte do pressuposto concreto de o ser humano voltar-se inteiramente para Cristo, começar a viver a partir Dele e permanecer neste caminho a vida toda. Por isso, acolher ou não Jesus Cristo é o decisivo para esta ética. O maior entrave para o homem é a não aceitação e a indiferença diante de Dele. 

Em Jesus Cristo há uma suspensão da moralidade. Isto quer dizer que o homem é chamado a agir em primeiro lugar a partir da relação com Jesus Cristo. Mas, falando assim pode parecer que a ética cristã ainda esteja no nível de uma ética compreensível à razão humana, porque se faz um discurso pretensamente compreensível a seu respeito. Mas aí se encontra um grande perigo, que  é o de achar que já se está vivendo a fé cristã somente por dar uma explicação a respeito de Jesus Cristo ou buscando nele sabedoria de um grande mestre espiritual.

Jesus Cristo, para quem foi seu contemporâneo ou para o homem de qualquer época é sempre um “paradoxo”. Paradoxo, como já foi abordado acima, é uma contradição ao menos na aparência. Jesus Cristo se apresenta como um paradoxo porque sua aparência corporal é de homem contingente e limitado, igual a qualquer outro. Mas ele chama as pessoas a crerem nele, o que só é devido a Deus. E este, por sua natureza, é infinito e ilimitado; como então pode ser homem finito?

Este é o grande paradoxo: Jesus Cristo é Deus e homem ao mesmo tempo. Mas, por aparentemente ser homem e mesmo assim confessar-se Deus, um relacionamento verdadeiro para com Ele só pode ser firmado a partir da fé. Exige que a pessoa acredite somente em sua palavra e em sua pessoa. Esta é a grande loucura e escândalo da qual falou São Paulo: “Porque os judeus pedem sinais, e os gregos procuram sabedoria, enquanto nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os pagãos, mas poder e sabedoria de Deus para os chamados, quer judeus, quer gregos” (1Cor 1, 22-24).

Para início de colocação, então, é importante deixar bem claro que o discurso da ética cristã apresenta a dimensão e o limite do paradoxo, que exige em primeiro lugar a fé viva e exclusiva na pessoa de Jesus Cristo. Vale repetir que isto coloca a ética cristã numa situação solitária em relação a outros tipos de ética, o que foi denominado como suspensão da moral. Ética cristã se coloca sempre a partir da  convocação para a fé na pessoa de Jesus Cristo, eterno paradoxo.


2  ÉTICA CRISTÃ E A FÉ EM JESUS CRISTO

 

Ética é um adjetivo substantivado em cuja origem etimológica encontra-se dois termos gregos: “eqoV” (éthos) – costume, uso, maneira (exterior) de proceder; ética também é derivada de hqoV (?êthos) – morada, habitual, toca, maneira de ser, caráter”[11].

Cristã, é um adjetivo feminino de cristão. Cristão, por sua vez, é um adjetivo que indica pertença.  Cristã significa que pertence ao cristianismo; ou que professa o cristianismo.

A ética cristã, a partir da etimologia seria o modo de ser e agir do cristão. É a morada, onde o ser humano age a partir de sua fé. Esta definição parece bastante categórica e racionalmente completa. Mas dela surge à questão: o que é a fé em um Deus?  ou: qual é a identidade cristã?

Estas são perguntas que a primeira vista parece exigir uma resposta dada como as outras de outro nível, como, ‘qual é o modo de ser dos militares?’ E a resposta seria que o modo de ser dos militares é o da disciplina e do exercício. O que dá aos militares um caráter de disciplinados e experientes em fazer guerra para defender um país.  Mas parece que para a ética cristã não há uma definição pontual deste tipo.

Na tentativa de definir uma ética que seja cristã é necessário um qualificativo que está além da definição racional. Entra na definição o qualificativo da fé.  Mas o que é esta fé? Como ela se explicita? A princípio pode-se dizer que fé é a experiência das pessoas que crêem na revelação e encarnação de Cristo: “A origem da ética cristã não é a realidade do próprio eu, nem a realidade do mundo, tampouco a realidade das normas e valores, mas a realidade de Deus na sua revelação em Jesus Cristo. “[12]  

O determinante para se conceber a possibilidade da ética cristã é a experiência da fé em Jesus Cristo. Então, para estudar a ação a partir da fé em Deus é importante ver o que alguns pensadores falam da experiência de fé no geral, não se referindo ainda à fé cristã. É talvez a resposta para a questão que está na mente de muitos homens modernos, que é pela possibilidade de constatar no homem a sede de absoluto, ou seja, a fé em Deus.

 

2.1  EXPERIÊNCIA DA FÉ COMO TENDÊNCIA UNIVERSAL DO HOMEM

 

A crença em Deus é algo que faz parte da estrutura do ser humano e é definida por alguns como “tendência universal do homem”[13]. O modo de constatação pode-se dizer que o ser humano, ao longo da história sempre creu em algo “irredutível ao profano”. Isto pode ser visto em grandes escritores da humanidade. Cícero, (sec. I a.C.), afirma: “Não há povo tão primitivo e tão bárbaro, que não admita a existência de deuses, ainda que se engane sobre a sua natureza”[14].

Nos tempos modernos, a crença em Deus não está apagada, como afirma Max Scheler, um grande estudioso da religião: “Há uma lei essencial: todo espírito finito crê ou em Deus ou em um ídolo (como o Estado, a arte, uma mulher, o dinheiro, a ciência). (...) Assim, o primeiro e único caminho que pode criar uma disposição para uma transformação religiosa da personalidade é o caminho que denominei ‘destruição dos ídolos’”[15]

Jung, com sua longa experiência de psicólogo, afirma: 

 

“entre todos os meus pacientes de mais de trinta e cinco anos, não há nenhum cujo problema definitivo não fosse o da religação religiosa. A raiz da enfermidade de todos está em terem perdido o que a religião deu a seus crentes, em todos os tempos; e ninguém está realmente curado enquanto não tiver atingido, de novo, seu enfoque religioso”[16]

 

A citação destas passagens tem como objetivo achegar-se mais perto da identidade do homem e ver que nela habita um espaço para Deus, o absoluto. Mas não fica ainda definido o que seja a experiência da fé. Até aqui constata-se que a reflexão da  ética cristã está baseada na fé em Deus revelada na história pela encarnação de Jesus Cristo. Esta fé num Deus, segundo alguns grandes pensadores faz parte vida do ser humano para que este se realize em sua plenitude. Há no homem uma sede do transcendente, melhor se expressando, há no humano a necessidade de Deus. Um passo seguinte é travar contato melhor com essa necessidade, que é denominada de identidade religiosa do homem.

 

2.2  A IDENTIDADE RELIGIOSA DO SER HUMANO E O LUGAR DA EXPERIÊNCIA DE DEUS

 

O ser humano tem necessidade de crer em algo que seja transcendente a ele mesmo. A fé faz parte da experiência do homem.  É necessário clarificar melhor a identidade do ser humano, que possibilita e que dá lugar à fé, que é a condição da possibilidade da ética cristã.

Com tudo o que o ser humano se relaciona, na verdade, está se relacionando consigo mesmo. Não que a coisa com que ele se relaciona não exista, mas é revelando seu modo de ser, a saber, o conhecimento, a ação, a fé, que ele experimenta a realidade. Ao fazer um questionamento sobre o que é uma pedra, por exemplo, o ser humano está se relacionando com seu modo de ser, ou seja, sua identidade enquanto sujeito cognoscente.

Ao se perguntar pela identidade do humano como religioso não se pergunta tanto pelo engajamento a um trabalho social religioso; ou a respeito de celebrações litúrgicas, ritos ou práticas religiosas. Pergunta-se antes pelo modo de ser ético que permite experimentar o transcendente em todas as manifestações da vida.

O ser humano não está no mesmo nível de realidade que uma coisa, como uma pedra. Sua realidade essencial é a “facticidade” [17] e não a “factualidade”.  Em tudo que é e faz, o ser humano precisa assumir-se. Ele existe somente a partir de sua identidade que é a de dar-se o sentido daquilo que faz e é.

O sentido de sua vida, o ser humano encontra somente na busca, no questionamento, na crítica e no aprofundamento da vida. Esse trabalho de escrever sobre a ética cristã é também uma busca de aprofundamento do sentido dessa experiência. “A pergunta ‘o que é como é a experiência de Deus’ não tem resposta, a não ser na forma de uma contra pergunta provocativa: quanto é que você dá a ela? O que você faz dela”[18]. É sempre na inquietação da busca que o homem vai perceber o que ele está sendo e se ele está dando a sua vida um sentido sério a partir de Deus.

A busca e a responsabilidade pelo que se busca, é o que caracteriza o modo de ser do homem. A sua essência não é tanto determinada pelo que ele faz, mas pelo modo de ele existir como homem. E este seu modo próprio de ser é a busca. A experiência religiosa é “a maneira do homem existir na qual a busca religiosa se torna a abertura que move toda a sua existência a ponto de tornar-se sua identidade”[19].

A experiência religiosa faz parte da existência do homem ético e abrange toda sua existência. Não é em si uma experiência de uma realidade além do mundo em que se vive, ou seja, não está longe da nossa compreensão cotidiana. É a partir da situação bem concreta em que o ser humano se encontra que ele vai se relacionar com Deus. É um modo de compreender e se relacionar com a realidade a partir da origem de tudo, do eterno e imutável.

Neste modo de viver, a razão não é o elemento preponderante. “A realidade vislumbrada na religião não precisa de provas racionais (embora estas tenham sua utilidade). É uma experiência a-racional, isto é, precede o raciocínio e nunca pode ser completamente absorvido pelo mesmo[20]. A fonte da religião não é a razão, mas o mistério que está além da razão. O que se experimenta é a presença de um totalmente outro. Rudolf Otto o chama de: “o Santo”. Este causa um sentimento contraditório de medo e admiração que se pode chamar de temor. Esta é a experiência de Jacó, depois da revelação de Deus no sonho: “Quão terrível é este lugar. Nada menos que a casa de Deus, a porta do céu” (Gn 28,17).

2.3  A ÉTICA CRISTÃ DETERMINADA PELA RELAÇÃO DO HOMEM COM JESUS CRISTO

 

A práxis do cristão é inseparável da experiência da fé cristã. É a partir dessa experiência e nessa experiência que se dá a vida e a ação do cristão. Contudo é difícil dar uma definição extática do que seja a experiência da fé. A dificuldade não é a falta de doutrinas ou de vocabulário religioso. Há, antes, o perigo de serem usadas palavras vazias de significado. Há também uma limitação da palavra frente ao sentido que se dá somente a partir do engajamento da vida de cada pessoa. 

A princípio pode-se dizer que a experiência cristã é o modo de viver do homem a partir da fé. Contudo, é importante relembrar que não se pode conhecê-la ao modo de coisa. Por isso a pergunta a respeito da experiência da fé cristã não é propriamente: o que é a experiência cristã? Mas, ‘como é a experiência cristã?’.

O ‘como’, ou, a pergunta pelo modo de ser da experiência, como já foi visto, convoca o ser humano ao conhecimento de si mesmo. Experiência indica o modo do ser humano relacionar-se com as coisas, com as outras pessoas, consigo mesmo e com Deus.

O modo de o humano relacionar-se é um processo de crescimento no caminhar da vida. Tem características de dinâmica e transformação, que são próprias da vida. A sua compreensão só é atingível a partir do momento em que o homem já se descobre nela, dentro do movimento de sua vida. E a vida começa ganhar sentido quando é assumida na sua concretude da situação determinada como um caminho que vai criando história.

Todo homem vive; não cria a vida, mas se vê lançado na vida, numa situação em que não escolheu estar.  Mas para dar sentido à sua vida, precisa assumi-la e levada-la à plenitude.

 Esta vida em que o ser humano já se encontra, vista a partir da fé é a realidade criada pelo transcendente. Mas o homem é convocado a plenificar esta situação criada em que se encontra por meio de um relacionamento com Deus. 

Deus, neste sentido é outro. O homem não pode considerar-se Deus, porque se assim o fosse teria a possibilidade de se criar na situação que quisesse. Deus está além de si mesmo, ele é outro. E por meio da revelação de Jesus Cristo este outro se apresenta como uma pessoa. Esta pessoa é o próprio Jesus Cristo.

Do encontro com esta pessoa vai surgir um modo de ser todo próprio que é a ética cristã. Por isso o que se falar sem que esteja ligado à pessoa de Jesus Cristo e sua Palavra não faz parte da reflexão da ética cristã. Não é no cumprimento de uma doutrina como letra morta, inseparável da pessoa de Jesus, que se chega a ter uma práxis cristã.

Mas, entre as palavras e a pessoa de Jesus Cristo há uma aparente discordância. Pois, na aparência ele é uma pessoa de carne e osso como qualquer ser humano. Mas por suas palavras e ações ele chama a pessoa à fé em si. Há uma contradição entre sua palavra e sua aparência. Jesus Cristo é um ‘sinal de contradição’ porque “imediatamente ele é um homem particular, inteiramente semelhante aos outros, um homem de condição humilde, despercebido. Mas eis a contradição: ele é Deus”[21].  Esta contradição que Jesus Cristo representa exige a fé da pessoa que se achega a ele. Por isso a fé é o único vínculo de comunicação verdadeira entre o ser humano e Deus.

Não é pela especulação filosófica ou por meio de provas racionais que se chega à experiência da ética cristã. A especulação poderia demonstrar um Deus metafísico, mas que não tem nenhuma relação viva com o ser humano. O Deus revelado em Jesus Cristo é vivo e transforma a vida. Sören Kierkegaard refere-se a este Deus da fé e não da especulação filosófica com as seguintes palavras:

 

qualquer coisa leva a gente a olhá-lo,( a Jesus Cristo), - e, coisa estranha, enquanto se olha para ele, a gente se vê num espelho, acaba de ver-se a si mesmo ou aquele que é sinal de contradição.(...), levado a considerá-la, encontra-se como diante de um espelho e, enquanto se julga, revelam-se os pensamentos que habitam em si mesmo[22]

 

A experiência de encontro com Deus faz com que o homem tenha que reformular seus conceitos, que vão dar luz nova ao agir do homem.  

2.3.1  Agir e viver a partir origem da vida: Jesus Cristo

 

A ética cristã vê o ser humano a partir de sua origem, que é Jesus Cristo. Pretende determinar a ação a partir da origem, “o ser humano em sua origem só sabe de uma coisa: Deus. Conhece tudo só em Deus e Deus em tudo”[23]. Este saber somente em Deus não determina o homem a ser um plágio de Jesus Cristo histórico. Contudo a encarnação e a vida de Jesus querem mostrar que há uma relação íntima entre Deus e o ser humano.

Para tentar entender melhor esta relação é mister refletir sobre as palavras de Jesus -  “Eu sou a vida”[24] (Jo 14,16; 11, 25). A reflexão da ética cristã, ou qualquer reflexão sobre a vida, não pode passar longe desta afirmação e de sua realidade. Jesus se declara a vida. Isto quer dizer que a vida não existe em si mesma, mas somente ligada a Jesus Cristo. “A pergunta pelo que é a vida se converte aqui na resposta sobre quem é a vida”[25]

A vida é uma pessoa determinada: Jesus Cristo, e somente se realiza plenamente em ligação com esta pessoa. Deus não é qualquer espírito metafísico ou um super homem. Ele é a vida naquilo mais próprio que o homem tem. “Minha vida está fora de mim mesmo, fora de minha disponibilidade, minha vida é um outro, um estranho: Jesus Cristo”[26].

A afirmação – “Eu sou a vida” – é palavra de revelação e proclamação de Jesus Cristo. O ser humano, a rejeita ou a acolhe em fé. Se a pessoa acolher esta vida que vem de fora, ela reconhece que até então estava distanciada da vida que é Jesus. Isto implica numa negação à sua vida passada sem Deus, e um sim à nova vida em Jesus Cristo.

Há uma contradição do não ao pecado, e do sim ao chamamento para uma nova vida cristã ética que só é unida inseparavelmente em Deus. “É o sim da criação e reconciliação e o não da morte sobre a vida que abandonou sua origem, essência e alvo”. Desta forma aconteceu com São Paulo. Seu caminho antigo de zelo pela lei e perseguição aos cristãos foi condenado. Seus pecados foram justificados pela graça de Deus, por causa de Cristo. Ele foi libertado para uma nova vida na fé em Cristo.

O encontro de fé com Cristo vai criando história. Assim foi a história dos santos que creram nele: São Paulo, São Pedro e tantos outros conhecidos e anônimos. Cada um trilhou o caminho da fé em Cristo. E é sempre Jesus Cristo, a vida, que convoca cada pessoa. “O conteúdo da mensagem cristã não é tornar-se como uma figura bíblica, mas ser como o próprio Cristo. Não há método que conduza a isso, apenas a fé”[27].

A única atitude diante de Jesus Cristo é a fé nele, em quem se dá a experiência da vida. O mais importante da ética cristã é o próprio Jesus Cristo. Como se diz na liturgia católica do Sábado Santo: Jesus é o alfa e o ômega, o princípio e o fim da vida. “A vida recobra sua unidade em Cristo, ainda que na contradição do sim e do não; mas esta é superada sempre de novo na ação concreta daquele que crê em Cristo”[28]

 

2.4  VIVER A FÉ  A PARTIR DO LUGAR CONCRETO  PARA LANÇAR-SE AO ENCONTRO

 

O início da experiência de fé se dá a partir de uma determinada situação em que se encontra o ser humano. “Mas à medida que caminhamos e nos transformamos no modo de ser da experiência, começamos a perceber que a situação determinada, “o nosso limite”, se é bem experimentado, abre-se como totalidade de um mundo”[29]. Esta situação em que cada pessoa está é o pouco, o único e o que está mais perto dela. É esta a situação que ele precisa assumir.

Neste sentido vale o dito: ‘ faça poucas coisas, mas as faça bem’. Há por detrás desta sabedoria popular o sentido de que o ser humano, no pouco, no limitado, se desenvolve e vai progredindo no caminho da fé. É somente no limitado, no aqui e agora de sua existência que ele tem a possibilidade de fazer sua experiência de Deus e transformar-se a partir desta experiência.

No modo de ser da experiência, a situação concreta está lá onde cada um se encontra. Assim, tanto o agricultor, o operário da fábrica, o padre, o marceneiro, o médico, o professor e o aluno, cada pessoa em sua profissão e estado de vida está no modo de ser da busca de Deus e sua concretude. “Dessa forma, toda e qualquer experiência, se é realmente experiência, é caminho de encontro com Deus”[30]. Esta afirmação não significa que “tanto faz” o que a pessoa faça, que tudo é experiência de Deus.

Dizer que qualquer experiência é caminho de encontro com Deus significa que cada pessoa só pode se encontrar com Deus na sua experiência de vida concreta em que se encontra, no aqui e agora de sua vida (seja esta vida frustrada, acertada, angustiada, perdida ou salva). O lugar concreto de cada pessoa não é o que ela gostaria que fosse, mas o que ‘bate na cara’ de cada pessoa no aqui e agora de sua vida.

O que ocorre muitas vezes é que o ser humano fantasia a respeito de sua situação e vive em busca de outra situação que possa ser melhor, mas que não se encontra no aqui e agora. É um tipo de homem que se fecha em si mesmo. Vive  ressentido com a sua própria situação. O outro é perfeito. Ele inveja o modo de ser de outro.

Thomas Mann em seu livro “Tonio Kroeger – A Morte em Veneza”, descreve este caso num de seus personagens chamado Tonio Kroeger, que tem inveja do modo de ser de outras pessoas. Ele não inveja uma qualidade particular do outro, mas a própria existência alheia. Vive em função da opinião alheia. No fundo não se aceita como é, e por isto quer ser como os outros são, a quem ele considera superiores. Não assume sua condição de criatura em sua particularidade e finitude.

Para acenar-se para o próprio da vida cristã e de sua ética não se pode dar uma definição geral, num conceito, numa idéia. A vida cristã determinada é a história pessoal de cada homem. Saber todas as doutrinas da Igreja, ou, como se diz popularmente, ‘sabendo a Bíblia de cor‘, não dá a garantia de se saber o que é a vida cristã.

O homem só sabe o que é – ou mais precisamente, ‘como é’ – a vida cristã a partir do momento que experimenta a fé em sua vida. Isto quer dizer que a vida cristã só se manifesta na experiência. E só se vive a fé em Jesus Cristo na medida em que se aceita e se assume a vida a partir do encontro com Deus.

Na própria experiência é que a pessoa vai se abrindo ao sentido da experiência de Deus, que é assumida ou não, a partir da liberdade. “Isto significa: eu tenho a vida cristã que eu mereço ou a vida cristã é aquilo que eu faço dela, na medida em que eu a vou conhecendo, assumindo, e na medida em que sou assumido pela sua afeição”[31] . O próprio da vida cristã só se descobre na medida do engajamento nesta experiência.

Para ilustrar melhor o que se está entendendo por ética cristã nada melhor do que fazer uso das palavras do próprio Jesus Cristo. Ele afirma que “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga (Mt 16, 24)”.  Jesus se dirige a cada pessoa, e não para um grupo de privilegiados. Ninguém está excluído do seu chamado. Por isso cada um, na situação em que está, é vocacionado a segui-lo.

E cada um só pode entrar na dinâmica do seguimento a partir de sua individualidade própria e de sua maior preciosidade que é a liberdade. Jesus não impõe seu caminho. Ele convida a estar com ele, a se encontrar com ele. Ele propõe uma vida nova.

A ética que Jesus Cristo propõe, da exclusividade do seu seguimento, depende da decisão livre do ser humano. Nesse sentido pode-se dizer que Deus se torna dependente do ser humano nesta relação. Como Deus chama a que o homem aposte tudo, Ele também não se sobrepõe à sua vontade.

A ética cristã se dá no seguimento de Jesus Cristo. É uma história que é assumida por duas pessoas: o homem e Deus.  É seguimento, que dá a idéia de movimento, caminhar, caminho. Embora não se possa dizer de antemão onde se vai chegar, pois é o caminho da vida que se faz neste seguimento. E vida ninguém pode tê-la de antemão definida, fechada, garantida.

A ética cristã não é uma realidade que possa ser experimentada em separação com a vida concreta de cada pessoa. Neste sentido, há duas situações nesta vida do cristão. Uma é a vida sem Deus, o que pode ser denominado vida no pecado. Esta, não é somente sinônimo de uma vida depravada, mas é a vida sem encontro com Deus. É a situação em que se encontra o ser humano que não crê e não se deixa guiar pela fé. A segunda situação é a do homem que se lança ao seguimento. Neste caso é Jesus que molda a ação do crente.

A situação anterior em que o homem se encontrava fica revogada e passa a existir uma nova ordem de vida e significação a partir de Deus. Vê-se, no Evangelho, exemplos como o de Pedro e André. Ao chamamento de Jesus deixam as redes e o seguem: “Enquanto caminhava ao longo do mar da Galiléia, Jesus viu Simão e André, seu irmão, lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. E Jesus lhes disse: ‘Vinde comigo, e eu farei de vós pescadores de homens’. Deixando imediatamente as redes, eles o seguiram” (Mc 1, 16-18 ). Levi deixa a coletoria de impostos e também se lança no caminho com o Senhor Jesus Cristo: “Quando ia passando, viu Levi filho de Alfeu, sentado junto ao balcão da coletoria e lhe disse: “Segue-me”. Levi levantou-se e o seguiu” (Mc 2, 14 ).

A nova situação que o relacionamento com Jesus coloca Pedro, e qualquer outro homem que assuma sua fé em Jesus é o seguimento. Este vai acontecendo no caminhar da vida.  A ética cristã é a ação e a busca do homem guiado pelo Deus vivo, que, na fé, dá significado, orienta, corrige e conforta o crente em seu caminho da vida.


3  A VIDA RESPONSÁVEL

 

Dietrich Bonhoeffer aborda a ética cristã a partir de uma terminologia não bíblica, com o objetivo de trazer Jesus Cristo para mais perto do homem moderno. A ‘responsabilidade’ tão explorada pelos pensadores modernos, principalmente os existencialistas, é transposta no sentido de um comprometimento incondicional com a pessoa de Jesus Cristo.

Etimologicamente, responsabilidade deriva do termo latino ‘respondere’, que tem em sua raiz ‘spondere’ - comprometer-se. 

No cotidiano, responsabilidade é a capacidade e obrigação de responder ou prestar contas pelos próprios atos e suas conseqüências. Na ética de Bonhoeffer, responsabilidade tem sentido um pouco diferente deste que é utilizado quotidianamente. Responsabilidade é a resposta do ser humano perante a Palavra de Deus. Diz respeito ao essencial, que Jesus Cristo pede de seus seguidores: “Nem todo aquele que diz ’Senhor, Senhor’, entrará no Reino do Céu. Só entrará aquele que põe em prática a vontade do meu Pai, que está no céu”( Mt 7, 21).

Responsabilidade é entendida como a única atitude válida diante de Jesus, que é o comprometimento com sua pessoa. Esta resposta do homem perante Jesus é o fazer do homem. Jesus é a Pessoa e a Palavra que pede resposta de vida ou morte. Porque, ou a Palavra é respondida pela fé e cumprimento, ou fica perdida no vazio.

Neste sentido, a vida é responsável somente quando está ligada a Deus. Isto traz a necessidade imediata de se reconhecer responsabilidade correlacionada com o próximo. Nenhum ser humano pode ser concebido isoladamente, sem relação alguma com outras pessoas. Todos nascem da relação de outras pessoas. O ser humano depende e é responsável por outras pessoas material e espiritualmente.

Na família o pai e a mãe, ou um substituto, respondem pelos filhos.  O filho, na sua infância, depende dos adultos. Por isto, o pai e a mãe estão a proporcionar o melhor que podem quanto à alimentação, educação, moradia etc. A criança não é imperfeita por não poder dispor de todos os meios para sua vida. Ela é plena dentro de seu limite de responsabilidade.

Mas quando a pessoa se torna adulta ela vai adquirindo a capacidade de responsabilidade perante a vida e responde pelos próprios atos. O adulto, além de responder por seus atos e ter a possibilidade de dar uma resposta à palavra de Deus, deve respeitar o limite das outras pessoas com as quais se relaciona. Neste sentido, a ação responsável é a vida de comprometimento com Jesus Cristo e com o próximo. E é somente nesta dupla relação que se realiza a verdadeira liberdade do homem.

O conceito de liberdade aqui adquire um sentido diferente do comumente experimentado. Ser livre não é fazer uma escolha entre várias alternativas, mas é o comprometimento com Deus e com o próximo. E é a partir desta dupla relação que brota a verdadeira liberdade e a vida em sua plenitude, que pode ou não ser assumida pela pessoa. A estrutura da vida responsável tem duas determinantes: a vinculação da vida ao semelhante e a Deus e a liberdade da própria vida[32].

 

3.1  JESUS CRISTO – REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE

 

O homem só se torna responsável a partir do momento em que se compromete com Jesus Cristo. Mas esta relação com Ele só tem sentido porque Jesus é o Filho de Deus encarnado. E por Jesus Cristo ser o Deus encarnado, Ele representa a plena possibilidade de realização do humano.

Dietrich Bonhoeffer, fala do termo representação, que “indica uma substituição plena: Cristo “em nosso lugar” e, eventualmente, o ser humano tomando, em responsabilidade, o lugar do semelhante “[33]. Substituição plena ou representação não significa que Cristo já tenha vivido a vida do homem em particular e este deva somente encenar sua a peça da vida de Cristo. Isso nem exigiria a fé no Cristo. Tudo estaria já evidente e realizado. A pessoa seria uma sombra de Deus.

Representar, no contexto da ética cristã, não tem o sentido que recebe no teatro. Re-presentar é trazer presente, reviver - viver a partir de Jesus. É ter o mesmo querer, que teve Jesus Cristo. É ter a mesma sede de vida que Jesus teve.

Jesus é a bandeira viva que guia toda pessoa que quer encontrar vida plena. Ele mesmo se autodenomina de porta, videira, fonte. Nele o ser humano se vê e se descobre eleito por Deus. Descobre-se chamado a viver em relação com a vida que é o próprio Deus. Esta vida de mútua comunhão é a vida de fé do homem que crê em Deus. É uma experiência de conformação com Deus.

 

3.2  A AÇÃO A PARTIR DE REDUÇÕES

 

Há modos de assumir a existência que reduzem a ação ética. Alguns desses modos são as etiquetas sociais, a norma social, a funcionalidade, uma atitude subjetivista psicológica e o ativismo. Para Nietzsche, estes modos de agir são sintoma de uma falta de sentido geral em que a sociedade moderna está submersa. Esses móveis da ação humana, que partem de uma regra geral, ou de um fazer aparente, passam aquém da plenitude da vida buscada na experiência de fé em Jesus Cristo.

A etiqueta social  é uma ação meramente externa, sem fazer uma luta contra o automatismo abstrato. É uma espécie de preguiça mental que não faz ver a situação concreta, plena de sentido nela mesma. Atrás desta etiqueta mostra-se que “todo mundo faz; assim dá certo”. Mas, não há uma leitura de cada situação na sua singularidade.

A norma social é a lei, que trás uma abstração genérica que não garante ao homem um acerto numa situação singular. Por exemplo: “Eu roubo, mas se não sou pego em flagrante não tem problema”.

A funcionalidade é a redução da ação a leis preestabelecidas. Isto traz uma aparente segurança, porque todas as ações são planejadas para que nada saia errado. É uma situação que se vê muito bem quando se vai ao correio, onde tudo é organizado para que funcione bem. Até o relacionamento fica funcional. Isso levado a toda a sociedade dá a impressão de boa organização, pois não há muito conflito. Mas se não cuidar a pessoa vira um autômato, porque não age a partir da própria vontade. Ela não se pergunta pelo sentido do que faz. Este é o modo assumido por muitas pessoas e que se estende às instituições da sociedade como o estado, as indústrias e a escola.

Neste sentido, Saint-Exupéry afirma que “vivemos no ventre cego de uma administração. Uma administração é uma máquina. Quanto mais perfeita é uma administração, mais ela elimina o arbítrio humano. Numa administração perfeita, onde o homem desempenha o papel de engrenagem, a preguiça, a desonestidade, a injustiça já não podem causar estrago”[34]. Mas também não há lugar para a criatividade e a espontaneidade de uma ação livre, que é caraterística do homem.

Um outro estreitamento unilateral da visão da realidade que vai condicionar o agir humano é uma atitude subjetivista psicológica. O homem vai se entender como impulsos que não pode controlar. Mas, se compreender esses impulsos pode domesticá-los e canalizá-los.  O importante é que se sinta bem, seja feliz.

Há outras variações deste subjetivismo. O culto do atlético, o culto do biológico e o subjetivismo hedonista. Por fora a pessoa deve ser uma casca linda, mas por dentro pode estar tudo confuso, estragado. Um subjetivismo hedonista promove a civilização do prazer individual. O que é importante ao homem é somente gozar a vida. Isto, transmitido mecanicamente e assumido sem questionamento traz um estreitamento da ação ética.

Um outro reducionismo ético é o ativismo. O agir humano está ligado ao fazer e a vida, é movimento e transformação. O perigo é ‘fazer por fazer’. Mudar somente para tentar sair da falta de sentido, sem partir de uma decisão radical de comprometimento consigo mesmo e com os outros, é uma fuga da falta de sentido e do vazio da existência.

Na modernidade há para o homem esta situação acentuada de falta de sentido. É uma situação que Nietzsche denominou de nihilismo. Nihilismo é o  aniquilamento dos valores, que gera um ativismo. Isto se nota no cotidiano de cada pessoa. Fazer algo para preencher o tempo é um dos maiores problemas do homem atual. Há sempre a busca do novo, como substituição do atual. É a procura pelo último lançamento, de moda, informática, costumes.

Tudo isto é propagado pelos meios de comunicação com as propagandas, filmes, novelas, programas de auditório etc. Não que isto seja bom ou mal. Mas mostra uma compulsão pelo comportamento da moda e pelo pensar moderninho que é apresentado como o único caminho verdadeiro. Contudo, este modo de ser despreza um comprometimento com uma busca pessoal mais radical.

Tudo está em função do capitalismo que pede o lucro e exige o consumo. Por isso há sempre novos costumes e gestões, e a felicidade se reduz a adequar-se a estes costumes, que só uma minoria pode usufruir. O perigo é de o cristianismo tomar a abstração desta epocalidade e não se atualizar a partir das suas próprias fontes.

 

3.2.1  A verdade científica e a ética cristã

Um fator que entrava a aceitação de uma ética cristã e mesmo filosófica é o predomínio das ciências positivas e descrédito da religião e da Metafísica. É a mentalidade de Comte a respeito dos estágios do desenvolvimento da humanidade que se propagou e se tornou senso comum. Para ele, o estágio mais avançado seria o das “Ciências Positivas”.

A idéia de Comte se associa ao grande fascínio que o desenvolvimento das ciências exatas trouxe para todos. A maioria das pessoas tem confiança em tudo o que se pode calcular, provar, demonstrar. Há um descrédito de reflexões filosóficas e teológicas e a vida espiritual é entendida como espiritualismo, coisa abstrata e fantasia de um estágio infantil ultrapassado.

Charles Darwin apresenta a espécie humana num sentido de causa e efeito. E este modo de conceber o homem é o das ciências positivas. O problema da sociedade capitalista é a absolutização deste saber. O homem é visto numa perspectiva única. Isto pode ocorrer quando ele se vê e age apenas a partir da perspectiva das ciências.

Outra manifestação da ciência, que pode ser tomada como norma ética única para  homem, é o código genético. Não se tira o mérito da genética, com sua grande utilidade ao ser humano, na prevenção de doenças e outras tantas funções que ainda podem ser descobertas.  Mas o que se vê é que o ser humano é classificado a partir de seu código. E esta classificação do homem ‘pode’ chegar a uma aberração de tirar dele a responsabilidade por seus atos. Assim, se o homem é mal por causa de seu código genético não tem responsabilidade por isso.

As ciências positivas elevadas a dogma trouxeram um descrédito a todo tipo de reflexão e confronto pessoal duradouro com uma proposta de vida totalizante como é o seguimento de Cristo, a ética cristã.

Desde o final do século passado a humanidade vem experimentando um niilismo, que teve origem na Europa e se alastrou por todos os continentes. O niilismo é o aniquilamento dos valores da tradição espiritual. Perdeu-se o valor de Deus, o que seja a vida e o que seja a sociedade plena de sentido.

Deste esvaziamento de sentido surge o fascínio pelo progresso científico moderno objetivista, que vai se infiltrando no cotidiano das pessoas com grande ingenuidade. Vê-se isto no fascínio e facilidade da criança assimilar o uso do computador. Ela aprende, sem muita dificuldade, a utilizá-lo como se estivesse brincando. Assim pode ser comparado o homem diante da ciência e tecnologia. Mas, o fascínio pelo projeto tecnológico traz junto um estranho esvaziamento, uma diminuição, diluição de valores substanciais.

Esta é uma dinâmica que não tem volta. A saída para tudo isto é o ser humano buscar os valores de forma mais decidida, ou os valores não se mantém. A ética cristã busca chamar a pessoa para ver o essencial da vida, vendo nisto o maior dos valores. Só que este essencial é abstrato visto a partir do dogmatismo das ciências positivas. Mas a partir da dinâmica da fé a ética cristã tem uma concretude própria e muito real.

Saint-Exupéry, autor que fala de coisas profundas a respeito do homem, diz que ”Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”[35]. A reflexão da ética cristã busca sua colocação na raiz do problema moderno, se confrontando com o vazio que toma conta da modernidade, mas vendo nisso uma possibilidade mais profunda de uma ação em conformidade com Jesus Cristo. Para ela, a ação e a realidade vão adquirir uma significação diferente da assumida pelas ciências positivas. A visão da fé tem sua concretude própria que não pode partir da dogmatização das ciências. Não passa pelo caminho da experimentação científica, mas mesmo assim é essencial.

3.3  A AÇÃO EM CONFORMIDADE COM A REALIDADE

 

Dietrich Bonhoeffer, aprofundando o tema da ética cristã, usa os termos conformação e conformidade com a realidade. Esses devem ser compreendidos a partir de um significado original, que vem das raízes do termo e da experiência essencial da fé. “Conformação (original: Gleichgestaltung): o termo designa a vinculação estreita do crente com Jesus Cristo, uma con-formação. Já conformidade com a realidade indica a boa adequação à realidade. Nenhum dos dois conceitos tem qualquer conotação de “conformismo”. Ao contrário, é sua própria negação”[36].

Conformação é um vocábulo da língua alemã formado por dois radicais: “gleich-gestaltung“.  “Gleich”  significa análoga, mesma, idêntica. Outra palavra com este radical é: “gleichkang” – uníssono. “Gestaltung” significa formação, concretização, criação. A experiência de conformação, “gleichgestaltung”, significa que o homem é chamado por Deus a fazer a aventura de concretizar e co-criar a vida a partir de Jesus Cristo, que em sua pessoa revelou que o homem tem a natureza semelhante à de Deus. 

É como o ato de afinar um violão a partir do som de um órgão. O violão vai ficar na melhor de suas possibilidades, isto é, bem afinado, quando assemelhar o seu som ao do órgão. Cada instrumento tem a sua individualidade e ao mesmo tempo eles têm algo de semelhante. O violão que se afina a partir do outro instrumento é o homem que é chamado a buscar a sua realização a partir de um outro, em Deus. É uma comparação grosseira, mas revela um pouco do sentido de conformação com o real.

Real segundo o dicionário é ‘o que existe de fato’. No discurso da ética cristã não é usado este sentido da palavra real, nem se entra na discussão etimológica ou na compreensão filosófica desta palavra. Real é o próprio Deus. E em Jesus Cristo ele revela sua realidade.

O real não é uma regra qualquer, mas o próprio Deus, Jesus Cristo encarnado, que morreu e ressuscitou. A ação nasce na vida concreta daquele que reconheceu este real. Toda a ação condizente com a realidade só é possível nele e a partir dele.

Agir em conformidade com a realidade é agir em conformidade com Jesus Cristo. Dizer que o ser humano é chamado a se conformar com a realidade é o mesmo que dizer que ele é chamado a existir a partir de Jesus Cristo. Isto não significa que ele deva esforçar-se para tornar-se parecido com Jesus Cristo. Antes, é o Cristo mesmo que molda os seres humanos para a conformação com ele.

Isto deve ser entendido na mesma dimensão de Santo Agostinho, quando diz: “caminhava por trevas e resvaladouros e Vos procurava fora de mim, sem descobrir o Deus do meu coração”[37]

A expressão ‘o ser humano conformado a Jesus Cristo’ designa uma união íntima entre o ser humano e Jesus Cristo. Ele é chamado a fazer a sua experiência guiado pela experiência de Jesus Cristo que com o tempo e por meio da obediência guia, conforta e corrige.

A vida de cada pessoa é moldada a partir da realidade na sua essência que é o próprio Jesus Cristo que fez a experiência mais profunda do real. Em Jesus Cristo a vida do homem recebe o sim e o não. Quer dizer, no encontro que faz com Ele, o homem se percebe distanciado da sua própria vida.

Isto não ocorre de maneira automática. É necessária a disposição do humano para se trabalhar neste encontro com Jesus Cristo. Santo Agostinho fala desta experiência como um “abrir-se à graça de Deus”. Esta opção que o ser humano tem de abrir-se ou não a graça de Deus constitui sua liberdade. Coisa parecida acontece no encontro amoroso entre duas pessoas, porque se uma se fechar à outra não há encontro. Deus também não passa por cima da liberdade do homem. Ele convoca, mas o homem é livre para responder.

3.3.1  Conformação com Jesus no caminhar da vida

 

É importante destacar que conformidade com o Cristo não diz respeito a um conformismo ou mera aceitação dos fatos. Toda a vida, então, seria automaticamente cheia de sentido. Ao contrário, em cada situação em que se encontre o homem, no seu aqui e agora, ele é sempre chamado a buscar um sentido novo para sua vida em conformação com Jesus Cristo.

Jesus mesmo fala que  quem construir o edifício de sua vida baseado na sua palavra é como o homem que constrói sua casa sobre a rocha: “Vou mostrar-vos a quem se assemelha todo aquele que vem a mim, ouve minhas palavras e as pratica. É como o homem que resolveu construir uma casa. Cavou fundo e pôs os alicerces sobre a rocha. Veio a enchente, e a correnteza do rio atingiu a casa mas não a pôde abalar, porque estava bem construída” (Lc 6, 47-48).

O homem constrói sua vida, que tem altos e baixos e precisa se dispor a travar um corpo-a-corpo com  Jesus Cristo. Há um poema de Matias Claudius que expressa bem as várias situações do homem - a riqueza, a temporalidade e a caducidade de sua vida

 

concebido e alimentado maravilhosamente pela mulher, ele vem, vê e escuta sem do embuste nada notar; cobiça e deseja, as lágrimas não pode evitar; desprezado e honrado, vive alegria e perigo; crê, duvida, sonha e ensina,acredita em tudo e em nada; edifica e destrói; judia-se sem parar; dorme, vigia, cresce e definha; tem cabelos escuros, depois grisalhos; e tudo isso leva, se muito for, oitenta anos. Então se junta aos ancestraise nunca mais há de voltar[38].

 

O homem, que, se descobre diante de Deus, neste caminho da vida, cheio de nuâncias, sente a necessidade de agir em conformidade com Ele, fonte do sentido para a totalidade da vida.

As relações, experiências, a vida e a morte não são realidades que existam separadas de Jesus Cristo. Nas pequenas e grandes decisões da vida, o homem é chamado a buscar uma relação com Jesus Cristo. Esta relação de comunhão com Ele liberta o homem de suas vontades egoístas, impulsos desenfreados e legalismos fixistas. É um chamado a sustentar a confiança mesmo nas situações mais extremas da vida humana.

A ação a partir de Jesus Cristo, não dá lugar a conflitos insolúveis, mas parte sempre da já realizada reconciliação de Cristo com o mundo. “A reconciliação do mundo com Deus consiste exclusivamente na pessoa de Cristo, na qualidade de quem age em responsabilidade representativa e de quem, por amor aos seres humanos, é Deus feito ser humano”[39].

Desta realidade advém um limite na reflexão, que é o de não se poder definir a priori o que é a ação humana e a ação cristã. Isto só vai ser compreendido na prática. É na responsabilidade concreta da ação condizente com a realidade que vai ser reconhecida a vida na sua profundidade. A unidade e particularidade da ação  cristão só serão compreendidos no engajamento do homem com Cristo.

Para a ação condizente com a realidade o mundo permanece mundo. Isto não significa que o mundo esteja já perdido e deva ser abandonado em sua perdição. Daí decorreria que o cristão é aquele homem diferente, “celeste”, mas descomprometido com as realidades mundanas. Antes sim, o mundo permanece mundo porque foi amado, julgado e reconciliado com Deus na pessoa de Jesus Cristo  encarnado, morto e ressuscitado.

O ser humano é chamado a se conformar com o encarnado, com o crucificado e com o ressuscitado. Se conformar ao encarnado é ser o ser humano que se é. Isto porque Deus se fez ser humano de carne e osso e por isso o ser humano não precisa ser um semi-deus, ele é alvo do amor de Deus assim como ele é em sua situação concreta de graça ou pecado.

O ser humano conformado com o crucificado vive a cada dia a condenação de Deus a seu pecado. O ser humano morre diariamente a morte do pecador. Ele recebe o não divino ao seu pecado e nisto é chamado a iniciar uma vida nova. E por fim, o ser humano conformado com o ressuscitado já é um novo ser humano perante Deus. Mesmo carregando a cruz dos pecados ele vislumbra uma vida nova em Cristo.

3.3.2  A ação concreta[40]

O homem em responsabilidade limitada age na adequação à revelação de Jesus Cristo. O mundo é área de responsabilidade concreta que lhe foi dado em e por Jesus Cristo. O comprometimento com Jesus Cristo se manifesta na vida em forma de ações concretas.

Ação concreta não é uma mera aceitação da realidade como tal. Também não é sua simples contestação. A ‘ação em conformidade com a realidade’ liga paradoxalmente aceitação e contestação.

A ação do homem, revelada por Jesus Cristo, deve estar dentro do limite da condição de criatura. O homem não cria suas condições de ação. Já se encontra nelas. Ele nasce dentro de uma família, país. E disto sucede que já herda costumes, tradições e até preconceitos. Porque recebe a tradição, não quer dizer que tenha que repetir como as gerações anteriores fizeram. Precisa, antes, reconhecer a herança que recebeu para superá-la.

Há certos limites que o homem não pode transpor com sua ação. Nem para frente e nem para trás. Sua responsabilidade não é infinita, mas limitada. Mas dentro dos limites da vida, o homem deve buscar assumir as possibilidades do momento e fazer o que entende ser o melhor.

Precisa fazer uma análise da sua vontade para que não seja afetada por outras forças, como tendências e paixões. Mas não para por aí. Analisa também o sucesso da ação. Procura ver a realidade na sua origem, essência e alvo - Jesus. Sob o sim e o não divinos. Como não se trata de uma ação ilimitada é preciso ponderar, observar, avaliar e decidir na situação concreta, dentro dos limites do conhecimento humano em geral.

A tarefa deve ser fazer o que é necessário, que se denomina mandamento, com vistas à realidade. A pessoa deve ver o que é possível e o que não é. “Mas como Deus se tornou humano, a ação responsável, ciente do caráter humano de sua decisão não pode antecipar o juízo de sua ação, quanto à origem essência e alvo, mas deve entregá-lo inteiramente a Deus”[41].

Quem age com base numa ideologia vê já sua justificação na idéia que defende. A pessoa responsável coloca sua ação nas mãos de Deus e vive de sua graça e bondade. Não é um contínuo insatisfeito por não poder realizar nada de bom. Mas também não é o tipo perfeito que valoriza sua vida a partir de suas boas obras. Confia na graça de Deus e vive a vida como um presente recebido Dele e entregue para Ele.

 

3.4  A RESPONSABILIDADE PARA COM O PRÓXIMO

 

A ação responsável é limitada pelo comprometimento de vida e ação concreta com a pessoa de Jesus Cristo e sua palavra. Além deste compromisso com Deus, a pessoa que age em responsabilidade se compromete também como o próximo.

Responsabilidade pelo outro se fundamenta no modo como Deus amou o ser humano em Jesus. Sem nenhum mérito do homem, Deus encheu-se de misericórdia para com o ser humano.  Ele perdoa seus pecados e dá a cada um a graça de ser filho de Deus. É a partir desta revelação que o ser humano pode assumir livremente a fé em Deus e lançar-se à caridade para com o seu próximo:

“O próximo é norma do agir moral; i. é: o que não está relacionado com a pessoa não pode ser alvo ou finalidade de atos morais. Ao voltar-se para a outra pessoa, o ser humano de certa maneira repete ou reproduz o voltar-se de Deus para o ser humano. Só com isso o sim dito à outra pessoa adquire seu caráter incondicional, exigido no Sermão do Monte em conexão com o mandamento do amor ao inimigo: “Portanto, deveis ser perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”[42]

 

Este conceito de amor ao próximo a partir do encontro do amor de Deus com o homem parte da dimensão da fé na pessoa de Jesus Cristo. Ele revelou que todas as pessoas são filhas do mesmo Pai – Deus. Por isso, Jesus insiste que os seu seguidores façam o mesmo que ele fez. Porque no dia do ‘juízo final’[43] serão salvos os que o serviram na pessoa dos mais pequeninos da sociedade.

Faz parte da ação responsável não somente ser responsável para com o próximo, mas também reconhecer a responsabilidade do próximo e até torná-lo consciente dela. Assim, a responsabilidade do pai é limitada pela responsabilidade do filho e vice-versa. A ação do presidente da república é limitada pela ação dos cidadãos. O presidente e os cidadãos devem se respeitar e se cobrar mutuamente. Jamais pode haver uma responsabilidade absoluta que não tenha seu limite essencial no outro ser humano.

Deus e o próximo constituem o limite da ação responsável. Mas, o juízo e a graça de Deus, também a responsabilidade para com o próximo não são apenas limite da ação responsável. São também origem e alvo. “A ação responsável obtém sua unidade e por fim sua certeza em Deus e no próximo”[44].

A antítese de uma ação responsável é modo de ser do fariseu, a quem Jesus tanto critica. O fariseu é o homem que faz tudo conforme as leis e agradece a Deus por isso. O problema dele é que já age fazendo um julgamento do que faz e nisto já se justifica diante de Deus. Jesus condena este modo do fariseu porque ele se fecha em si mesmo. Ele não se abre ao amor de Deus e ao amor a Deus, no próximo.

Veja-se como exemplo disto a perícope da oração do fariseu e do publicano em Lc 18, 9-14, na qual o fariseu agradece a Deus por não ser pecador como o publicano e por cumprir todos os mandamentos. Neste caso ele é juiz e não um Filho. Jesus não quer que o homem seja juiz de si mesmo e dos outros. Muito acima disto, Ele chama o ser humano para a liberdade de filho de Deus.

A ação responsável para com Deus e para com o próximo, de uma maneira mais simples, pode ser descrita como a ação que é feita sem esperar recompensa. É a ação pela graça da ação. Vê-se isso no modo como uma boa mãe cuida de seu filho. A mãe faz o possível e o impossível para fazer o melhor a seu filho, e isto basta a ela. A ação responsável se esgota na ação. O ser humano que está nesta dinâmica não se julga bom por ter feito alguma coisa. Antes, coloca sua ação nas mãos de Deus e se sente devedor por receber tudo Dele, até a oportunidade da ação.

 

3.5  A LIBERDADE HUMANA PARA A AÇÃO RESPONSÁVEL

 

A ética cristã está ligada à vida de um ser humano concreto. Isto descarta de antemão que a vida do homem seja guiada somente por um conjunto de regras. Vida cristã só se realiza a partir do querer do homem. Jesus Cristo fala: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16, 24). Neste dizer do próprio Jesus está o que é mais importante para o cristão e sua ética.

Ele chama ao seguimento a partir do primeiro passo do homem. Este passo é o “eu quero”, decisivo, que toda a pessoa é chamada a dar se quiser segui-lo. Note-se bem que a pessoa não é coagida, obrigada ou forçada a segui-lo. Cada um é convidado.  E na resposta a esta convocação, o homem se realiza na plenitude de sua liberdade. É nesta liberdade somente que o humano pode crer. Deus dá o testemunho de seu amor em Jesus Cristo. Mas o homem livremente pode abrir-se ou fechar-se a esta revelação.

O querer indica abertura, aceitação, confiança, fé. Querer é derivado do termo latino “querere” e significa busca; indica o movimento de busca. E busca é doação de vida e de tempo; é empenho e trabalho duro e dedicado. Neste sentido, liberdade está intimamente ligada com responsabilidade. Querer é sempre estar livre para alguma coisa. E este “para” indica a responsabilidade, o sacrifício em relação a outros caminhos e escolhas. O que “se quer” precisa ser assumido, trabalhado, sustentado, cultivado.

Em linguagem religiosa este querer é ‘ter fé’, ‘acreditar’. E a responsabilidade com que se acredita é a obediência. Por isso liberdade e obediência estão intimamente ligadas. Isto se baseia na vida de Jesus Cristo, de como ele viveu sua liberdade para com o Pai e com o próximo:

 

Jesus está diante de Deus na qualidade de pessoa obediente e livre. Como obediente, ele cumpre a vontade do Pai em cega obediência à lei que foi imposta. Como livre, ele confirma esta vontade de conhecimento próprio, de olhos abertos e de coração alegre, recriando-a, por assim dizer, a partir de si mesmo. (...) A obediência vincula a criatura ao criador, a liberdade coloca a criatura em sua semelhança a Deus diante do Criador[45].

 

A liberdade vivida como arbitrariedade, separada da obediência, dá um modo de ser sem constância no que faz. É o modo de ser do adolescente, no que diz respeito a ele achar que pode tudo, mas não assume todas as conseqüências por seus atos.

A obediência sem a liberdade seria o modo de ser do homem que se empenha somente em cumprir regras e leis externas. É de algum jeito uma forma de poupar-se e não se comprometer inteiramente consigo mesmo e com Deus. Excluindo a liberdade, o homem deixa de lado sua identidade e castra sua criatividade. Exclui-se de se realizar plenamente, em todas as suas possibilidades.

Ainda no mesmo sentido de obediência sem liberdade, pode-se notar certo ativismo, denunciado por Jesus, mesmo nas pessoas que se tem por mais religiosas. É o tipo da pessoa que sempre tem alguma coisa para fazer. Está sempre ocupada nas atividades que desempenha. Mas, tudo o que faz, no fundo, é um fazer aparente, que não tem muito sentido.

Este homem mantém uma falta de fé em Deus, encoberta pelo excesso de confiança que tem em seus atos. Pode-se ver isto num trecho do Evangelho de Lucas, 18,18-25. É o jovem rico que se achega a Jesus para interrogá-lo sobre a vida: “Bom Mestre, o que devo fazer para ganhar a vida eterna?”. Jesus lhe pergunta: “Conheces os mandamentos: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não darás testemunho falso, honra pai e mãe”. Ele diz que desde criança tem guardado estes mandamentos de Deus: “Tudo isso eu tenho observado desde a juventude”.

Mas ele não encontra muito significado nesta observância dos mandamentos. Não é que os mandamentos da lei sejam em si letra morta. O problema é que ele não via que os mandamentos apontam para a vida que o próprio Deus dá e que deve ser cuidada e recriada no cumprimento dos mandamentos. Por não ter coragem de lançar-se à vida, ele só tinha observado os mandamentos de um modo legalista, como letra morta. No fundo, ele não crê em Deus.

Mas eis que Jesus se apresenta como a porta para a vida e lhe propõe: “Ainda te falta uma coisa: vende tudo que tens, distribui o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me. Quando ouviu isso, o homem ficou triste, porque era muito rico”. O jovem não estava participando da vida como um presente de Deus. Ele era muito bom, mas queria a vida moldada de antemão.

Mesmo na seriedade do cumprimento da lei ele deixava escapar algo da vida que não se deixa mensurar, que é desejo (Eloi Leclerc) ou a paixão (Sören Kierkegaard) que só Deus pode saciar. Esta paixão e desejo que ele não aceita em sua vida fazem parte da vida do homem e só se concretizam plenamente na obediência e liberdade perante Jesus Cristo.

Deus não passa por cima da liberdade do homem. Ele de certa forma, por ter dado a liberdade ao homem, se torna dependente dele. “Deus não força os homens a responder ao seu amor; a revelação de Deus em Cristo é uma revelação que os homens não são forçados a aceitar. (...) O fundamento da liberdade religiosa para os cristãos é o espírito de Cristo o qual é contra toda a tentativa de pressão exercida sobre as crenças religiosas e contra qualquer meio de comprar adesões” [46]

A revelação de Jesus Cristo só pode abrir caminho de vida se o ser humano assumi-la livremente. Nisso, o homem é chamado a dar um salto para dentro da realidade do amor de Deus. É só na doação da própria vida que há a realização de sua liberdade. É no cuidado em deixar-se guiar pela palavra de Deus, que o ser humano experimenta sua plena responsabilidade.

 

“Nisso se revela um profundo mistério da história em geral. Precisamente aquele que age na liberdade da sua mais própria responsabilidade vê sua ação desembocar na divina providência. A ação livre no final se reconhece como obra de Deus, decisão como inspiração, risco como divina necessidade. Na espontânea renúncia do saber do próprio bem acontece o bem de Deus”[47]


CONCLUSÃO

 

A ética cristã se coloca como um aprofundamento do modo de agir do homem, baseado na experiência de Jesus Cristo. Esta reflexão tem uma determinada autonomia em relação à reflexão de uma moral universal ou dos valores e outras. Isto se dá porque a ética cristã parte da fé em Jesus Cristo, Deus vivo que fundamenta a ação concreta do homem.

Ética cristã é um chamado a agir numa relação íntima com Jesus Cristo. O ser humano experimenta esta relação quando tem coragem de se lançar ao encontro com esta pessoa que abre uma nova realidade. Mas ação não é somente fazer isto ou aquilo; é crer em Deus e confiar em seu amor. Confiar parece difícil porque não se tem muito domínio da vida quando ela é colocada a partir de Outro. Mas Deus tem a sua lógica e é a lógica do amor, da confiança, da segurança na insegurança. Não tendo outro motivo para agir a não ser a partir do encontro com o Deus encarnado, o homem descobre a novidade e a jovialidade da vida de comunhão com este Deus.

Este trabalho procurou desenvolver um pouco o tema da ética cristã. O assunto é muito vasto e precisa de aprofundamentos. Com certeza este tema é melhor abordado por inúmeros doutores na área da moral. Mas é importante lembrar também que a ética cristã exige, mais do que grandes discursos, um engajamento radical para com Jesus Cristo. E é nesse ponto que todo cristão pode dar sua contribuição dando testemunho de sua ação no encontro com Jesus Cristo e consequentemente com outro ser humano.

No mundo de hoje o que mais se precisa é a valorização da vida e o testemunho do amor. Jesus Cristo falou do amor e o viveu até as últimas conseqüências. Por isso ele abre sempre um caminho de esperança para quem o seguir. Diante da injustiça praticada a outros, ou sofrendo a injustiça na própria pele, o homem é chamado a buscar a vida, e valorizá-la do melhor modo que puder.

Um exemplo de esperança e resistência contra a injustiça foi dado por Dietrich Bonhoeffer. Ele foi preso por manifestar-se contra o regime nazista que cometeu inúmeras atrocidades, entre elas, o extermínio sistemático de Judeus.  Contudo, mesmo preso ele não se sentiu impotente ou se deixou vencer pela desesperança. Manteve viva sua fé.

Em suas cartas, escritas no cárcere, ele confortou seus familiares e amigos que sofriam nos momentos difíceis da segunda guerra mundial. Deu também assistência espiritual a seus companheiros de prisão. Além disso, ele deixou escritos que foram a base da teologia contemporânea. Viveu sua reclusão sempre em contato com a palavra de Deus e crendo no Deus vivo. Numa de suas cartas escrita na prisão ele afirma que o objetivo de sua vida é aprender a crer. Por fim, ele deu seu testemunho de amor a Deus e aos homens pela entrega de sua vida: foi executado pelos nazistas.

Em Bonhoeffer, como em tantas outras pessoas, que se conformaram e atualmente se conformam com Jesus Cristo no amor pelos outros, aparece uma esperança para o mundo de hoje, considerado por alguns como perdido.  A pergunta pelo que fazer é respondida por esses que testemunharam sua fé. Eles causam uma admiração e trazem esperança a todos porque se empenharam em fazer o que Jesus pediu, ou seja, se preocupar em primeiro lugar com o Reino de Deus e a sua Justiça.

Por eles é apontado um caminho de vida e esperança que é também proposto a cada pessoa, em especial aos mais pobres e necessitados, como foi anunciado aos pastores: “Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o messias, o Senhor” (Lc 2, 10).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BONHOEFFER, Dietrich. Ética. 4. ed. Trad. de Eberhard Bethge. São Leopoldo: Sinodal, 1988.

EXUPÉRY, Antoine de Saint. O pequeno príncipe.  Trad. de Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro:Agir, 1999.

EXUPÉRY, Antoine de Saint. Piloto de guerra. Trad. de Ruy Belo. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1983.

HARADA, Hermógenes. A experiência de Deus e a vida cristã. Campo Largo PR: São Boaventura, s/d. v. II e III. 

HARADA, Hermógenes. A identidade religiosa. Campo Largo, PR: São Boaventura, s/d.

HARADA, Hermógenes. Características da experiência de Deus. Campo Largo, PR: São Boaventura, s/d.

KIERKEGAARD, Sören. Temor e tremor. Trad. de Torrieri Guimarães. Rio de Janeiro: Ediouro. s/d.

KÖNIG, Franz C.; WALDENFELS, Hans. Léxico das religiões. Petrópolis: Vozes, 1998.

KONINGS, Johan M. H. J; ZILLES, Urbano. Religião e cristianismo. 7. ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997.

LOGOS, Enciclopédia Luso-brasileira de Filosofia. Verbetes: Ética, Kierkegaard e Moralidade. Lisboa: São Paulo: Verbo, s/d, v. 2 e 3.

REICHMANN, Ernani. Kierkegaard. Curitiba: Edições JR, 1971.

SANTO AGOSTINHO. Confissões. 12. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.  

SCHSESIGER. Hugo; PORTO, Humberto. Liberdade Religiosa. In: Dicionário enciclopédico das religiões. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. v. 2.

 



[1] BONHOEFFER, Ética, 1988. p. 15.

 

[2] KIERKEGAARD, Temor e Tremor. s/d. p. 68.

 

[3] “Moralidade”. In: Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. s/. p. 980.

 

[4] KIERKEGAARD, Temor e Tremor. s/d. p. 67.

 

[5] KIERKEGAARD, Temor e Tremor. s/d. p. 80.

[6] KIERKEGAARD, Temor e Tremor. s/d., p. 85.

 

[7] REICHMANN, Kierkegaard. 1971. p. 245.

[8]  KANT, Fundamentação da metafísica dos costumes.  1960, p.27.

 

[9]BONHOEFFER, Ética, 1988, p. 135.

 

[10]BONHOEFFER, Ética, 1988, p. 137-138.

 

[11] “Ética”. In: Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia.  s/d, p.334.

 

[12] BONHOEFFER, Ética, 1988, p. 108.

 

[13] KONINGS. Religião e Cristianismo. 1997. p. 19. 

 

[14] Segundo CÍCERO, apud KONINGS, 1997. p. 19.

 

[15] Segundo SCHELER, Max, apud KONINGS, 1997. p. 20.

 

[16] Segundo JUNG, apud KONINGS, 1997. p. 21.

 

 

“Facticidade significa que a existência humana já é sempre situada dentro e a partir de uma compreensão do ser. E esta compreensão é fruto do exercício de nossa responsabilidade.” In.  Hermógenes Harada. A identidade Religiosa. 2002.  p. 5.

[18] HARADA, A identidade religiosa. 2002, p. 5.

 

[19] HARADA, Características da Experiência de Deus. 2002, p. 7.

 

[20] KONINGS, e ZILLES, Religião e Cristianismo. 1997, p. 36.

 

[21] REICHMANN, Kierkegaard. 1971,  p.301.

 

[22]  REICHMANN, Kierkegaard. 1971, p.300.

 

 

 

[23] BONHOEFFER, Ética. 1988, p. 15.

 

[24] Para aprofundamento cf.  Bonhoeffer, Ética. 1988 p. 122 - 124

 

[25] BONHOEFFER, Ética. 1988, p. 122. 

 

[26] BONHOEFFER, Ética. 1988, p. 122.

 

[27] BONHOEFFER, Ética. 1988, p. 73.

 

[28] BONHOEFFER, Ética. 1988,  p. 123.

 

[29] HARADA, A Experiência de Deus e a Vida Cristã. 2002 p. 36. 

 

[30] HARADA, A Experiência de Deus e a Vida Cristã. 2002 p. 36. 

 

[31] HARADA, A Experiência de Deus e a Vida Cristã. 2002. p. 37.

[32] BONHOEFFER, Ética. 1988, p.125.

 

[33] BONHOEFFER, Ética. 1988, p. 13.

[34] EXUPÉRY, Piloto de Guerra. 1983.p.47.

 

[35] EXUPÉRY. O Pequeno Príncipe, 1999. p. 72.

[36] BONHOEFFER, Ética. 1988, p. 13.

[37] SANTO AGOSTINHO. Confissões. 1997. p. 115.

 

[38] Segundo CLAUDIUS, Matias., apud BONHOEFFER, Dietrich. Ética, 1988. p.  155.

 

[39] BONHOEFFER, Ética. 1988, p. 125.

[40] BONHOEFFER. Ética, 1988,  p. 130].

[41] BONHOEFFER, Ética, 1988, p. 130.

[42] KÖNIG, Léxico das Religiões.  1998. p. 210.

 

[43] (Cf. A parábola do Juízo final Mt, 25,31ss).

 

[44] BONHOEFFER, Ética. 1988, p. 131.

[45] BONHOEFFER, Ética. 1988, p. 140.

 

[46]  SCHSESIGER. Dicionário Enciclopédico das religiões, 1995. p. 1587-1588.

 

[47]  BONHOEFFER, p. 139.

Debora Vidal Ribeiro Coimbra
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